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Diário de Campaha - Derick's DnD.

A Jornada até aqui.

Lorde Haroldo Benthor

Introdução ao Cenário

O ano é 1372 CV. Faêrun enfrenta um de seus maiores desafios em séculos: uma praga necromante varre o continente, particularmente a região de Cormyr. No meio da noite, os mortos levantam-se de seus túmulos, prontos para atacar e devorar os vivos, espalhando terror e caos por vilarejos e cidades indefesas.

Inicialmente, muitos acreditaram que a Praga Mágica, um evento catastrófico anterior, fosse a causa dessa nova desgraça. Entretanto, a origem real dessa maldição permanece um mistério. Em meio ao crescente pânico, Suzail, a capital de Cormyr, se destaca como o único lugar a salvo dos ataques dos mortos-vivos. Porém, a segurança de Suzail trouxe outros problemas: a cidade agora lida com um fluxo incessante de refugiados, sem-terras e sobreviventes dos reinos devastados pela praga.

Alusair Obarskyr, conhecida como a Regente de Aço, enfrenta múltiplas crises simultâneas e está ocupada administrando os problemas internos de Suzail. Incapaz de dedicar tempo à investigação direta da praga necromante, ela delega essa missão ao seu conselheiro, Lorde Haroldo Benthor, um administrador estrategista experiente e carismático, encarregado de proteger o reino de uma ameaça crescente que pode destruir Cormyr por completo.

O ano de 1372 CV, também conhecido como o Ano da Magia Selvagem, marca uma era de instabilidade arcana nos Reinos Esquecidos, com os efeitos colaterais da Praga Mágica ainda reverberando por todo Faêrun. Cormyr, um reino de longa tradição cavalheiresca, vê-se sitiado não por exércitos estrangeiros, mas por horrores impensáveis: mortos inquietos, espectros famintos e aberrações costuradas por magia profana. Boatos espalham-se de que necromantes desconhecidos estariam usando os resquícios do poder caótico deixado pela destruição de Mystra — ou mesmo artefatos proibidos — para corroer o Véu entre a vida e a morte. Magos da Torre dos Magos de Guerra, sacerdotes de Kelemvor e mesmo rangers de Arabel debatem entre si possíveis causas e culpados, mas o tempo urge. A cada noite, cemitérios se tornam campos de batalha, e estradas outrora seguras agora são trilhas de desespero, onde o nome de Lorde Haroldo Benthor ecoa como uma das últimas esperanças do reino.

Finalidade do Diário de Campanha

Este diário tem como objetivo registrar os eventos principais de uma campanha de RPG que já dura 8 anos. Ao longo desse tempo, muitas aventuras foram vividas, desafios superados, e o grupo de aventureiros formado por personalidades distintas se viu cada vez mais enredado nos mistérios dessa praga que ameaça Faêrun.

Como a frequência das sessões se tornou irregular devido aos compromissos da vida cotidiana, este diário serve como um ponto de referência para que possamos manter a coerência e continuidade da trama, além de celebrar os momentos memoráveis desta jornada. O registro se focará nos eventos principais, em uma narrativa prática e analítica, destacando o impacto de cada personagem dentro da trama maior. Começaremos com prelúdios individuais de cada aventureiro, revelando seu passado antes de se unirem para enfrentar essa ameaça que assola o reino.

Conhecendo nossos Heróis.

O Rugido da Liberdade Forjada.

O calor da arena era sufocante, mas para Impetor, era familiar. Os gritos ensurdecedores da multidão ecoavam entre os muros de pedra, formando um coro selvagem que reverberava por sua alma. Seu machado, manchado de sangue, pendia pesado em suas mãos, enquanto ele encarava seu oponente com olhos frios como o aço. À sua frente, o meio-orc arfava, ferido, mas ainda de pé, segurando sua lâmina com um misto de desespero e determinação.

O sol de Marsember brilhava alto, projetando sombras sobre o Colisseu Ragrinof, o lar de Impetor desde que ele se lembrava. Era aqui que ele havia sido forjado, no calor da batalha, e agora, a plateia aguardava o golpe final. Cada respiro era uma batalha entre a excitação e o pavor.

O meio-orc rosnou, avançando em um último ataque desesperado, mas Impetor estava preparado. Com um giro preciso e fatal, seu machado cortou o ar, encontrando o peito de seu oponente com um som surdo. O meio-orc tombou, derrotado, e o rugido da multidão explodiu em triunfo. Mais uma vitória.

Impetor ergueu seu machado ensanguentado em direção aos céus, mas não sentiu alegria. Não havia mais honra a ser conquistada aqui, apenas a satisfação de que o acordo estava finalmente cumprido. Cem batalhas. Cem vitórias. Ele estava livre.



Caminhando em direção à saída da arena, ele passou pela multidão que o aclamava como herói. As mãos se estendiam para tocá-lo, mas ele seguia em silêncio, com os olhos fixos no homem que o esperava na sombra da arquibancada: Rolt Ragrinof. O homem que ele conhecia como pai.

Rolt Ragrinof
Rolt, um guerreiro veterano e senhor da arena, sorriu ao vê-lo se aproximar. Seus olhos cansados brilharam com orgulho.

— Cem vitórias consecutivas — disse Rolt, cruzando os braços. — Maldito seja o dia em que duvidei, Impetor. A sua liberdade é sua por direito.

Impetor permaneceu em silêncio, mas o peso do momento estava claro. Ele havia lutado não por glória, mas por aquele momento. Sua liberdade. Agora, ele estava livre para seguir seu verdadeiro objetivo: encontrar o Dragão de Prata que o havia abandonado.

— Eu sabia que esse dia chegaria — continuou Rolt, seus olhos varrendo o campo ensanguentado. — Mas você não pode simplesmente vagar por aí, garoto. Você precisa de um plano... de recursos.

Rolt puxou uma carta de dentro de sua túnica e a entregou a Impetor. O selo real de Suzail brilhava sobre a cera.

— Lorde Benthor — disse ele, com um sorriso astuto. — Requisitou os melhores guerreiros do meu coliseu para uma missão real. Você vale por cem homens, Impetor. Lá, você encontrará o sustento que precisa para sua busca. Comida, ouro... e talvez até respostas.

Impetor encarou a carta por um longo momento, antes de fechá-la em sua mão. Não era o que ele queria, mas sabia que Rolt estava certo. Ele precisava de mais do que sua força para encontrar seu pai.

Sem dizer uma palavra, Impetor inclinou a cabeça em respeito ao homem que o criara. Era um adeus silencioso, sem grandes despedidas. Ele virou-se e começou sua caminhada em direção a Suzail, o horizonte se abrindo diante dele, enquanto o rugido distante da arena ecoava como uma lembrança de sua antiga vida.

Nas Sombras da Sobrevivencia.

As sombras das ruas de Suzail eram o refúgio perfeito para Dahaka Akmenos. Ele caminhava furtivamente, seus passos silenciosos, enquanto seus olhos carmesins observavam a cidade em movimento constante. As comitivas chegavam de todas as partes de Cormyr, trazendo consigo o desespero e as pragas dos mortos-vivos que assolavam as regiões remotas. Dahaka permaneceu à espreita, seu olhar atento aos desavisados.

— Pois bem, Dahaka... mais um dia lutando pela sua sobrevivência — murmurou para si mesmo, enquanto sua mão habilidosa se movia rapidamente, pegando um pequeno saquinho de moedas do cinto frouxo de um nobre distraído.

A cidade pulsava ao redor dele. Padres de Tymora caminhavam entre os desesperados, abençoando aqueles que haviam perdido suas casas e entes queridos para a praga necromântica. As portas dos templos permaneciam abertas, mas Dahaka não buscava redenção ou bênçãos. Para ele, Suzail era uma oportunidade, um labirinto de caos onde, se jogasse bem suas cartas, poderia sobreviver mais um dia.

Com o roubo bem-sucedido, Dahaka se dirigiu para um dos cantos mais discretos da cidade, onde os contrabandistas faziam suas negociações longe dos olhos vigilantes dos Dragões Púrpuras. Ele entregou o saquinho de pertences a um dos mercadores de rua, recebendo um punhado de moedas em troca e mantendo o capuz baixo para evitar olhares curiosos.

— Outra boa colheita, hein? — comentou o contrabandista, sem levantar o olhar das jóias. — Viu que Lorde Benthor enviou outro arauto hoje? Dizem que está recrutando mais aventureiros para aquela missão maldita, a "Ponta da Lança". Já é a quarta vez este mês... muitos não voltam.

Dahaka levantou uma sobrancelha, ligeiramente interessado.

— Muitos morrem, mas pelo menos paga bem — continuou o contrabandista, dando de ombros.

Um sorriso sutil se formou no rosto de Dahaka. Dinheiro fácil, pensou. Ele não era um herói, mas oportunidades assim não podiam ser ignoradas.

— Vejo vocês mais tarde — disse ele, virando-se para sair.

Enquanto se afastava, Dahaka caminhou em direção à mesa de informações sobre "A Ponta da Lança", onde aventureiros desavisados e desesperados buscavam sua chance de glória. Para Dahaka, era apenas mais uma maneira de garantir que o próximo dia fosse tão vantajoso quanto o atual.


Bufão em Exílio.

O Castelo de Verão de Lorde Marcel Vento-Bravo, aninhado na King's Forest, era um testemunho silencioso da opulência e do tempo que passava sem pressa. O vento suave dançava pelas cortinas finas de seda que pendiam das janelas altas. Tapetes caros e móveis ricamente esculpidos decoravam os corredores vazios. Mas, naquele momento, o que outrora fora um lugar de nobreza e ordem se transformara em um caos de extravagância e absurdo.

No salão principal, onde antes se realizavam grandes banquetes e recepções, agora estavam espalhadas roupas finas — capas de veludo jogadas por cima de cadeiras, botas de couro de qualidade esquecidas no chão. No topo de uma mesa de jantar luxuosa, um jovem estava de cabeça para baixo, equilibrando-se em uma bananeira, com uma coroa prata que mal se encaixava em sua cabeça.

Esse homem, claro, era Ludus Lefou.

— Ah, que visão majestosa eu sou, o grandioso Lorde Ludus Vento-Bravo! — exclamou ele, tentando manter o equilíbrio enquanto falava consigo mesmo e com os quadros ao redor.

Ele se endireitou e caiu sentado sobre a mesa, espalhando uvas que havia pego em algum lugar do castelo.

— Onde estão os servos? Ah, claro, sou eu! — Ludus gargalhou, arrancando a coroa e jogando-a de lado. Seus olhos passearam pelos instrumentos musicais no canto do salão. — E que castelo seria esse sem música? Vamos lá, meus queridos!

Rapidamente, ele pegou uma harpa e começou a dedilhar de forma desajeitada, seus dedos escorregando pelas cordas, criando uma cacofonia inusitada. Ele tocou apenas por um momento antes de jogar a harpa de lado e pegar um alaúde, tocando algumas notas desafinadas e cantarolando uma melodia improvisada e sem sentido.

— Solitário, solitário, mas nunca desolado, eu sou o rei de mim mesmo! — cantava ele, enquanto dançava com passos ridículos pelo salão, gesticulando para os quadros de antigos lordes. — E você, meu caro Lorde Vento-Bravo, teria orgulho de mim... ou me decapitaria, quem sabe?

O silêncio do castelo foi quebrado por batidas firmes na porta. Ludus interrompeu sua performance e olhou em direção ao som, franzindo a testa. Ele rapidamente largou o alaúde e correu até a porta, ajustando-se com a postura de um nobre, embora seu manto estivesse torto e as botas desiguais.

— Ah, visitante inesperado! O que será agora? — murmurou ele para si mesmo, abrindo a porta apenas para encontrar um cavaleiro de Suzail de armadura púrpura.

— Carta para o Lorde Vento-Bravo — anunciou o cavaleiro, confuso ao ver Ludus, mas sem pensar duas vezes. — Deve ser entregue em mãos. Ordens da Coroa.

Ludus piscou e rapidamente assumiu uma postura servil, inclinando-se levemente.

— Claro, claro, o Lorde está... indisposto. Deixe-a comigo, eu a entregarei... pessoalmente — disse ele, com um sorriso travesso.

O cavaleiro, sem desconfiar, entregou a carta e virou-se para partir. Assim que ele desapareceu pela trilha, Ludus fechou a porta com um estrondo, esfregando as mãos ansiosamente.

— "Entregar pessoalmente" — zombou ele, já abrindo a carta. Seus olhos rapidamente percorreram o conteúdo.

Ao ver as palavras "Ponta da Lança" e "recrutamento", seus olhos brilharam com uma excitação que há muito tempo não sentia. Ele jogou a carta para cima e abriu os braços em um gesto teatral.

— Finalmente! Uma chance de sair deste castelo maldito!

Ludus deu uma pirueta de pura alegria, sabendo que sua fuga da monotonia estava à sua frente.

O Último Caçador.

Asher Greymane estava sentado em um canto sombrio de um bar em Profundágua, uma caneca de cerveja nas mãos, mas sem realmente saborear. O olhar perdido, fixo no vazio, refletia a sombra de uma vida marcada pela maldição e pela tragédia. Seus cabelos desgrenhados e o olhar feroz mantinham qualquer um à distância, ou assim ele pensava. Dois homens bêbados se aproximaram, com sorrisos sarcásticos e olhares provocadores.

“Olha só, pessoal! Se não é o último dos Greymane. Aposto que foi ele quem trouxe esse cheiro de vira-lata com ele!”, zombou o primeiro homem, arrancando risadas do companheiro.

Asher, sem desviar o olhar da caneca, soltou uma resposta seca e cortante. “Vira-Lata? Sim, deve ter sido eu... Acabo de voltar de uma longa noite com a cadela que é a senhora sua mãe.”

As palavras de Asher acertaram como um soco. O riso cessou e o clima no bar ficou pesado. Os dois beberrões perderam a paciência e atacaram, mas o Greymane se levantou com a mesma rapidez que sua fama de caçador de monstros, e os dois caíram no chão antes mesmo de entenderem o que havia acontecido. Ele os deixou inconscientes com uma facilidade perturbadora.

Mas o dono do bar, com o rosto encharcado de suor, já gritava por ajuda, e logo a Guarda de Profundáguas apareceu. Asher não ofereceu resistência; já estava cansado demais para se importar. Carregaram-no para o calabouço, onde passou o que parecia ser apenas mais uma noite miserável.

No entanto, ao amanhecer, ele foi despertado abruptamente. Guardas o conduziram até um salão suntuoso, repleto de tapeçarias luxuosas e aromas de carnes assadas. Sentado no trono à frente, com uma grande perna de carne em mãos, estava Lorde Barthavious, um homem glutão e de aparência indulgente.

“Asher Greymane...” Barthavious falou com a boca cheia, limpando os dedos gordurosos em uma toalha de seda. “Último da sua linhagem, caçadores de monstros, salvadores de aldeões... Como o seu nome caiu em desgraça, não?”

Asher não respondeu, apenas manteve seus olhos sombrios fixos no lorde.

“Eu sou um homem de... bondade”, Barthavious continuou, ignorando o silêncio de Asher. “Vejo potencial em você, rapaz. Um homem sem propósito é uma pena. E você precisa de um propósito, certo?”

“Eu não preciso de sua piedade,” murmurou Asher, apertando os punhos.

“Não é piedade, é oportunidade,” Barthavious disse, com um sorriso torto. “Quero lhe dar uma chance de reerguer o nome Greymane. Em troca, você terá meu perdão, e quem sabe, até um pouco de glória. O que acha?”


Asher manteve seu silêncio, mas sua curiosidade fora capturada. Barthavious continuou: “Há um fugitivo... um bardo bufão. Ludus Lefou. Fugiu para as terras de Cormyr, com ajuda de alguém que eu considerava como amigo: O Lorde Vento-Bravo. Quero que o capture para mim. Traga-me sua cabeça, e seu nome pode, quem sabe, ser menos vergonhoso.”

O olhar de Asher escureceu, mas ele sabia que, sem escolhas, esta era sua única chance.

Dias depois, Asher arrombou a porta de um castelo antigo, o Castelo Vento-Bravo. O cenário era um caos — roupas nobres jogadas por todo canto, instrumentos musicais espalhados e marcas de travessuras óbvias. Ele olhou ao redor, com um misto de desgosto e curiosidade, até que seus olhos se fixaram em uma mesa no centro do salão. Sobre ela, estava uma carta aberta com o selo real de Suzail.

Lentamente, ele pegou a carta e a leu. Um sorriso sutil, quase imperceptível, surgiu em seu rosto. A caça estava apenas começando.

Ecos do Abismo.

A King's Forest de Cormyr era um lugar de segredos, onde a luz da lua mal penetrava as copas densas das árvores antigas, e o ar era pesado com a umidade da noite. As sombras dançavam como criaturas vivas, e o silêncio era um manto que envolvia tudo. Mor'Rein, movia-se com a graça típica de sua raça, mas sua presença emanava uma aura de mistério e tristeza. Ele caminhava por entre os troncos retorcidos, suas botas macias quase não faziam som no solo coberto de folhas.

A cada passo, ele se sentia mais em sintonia com a escuridão ao seu redor, como se ela sussurrasse segredos que apenas ele poderia entender. Em sua mente, a voz do faminto ecoava, profunda e ressonante como a própria eternidade. Ele parou em uma clareira iluminada apenas pelo brilho suave das estrelas, cada uma delas parecendo pulsar com uma vida própria, uma chamada distante de algo além do alcance da compreensão.

"Mor'Rein..." a voz sussurrou, um convite e um comando. "Os próximos vascilantes passos da aranha que não dorme, e da eterna  fome que te barganha te aguardam. Vá para Suzail."


Os olhos de Mor'Rein se fecharam por um instante enquanto a revelação se desenrolava em sua mente. Ele viu vislumbres de um futuro nebuloso, um caminho entrelaçado com sombras e luzes, e no centro, uma figura esquelética, a presença do ancião que lhe concedeu poder e, ao mesmo tempo, o prendeu a um destino de incerteza.

A natureza ao seu redor começou a se agitar, como se a própria floresta estivesse respondendo ao chamado dele. Os galhos se contorciam em formas grotescas, e o vento sussurrava palavras em uma língua antiga, uma melodia perturbadora que ressoava com as memórias de civilizações perdidas. Mor'Rein sentiu um calafrio percorrer sua espinha — era um aviso, uma premonição.

"O que devo fazer?" ele sussurrou, sua voz baixa, mas firme, como se falasse com uma força que o observava nas sombras. Mas o Grande Antigo não respondeu diretamente. Em vez disso, a voz envolveu Mor'Rein em uma onda de sentimentos opostos: a esperança e o desespero, a certeza e a dúvida.

"O passado te lambeu, elfo... a sibilante promessa do que és aguarda em Suzail. O ciclo deve ser completado."

Com essas palavras, Mor'Rein abriu os olhos e olhou para as estrelas, como se procurasse por respostas no brilho distante. Uma parte dele hesitava, temendo o que poderia encontrar, mas outra parte, aquela que se sentia viva sob o olhar do Faminto , ansiava por compreender o que o ligava a esse devorador de mundos.

Ele respirou fundo, sentindo o ar frio encher seus pulmões, e em uma fração de segundo, tomou a decisão. Com um movimento fluido, ele virou-se e se afastou da clareira, desaparecendo nas sombras da floresta, determinado a seguir o chamado do seu destino.

Episódio 1 - Lágrimas de Crocodilo.

O Último Refúgio.

Data: 13 de Uktar de 1372 - 16h.
Local: Taverna O Último Refúgio. - Suzail, Cormyr, Faêrun.

A tarde em Suzail trazia um céu coberto de nuvens pesadas, e o cheiro de umidade e terra molhada antecipava a chuva que logo se abateria sobre a cidade. Os portões do distrito de mercado se misturavam ao vaivém dos transeuntes, mas era a modesta taverna O Último Refúgio que concentrava a atenção de um grupo inusitado de pessoas. Ali, entre paredes manchadas pela fuligem e o ranger dos assoalhos envelhecidos, mais de vinte figuras de aparência heterogênea se comprimiam no salão principal. A atmosfera estava impregnada de uma mistura de suor, couro gasto e o leve aroma de cerveja azeda, como se o próprio lugar estivesse saturado pela dureza dos anos e das batalhas que abrigara.

No balcão improvisado, um dos Dragões Púrpuras inspecionava documentos e anotava meticulosamente os dados de cada um dos aventureiros que entravam. Em meio à confusão de pessoas que iam e vinham, três figuras se destacavam, isoladas pela própria estranheza que emanavam.

Dahaka Akmenos estava encostado contra uma parede próxima, mantendo-se na penumbra. Seus olhos escarlates sondavam os arredores, analisando silenciosamente cada rosto, e seu capuz ocultava parcialmente os chifres curvados que ele sabia serem motivo de desconfiança. Ele estava ali pelo pagamento, mas sua experiência o ensinara a observar primeiro e julgar depois. Seus dedos descansavam levemente no punho de sua adaga, uma postura silenciosa que demonstrava que o ladino confiava apenas em si mesmo.

Do outro lado do salão, Mor'Rein, um elfo de aparência etérea, permanecia sentado em um canto, aparentemente alheio ao tumulto. Seu rosto estava escondido sob o capuz do manto desbotado, e ele fitava o vazio com uma expressão contemplativa. Sua postura serena o destacava dos demais, mas o olhar distante sugeria que ele não se importava com a companhia dos outros. Como um viajante melancólico, ele parecia deslocado, imerso em pensamentos que nenhum ali podia imaginar.

Por sua vez, Ludus Lefou estava encostado no balcão, lançando um sorriso provocador ao taverneiro que o ignorava. Suas roupas eram coloridas e chamativas, um classíco traje de bufão, e sua presença destilava um ar de insolência cativante. Ludus olhava para os demais aventureiros com uma mistura de desdém e curiosidade, talvez buscando entre eles alguém que pudesse rir de suas piadas – ou ser alvo delas.

De repente, o salão se acalmou, e os murmúrios se tornaram sussurros quando uma figura entrou com uma aurea carismática. Lorde Haroldo Benthor emanava acalento apenas com a presença. Trajava uma veste nobre e o brasão da coroa de Suzail adornava o peito. Seu sorrisso largo acalmava o mais ansioso dos heróis.

"Amigos, amigos.... Sejam Bem vindos, bravos e corajosos de Cormyr e de além. Agradeço a presença de todos vocês honrados aventureiros, principalmente em tempos tão difíceis," começou ele, sua voz ressoando pelo salão e convidando a todos a prestarem atenção. "Esta praga necromante corrói nossas cidades, transforma inocentes em mortos-vivos e ameaça cada canto de Faêrun. Estamos à beira de um verdadeiro colapso."

Ele deu uma pausa, deixando que as palavras pesassem sobre os presentes. “Mas não os convoquei aqui para lamentarmos nossa condição. Vejam, uma fagulha de esperança surgiu em nosso horizonte: um grupo de alquimistas, que se autodenominam ‘A Cura’, desenvolveu um elixir chamado ‘Lágrimas de Lathander’. Este elixir é nossa única arma conhecida para afastar a morte que rasteja. Mas há um preço a pagar, e não apenas em ouro.” Ele olhou ao redor, avaliando a reação dos aventureiros. "Hoje alguns de vocês terão a chance de entrar para história, como o grupo de destemidos e audazes heróis que deram o primeiro passo rumo ao fim dessa praga!"

Após o discurso, um silêncio denso pairou no ar por alguns instantes, como se cada alma presente estivesse digerindo o peso das palavras recém-proferidas. Benthor, com sua postura firme e olhar resoluto, desceu do pequeno estrado improvisado no centro da sala da taverna. O crepitar da lareira e o tamborilar da chuva fina no telhado compunham a trilha sonora daquela transição solene. Sem pressa, ele caminhou até uma mesa onde repousava um pergaminho aberto, cuidadosamente anotado com nomes e símbolos. Ali estavam definidas as divisões dos grupos.

Com voz grave e sem hesitação, ele começou a chamar os nomes. Cada trio formado parecia carregar consigo um destino específico — missões distintas, mas todas igualmente essenciais no esforço para conter o avanço da praga. A sala se encheu de murmúrios abafados e olhares trocados; velhos companheiros se reencontravam, estranhos se uniam sob um propósito comum.

“Theren de Yartar, Syllia Lumespiral e Sir Durnan Vellgardar…”  chamou Benthor em alto e bom tom, e três figuras se destacaram entre os presentes: um homem de armadura corroída pelo tempo e olhar obstinado, uma elfa de vestes cerimoniais marcadas por símbolos arcanos e olhos fundos de insônia, e um jovem de feições angulosas, sorriso fácil e mãos que nunca pareciam parar de se mover.

Os murmúrios baixos de Benthor para cada trio eram intencionais, quase conspiratórios, como se cada missão carregasse um segredo que não deveria ecoar além de seus destinatários. Sua voz sumia entre os estalos da lenha na lareira e o tilintar de canecas ao fundo, tornando impossível decifrar qualquer instrução a distância.

Ludus, inquieto, esticava o pescoço como quem tenta fisgar palavras no ar, frustrando-se a cada nova tentativa. O meio-elfo já começava a roer a unha do polegar, irritado com a encenação silenciosa.

Dahaka, por outro lado, permanecia imóvel, mas seus olhos analisavam tudo ao redor com a precisão de quem sabe quando deve atacar — ou desaparecer. Ele farejava a origem nobre de Benthor como quem identifica um tipo de perfume caro: inconfundível e fora de lugar naquele tipo de ambiente. Não confiava em nobres. Mas confiava no que sempre vinha com eles: ouro.

Mor’Rein, encolhido sob o próprio manto, mantinha uma expressão que oscilava entre o apático e o nauseado, como se a simples presença no salão já lhe fosse um esforço. Talvez os cheiros fortes, a agitação ou a energia daquele lugar o perturbassem. Talvez fossem as pessoas. Ou talvez, para Mor’Rein, tudo isso fosse apenas mais um sintoma de algo que já estava apodrecendo por dentro.

Quando os nomes Dahaka, Ludus e Mor’Rein foram anunciados em sequência, um breve silêncio os envolveu, como se o próprio ambiente reagisse àquela junção improvável. Três figuras distintas, de origens e histórias diferentes, se entreolharam com natural cautela. Não havia hostilidade, mas também não havia confiança. Era a desconfiança instintiva dos que sabem demais sobre si e nada sobre o outro.

Lorde Haroldo Benthor parou diante do trio. Seu sorriso se alargou, e ele os analisou com um olhar cheio de uma confiança silenciosa, como se já esperasse grandezas dos três – mesmo que nem eles próprios parecessem tão certos disso.

“Time Sete,” começou ele, com uma expressão acolhedora, mas que carregava uma pontada de preocupação. “Vocês têm uma missão que não será nada simples...”

Benthor se aproximou um pouco mais e baixou a voz, como se confidenciasse segredos. “‘A Cura’, exige um preço exorbitante da coroa de Suzail por cada dose das lágrimas de Lathander que produz. Sabem que estamos em desespero e aproveitam-se disso. Nossa cidade está sobrecarregada, os cofres começam a enfraquecer, e estamos entre a espada e a parede.”

Ele olhou para cada um dos três com intensidade, e continuou. “Por isso, estamos designando equipes para investigar esses laboratórios... um de cada vez. Precisamos entender o que está realmente acontecendo, e se essa ‘Cura’ vale o preço que estão exigindo. Seu alvo é um pequeno chalé ao sul de uma das entradas da King's Forest, já fora dos limites de Cormyr.”

A expressão de Benthor suavizou, voltando ao seu tom animador, e ele acrescentou com um toque pessoal: “Sinto que há algo especial em vocês três. Chame de intuição, mas para mim o sete sempre foi um número de sorte. Então, conto com a boa sorte de vocês, e algo me diz que este será o começo de uma jornada que poucos sequer imaginariam."

Benthor lhes entregou um porta-pergaminho contendo instruções, fez um aceno firme, desejando-lhes boa sorte antes de liberar o trio.

Dahaka avançou, analisando Ludus e Mor'Rein com olhos estreitados. Ele não pronunciou uma palavra, mas seus olhos avaliavam cada detalhe, desde o sorriso debochado de Ludus até os padrões de tentáculos enigmáticos nas vestes do elfo.

Ludus, por sua vez, quebrou o silêncio. “Bem, suponho que alguém aqui saiba o caminho? Ou vamos todos nos perder enquanto tentamos salvar o Reino?”

Mor'Rein ergueu o olhar, sem esboçar qualquer expressão. “O caminho é claro… A entrada sul de King's Forest não é muito longe daqui.” Ele falou baixo, e suas palavras pareciam mais uma afirmação para si do que uma resposta.

Dahaka finalmente quebrando seu silêncio. "Então é melhor partimos logo."

Mor'Rein manteve-se impassível. “Perfeitamente.”

Os Heróis partiram da Taverna do Último Refúgio. Conforme seguiam pela estrada, o sol se escondia atrás das montanhas, e as sombras do entardecer cobriam o caminho à frente.

Ludus tentava aliviar a tensão com sua fala leve. “E então, temos aqui um silencioso meio-demônio, um misterioso elfo de cabeleira alva e, claro, um belo e jovial artista... Uma bela equipe certo? Vocês não falam muito, não é?"

Dahaka lançou um olhar frio. "Pelo visto você fala o suficiente por nós três."

Mor'Rein caminhava à frente, seus olhos fixos no horizonte silencioso.

A tarde se esvaia ao passo que prosseguiam em direção a localização da cabana, e, nas sombras, os três se preparavam para colocar em teste essa união improvável.

Enquanto seguiam pela trilha escurecida, Ludus começou a fazer o que sabia melhor: falar. Com um sorriso despreocupado, ele lançou um olhar para Dahaka. “Então, meu caro camarada carmesim, esse estilo malvadão vem de fábrica ou foi algo que você desenvolveu com o tempo? Porque, olha... você tem uma aura que fala por si só...!”

Dahaka estreitou os olhos, com uma mão no cabo da adaga. Mas Ludus estava só começando. “Talvez seja o cheiro. É tipo, aroma de enxofre mesmo, ou você só esqueceu de se banhar? Sei que os inimigos devem correr de você, mas com esse cheiro a mulherada também, né?!”

Dahaka bufou, o olhar frio como gelo, escondendo um mínimo sorriso, invisível até para Ludus. Mor'Rein, por outro lado, permanecia impassível e distante, com o olhar fixo na linha do horizonte, absorto em seus próprios pensamentos.

O céu já estava tingido de roxo profundo quando foram interrompidos por um som áspero e abafado. Gemidos emergiam da pradaria ao redor, e, das sombras entre as árvores, surgiram meia dúzia de zumbis cambaleantes, com olhos vazios e rostos deformados, avançando lentamente em sua direção.

"Temos companhia." Falou Mor'Rein, apenas com o necessário par de palavras para se fazer entendido.

Dahaka, que já estava alerta, não perdeu um segundo. Ele se abaixou, serpenteando pelo chão e se aproximou de um dos zumbis. Com um movimento rápido, deslizou a adaga na garganta do morto-vivo, que desabou no chão em um último gemido gutural.

Ludus riu com aquele brilho inconfundível de sarcasmo. “Caramba, já viu mais fácil que isso, Mor’Rein? São alvos mais fáceis que minha primeira plateia!” Ele virou-se para um dos zumbis, o um caolho, e fez uma careta exagerada. “Amigão, isso é efeito da maldição ou em vida você também era feio assim?” Curiosamente, o zumbi pareceu hesitar por um momento, como se o insulto tivesse realmente feito efeito, mesmo em sua mente apodrecida.

Mor'Rein, sem alterar o semblante, ergueu uma das mãos, uma energia verde fluindo de seus dedos em uma rajada mística que explodiu o terceiro zumbi, uma criatura com uma armadura quebrada e enferrujada, espalhando pedaços putrefatos por todos os lados.

O zumbi caolho, ainda meio confuso com as zombarias de Ludus, tentou cambalear até ele, mas seu ataque foi tão desajeitado que sequer chegou a acertar o bardo. Ludus gargalhou, dançando fora de alcance. “Ei, acho que ter um olho realmente mecheu com seu senso de profundidade, parceiro!”

Outro zumbi, uma criatura com as tripas para fora, avançou sobre Dahaka com mais precisão, acertando um soco pesado que o fez vacilar um pouco. Dahaka estreitou os olhos e cerrou os dentes, enquanto o sangue fervia nas veias. Ludus, ao seu lado, continuava a zombar, mesmo enquanto o combate ficava mais intenso.

Mor'Rein, distante da confusão, teve que desviar do quinto zumbi, que mancava em sua direção, a perna arrastando-se no chão com um som grotesco. E então, do fundo, vinha o último zumbi, sem mandíbula, rastejando devagar até Ludus, como se todo o seu propósito fosse apenas seguir o bardo até o fim do mundo.

Dahaka, agora furioso, girou o corpo com agilidade, cravando a adaga no pescoço do zumbi com as tripas expostas, que caiu pesadamente ao chão, sem vida (ou o que quer que fosse que os mantinha de pé).

Ludus deu uns tapas no couro de seu pandeiro, voltando-se para o zumbi caolho com uma expressão de pura diversão. “Vem cá, meu chapa, essa cara é de raiva ou você só quer ir no banheiro?”

Mor'Rein, com a precisão habitual, estendeu a mão e lançou mais uma rajada mística, que explodiu o zumbi manco em pedaços desiguais de carne apodrecida e ossos partidos.

Enquanto isso, o zumbi caolho ainda tentava acertar Ludus, que desviava com elegância exagerada, quase dançando. “Amigo, já tentou outro método? Esse aí não tá funcionando!” zombou Ludus, enquanto o último zumbi, sem mandíbula, ainda se arrastava até ele com um grunhido estranho e seco.

Dahaka então se moveu furtivamente para trás do zumbi caolho, deslizando a adaga com precisão em sua nuca, fazendo-o cair inerte de uma vez por todas.

Ludus deu um passo para trás e olhou o último zumbi sem mandíbula que ainda se aproximava dele, arrastando-se pelo chão com uma determinação quase cômica. “Olha, esse aqui leva a sério, hein? Mas, honestamente, não tem nem boca pra reclamar!”

Mor'Rein, sem sequer olhar para Ludus, lançou uma última rajada mística, que explodiu o zumbi em uma nuvem de poeira e fedor. Ludus soltou uma última gargalhada, limpando a poeira dos ombros enquanto observava os corpos espalhados pelo chão.

“Viu? Time sete, um número de sorte!”

Enquanto a noite adensava, o grupo se aproximou de um chalé isolado. Havia um cheiro forte no ar, uma mistura de ervas queimadas e substâncias químicas. Vapores esbranquiçados escapavam de todas as chaminés da construção, formando uma névoa ao redor da clareira. O chalé, feito de madeira escura e envelhecida, tinha janelas sujas e trincadas, pelas quais se viam sombras tremeluzentes movendo-se ao ritmo das velas.

Dahaka sinalizou com a mão para que parassem, observando o local com os olhos semicerrados. “Vou entrar furtivamente pelos fundos. Mor’Rein e Ludus, vocês distraem os ocupantes pela frente.”

Ludus, com aquele sorriso inconfundível, levou a mão ao queixo, pensativo. “Já sei! Eu bato na porta e falo que vim entregar uma encomenda para… H. Romeu Peitin.”

Dahaka franziu o rosto, confuso. “H. Romeu Peitin?”

Com um olhar de pura travessura, Ludus estendeu a mão e apertou o mamilo do ladino. “Agarro o meu Peitinho, entendeu?”

“Para com essa porra!” retrucou Dahaka, indignado, ajeitando a roupa. Mor'Rein apenas suspirou, levando a mão ao rosto enquanto balançava a cabeça, resignado com o nível da conversa.

Frofice Pincelada.
Prontos para o plano, Ludus se adiantou até a entrada principal e bateu à porta. Após um breve silêncio, a porta se abriu um pouco, revelando um halfling de cabelo bagunçado e um rosto que transparecia desconfiança. Ele olhou Ludus de cima a baixo mas antes que pudesse achar as palavras certar, o bufão começou a falar.

“Entraga para o senhor H. Romeu Peitin?”

"Quem?" Disse o Hlafling levando seus óculos de solda para cima de sua testa suada.

“Ah, você não conhece o H. Romeu? Bom, talvez conheça o primo dele, o... Botelho Pinto? Trabalha com o Zeca Gado. Os dois são da Equipe Power Guydo.”

O halfling piscou, confuso. “Senhor, eu não conheço ninguém com esses nomes! Meu nome é Forfice Pincelada, e—”

“Pincelada? Nossa, claro! Conheço o seu primo... Lambuja, Lambuja Pincelada. Rapaz de confiança!” Ludus respondeu com a expressão mais séria que conseguiu, enquanto o halfling começava a ficar nitidamente irritado.

Enquanto a conversa continuava na porta, Dahaka deslizou silenciosamente para os fundos do chalé, encontrando uma janela aberta e lançando-se para dentro com a precisão de um predador. No interior do chalé, duas figuras encapuzadas mexiam em frascos e frascas, o som de borbulhas e faíscas preenchendo o ar. Dahaka se movia lentamente para não chamar atenção, posicionando-se atrás de um dos alquimistas, pronto para um golpe rápido.

Do lado de fora, Ludus continuava a enrolar o halfling. “E a Dona Buce, ta aí? Ela é a administradora chefe do Power Guydo!”

Forfice revirou os olhos, quase fechando a porta na cara do bardo, mas antes que o fizesse, uma explosão ecoou dentro do chalé. Dahaka tinha sido avistado e um dos alquimistas lançou um frasco na direção dele, que esquivou por pouco, se protegendo atrás de uma mesa.

Ludus aproveitou a distração e empurrou Forfice para dentro, sacando o pandeiro e batendo um ritmo caótico para desorientar o halfling. “Mor'Rein, plano B!” gritou ele.

Mor'Rein entrou, mas mal teve tempo de reagir antes que outro dos alquimistas agisse e lançasse um fogo alquímico na direção do elfo. O impacto o atingiu em cheio, fazendo-o cair no chão com impacto, ferido e vulnerável com as chamas invisíveis lentamente se dissipando sozinhas. A tensão tomou conta da sala.

“Droga! Mor'Rein tá fora!” gritou Ludus, trocando um olhar de pânico com Dahaka.

Dahaka se lançou para frente, cravando a adaga no pescoço do alquimista mais próximo, enquanto Ludus girava seu pandeiro como uma arma improvisada, acertando Forfice na lateral da cabeça. O halfling caiu ao chão, atordoado, mas logo tentava se levantar, furioso e pronto para reagir.

Ludus então usou sua lingua afiada para lançar uma série de insultos mágicos, com rimas provocativas que fizeram os alquimistas vacilarem, momentaneamente confusos. “Olha, eu avisei que era tudo gente fina da Equipe Power Guydo, mas vocês quiseram o modo difícil, hein?”

O último alquimista, tremendo de raiva, avançou em Ludus, mas Dahaka o interceptou, desferindo um golpe certeiro com a adaga no estômago dele, fazendo-o tombar ao lado dos frascos quebrados e do laboratório arruinado.

Quando o silêncio finalmente se estabeleceu, Ludus ajoelhou ao lado de Mor'Rein, e canalizou uma magia curativa em seu colega. “Tá vivo aí, bonitão? Ainda consegue usar essas pernas magras pra andar, ou precisamos te carregar até Suzail?”

Mor'Rein abriu um olho, esboçando um leve sorriso. “Só... preciso de um minuto,” murmurou ele, ainda ofegante.

Dahaka limpou a lâmina e lançou um olhar significativo para seus companheiros. “Precisamos descobrir o que esse halfling sabe. E, se necessário, podemos usar métodos pouco ortodoxos.”

“Pouco ortodoxos?” Ludus repetiu, seu tom de voz carregado de ironia. “Tipo agarrar os mamilos dele?”

“Não, idiota! Interrogar de verdade,” respondeu Dahaka, cruzando os braços. “Forfice, meu amigo, sua vida depende de quão útil você for.”

O halfling se levantou, ainda atordoado, e piscou para os heróis, sem entender a situação. “Esse sequestro não vai adiantar de nada." Ele se vira de braços cruzados. "Vocês não sabem no que estão se metendo... Fiquem longe desse assunto que não os compete!”

"Só viemos pelas lágrimas de Lathander." Disse Mor'Rein. “E você não foi sequestrado! Você está sendo detido,” corrigiu, ainda um pouco grogue.

“Deixa eu adivinhar, se eu não cooperar o bufão ai vai cantar os versos de uma renomada balada na costa da espada?” Forfice respondeu, a indignação crescendo em sua voz.

“Sim! E eu vou fazer isso com toda a intensidade!” Ludus declarou, começando a cantar uma balada exageradamente dramática.

“Pare com essa palhaçada!” gritou Dahaka, tentando manter a situação séria. “Escute, Senhor Pincelada, você é o chefe de pesquisa, certo? O que exatamente estava acontecendo aqui?”

“Olha, eu só queria fazer algumas poções, não é crime! Todos nós sabemos que é uma questão de... de... pesquisa avançada!” Forfice disse, gesticulando nervosamente. “A gente estava estudando como as Lágrimas de Lathander poderiam ser criadas!”

“Mas, espera, você é o chefe de pesquisa e ainda não produziu as Lágrimas de Lathander? Mas vocês pediram dinheiro para pelo elixír. O que você ia entregar quando a coroa lhe enviasse o dinheiro?” Ludus provocou, apertando os olhos de forma exagerada.

"Acho que eles já estariam bem longe quando a coroa enviasse o dinheiro." Disse Dahaka reconhecendo o golpe dos malandros.

“Eu estava trabalhando com um novo lote de ingredientes! E eles... eles não reagiram da forma que eu esperava!” Forfice respondeu, seu rosto vermelho de frustração. “Você já tentou lidar com ervas temperadas? Elas são instáveis não se dá para controlar muito bem!”

A tensão aumentou enquanto os heróis trocavam olhares, começando a entender que a situação era mais complexa do que pensavam. “Foi tudo um golpe. Não há uma cura.” Murmurou Mor'Rein, sua mente fervilhando com as possibilidades. “Tudo isso é apenas farsa para extorquir dinheiro da coroa.”

“Precisamos levar Forfice de volta a taverna e relatar a verdade,” disse Dahaka, sua determinação renovada. “Se isso é verdade, temos que alertar o Benthor.”

Mor'Rein começou a reunir os documentos do laboratório enquanto Ludus revistava os frascos, buscando algo útil. Ele avistou um pequeno recipiente contendo um líquido verde escuro e borbulhante. “O que é isso?” perguntou, segurando-o com cuidado.

“Não é para o bico de vocês,” respondeu Forfice, sua expressão de desespero misturada com raiva. 

“Perfeito é importante pro alquimista em miniatura aqui, vamos levar isso também,” disse Dahaka, gesticulando para que os outros o seguissem. “Agora, vamos para casa.”

O grupo se preparou para partir, levando Forfice como prisioneiro, documentos do laboratório e o frasco misterioso. Com a escuridão da noite ainda envolvendo o chalé, os heróis se afastaram, conscientes de que estavam apenas no começo de uma trama que prometia muito mais do que esperavam.


Episódio 2 - A Sua Chefe a Darsha.

Data: 13 de Uktar de 1372 - 22h.
Local: Taverna O Último Refúgio. - Suzail, Cormyr, Faêrun.

Os três aventureiros caminham de volta à taverna, junto de Forfrice como seu prisioneiro. Suas sombras oscilando na penumbra do entardecer. Os passos são lentos, quase arrastados pelo cansaço da última missão no chalé dos alquimistas, onde enfrentaram os agentes da Cura. O cheiro acre de suor e de poeira misturada ao sangue seco ainda paira no ar ao redor deles, mas há um ar de triunfo nos olhares trocados.

À medida que se aproximam dos muros de Suzail, eles avistam, ao longe, as primeiras fileiras de mortos-vivos, uma horda macabra se movendo com uma sincronia perturbadora. O céu começa a tingir-se de vermelho, quase como se antecipasse o derramamento de sangue que se aproxima, e as trombetas dos guardas soam nas muralhas, convocando os soldados e os War Mages a postos.

Dahaka observa a cena por um instante, os olhos semicerrados debaixo do capuz, e esboça um sorriso cínico.

"A impenetrável Suzail... Isso que eu chamo de resposta rápida ao porblema." murmura ele, com um toque de ironia, enquanto ajusta a adaga na bainha.

Ludus, limpando a poeira de seu chapéu de guizos com um gesto displicente, responde com um tom preocupado: "Não me levem a mal, mas sou um homem de uma apresentação por noite... Não sei se dou conta de mais uma plateia."

Mor'Rein, sempre mais reservado, observa o horizonte com o semblante fechado, um brilho frio nos olhos prateados. Não diz nada, mas há um silêncio quase sombrio em sua presença. Ele acompanha os outros enquanto avançam, atento ao menor movimento.

Quando chegam aos portões, os guardas abrem passagem para que entrem rapidamente. Dahaka lança um último olhar para o exterior da cidade, observando os reforços posicionados nos muros, e um silêncio incomum paira entre eles enquanto atravessam os portões e entram nos limites de Suzail.

Dentro da taverna, os ecos das vozes, gargalhadas e canções se misturam em uma celebração inebriante. Mesas estão cheias, canecas batem, e o cheiro de comida quente e cerveja enche o ar. Mor'Rein, Ludus e Dahaka são acolhidos com acenos e vivas dos demais aventureiros presentes, mas mesmo no meio das congratulações e da alegria superficial, um peso sombrio paira sobre todos. A realidade é dura: quase todas as comitivas enviadas para missões além dos muros da cidade não retornaram. Dos que voltaram, poucos conseguiram fazê-lo com sua equipe completa. É uma vitória amarga, onde a perda persiste como um sussurro constante, frio e incômodo.

Haroldo Benthor, o conselheiro de Suzail e homem de postura acolhedora, interrompe o burburinho ao levantar sua taça, convocando os três para o centro da sala com um sorriso de satisfação contida. Seu olhar é penetrante, estudando o trio com um orgulho quase paternal.

"Amigos, Amigos! Levantem suas canecas para esses três heróis, que são os primeiros a retornar intactos de uma missão!" proclama Haroldo, e há uma breve explosão de vivas na taverna antes de ele levantar a mão, pedindo silêncio. "Vocês, Mor'Rein, Ludus, Dahaka, são um exemplo do que é esperado dos bravos que defendem Suzail. E, em reconhecimento pelo seu desempenho, gostaria de anunciar que vocês serão promovidos. Vocês merecem tal reconhecimento por retornarem vitoriosos onde tantos…"  ele faz uma pausa, seu olhar sombrio "…não voltaram."

Enquanto Ludus e Dahaka trocam um olhar de satisfação, Haroldo faz um gesto para duas figuras que esperam à porta. Ele estende o braço para um meio-dragão robesto e prateado que bebia no fundo da taverna em silêncio.

"E como parte desta nova fase, apresento Impetor Ragrinof, gladiador de renome. Ele trará força e destemor a nosso grupo. Acreditem, não há ninguém que conheça tão bem as batalhas na arena quanto ele. Ele foi um dos dois aventureiros que infelizmente chegaram atrassados para serem selecionados par qualquer equipe." Haroldo sorri ao ver o olhar severo de Impetor, cuja presença já impõe respeito aos demais.

A figura seguinte é um homem jovem, de feições sérias e o porte de um guerreiro veterano. Seu olhar é intenso, e há algo quase animalesco em seu rosto, algo sombrio. Ele usa roupas cinzas e mantos invernais, e ao passar pelo grupo, lança um olhar penetrante em direção a Ludus.

"E este é Asher do outrora grandioso clã Greymane, caçador de monstros." Haroldo continua, indicando-o. "Creio que sua habilidade em rastrear e eliminar criaturas será de grande ajuda nesta campanha."

Enquanto Haroldo fala, o olhar fixo de Asher não se afasta de Ludus, que percebe a intensidade e ergue uma sobrancelha, interpretando a atenção como um flerte. Ele endireita a roupa, ajeita o cabelo e lança a Asher um sorriso provocador.

"Ora, ora... Parece que temos aqui um admirador, não?" Ludus murmura para si mesmo, abrindo um sorriso um tanto pervertido.

Asher, pego de surpresa, pisca, e o ar de intimidação que o cerca se desfaz por um instante. Ele limpa a garganta e desvia o olhar, desconcertado, enquanto Ludus aproveita a reação para lhe lançar uma piscadela ligeira.

Dahaka, discreto como sempre, move-se pela taverna até onde Haroldo Benthor conversa com alguns dos líderes da cidade. Ele observa o conselheiro por um momento, esperando o momento certo, e então, em um tom baixo, interrompe a conversa com um leve pigarro.

" Lorde Haroldo, um momento de seu tempo. O halfling que encontramos no chalé… ele não era apenas um alquimista qualquer." Dahaka se aproxima ainda mais, seu tom de voz sério. " Parecia ser o mestre-alquimista da instalçaão e ele tinha informações vitais sobre a praga, e descobrimos que esse grupo de alquimistas estava com intenções nada nobres para com o senhor e a coroa.... Creio que as Lágrimas de Lathander nem tenham sido conseguido serem fábricadas."

Haroldo ergue as sobrancelhas, claramente intrigado, mas mantém sua postura imperturbável.

"Interessante, Dahaka." Ele balança a cabeça lentamente. "Isso é uma lástima, a população não deve saber por enquanto evidente. Esse tipo de notícia seria devastadora para os cidadões de bens que mantinham suas esperanças erguidas por esse elíxir milagroso. "Seu tom é compassivo e altruísta, enquanto seus olhos percorrem o salão em busca do halfling amarrado.

Ele faz um sinal para os guardas, que rapidamente localizam Forfrice, agarrando-o pelos braços e trazendo-o até onde estão Benthor e Dahaka. O halfling, mesmo em desvantagem, se debate com uma energia frenética, seus olhos brilhando de indignação.

"Seu desgraçado!" Forfrice rosna, suas palavras quase se perdem em sua própria fúria. "Haroldo Benthor, você é um fascínora, uma cobra de sangue frio! Vai se arrepender de ter passado a perna nos Alquimistas da Cura! " Ele se contorce, tentando se soltar dos guardas, mas é contido com firmeza.

Haroldo observa a cena com uma expressão de desdém calculado, dando um leve aceno de cabeça para os guardas.

"Que sua consciência, Forfrice, esteja limpa. Mas temo que, ao contrário do que pensa, a cidade de Suzail não tem interesse em compactuar com aqueles que lucram às custas do sofrimento de outros." Ele faz uma pausa, olhando o halfling nos olhos. "O conhecimento que você reteve teria salvado vidas. A justiça cuidará do resto."

Forfrice solta uma risada amarga, cheia de desprezo. "Justiça? Você não sabe o que essa palavra significa, Benthor! Seus dias de glória vão acabar, e quando tudo isso desmoronar, você vai se lembrar do que A Cura signfiicava!" Ele continua gritando enquanto é levado para fora pelos guardas, sua voz se tornando um murmúrio enquanto a taverna volta a seus murmúrios e conversas, como se um peso tivesse sido tirado dos ombros de todos presentes.

Enquanto a noite se aprofunda na taverna “O Último Refúgio”, o ambiente é cada vez mais tomado por uma aura de amizade e celebração. O calor dos fogos de tochas e lareiras mistura-se ao cheiro de assados e cerveja, iluminando os semblantes relaxados dos aventureiros que brindam e trocam histórias. Mesas de madeira robustas estão rodeadas por cadeiras rangentes, enquanto uma grande tapeçaria nas paredes detalha lendas antigas e figuras épicas, criando um cenário que inspira admiração e reverência.

Ludus, no centro da atenção como de costume, decide entreter os presentes com uma canção, e sua escolha não poderia ser mais provocativa e divertida: uma balada sobre a Baronesa e seus sete filhos, cada qual nascido de um amante diferente. Ele assume o palco improvisado sobre uma mesa, dando início à melodia com voz animada e adereços improvisados, provocando risos a cada novo verso que descreve a astúcia da Baronesa em enganar seu marido, o velho Barão.


Canção da Baronesa e os Amantes.

“Vou contar pra vocês uma história e tanto,
De uma Baronesa esperta, de coração franco.
Sete filhos ela teve, um pra cada paixão,
Mas fez o Barão crer que era tudo ilusão.”

"Mas meu amor, que confusão!
Olhe bem para o meu Herdeiro!"
Gritou o pobre e velho Barão
"Como pode o pequeno ter a cara do padeiro?"

"Amado, veja com clareza,
Não está se lembrando, não?
Na minha gravidez, eu só comia pão!"

Refrão
"Oh, Baronesa, mas que astúcia é essa!
Tantos filhos diferentes, tu és mesmo uma peça!
Se o barão te descobrir, lhe corta a cabeça!
Então pense na desculpa, e pense bem depresa!"


"Mas quando o segundo filho surgiu,
O Barão estranhou na hora!
"Esse menino é igualzinho ao ferreiro,
Com a testa que parece uma tora!"

"Amor, será que não vê?
Por que sempre tanta suspeita?
Na gravidez só ouvia martelos,
Que me davam dor de cabeça!"


“O terceiro nasceu com uma risada alta,
O Barão até teve calafrio,
‘Esse tem o nariz do taberneiro,
E o jeito de beber tudo a fio!’”

"Ora, meu bem, isso não faz sentido,
Pois na gravidez fui fiel e reta,
Mas as noites passava na taberna,
Onde o vinho era parte da dieta!"


"Veio o quarto, com olhos de águia,
E o Barão fez sua cara mais feia,
‘Esse garoto é a cara do caçador!
Olhos atentos, que nos dava a ceia!’"

"Amado, a culpa não é minha,
Meu amor por você é profundo,
Mas o caçador sempre passava,
Com carne fresca do mundo!"


“O quinto filho nasceu tão valente,
Que o Barão deu um grito profundo,
‘Mas olha essa cara, o jeito e o porte!
Igual ao sentinela do nosso muro!’”

"Querido, a verdade é simples,
E eu digo pra te animar,
Na gravidez só falava de guerra,
Pra nosso herdeiro bem preparar!"


"O sexto veio ruivo e sapeca,
E o Barão já sentiu o temor,
‘Mas isso é o capricho do mensageiro!
Pois é só dele essa cor!’"

"Amado, eu juro por tudo,
Que não é o que parece ser!
Mas, grávida, lia cartas e rimas,
Pra nossos filhos entreter!"


“Chegou o sétimo, feliz herdeiro,
E o Barão então perdeu a paz,
‘Ele tem as sobrancelhas do Padre,
E a calma de um santo rapaz!’”

"Querido, que tolo és tu,
Não tem nada de padre, não.
Mas, grávida, eu ia à igreja,
Pra ouvir sermão e oração!"


Após a música e os aplausos, Ludus sai em direção ao banheiro do lado de fora, um lugar rústico e silencioso nos fundos da taverna, onde a noite já cai sobre a cidade, as sombras projetando figuras alongadas sob o luar. Ele não nota que Asher o segue. Quando vira, vê Asher ao seu encalço.

“Então… quer me dizer por que o grande caçador de monstros está me seguindo?" Diz Ludus, em tom brincalhão, comenta, lançando um olhar de canto "Sabia que você tinha se rendido ao charme do bufão.” Ele se aproxima, dedilhando a cota de malha cinza do paladino.

Asher franze o cenho, confuso com a atitude de Ludus. Ele deixa escapar um suspiro profundo e, com um olhar sério, responde:
“Não estou aqui para brincar, palhaço." Ele puxa um retrato com o rosto de Ludus."Lorde Barthavious Fireheart de Profundáguas me enviou. Vim para cumprir uma ordem… e essa ordem é matá-lo.”

A expressão de Ludus se altera levemente, mas em seu rosto ainda permanece uma leveza controlada, enquanto ele analisa o caçador de monstros com cautela. Percebendo a situação, ele decide usar seu carisma e astúcia.

“Ah… um Greymane servindo aos caprichos de Barthavious?” Ludus começa com a voz suave, porém firme, fazendo Asher hesitar. “Sabe, eu conheço bem essa postura… essa servidão forçada. Afinal, eu mesmo passei uma vida me submetendo aos desejos de outros. Mas veja, Asher, existe algo maior do que se submeter cegamente. A verdadeira honra não vem de obedecer, e sim de entender o valor de suas próprias escolhas. Você se veste com o símbolo Greymane… aquele que representa um clã de caçadores de renome, certo? Sua família não lhe ensinou que nossa lealdade é à nossa própria palavra, e não aos caprichos de outros? Por que aceitar ser o cão de caça de alguém, quando você pode escolher lutar por si mesmo?”

Asher, ouvindo as palavras de Ludus, começa a questionar sua missão e seus motivos. As palavras do bufão ecoam em sua mente, confrontando sua lealdade com sua própria noção de honra e propósito. O conflito interno de Asher começa a emergir, e ele baixa a guarda, olhando para Ludus com uma mistura de dúvida e relutância.

“Talvez… talvez você tenha razão,” ele murmura, hesitante. “Minha lealdade nunca deveria estar acima dos meus princípios.”

O bufão sorri com um ar de vitória discreto e passa a mão no ombro de Asher, dando-lhe um tapinha encorajador. “Isso é mais como um verdadeiro Greymane. Agora, que tal vir comigo para a taverna e tomar um gole? Pode ser a primeira de muitas noites que vamos brindar juntos.”

Asher, ainda confuso com a facilidade com que Ludus o perdoa, observa o bufão retornar à taverna com um olhar curioso. Ele se pergunta por que alguém que acabou de ser alvo de um contrato de morte teria interesse em celebrar ao lado de seu quase assassino. Este toque de bondade inesperada e a leveza de Ludus começam a intrigá-lo profundamente, plantando nele um desejo de conhecer melhor aquele homem cujo coração parecia tão simples e verdadeiro.

A noite dentro da taverna se mantinha agitada, com o burburinho dos presentes preenchendo o ambiente de risadas, canções, e o ocasional brinde ruidoso. Em uma mesa mais ao fundo, Dahaka e Impetor iniciavam uma conversa. Impetor, com seu peito estufado e uma postura imponente, contava sobre suas façanhas.

“Impressionante. Mais de cem vitórias no colisseu Ragrinof!" Dizia Dahaka Surpreso. "E aonde é que fica isso?"

"Marsember, minha cidade,” ele dizia, com uma pitada de orgulho. “Os ventos salgados do mar e o aço do coliseu forjaram quem sou. Meu machado conheceu muitos desafios nas arenas de lá.”

Dahaka arqueou uma sobrancelha, um sorriso astuto despontando em seus lábios. “Marsember, hein? Eu sou um produto de Arabel. Uma cidade menos… movimentada, mas nem por isso menos desafiadora.”

Impetor soltou uma risada gutural. “Quando se trata de perigo todas elas são iguais...” Ele tomou um longo gole da sua caneca, então perguntou, lançando um olhar ao elfo distante. “E quanto ao elfo? De onde ele vem?”

Dahaka deu de ombros, cruzando os braços. “Mor'Rein? Ele é a definição de enigma. Garanto que já tive conversas mais estimulantes com cadáveres de quem despachei.”

Impetor gargalhou com a resposta, dando uma olhada em direção ao elfo taciturno. Mor'Rein, sentado sozinho em um canto escuro da taverna, folheava meticulosamente um tomo antigo, seus olhos atentos e inquisitivos, deslizando entre páginas cheias de sigilos e símbolos arcanos. Ao seu lado, uma pequena poção de coloração musgo captava a pouca luz do ambiente, refletindo-a como um mistério líquido.

Enquanto a conversa se desenvolvia na mesa, a porta da taverna se abriu. Ludus entrou com seu andar leve e despreocupado, Asher logo atrás, ainda levemente pensativo, mas com uma expressão mais relaxada. Dahaka ergueu os olhos para Ludus, um sorriso travesso no rosto.

“Se perdeu no caminho, bufão?” provocou Dahaka, notando a demora do amigo.

Ludus, fingindo um ar teatral de escândalo, levou a mão ao peito e respondeu: “Perder-me? Jamais! Apenas precisei convencer nosso estimado Asher aqui a não beber sozinho. Achei que ele poderia… err… desfrutar de nossa companhia, e fiz-lhe o favor de acompanhá-lo!”

Asher, ao ouvir a desculpa, abriu um sorriso discreto e agradecido, aliviado pela forma como Ludus ocultou a verdadeira razão de sua saída. Ele lançou um olhar de cumplicidade para Ludus, reconhecendo ali um companheiro que, apesar do perigo que acabara de enfrentar, não estava disposto a expor a verdade aos outros.

Dahaka riu, dando um tapinha na cadeira ao seu lado. “Aproximem-se, então, protetores dos incautos. Sabe-se lá quando conseguiremos um momento de paz como esse novamente.”

Ludus e Asher se juntaram à mesa, o clima de descontração continuando enquanto todos se acomodavam.

A noite seguiu-se em um ritmo alegre e contagiante. Aos poucos, o grupo de estranhos começou a se sentir mais próximo, como uma improvável família improvisada no calor de uma taverna barulhenta. Ludus era o centro da festa, sempre com uma piada na ponta da língua e um sorriso despreocupado. Ele fazia todos rirem – desde Impetor, com seu humor robusto e rústico, até mesmo Asher, que inicialmente mantinha-se distante, mas logo se rendeu ao encanto do bufão e do ambiente. E em alguns momentos raros, até mesmo o reservado Mor'Rein, imerso em seu próprio mistério, deixou escapar um sorriso tímido, talvez uma concessão às provocações de Ludus.

As histórias e gargalhadas preencheram as horas como se cada nova anedota fosse um brinde que selava a camaradagem. Impetor, com sua trajetória no coliseu de Marsember, relatava batalhas épicas e situações cômicas, enquanto Dahaka falava de suas artimanhas em Arabel. Asher, o caçador de monstros, contou sobre seu tempo nas planícies e seu caminho de Profundáguas até aqui.

Quando a noite estava em seus últimos fôlegos, um a um subiram ao segundo andar para descansar, as risadas cedendo lugar ao silêncio do sono. Mas para Mor'Rein, o descanso não vinha tão fácil. Em vez disso, ele retirou-se para um canto isolado, cruzou as pernas em posição meditativa, e começou um ritual silencioso de invocação.

A taverna adormecida ao redor mal parecia notar quando as sombras no quarto de Mor'Rein começaram a ondular, como se uma presença oculta houvesse se manifestado. Os olhos do elfo da lua se cerraram, e então, entre as trevas, ele ouviu a voz de seu Patrono, o Grande Antigo Haddar.

"Mor’Rein… cham'ndo do véu... os trilhos negros em que turv'as a tua alma... ouças o eco ressoar?”

Mor'Rein inspirou fundo, mergulhando mais fundo no contato telepática, tentando penetrar o véu de incoerência nas palavras de Haddar.

"Procuras, toques o vácuo em tuas memórias que vagam, nas safras do esquecimento…", murmurava Haddar, a voz esvaída em ecos roucos e longínquos, "Polém do teepo que te esqueces... e teu passado se enrosca nas raízes de sombros longínquas.”

Uma sombra fria percorreu a espinha de Mor'Rein enquanto ele tentava reunir sentido naquela torrente de fragmentos. Ele inclinou a cabeça levemente, o olhar fixo no nada, aguardando a continuação.

"Segue o peiso, caminnha descalço sobre os mondes abissais… t'lembra da semente do desespero plantada em ti," Haddar continuou, "que floresce com'rai... zzzz... quebradas e sem as memórias…"

A mente de Mor'Rein captou a essência oculta nas palavras caóticas – como se o horror éldrico estivesse dizendo que respostas sobre seu passado estavam se aproximando, mas estavam enraizadas no próprio desconhecimento que ele carregava. Era como um quebra-cabeça cujas peças vinham da escuridão do universo.

"Não tema, meu Tel'Quessir coisa.... verdades os-culs que tu desvela," Haddar arrastava as palavras como espectros, "passado amargo e quebrado, empilhado... espreitando do nevoeiro."

Mor'Rein sentiu o peso da promessa sibilante de Haddar, como se ele houvesse segurado o fôlego de algo que uma vez fora vivo e, agora, preso em um ciclo de fome e vazio, aguardava sua revelação. Ele soltou um longo suspiro, seus olhos piscando ao reabrirem. O quarto ainda estava coberto de sombras, mas o elfo sentia-se mais perto de uma verdade antiga e assombrada, como um homem que caminha no limite do desconhecido, pronto para descobrir se o que aguarda no abismo é a verdade ou a própria loucura.

Capitão Greveartez Emorgo.

Na manhã seguinte, os primeiros raios de sol mal tinham iluminado os becos úmidos de Suzail quando a porta da taverna foi aberta com força. O Capitão dos Purple Dragons, Greveartez Emorgo, imponente em sua armadura polida e semblante rígido, entrou com um ar de urgência. Ele olhou ao redor, avistando o grupo de aventureiros que, ainda sonolentos, tentavam despertar da noite anterior.

"Acordem!" anunciou Emorgo em tom severo, sua voz cortando o murmúrio preguiçoso do salão. Ludus, ainda esfregando os olhos, lançou um olhar curioso para o capitão, enquanto os demais rapidamente se recompuseram, notando a gravidade em seu rosto.

"Boa noite de descanso?" perguntou ele, embora não parecesse genuinamente interessado. "Enquanto vocês celebravam, a guarda real conduzia um interrogatório que revelou informações... alarmantes."

Impôs uma pausa significativa, olhando para cada um dos presentes, como se medisse a reação deles.

"Frofice, aquele que vocês trouxeram para nós, foi interrogado e, sob intensa pressão, revelou um esquema obscuro." Emorgo franziu o cenho, seus olhos se estreitando. " 'A Cura' está sendo paga por terceiros para sabotar as pesquisas sobre a Lágrima de Lathander. Esses patronos secretos têm um interesse especial em bloquear o progresso de qualquer conhecimento sobre um Elíxir, e, aparentemente, a cura de Cormyr não é seu único objetivo. Existem forças... sombrias envolvidas."

Os heróis trocaram olhares tensos, absorvendo a revelação. Mor'Rein, que ainda estava processando as visões da noite anterior, encarava o capitão com um olhar distante, como se tentasse ligar os fios dessa nova trama aos sussurros que ouvira.

Emorgo continuou "Frofice também admitiu uma conexão com o que ele chamou de 'Aliados poderosos'. Ele falou de uma aliança nefasta entre 'A Cura' e forças das trevas que pretendem contaminar Suzail com mortos-vivos." O rosto do capitão era uma máscara de repulsa e determinação.  "E há uma figura específica que devemos enfrentar… uma Megera, conhecida como Darsha. Há muito sabíamos da presença dela em Suzail, mas nunca imaginamos que ela estivesse envolvida nesse tipo de conspiração. Parece que nossos piores receios se concretizaram."

"Darsha?" murmurou Asher, cruzando os braços enquanto tentava absorver o impacto das informações. "Então a própria cidade está sofrendo nas garras de uma criatura das trevas?"

"Exatamente," confirmou Emorgo, firme.  "Haroldo Benthor temia que Darsha estivesse enredada em alguma trama, mas até agora não tínhamos evidências suficientes para ligá-la diretamente a essa conspiração. Agora, com o depoimento de Frofice, tudo está mais claro: Darsha trabalha com A Cura para propagar essa ameaça em nossa cidade. A missão de vocês é localizar essa Megera e desmantelar suas atividades, antes que a praga dos mortos-vivos infeste Suzail."

O grupo permanecia em silêncio, absorvendo o peso da nova missão. Ludus, sempre com uma fala pronta, parecia refletir mais do que o habitual. Dahaka trocou um olhar com Impetor, que assentiu em concordância silenciosa.

Emorgo fitou o grupo com expectativa:

"Suzail confia em vocês para livrar nossas ruas dessa ameaça. Interrompam Darsha, custe o que custar."

Dahaka sabia que, para encontrar Darsha e entender a extensão de sua ameaça, teria que se infiltrar nas sombras de Suzail e conversar com aqueles que preferiam não ser vistos. A cidade era um labirinto de becos, becos que Dahaka conhecia melhor do que ninguém. Com um leve sorriso em seu rosto, ele se afastou do grupo e começou a se mover discretamente pela cidade, evitando as ruas principais, escondendo-se nas esquinas e mergulhando nas passagens escuras.

Primeiro, ele se dirigiu ao submundo de Suzail, onde os contrabandistas e informantes se reuniam. Chegando ao Pavilhão de Ouro, uma taverna encardida e pouco iluminada, Dahaka avistou um velho conhecido – Tilmun, um informante de aparência doentia que tinha um olho para tudo o que acontecia na cidade.

Tilmun.
"Dahaka, seu rato maldito. Ouvi que o demônio está jogando no time dos anjos agora, há verdade nisso meu bom amigo?" Tilmun, com um tom irônico, ao ver o ladino se aproximar.

"Tem que encontrar informantes mais confiáveis Tilmun!" Disse Dahaka entrando na taverna com determinação. "Preciso de informações, Tilmun. Nada de papo furado. Fale-me sobre 'A Cura' e uma certa Megera chamada Darsha. Ouvi dizer que ela anda se escondendo em algum lugar da cidade." Dahaka aproximou-se, lançando um saco de moedas que Tilmun rapidamente escondeu no manto.

Tilmun lançou um olhar ao redor e se inclinou para perto de Dahaka.

"Darsha, hein? Ela é um nome de peso. Dizem que aquela desgraçada tem visitado os cemitérios da cidade à noite, despejando líquidos esquisitos, sussurrando palavras em uma língua que arrepia até os ossos dos mortos." sussurrou ele, com um olhar perturbado. "E, há coisa de uma semana, soube que A Cura trouxe uma boa quantidade de reagentes de necromancia. Mais do que o necessário para brincar de Deus!"

Dahaka franziu o cenho.

"Reagentes de necromancia? E o que ela pretende fazer com isso?"

Tilmun deu uma risada sem humor e prosseguiu:

"Ritual grande, meu amigo. Dizem que será na Lua Nova, quando a noite engole a cidade. Ela planeja levantar os mortos. Um exército, dizem… algo grande o suficiente para pôr Suzail de joelhos."

A expressão de Dahaka ficou sombria. Ele precisaria de mais detalhes. Despediu-se rapidamente de Tilmun e, ao cair da noite, dirigiu-se ao Mercado de Ossos, um ponto escondido e ilegal onde objetos necromânticos e feitiços sombrios eram negociados. Lá, encontrou Estelle, uma necromante exilada que conhecia bem os caminhos das trevas.

Estelle.
"Estelle, vim cobrar aquele favor." abordou-a diretamente, "Preciso saber de um ritual que será feito durante a Lua Nova" Dahaka percebeu um leve tremor na expressão dela. "Darsha, a Megera, está por trás disso. Ouvi dizer que está usando reagentes necromânticos que chegaram recentemente."

Estelle lançou-lhe um olhar frio, os olhos fundos brilhando ao ouvir o nome de Darsha.

"Como desejar, mais você não ouviu isso de mim: Darsha tomou a antiga cripta dos Azkadelia como seu covil" sussurrou Estelle, como se o nome por si só fosse perigoso. "Ela tem passado as noites lá, sussurrando feitiços, entoando cânticos antigos. Na Lua Nova, pretende abrir o véu e chamar os mortos de Suzail para que se ergam sob seu comando. A cidade estará indefesa… e você, Dahaka, precisa saber que ela não poupará ninguém."

Estelle segurou o braço de Dahaka, seu rosto pálido à luz de uma vela sombria.

"É uma corrida contra o tempo. Essa noite, dia 15 de Uktar, quando a Lua Nova despontar… os mortos terão ordens de erguer-se."

Dahaka puxou seu braço para longe do alcance de Estelle. "Tá bom, já entendi o esquisita. Precisa encostar não." Ciente da gravidade das informações que reunira. Em silêncio, agradeceu a Estelle e deixou o Mercado de Ossos, sabendo que precisava retornar aos companheiros com urgência.

No amanhecer seguinte, Dahaka reuniu o grupo, transmitindo-lhes a urgência das informações. A revelação caiu como uma bomba entre os heróis, e a ameaça parecia cada vez mais palpável.

"Temos que interceptar Darsha antes do cair da noite. Se ela erguer esse exército, Suzail não terá como se defender"  afirmou Asher, com o semblante contemplativo.

Mor'Rein, com o olhar fixo na poção musgosa, ponderava em silêncio, seus pensamentos voltando à noite anterior e ao prenuncios sombrios de Hadar. Os outros se entreolharam, cientes de que aquela missão exigiria mais do que força. Era uma corrida contra a escuridão que se erguia em Suzail.

Com determinação, os heróis se prepararam para a noite que prometia ser a mais desafiadora de suas vidas.Enquanto os heróis seguiam pela trilha sinuosa que levava ao Cemitério Central, Ludus, aproveitou a oportunidade para questionar

"Então, deixe-me ver se entendi…" começou ele, franzindo o cenho para Dahaka como se estivesse tentando resolver um quebra-cabeça complexo. "Darsha é uma megera perigosa…"

"Certo." confirmou Dahaka, impassível.

"E essa megera perigosa está prestes a convocar um exército de mortos-vivos imparáveis aqui no cemitério de Suzail…" Ludus continuava com seu raciocínio.

"Isso mesmo." concordou Dahaka.

"E sabemos que ela está escondida naquela cripta bizarra da família Azkadelia…"

"Exatamente."

Ludus parou, olhando fixamente para Dahaka com um misto de descrença e horror cômico.

"ENTÃO, EXPLIQUEM-ME POR QUE CARGAS D'ÁGUA ESTAMOS MARCHANDO DIRETO PRA TOCA DA BRUXA MALUCA GENOCIDA?!"

Dahaka reprimiu um sorriso, enquanto Mor'Rein, sempre introspectivo, lançou um olhar enigmático para Ludus antes de responder. "Desde o chalé da Cura, as peças nunca se encaixaram direito. Alguém financiou A Cura para sabotar a pesquisa da Lágrima de Lathander..."

"...e Darsha, essa megera, está agindo em nome de uma força ainda mais obscura. Temos mais inimigos do que podemos ver, Ludus" completou Dahaka, com um tom que misturava ironia e seriedade.

Mor'Rein continuou com sua voz baixa e grave:

"Nada nuca é apenas o que parece. Não podemos confiar em ninguém além de nós mesmos, nem mesmo. Precisamos ver o que há lá dentro por nós mesmos... E não delegar aos Dragões Púrpuras."

Ludus revirou os olhos, suspirando dramaticamente enquanto seguia atrás do grupo.

Ao chegarem ao Cemitério Central, uma quietude sombria pairava no ar. Os túmulos estavam banhados por uma névoa espessa, que parecia absorver qualquer som, e o vento parecia hesitar em passar por ali. Adiante, a Cripta dos Azkadelia erguia-se como uma estrutura escura e ameaçadora.

"Aí está." murmurou Dahaka, estreitando os olhos para a entrada da cripta. Mas, ao dar um passo à frente, ele percebeu algo gravado na pedra, um símbolo que reluzia levemente sob a luz pálida da noite.

"Espere…" sussurrou Dahaka, gesticulando para os outros pararem. "Isso não é só uma porta. Temos um símbolo arcano aqui."

Mor'Rein aproximou-se, o olhar fixo no símbolo. Seus dedos se moveram de leve, traçando os contornos invisíveis no ar enquanto examinava a intricada runa.

"É um Glifo de Proteção." informou o elfo, a voz baixa, quase em reverência ao encantamento. "Toquem, e farão companhia aos mortos desse cemitério."

Ludus, erguendo as sobrancelhas, inclinou-se para observar o símbolo com um misto de interesse e cautela.

"Então… você poderia, sabe, fazer esse Glifo ‘desaparecer’ para a gente?"

Mor'Rein lançou-lhe um olhar frio, hesitando. Mesmo sabendo como desfazer o glifo, ele preferia não revelar toda a extensão de seu conhecimento arcano aos companheiros. Sabia o suficiente para manter todos seguros — e para se proteger.

"Apenas… mantenham distância. Não será necessário tocá-lo se agirmos com prudência." respondeu Mor'Rein, seco e evasivo.

Asher assentiu, compreendendo a natureza misteriosa de Mor'Rein, e gesticulou para que os outros mantivesse uma distância segura. Ajustando sua postura furtiva, o paladino se concentrou, procurando uma ponto vantajoso com visão para a entrada protegida. Ele percebeu um vantajoso muro alguns metros dali.

"Vamos aguardar ali,." orientou Asher. "Se essa Darsha está aqui dentro, ela não vai esperar por uma visita amigável."

Com cautela, o grupo avançou, cada um atento a qualquer som ou movimento.

Darsha.

Enquanto o grupo se acomodava na sombra de um muro de pedra fria e esperava, Impetor parecia cada vez mais impaciente. A espera não era do seu feitio, e o brilho feroz em seus olhos revelava sua ansiedade.

"Me prometeram uma bruxa para enfrentar!" resmungou ele, cerrando os punhos e lançando um olhar impaciente para o horizonte. "Não estou aqui para brincar de esconde-esconde."

Asher lançou um olhar cauteloso para Impetor, tentando conter o ardor do meio-dragão, mas sabia que uma vez que o guerreiro sentisse o cheiro de combate, não havia muito a fazer para contê-lo. O dia foi se arrastando, e o sol lentamente cedia seu lugar ao crepúsculo. No horizonte, uma figura encapuzada surgiu, movendo-se lenta e deliberadamente pelo caminho empoeirado que levava ao cemitério.

'Aí vem ela..." sussurrou Dahaka, observando a aproximação da bruxa Darsha. Ela era tudo que se imaginava em um pesadelo: pele esverdeada e pálida, um nariz torcido e disforme, e vestes marrons rasgadas que arrastavam pelo chão. Em seus braços, segurava frascos com líquidos de uma coloração verde-musgo, lembrando imediatamente a Mor'Rein as substâncias encontradas no laboratório da Cura.

Quando Darsha chegou à entrada da cripta, ela passou as mãos cadavéricas sobre o símbolo arcano, murmurando palavras inaudíveis. O Glifo de Proteção apagou-se, e ela começou a entrar na cripta com os frascos sinistros em mãos.

"Perfeito, agora é a hora!" sussurrou Asher, lançando um olhar afiado para seus companheiros."Vamos coordenar o ataque. Dahaka, você..."

Mas antes que pudesse dar mais instruções, Impetor soltou um brado poderoso e avançou, machado em punho.

"PARA A GLÓRIA!" gritou ele, disparando em direção à bruxa como uma força da natureza.

Asher fechou os olhos por um instante, frustrado, e murmurou:

"Acho que a coordenação vai ficar para outra batalha..."

Impulsivo e destemido, Impetor saltou sobre as pedras que delimitavam o cemitério, avançando com rapidez brutal. Darsha, tomada de surpresa, virou-se a tempo de ver o meio-dragão prateado avançando sobre ela, a lâmina já erguida e pronta para o impacto.

"Ah, vejam só... um guerreiro ansioso pela morte." zombou Darsha, os olhos faiscando com um misto de ódio e divertimento ao ver o enorme draconiano correndo em sua direção.

"Calada megera, enquanto eu lhe parto em duas!" retrucou Impetor, brandindo o machado com força.

Dahaka, Asher, Mor'Rein e Ludus avançaram em seguida, entrando no combate para apoiar o companheiro impetuoso. Darsha soltou uma gargalhada inumana, ecoando pelo cemitério, e um vento gélido percorreu o campo. 

"Preparem-se..." gritou Asher, erguendo sua espada, enquanto Impetor já se começava a trocar golpes com a bruxa, cada um mais feroz que o anterior.

Os heróis estavam prontos.

A batalha começou num instante. Dahaka, aproveitando a escuridão crescente do cemitério, moveu-se como uma sombra viva, seus passos eram tão silenciosos quanto a morte que rondava a cidade. O Tiefling ladino estava à espreita, escondido entre os túmulos enquanto preparava sua besta de mão, o olhar fixo na megera Darsha. Ela ainda não os havia notado por completo, distraída ao guardar os frascos de líquido verde-escuro. Quando Dahaka viu a oportunidade, disparou. O dardo cortou o ar, atingindo o ombro da bruxa e fazendo-a recuar, soltando um grunhido de dor e raiva.

A resposta foi rápida e feroz. Darsha, com um sorriso torto e cruel, sumiu no ar, ficando invisível em um piscar de olhos. Dahaka franziu o cenho, percebendo tarde demais o perigo iminente. De repente, ele sentiu algo frio e afiado nas suas costas. As garras da bruxa cravaram-se em sua carne, e ele soltou um grito de dor ao ser erguido do chão. A velha, agora visível novamente, riu enquanto o Tiefling caía, sangrando. Seu corpo desabou no chão, fraco e imóvel.

Mor'Rein, observando o ataque, ergueu rapidamente as mãos. Energias místicas rodopiaram ao seu redor enquanto ele murmurava as palavras de poder. Uma rajada de pura energia arcana foi disparada, atingindo Darsha diretamente no peito. O impacto fez a bruxa cambalear para trás, sua expressão enraivecida transformando-se num ódio profundo.

"Maldito elfo!" ela rosnou, mas antes que pudesse se recuperar, Impetor Ragrinof avançou, seu machado cintilando à luz fraca. Com um rugido bestial, o meio-dragão desferiu um golpe poderoso que se cravou no ombro da megera. O corte profundo fez sangue negro jorrar, e a bruxa gritou em agonia, cambaleando sob a força bruta do ataque.

Asher Greymane, com a agilidade de um predador, correu na direção da bruxa, a espada em mãos. Ele golpeou rápido, mas Darsha, ainda que ferida, foi mais rápida. Seu corpo grotesco contorceu-se no último segundo, desviando-se parcialmente da lâmina de Asher, que apenas cortou de raspão seu flanco. Um rastro fino de sangue ficou para trás, mas o golpe foi superficial.

Enquanto isso, Ludus Lefou corria pelo campo de batalha, com os olhos sempre atentos a seus companheiros feridos. Ele viu Dahaka caído, sangrando, e sem hesitar ajoelhou-se ao lado do Tiefling, murmurando uma cantiga infantil e balançando seu pandeiro enquanto suas mãos brilhavam com energia curativa. Aos poucos, Dahaka começou a recuperar os sentidos, suas feridas fechando-se sob o toque restaurador de Ludus.

Mor'Rein, mantendo distância segura, canalizou mais uma vez a energia arcana. Outra rajada mística irrompeu de suas mãos, atingindo Darsha com precisão. O impacto lançou faíscas de magia no ar, e a bruxa uivou de raiva, seu corpo tremendo com a dor. Mas, mesmo assim, um sorriso macabro surgiu em seus lábios. "Quem você pensma que são?" Ela gargalhou de forma sombria, sua voz ecoando como um trovão no cemitério. Em um movimento rápido, ela se lançou sobre Mor'Rein, suas garras afiadas como facas cortando o ar. O elfo da lua tentou se esquivar, mas não foi rápido o suficiente. As garras de Darsha rasgaram seu rosto, deixando um corte profundo que o fez cair ao chão, sangrando e desamparado.

A bruxa voltou seu olhar para Impetor, mas o meio-dragão já estava em movimento novamente. Com um rugido ensurdecedor, ele levantou seu machado mais uma vez, o aço cintilando à luz fraca da lua. O golpe veio de cima para baixo, e o machado encontrou a carne de Darsha, cortando fundo em seu torso. O impacto fez a bruxa vacilar, seus olhos arregalados em choque e dor.

Foi nesse momento que Asher viu sua chance. Com um movimento fluido, ele se aproximou por trás da megera, sua espada pronta. Darsha estava vulnerável, ferida e distraída com o ataque de Impetor. Asher, aproveitando a abertura, desferiu um golpe certeiro. Sua lâmina perfurou o coração da bruxa com precisão, atravessando carne e osso. O grito de Darsha ecoou pelo cemitério, um som de puro desespero e fúria. Seu corpo começou a tremer violentamente antes de explodir em uma nuvem gosmenta de insetos e vermes, que se dispersaram rapidamente.

Os heróis ficaram em silêncio por alguns instantes, ofegantes e exaustos. A batalha havia terminado, mas não sem deixar suas marcas. Mor'Rein e Dahaka estavam no chão, feridos e debilitados, enquanto Impetor e Asher, cansados mas vitoriosos, ajudavam a levantar seus companheiros caídos. Ludus, mais uma vez, correu para oferecer auxílio, suas mãos ainda brilhando com a energia curativa.

O cemitério, agora silencioso, parecia respirar aliviado com a derrota da bruxa. O perigo imediato havia sido contido, mas todos sabiam que aquilo era apenas o começo. Os heróis, exaustos e feridos, se reagrupam. Com a batalha vencida, eles ajudam Mor'Rein e Dahaka a se levantarem, tomando um momento para respirar e se recuperar. A vitória foi dura, mas o perigo imediato foi eliminado, pelo menos por enquanto. Agora, com Darsha derrotada, resta descobrir o verdadeiro escopo do plano dos seus aliados sombrios.

Após a intensa batalha contra Darsha, os heróis, ainda feridos e exaustos, se arrastaram até a cripta agora aberta. O ar ao redor estava pesado com a umidade e o cheiro de terra antiga, e a luz fraca das tochas mal iluminava o interior sombrio. Lá dentro, as prateleiras estavam cheias de tomos empoeirados sobre magia negra, poções e antigas receitas de feitiçaria. O cenário era o esperado — um covil de trevas e segredos — mas o que chamou a atenção de todos foi uma arca de madeira pesada no fundo da sala.

Dahaka, sempre ágil e desconfiado, foi o primeiro a investigar. Seus olhos, agora atentos ao detalhe, focaram na fechadura antiga. Ele a examinou rapidamente, destravando-a com facilidade. Quando a tampa da arca foi aberta, o conteúdo revelou algo muito mais perturbador do que livros de magia ou frascos de poções. Havia documentos, empilhados e organizados, todos selados com o brasão da coroa de Cormyr.

Dahaka puxou um dos papéis, suas mãos hesitantes enquanto lia o que estava escrito. O silêncio se prolongou, e sua expressão escureceu à medida que os nomes nos arquivos se tornavam familiares. Eram listas de aventureiros, antigos membros da "Ponta da Lança", um grupo mercenário destinado a enfrentar as ameaças que assolavam o reino. Dahaka reconhecia alguns dos nomes. "Mortos", ele sussurrou, "esses aventureiros... todos dados como mortos." Ele franziu o cenho, confuso e furioso. "Mas por que esses documentos estariam aqui com Darsha?"

Os outros se aproximaram, o clima de incerteza pairando sobre eles. Ludus folheava os papéis rapidamente, enquanto Impetor e Asher observavam atentos. A resposta, no entanto, veio quando Mor'Rein encontrou um conjunto de cartas no fundo da arca. Os olhos do elfo estreitaram ao ver o selo quebrado nas cartas. Ele as abriu e começou a ler em voz alta, revelando a verdade amarga que estava por vir.

As cartas estavam assinadas por ninguém menos que Lorde Haroldo Benthor, o conselheiro da regente e o responsável por reunir os aventureiros da missão "Ponta da Lança". As palavras eram claras e perturbadoras: Darsha havia sido contratada por Benthor através da Rede Negra, os Zentharim,  para eliminar os aventureiros que ele mesmo enviava em missão. Após suas mortes, a bruxa utilizava os ungentos criados pela Cura para reanimá-los como mortos-vivos a serviço de algum esquema obscuro.

A gravidade da situação desabou sobre o grupo como uma avalanche. Haroldo Benthor, uma das figuras mais poderosas do reino, estava envolvido com os Zentharim, a organização criminosa mais nefasta e perigosa de Faerûn. O esquema de traição não terminava nos homens da 'Cura'; Benthor não apenas os manipulava, como também orquestrava a destruição dos aventureiros que confiavam em sua liderança. Ele estava criando um exército de mortos-vivos, eliminando qualquer um que ousasse questionar seus motivos, tudo em aliança com os Zentharim. Mas por quê? O que ele ganhava com essa traição? Quais eram suas verdadeiras intenções?

As perguntas ecoavam na mente dos heróis, mas as respostas pareciam mais distantes do que nunca. Asher, com a testa franzida, segurava firme sua espada, visivelmente frustrado por não entender completamente o que Benthor buscava com aquele conluio. Mor'Rein, silencioso e introspectivo, tentava organizar os pensamentos enquanto sua mente retornava à questão: por que Benthor trairia o reino dessa maneira?

O silêncio foi interrompido pelo som de passos lá fora. Rápidos e sincronizados. Todos congelaram ao ouvir o inconfundível eco de metal contra pedra, o som de armaduras marchando. Impetor se adiantou, erguendo o machado como uma forma de precaução, e os outros rapidamente se colocaram em alerta. Dahaka, recuperado do ataque da bruxa, já estava nas sombras, espreitando pela saída da cripta.

Então, o som das vozes tornou-se claro. Dragões Púrpuras. Muitos deles. O destacamento estava se aproximando rapidamente, suas armaduras brilhando sob a luz fraca do crepúsculo. Os heróis mal tiveram tempo de absorver as revelações perturbadoras que encontraram antes de serem cercados.

Ludus, sempre com seu olhar jovial, engoliu em seco ao perceber que estavam encurralados. "Acho que a situação piorou um pouco, meus amigos."

Asher lançou um olhar para a porta da cripta. "Precisamos de um plano, rápido."

Mas antes que qualquer estratégia pudesse ser formulada, o som de espadas sendo desembainhadas do lado de fora deixou claro que não havia tempo para pensar. O episódio terminava ali, com os heróis presos entre as revelações sombrias da traição e o destacamento dos Purple Dragons, que já estavam à sua porta.

Episódio 3 - Foragidos.

Data: 15 de Uktar de 1372, 18h
Local: Cripta Azkadelia, Cemitério de Suzail - Suzail, Cormyr, Faêrun.

O cemitério estava envolto em um silêncio sepulcral quando o eco dos passos pesados dos Dragões Púrpuras rompeu a quietude. O grupo de heróis, exaustos e com ferimentos visíveis após a intensa batalha com Darsha, ergueu os olhos cansados para o círculo de soldados que os cercava. Espadas reluziam à luz das tochas, e armaduras polidas refletiam os rostos pálidos e suados dos aventureiros.

"Parem! Em nome da Regente de Aço, vocês estão sob custódia!" bradou o tenente à frente, um homem de rosto severo e cicatriz em forma de meia-lua sob o olho esquerdo. A voz dele ecoava com autoridade inquestionável, e seus olhos não demonstravam um pingo de compaixão.

Dahaka, com uma mão segurando um ferimento no ombro e a outra discretamente na adaga em sua cintura, lançou um olhar cauteloso a Asher. O tiefling reconhecia o perigo, mas sempre estava disposto a arriscar uma última cartada.

"Espere, isso é um mal-entendido! A bruxa, Darsha... ela estava planejando algo que.." tentou explicar Ludus, suas palavras atropeladas e ofegantes. Ele olhava em volta, buscando qualquer traço de compreensão nos rostos dos guardas, mas encontrou apenas a dureza inabalável da lealdade cega.

"Silêncio, mestiço!" O tenente cortou a tentativa de Ludus com uma frieza que ressoava como uma lâmina. "Vocês são acusados de perturbação da ordem. Suzail não tolera tal desrespeito."

Asher, mesmo com o semblante exausto, manteve a postura firme. Ele olhou diretamente nos olhos do tenente, sua voz baixa e grave como um trovão distante.

"Perturbação da ordem? Salvamos esta cidade de uma ameaça que vocês nem sequer suspeitavam. Qual é a verdadeira razão dessa prisão?"

O tenente hesitou por um instante, mas logo se recompôs, passando os olhos pelos corpos abatidos dos heróis. Havia algo em seu olhar que sugeria um conflito interno, uma dúvida que ele rapidamente sufocou.

"Ordens de cima. Leve-os." Sua voz endureceu, e ele sinalizou para os soldados.

Mor'Rein, que permanecera calado e com a expressão sombria, trocou um olhar rápido com Asher, um aviso silencioso de que aquilo não terminaria ali. O elfo da lua, com seus cabelos prateados caindo desordenados, inspirou profundamente, seu olhar frio observando as sombras ao redor. Ele já suspeitava que essa prisão era uma peça de algo maior.

Impulsivo como sempre, Impetor estalou o maxilar e avançou um passo, mesmo com as correntes começando a ser colocadas em seus punhos.

"Não pensem nem por um instante que isso vai sair barato!" rosnou ele, recebendo um empurrão de um soldado que tentava mantê-lo sob controle. Os olhos azuis do meio-dragão lançavam faíscas de fúria contida.

Dahaka, sempre pronto com um sorriso cínico, soltou uma risada amarga enquanto era algemado.

" 'Perturbação da ordem' ... adorável. Da próxima vez, faremos o favor de deixar a bruxa trazer os mortos para dançar em Suzail, para que tenham algo mais interessante para relatar aos superiores."

O silêncio tenso foi quebrado apenas pelo ranger das algemas e o som das botas sobre o cascalho enquanto os heróis eram escoltados até uma carruagem de madeira escura. O veículo tinha barras de ferro nas janelas, e o som das fechaduras ecoou com um baque metálico e definitivo. Enquanto a carruagem começava a se mover, o último olhar de Ludus para o cemitério foi de pura frustração, enquanto suas palavras não ditas pairavam no ar, sufocadas pela marcha dos Dragões Púrpuras.

As portas do castelo Obarskyr se erguiam como sentinelas de pedra, altas e imponentes, enquanto os heróis, em uma procissão pesada, atravessavam o átrio iluminado por archotes. O chão de mármore polido refletia seus passos vacilantes, cada ruído ecoando como um tambor de julgamento. Colunas decoradas com entalhes de dragões e heróis lendários ladeavam o corredor, suas figuras imóveis observando com uma frieza que parecia zombar do estado abatido dos prisioneiros.

Os Dragões Púrpuras os guiavam com firmeza, mantendo uma distância protocolar, mas vigilante. O aroma sutil de óleo de lamparina e pedra úmida impregnava o ar, enquanto os heróis eram levados por corredores labirínticos adornados por tapeçarias ricas e janelas estreitas que deixavam entrar apenas um vislumbre pálido da noite lá fora. O brilho tênue da lua desenhava sombras compridas, como dedos esqueléticos que se estendiam pelas paredes.

Finalmente, chegaram a um conjunto de portas pesadas de carvalho, reforçadas com ferro e entalhadas com o brasão dos Obarskyr. Quando as portas se abriram com um ranger profundo, revelou-se um quarto espaçoso e surpreendentemente acolhedor. O piso era coberto por um tapete grosso, decorado com padrões dourados e prateados que imitavam a silhueta de Cormyr. As paredes eram adornadas com tapeçarias que narravam batalhas e coroações antigas. Uma lareira, já acesa, crepitava em um canto, lançando um calor reconfortante que contrastava com a atmosfera tensa.

Camas de dossel forradas com veludo vermelho estavam dispostas contra a parede oposta, e uma mesa de carvalho, com uma jarra de água e copos de cristal, ocupava o centro do quarto. Pequenas lanternas pendiam do teto abobadado, iluminando o ambiente com uma luz suave e cálida.

Ludus soltou um suspiro, rompendo o silêncio desconfortável que pairava sobre o grupo. Com um sorriso cansado, tentou amenizar a tensão.

"Podia ser pior… pelo menos não estamos nas masmorras."

Asher apenas assentiu, um leve movimento de cabeça que não disfarçava o cansaço em seus olhos. Dahaka, por sua vez, já estava verificando a sala, tocando levemente as tapeçarias e avaliando as possíveis rotas de fuga ou locais para esconder algo.

Mas Impetor, o imponente meio-dragão, estava longe de qualquer semblante de conformidade. Seus punhos cerrados tremiam de raiva, os músculos sob as escamas prateadas se contraíam com intensidade, como se estivessem prestes a romper sua pele. Seus olhos, duas fendas brilhantes, estavam fixos na lareira, refletindo as chamas dançantes com um brilho que beirava o fanatismo.

"Somos guerreiros, não prisioneiros de corte... " murmurou ele, sua voz carregada de um tom profundo e feral. Cada palavra parecia cuspida como fogo, queimando com o desgosto de sua própria impotência. "Fui prometido liberdade, lutei, sangrei... e agora estamos aqui, trancados como animais mansos."

O gladiator golpeou o braço da cadeira mais próxima, rachando a madeira com um estalo seco. A frustração em seu semblante se misturava com algo mais: um desprezo crescente por sua própria decisão de não ter lutado até o fim, uma traição interna que corroía sua honra.

Mor'Rein observava Impetor com seus olhos prateados, impassível, mas atento. O elfo da lua compreendia a profundidade do orgulho ferido de seu companheiro; sabia que, por trás da fúria do meio-dragão, estava a sombra do arrependimento e do medo de que sua liberdade tivesse sido uma ilusão o tempo todo.

A luz dourada da manhã envolvia as janelas da grande sala de jantar, refletindo em suas molduras de carvalho entalhado e espalhando uma aura acolhedora sobre a mesa finamente posta. A comida era abundante e apetitosa, mas os heróis não sentiram o menor apetite ao entrar no recinto. Sentado à cabeceira da mesa, trajando um manto de veludo azul real com detalhes em prata, estava Lorde Haroldo Benthor. Seus olhos cinzentos reluziam com uma mistura calculada de calor e curiosidade.

"Meus valentes convidados, é um alívio vê-los em segurança após a confusão de ontem." A voz de Benthor era suave, com uma entonação amigável que sugeria preocupação genuína.

Dahaka, com seu porte furtivo e olhar sempre em alerta, não se deixou enganar. Ele avançou alguns passos, suas botas ressoando sobre o piso de mármore.  "Dispense as cortesias, Lorde Benthor. Temos questões urgentes sobre o que encontramos com Darsha. As cartas que incriminam conspirações e jogadas contra este reino."

Benthor manteve o sorriso, um sorriso paternal que parecia pedir compreensão.

"Ora, meu caro Dahaka, é compreensível que estejam ansiosos. Vocês enfrentaram perigos que poucos ousariam, e agora buscam respostas. Por favor, sentem-se e comam algo. Uma mente faminta nunca raciocina com clareza." Ele fez um gesto cordial com a mão, convidando-os a tomar lugar.

Mor'Rein, cujos olhos profundos refletiam uma inteligência afiada, manteve-se imóvel, observando cada nuance do homem à sua frente.

"Agradecemos a hospitalidade, mas não estamos aqui para um banquete, Lorde Benthor." Sua voz soou como um sussurro de aço. "Precisamos de verdades."

Ludus, que até então observava em silêncio, sentiu o momento certo. Puxou o pandeiro de sua cintura e tocou uma sequência breve, infundindo a melodia com uma magia sutil. O brilho prateado se espalhou pela sala, formando o feitiço: Zona da Verdade. O ar pareceu se cristalizar por um instante, carregado de uma força que nenhum presente poderia ignorar. Benthor sorriu, mas seus olhos cintilaram brevemente, traindo um lampejo de reconhecimento.

"Sempre o mais criativo, Ludus." O tom de Benthor era despreocupado, mas sua escolha de palavras revelava uma tentativa de retomar o controle. "Vejo que querem me testar, então responderei o que puder."

Asher, com os punhos cerrados, deu um passo à frente, sua voz saindo baixa e carregada. "Você financiou a pesquisa que Darsha utilizava para espalhar a praga? Você sabia que inocentes estavam morrendo por suas mãos?"

Benthor suspirou, inclinando a cabeça levemente, como se estivesse sendo injustamente acusado, mas disposto a perdoar.

"Meu jovem caçador, eu conhecia Darsha sim. Meu financiamento havia ido para Cura que pelo conhecimento geral eram todos alquimistas de certo renome, pessoas que buscavam curas e avanços para o bem de todos. Se eles se desviaram, lamento profundamente, mas sempre agi pensando no melhor para esta situação."

A magia pulsava ao redor, e todos sabiam que suas palavras não poderiam ser mentiras. Mas seu silêncio sobre o que não foi perguntado fazia o clima se tornar ainda mais tenso.

Impetor sentiu um rugido crescer em sua grarganta, uma fúia que ameaçava romper seu autocontrole. Cada palavra ambígua de Benthor era como um golpe em sua honra, uma lembrança de todas as vezes que seu destino havia sido manipulado por aqueles que sorriam das arquimbacadas.

"Se suas intenções são tão nobres, por que todo esse teatro?" Impetor rugiu, seus olhos azuis faiscando. "Sua preocupação parece mais com sua imagem do que com a verdade."

Benthor não recuou. Pelo contrário, inclinou-se para a frente, suas mãos unidas em um gesto de apelo.

"Impetor, você deve entender que liderança é uma carga pesada. Às vezes, decisões são tomadas que não podem ser entendidas até que o tempo mostre suas razões."

Dahaka estreitou os olhos, percebendo a manobra.

"E como devemos confiar em alguém que prefere o silêncio às verdades dolorosas?"

Benthor apenas sorriu novamente, um sorriso triste e resignado.

"Porque, no fim, a lealdade é construída em tempos de escuridão. Quando a luz vier, tudo ficara mas claro!"

A sala caiu em um silêncio tenso, enquanto os heróis digeriam tanto suas palavras quanto o que não fora dito.

Benthor inclinou-se levemente para a frente, apoiando as mãos na mesa com um movimento calculado. Seus olhos cinzentos varreram os rostos dos heróis, uma expressão de simpatia mal disfarçada pela sombra de uma ameaça velada.

"Amigos, Amigos! Entendo que o cansaço e a adversidade distorcem as percepções, transformando amigos em suspeitos e aliados em inimigos."  Sua voz era doce, quase paternal, mas cada palavra carregava um subtexto afiado como uma lâmina. "Vocês são preciosos para mim, para o reino. Por isso, sugiro que descansem suas mentes agitadas e se lembrem de que servir a Suzail é uma honra incomparável."

Benthor deu uma pausa, permitindo que o silêncio pesado se acomodasse na sala. Um sorriso sinuoso surgiu em seus lábios.

"Lembrem-se, porém, de que se falharem em sua devoção em vida, sempre há... outros meios de serviço, mesmo além da morte." Seus olhos cintilaram com um brilho frio enquanto a sugestão pairava sobre eles como uma sombra.

Ele deu meia-volta com a elegância de quem está habituado a comandar sem contestação. Quando chegou à porta da sala, virou-se uma última vez, mantendo o sorriso cordial que mascarava suas intenções obscuras.

"Sintam-se em casa, meus heróis. Pois, a partir de hoje, este é seu único lar."

E, com um aceno quase cortês, deixou o recinto, a porta se fechando suavemente atrás de si, isolando os heróis em um silêncio que pesava como chumbo.

Agora prisioneiros no castelo Obarskyr, os heróis se viam à mercê dos planos de Haroldo Benthor. Com o peso da descoberta recente pairando sobre suas cabeças, a ameaça de serem enviados em novas missões suicidas ou simplesmente eliminados de forma discreta pelo conselheiro parecia cada vez mais iminente. Precisavam fugir de Suzail antes que Benthor encontrasse uma maneira "limpa" de se livrar deles.

Asher Greymane caminhava com passos silenciosos pelo pátio de pedras do castelo Obarskyr, seu olhar atento varrendo cada canto e sombra. O ambiente era opressor, cercado por guardas atentos e o som ocasional das botas dos Dragões Púrpuras marchando ritmicamente. Ele forçava a mente a buscar rotas de fuga: os portões principais eram fortemente vigiados, as torres protegidas por arqueiros, e as saídas laterais pareciam armadilhas prontas para engolir qualquer tentativa de escape.

O paladino parou por um momento, fingindo apreciar a vista do céu que começava a se tingir com as cores do crepúsculo. Porém, a tensão em seus ombros era evidente. Sua mente trabalhava rapidamente, mapeando qualquer possível rota sob a luz fraca que logo seria devorada pela noite.

"Bela noite, não acha?" A voz grave soou próxima, emergindo das sombras com um tom que misturava respeito e desafio.

Asher girou o corpo rapidamente, seus olhos se estreitando enquanto avistava o Capitão dos Dragões Púrpuras, Greveartez Emorgo. O capitão era uma figura imponente, seu elmo decorado com a crista do dragão brilhando sob os últimos raios do sol. Asher instintivamente recuou meio passo, sua mão inconscientemente buscando a empunhadura de sua arma, que não estava mais com ele.

"Não esperava companhia, Capitão." disse Asher, com a voz firme e a postura defensiva.

Emorgo ergueu as mãos num gesto pacificador, seus olhos castanhos transmitindo uma mistura de urgência e compaixão.

"Venho desarmado e sem intenções de conflito." Ele deu um passo à frente, e Asher pôde perceber uma tensão mascarada em sua expressão. "Precisamos falar, e o tempo não está do nosso lado."

O paladino arqueou a sobrancelha, ainda desconfiado.

"E por que eu deveria ouvir você? Até onde sei, os Dragões Púrpuras servem ao mesmo homem que nos trouxe a este castelo sob acusações falsas." A raiva de Asher estava contida, mas a dor da traição e da injustiça era visível em sua voz.

O capitão respirou fundo e se aproximou mais um passo, tirando de uma dobra interna de seu manto uma insígnia de prata com um punho cerrado. A luz tênue fez o símbolo brilhar, e o coração de Asher apertou ao reconhecê-lo.

Ordem da
Manopla
"A Ordem da Manopla... " murmurou Asher, a surpresa e a esperança lutando contra sua desconfiança.

Emorgo assentiu, o olhar sério.

"Haroldo Benthor contaminou Suzail com sua influência corrupta. Não posso agir sem arriscar a vida de muitos, mas vocês... Vocês têm a chance de sair e alertar os aliados certos." Ele se aproximava de Asher, como se contasse um segredo a ele. "À noite, providenciarei sua saída. Mas vocês devem encontrar Horusk e entregar uma mensagem. É a única forma de virar a maré contra Benthor."

Asher manteve o olhar fixo no capitão, ainda hesitante.

"Por que confiar em você? O que garante que isso não é uma armadilha?"

Emorgo sorriu levemente, mas o cansaço em seu semblante traiu o peso que carregava.

"Porque, paladino, um homem que serve à Ordem da Manopla sabe que a única traição maior do que servir um tirano é deixar que outros sofram sob ele."

Asher sentiu a verdade nas palavras de Emorgo, o fio tênue da esperança começando a ganhar forma em seu coração.

"Avisarei meus companheiros." disse ele, firme, se afastando.

"Façam isso rápido, e estejam prontos quando a noite cair." respondeu Emorgo antes de se fundir novamente às sombras, desaparecendo tão rapidamente quanto havia surgido.

O quarto em que os heróis estavam confinados era uma mistura de austeridade e luxo. Tapeçarias representando batalhas gloriosas adornavam as paredes de pedra cinza, e um tapete espesso e desgastado cobria parte do chão de tábuas antigas. Uma lareira apagada completava o cenário, sua fuligem escura contando histórias de noites de inverno há muito esquecidas. O som de vozes e passos do lado de fora ecoava suavemente, lembrando-os de que estavam no coração do castelo inimigo.

Mor'Rein estava curvado sobre uma mesa de carvalho, os dedos finos e pálidos folheando um livro velho com brasões detalhados. Seus olhos claros e severos analisavam cuidadosamente as linhas genealógicas de Suzail, buscando algum indício de como Haroldo Benthor subira tão rapidamente ao poder. A frustração de Mor'Rein era visível; seu cenho franzido e o leve tamborilar dos dedos no livro eram indícios de sua inquietação.

Na janela, Dahaka Akmenos estava sentado, suas pernas dobradas e seus olhos escarlates brilhando enquanto observava a movimentação lá fora. O ladino tiefling parecia uma estátua, imóvel, mas com uma tensão latente pronta para explodir a qualquer momento. Suas orelhas pontudas captavam cada som no pátio abaixo, e sua cauda se mexia de leve, denunciando seus pensamentos acelerados.

No centro do quarto, Ludus Lefou, com seu humor habitual, construía um castelo de cartas na barriga de Impetor, que estava deitado em um sono profundo, roncando baixinho. A torre de cartas balançava perigosamente cada vez que Impetor respirava, mas Ludus, com destreza de bardo, ajustava cada peça com um sorriso travesso.

De repente, a porta do quarto se abriu com um estalo que reverberou pelas paredes. Impetor acordou com um rugido baixo, seus olhos azuis se arregalando ao ver as cartas desmoronando como folhas ao vento. Ludus soltou um gemido cômico e jogou as mãos para o alto.

"Ah, bela entrada, Asher! Lá se vai meu sonho de virar arquiteto!" brincou Ludus, com um olhar de falsa indignação.

Dahaka levantou uma sobrancelha, mas permaneceu em silêncio, esperando que Asher falasse. Mor'Rein fechou o livro com um estalo e se virou, encarando o paladino com olhos cheios de expectativa.

Asher entrou, fechando a porta cuidadosamente atrás de si e se adiantando com uma expressão séria.

"Preparem-se, temos uma chance" disse ele, a voz baixa e intensa. "O Capitão Emorgo veio até mim. Ele vai nos ajudar a escapar hoje à noite, mas precisamos ser rápidos e espertos. Há uma condição: devemos entregar uma mensagem a um mago chamado Horusk. Ele precisa saber da corrupção que tomou Suzail."

Ludus cruzou os braços e sorriu com ironia.

"Ah, uma missão com um toque de drama. Gosto disso. Alguma ideia de como vamos passar por todas as vigílias e guardas lá fora?"

Impetor, ainda um pouco sonolento, mas agora alerta, se levantou, flexionando os músculos e cerrando os punhos.

"Se isso for uma armadilha, Emorgo vai conhecer minha fúria!" murmurou, sua voz rouca como um trovão contido.

Dahaka finalmente se afastou da janela, seu olhar desconfiado repousando em Asher.

" E se ele estiver nos usando como peões?" questionou o ladino, sua cauda agitando-se nervosamente.

Asher assentiu, compreendendo a desconfiança dos companheiros.

"Confio na ordem que ele mostrou. A insígnia da Manopla não é dada a qualquer um. Precisamos nos mover quando a lua estiver alta. Estamos juntos nisso, certo?"

Mor'Rein deu um suspiro resignado, sua voz soando como um murmúrio antigo.

"Não temos escolha. E se o destino nos dá um caminho, que seja pavimentado com nossa escolha."

O silêncio caiu sobre o grupo por um instante, seguido por um leve assentir de cabeça de todos. A tensão se transformou em resolução; eles tinham uma chance, e fariam valer cada momento.

Na calada da noite, enquanto a lua lançava sua luz pálida sobre o castelo, o Capitão Emorgo se dirigiu aos heróis com uma expressão séria, mas determinada, entregando aos mesmos os seus pertences. As palavras que proferiu eram um misto de advertência e orientação. "Vocês devem encontrar Horusk em Arabel. A Torre de Gemas é o lugar. Mas lembrem-se, o caminho direto é perigoso demais. Não sigam pela estrada principal, está cheia de olhos. A King's Forest será a rota mais segura, mas... há perigos. Vocês precisam de alguém que conheça as trilhas."

Dahaka, sempre desconfiado, estreitou os olhos. "E por que deveríamos confiar em qualquer um nesse reino corrupto?" Emorgo não vacilou. "Porque, diferente de Benthor, eu estou do lado certo da balança. E vou dar a vocês uma chance, uma única chance, de escapar desse jogo."

Asher, inclinado a confiar, assentiu, mas Impetor foi mais direto. "E quanto aos perigos da floresta? A praga necromântica está se espalhando." Emorgo suspirou. "Mortos-vivos. Estão surgindo em números alarmantes. Vão e venham apenas durante o dia. À noite, até a própria floresta parece estar contra nós. Vocês precissaram contratar algum batetor ou patrulheiro para guiá-los pelo caminho."

Com as instruções claras, o Capitão deu um breve aceno. "Boa sorte. Espero que sobrevivam... por todos nós." E, com um gesto furtivo, abriu os portões do castelo, liberando-os sob o manto da noite. Atravessando as sombras, os heróis deixaram Suzail para trás, com o eco das palavras de Emorgo ainda ressoando em suas mentes.

Seguindo o conselho de Capitão Emorgo, os heróis se mantiveram na rota segura durante o dia, aproveitando a luz do sol que parecia afugentar os perigos das sombras. As árvores esparsas da paisagem cederam lugar a uma vasta pradaria, onde colinas suaves se estendiam como um manto verde salpicado de flores silvestres. O vento murmurava por entre os caules altos da grama, carregando consigo o aroma fresco e terroso da natureza desperta. O grupo, após dias tensos e noites insones, finalmente sentia um vislumbre de paz, mesmo que breve.

Ludus, com sua típica alegria despreocupada, deixou escapar um riso ao avistar um grupo de ovelhas pastando tranquilamente próximo ao caminho. Seus olhos brilhavam com um entusiasmo quase infantil.

"Olhem só, amigos!" exclamou ele, acelerando o passo e se aproximando dos animais. "Quem diria que a serenata de hoje seria para um público tão distinto?"

Ele se abaixou e passou a mão sobre a lã macia de uma das ovelhas, que permanecia inerte por um instante. Mas então, o impensável aconteceu: a ovelha mexeu a cabeça para trás e, com um olhar astuto e uma expressão que misturava indignação e humor, soltou:

"Ow! Tira a mão de mim, abusado!"

A voz inesperada fez Ludus soltar um grito agudo de surpresa e cambalear para trás, caindo sentado com um baque que fez os outros heróis se virarem em alerta. Impetor, sempre pronto para uma luta, levou a mão instintivamente ao cabo de seu machado.

Antes que pudessem reagir de forma mais drástica, a "ovelha" começou a se contorcer de maneira surreal, como se estivesse mudando de forma. No lugar da lã branca e espessa, um casaco marrom escuro se formava, e logo, surgia uma halfling de cabelos cacheados e olhos vivos, uma risada clara e contagiante escapando de seus lábios.

Genna Pele-de-Ovelha.
"Vocês deveriam ver a cara de vocês!" disse ela, limpando uma lágrima imaginária do canto do olho. "Que susto, hein? Não é todo dia que aventureiros são recebidos com tanto entusiasmo. Sou Genna, do clã Pele-de-Ovelha, e este é o território do meu povo."

Ludus piscou várias vezes, ainda atônito, mas um sorriso lento começou a se formar em seu rosto.

"Bom, Genna, devo dizer que seu disfarce é impressionante!" comentou ele, levantando-se e batendo a poeira das roupas.

Mor'Rein, que observava a cena com as sobrancelhas erguidas, bufou baixinho, mas não conseguiu evitar um esboço de sorriso.

"E então, Genna do clã pele-de-ovelha," disse Dahaka, a desconfiança ainda presente em sua voz, "Por que Halflings pastores habitariam essa planíce?"

A conversa que se desenrolou revelou detalhes fascinantes sobre o passado do clã. Genna, com um brilho nostálgico nos olhos e a voz suave, começou a narrar a história.

"Os Pele-de-Ovelha sempre foram um clã de halflings pastores" explicou, gesticulando levemente com as mãos. "Por gerações, enfrentamos os ataques incessantes de um clã de ogros vorazes. Eles vinham das colinas, destruindo nossas vilas, roubando nossos rebanhos e, por vezes, levando até nossos jovens. Mas tudo mudou com a chegada de Leopien."

Dahaka, que estava de braços cruzados, ouviu atentamente, seus olhos escarlates focados na halfling. Ludus arqueou uma sobrancelha, intrigado, enquanto o resto do grupo permanecia em silêncio, mas com os olhos atentos.

"Leopien espalhou um boato entre as criaturas de que a carne de ovelha era envenenada e mortal para ogros " disse Genna, um sorriso travesso se formando em seus lábios. "Em pouco tempo, o medo se alastrou e eles pararam de nos atacar. Foi a virada de que precisávamos."

Ela olhou ao redor, como se os campos agora pacíficos ainda guardassem ecos da tensão de outrora. Ludus, não conseguindo segurar a excitação, soltou uma gargalhada.

"Que ideia brilhante! Nunca subestimem a criatividade de um bom truque" comentou, ainda rindo, os olhos cintilando de admiração.

Genna sorriu em resposta, mas logo a expressão tornou-se séria, uma sombra de preocupação passando por seu rosto.

"Mas isso foi a muito tempo. Leopien, meu mestre, partiu em uma jornada para investigar os rumores dessa praga necromântica que vocês certamente conhecem. Ele seguiu em busca de respostas, mas nunca voltou. E, desde então, a floresta e as terras ao redor têm ficado mais perigosas."

As palavras da halfling lançaram um silêncio pesado entre os heróis. Dahaka, com seus olhos escarlates brilhando na luz da tarde, observava cada detalhe da expressão de Genna, sempre atento a uma mentira não dita. Impetor, por sua vez, franziu o cenho, uma linha de preocupação surgindo em sua testa.

"Conhece a King's Forest?" perguntou Impetor, rompendo o silêncio. "Precisamos de uma passagem segura até Arabel. Qualquer atalho ou guia seria bem-vindo."

Genna coçou a cabeça, refletindo, enquanto o vento farfalhava sua capa.

"Conheço a floresta muito bem" admitiu." Mas atravessá-la agora, com tudo que está acontecendo... seria arriscado. No entanto, sei de alguém que pode levá-los em segurança. Um guia confiável, um velho amigo do clã. Mas vocês precisarão confiar em mim.

Asher, que até então observava em silêncio, analisou o rosto da halfling e, após um breve momento de reflexão, fez um leve aceno de cabeça. Ele sabia que o tempo era um luxo que não possuíam.

"Aceitamos a sua ajuda, Genna. Leve-nos até ele."

Um murmúrio de consenso ecoou entre os companheiros, enquanto a pequena halfling começava a guiá-los pela pradaria. Sob a luz do sol que se inclinava lentamente para o oeste, os heróis seguiram com passos cuidadosos, conscientes de que a densa e traiçoeira King's Forest aguardava à frente, guardando tanto perigos quanto promessas de respostas.

Genna despediu-se de sua família com um abraço apertado e um olhar carinhoso que transmitia tanto afeto quanto preocupação. "Volte antes do anoitecer, hein!" alertou sua mãe, a voz cheia de ternura e um leve temor, enquanto observava a jovem halfling partir junto com o grupo de heróis. O céu estava tingido de um azul suave, e a pradaria se estendia como um tapete ondulante de grama verde que sussurrava sob a brisa. Os primeiros passos foram tomados em um silêncio reverente, quebrado apenas pelo farfalhar da vegetação.

Genna, com seu espírito inquieto e animado, logo começou a tagarelar sobre histórias do clã e sobre a trilha que seguiriam até "O Ninho do Corvo", um local tão misterioso quanto o nome sugeria. A energia dela era contagiante, e Ludus, sempre pronto para elevar os ânimos, lançou um olhar cúmplice e começou a batucar levemente no cabo de sua espada, o som ressoando como um tambor improvisado.

"Ei, Genna, você conhece aquela velha canção dos Halfling das Terras-altas?" perguntou Ludus com um sorriso travesso.

"A que fala sobre cerveja?" respondeu Genna, os olhos castanhos faiscando de empolgação.

Logo os dois estavam cantando em uníssono, as vozes ecoando pela pradaria com uma harmonia festiva. A melodia tinha um ritmo cigano, acelerado e cheio de vida:

"Quando o sol se põe, o barril se ergue,
A caneca cheia, a alma festeja!
Cerveja amarga, doce alegria,
É o gosto da casa, é o fim do dia!"

"Que venham os risos, que venham os cantos,
A família à mesa, em amor e prantos!
Dançamos juntos, irmãos e irmãs,
Até que a lua beije as manhãs!"

Ludus e Genna riam entre as estrofes, girando e dançando com passos leves enquanto caminhavam. O som de seus risos e a cantoria vibrante pareciam afastar as sombras do mundo, como se por um breve momento, tudo fosse apenas paz e celebração.

Impetor, por outro lado, caminhava mais atrás, com os braços cruzados e uma expressão carrancuda. Seus olhos draconianos, de um azul profundo, se estreitaram à medida que a barulheira aumentava. Com os dentes cerrados, ele murmurou em um tom baixo e ameaçador, "Se esses dois não calarem a boca logo, vou fazer um favor a todos e arrancar a língua deles."

Asher, que acompanhava Impetor de perto, soltou uma risada baixa e deu um tapinha amigável em seu braço. "Ah, deixe-os, Impetor. Uma canção pode ser a única coisa que mantenha nossa sanidade intacta."

Impetor apenas bufou enquanto a canção continuava, enchendo a pradaria de uma alegria que era difícil de se encontrar nos tempos sombrios que enfrentavam.

Enquanto o sol atingia seu pico, a trilha os levou a uma visão peculiar: uma árvore imensa e retorcida, suas folhas já caídas pelo outono. No topo dela, uma estrutura improvisada, mais parecendo um abrigo do que uma casa, balançava suavemente ao vento. A árvore estava cheia de corvos que grasnavam e pululavam de galho em galho, e algo incomum capturava a luz do sol, fazendo a árvore parecer cheia de pequenos brilhos, como se estivesse adornada com milhares de estrelas. Aproximando-se mais, os heróis perceberam que o brilho vinha de incontáveis objetos presos aos galhos: pedaços de vidro, broches, moedas e qualquer outra coisa que reluzisse.

Genna parou diante da árvore e puxou uma corda fina que pendia de um dos galhos mais altos. Um som de sino ecoou, seguido imediatamente pelo tumulto dos corvos que se dispersaram, incomodados pelo barulho repentino. De repente, uma voz irritada lá de cima ressoou: “QUE É AGORA? Já falei que não tenho culpa do que esses pestinhas trazem para cá!"

Genna, com um sorriso travesso, gritou de volta: “Senhor Flurry, tem gente querendo ajuda para cruzar a King's Forest!”

Mack Flurry.
Um silêncio breve caiu sobre o grupo, apenas interrompido pelos grasnidos dos corvos remanescentes. Então, com uma agilidade surpreendente, um homem desceu rapidamente da árvore, deslizando pelas cordas que pendiam dos galhos com uma destreza acrobática. Ele era desleixado, com barba por fazer, cabelos escuros desgrenhados e vestes simples, mas cobertas de penas de corvos aqui e ali. Ao aterrissar no chão com um sorriso no rosto, ele olhou para o grupo, estendendo os braços como se estivesse prestes a fazer uma reverência. "Bem-vindos ao meu modesto... ninho," disse ele com uma risada, dando uma piscadela. "Eu sou Flurry, Mack Flurry. Como posso ajudá-los?"

Um silêncio breve caiu sobre o grupo, apenas interrompido pelos gruñidos abafados dos corvos ainda empoleirados nos galhos secos. Então, Mack Flurry ouviu atentamente enquanto Asher começava a explicar a situação.

“Asher” ele começou, sério “precisamos de alguém que nos guie com segurança até Arabel. King’s Forest está perigosa demais, e não podemos usar as estradas principais. Precisamos de um guia experiente, e rápido.”

Mack coçou a barba por fazer, inclinou a cabeça para o lado e sorriu com um brilho travesso nos olhos. “Guia, é?” Ele pegou um galho caído e começou a girar no dedo. “Sim, conheço os atalhos pelas sombras e troncos caídos que ninguém usa… trilhas que nem os lobos lembram mais. Posso levar vocês até Arabel – mas claro… cada serviço tem seu preço.”

Asher respirou fundo, preparando-se para negociar. “Certo, Mack. Que tal… 10 leões dourados pela escolta segura até Arabel? E mais 5 falcões se chegarmos sem nenhum dos nossos feridos além de poeira e arranhões.”

Mack levantou uma sobrancelha, rindo. “Hmm… 10 leões, é? Isso não é nada mau. Mas sabe como é, vocês são cinco…” Ele apontou para os outros com uma piscadela. “Digamos que por 12 nós estamos acertados.”

Asher lançou um olhar rápido para o resto do grupo. Alguns desviaram o olhar, outros coçaram a nuca e fingiram que não estavam ouvindo, enquanto sussurravam entre si sobre o tamanho do preço.

Asher murmurou para si mesmo, “Mãos de vaca…”, sem conseguir esconder um sorriso torto, e puxou a bolsa. Com um suspiro resignado, ele passou as 12 peças douradas para Mack Flurry.

Mack abriu o saco de moedas como se tivesse acabado de receber um tesouro real e soltou uma risada animada. “Perfeito! Agora isso sim é um pagamento que faz um um guia sorrir!”

Genna parecia tão animada com aquilo tudo, parte dela almejava estar em uma aventura fora de casa, mas sabia que sua família precissava dela ali. "Maravilha!" exclamou, seus olhos brilhando de excitação. "Mas... Está ficando escuro. Acho que é melhor descansarem entre os nossos hoje e partirem de manhã. A floresta à noite... é perigosa, mesmo para nós."

Os heróis trocaram olhares, compreendendo a lógica de Genna. "Amanhã de manhã, então," concordou Impetor, cruzando os braços. "Mas não baixem a guarda. Se os mortos-vivos estão vagando, não importa a hora do dia."

Assim, o grupo de sete — os heróis, Genna e Flurry — começou a retornar para a vila dos Pele-de-Ovelha. O caminho de volta foi tranquilo a princípio, mas à medida que se aproximavam do vilarejo, algo parecia errado. Ao longe, sobre a luz do luar, viam ovelhas correndo em pânico, e o som de gritos ecoava pela pradaria. "O que está acontecendo?" perguntou Genna, sua voz tremendo de preocupação.

Quando se aproximaram, a visão ficou clara. Dois ogros, enormes e grotescos, estavam atacando o vilarejo. Mas algo estava terrivelmente errado com eles. Suas peles, outrora robustas, estavam cinzentas e rasgadas, com carne exposta e um odor nauseante que denunciava sua natureza. "Isso... não pode ser," murmurou Genna, incrédula. "Os ogros têm medo das ovelhas, graças ao mestre Leopien! Como isso é possível?"

Mor'Rein, sempre prático, estreitou os olhos ao observar os monstros. "Não são ogros comuns... São mortos-vivos. A praga necromante os tomou."

"As máquinas de matar sem consciência," resmungou Asher, preparando sua espada. "Nós temos que proteger os pequeninos."

Sem mais delongas, os heróis avançaram em direção aos ogros zumbis. Dahaka deslizou pelas sombras, puxando sua adaga enquanto Ludus conjurava uma canção animadora, que ecoou pelo campo, inspirando seus aliados. Flurry, com sua habilidade de combate adquirida ao longo dos anos, disparou com seu arco, mirando nos pontos mais vulneráveis das criaturas.

Ogro Zumbi.
"A diferença de um Ogro pra um Ogro Morto-Vivo é que é metade mais fácil de matar!" gritou Impetor partindo para cima das criaturas.

Genna, rapidamente recuperando sua compostura, se transformou em uma carneiro de chifres retorcidos, saltando agilmente na direção de um dos ogros, enquanto o grupo combinava suas forças para enfrentar os brutamontes. As ovelhas, em meio ao caos, corriam desesperadas, mas a família de Genna estava lutando bravamente para se proteger.

O combate foi intenso, os golpes dos ogros mortos-vivos sendo devastadores, mas os heróis se mostraram à altura. Cada movimento era preciso, cada golpe desferido com a força e a determinação de quem sabia que vidas inocentes estavam em jogo.

A luapairava sobre a batalha, sua luz prateada refletindo nas lâminas dos heróis. O ogro zumbi rugia com uma fúria animalesca, suas mãos massivas empunhando uma clava improvisada, feita de osso e pedra, balançando-a em direção a Impetor. O meio-dragão, com sua fúria pungente pela batalha, permanecia firme, encarando o monstro com seus olhos frios e calculistas.

O ogro avançou com um grito gutural, sua clava esmagando o solo próximo, fazendo pedras e terra voarem por todos os lados. Mas Impetor era ágil, muito mais rápido do que o monstro esperava. Ele girou em um movimento fluido, desviando do golpe enquanto seu machado prateado, empunhado com ambas as mãos, brilhava sob a luz da lua como se absorvesse a própria energia celestial.

Com um rugido poderoso, o meio-dragão levantou o machado e, num golpe devastador, desceu a lâmina com toda sua força. O aço cortou o ar com um som agudo, rasgando a carne morta do pescoço do ogro como papel. O brilho prateado do machado atravessou os ossos do monstro com um estalo profundo, e, por um instante, o mundo pareceu se silenciar.

A cabeça do ogro, de olhos vazios e sem alma, rolou pelo chão, ainda com a expressão de fúria congelada em seu rosto. O corpo sem cabeça balançou por alguns segundos, como se tentasse lutar contra a morte, antes de colapsar de joelhos e desmoronar no chão com um baque surdo.

Impedor, respirando pesadamente, limpou o suor da testa enquanto olhava para o cadáver do monstro caído. O brilho da lua ainda refletia no machado prateado em sua mão.

Ludus, que havia assistido a cena com olhos atentos, disse para Impetor: "Tudo bem.. Sem mais músicas durante a viagem."

O campo de batalha estava em completo caos. O ar denso com o cheiro de terra e carne podre, enquanto os heróis se moviam como sombras ao redor do ogro necromante. O monstro, decrépito e poderoso, rugia com fúria cega, golpeando o chão com sua gigantesca maça. A cada impacto, o solo tremia como se estivesse prestes a ceder.

Mor'Rein, de olhos fixos na criatura, começou a conjurar uma energia mística. O som de sua voz recitava palavras antigas, e uma rajada de energia mística disparou de suas mãos, atingindo as costas do ogro. A criatura urrou, sua pele apodrecida queimando com o impacto. No entanto, o monstro, enfurecido, girou sua maça com uma velocidade impressionante para o seu tamanho. O golpe atingiu Mor'Rein no peito com um impacto terrível.

O elfo da lua foi arremessado para longe, caindo com um baque seco no chão. Ele permaneceu imóvel, baqueado, enquanto a batalha ao seu redor continuava. "Mor'Rein!" gritou Asher, vendo seu companheiro caído.

O ogro, ainda de pé, bufava e sacudia a cabeça, tentando localizar o próximo alvo. Asher, rapidamente adaptando-se à situação, gritou com determinação: "Vamos amarrá-lo!" Ele lançou uma corda em direção a Genna, que, em sua forma de carneiro, abocanhou a corda com firmeza.

Os dois se moveram em círculos, Genna correndo ágil em torno das pernas enormes do ogro enquanto Asher, com força e precisão, ajudava a apertar a corda. As flechas de Mack Flurry voavam com precisão mortal, atingindo o ombro e o peito do ogro, que se debatia, tentando afastar os atacantes. "Ei, grandalhão! Olha pra cá!" gritava Flurry, suas flechas cravando-se no monstro como espinhos incômodos.

O ogro tentou arrancar as cordas de suas pernas, mas cada vez que puxava, a corda apenas se apertava mais, restringindo seus movimentos. O monstro cambaleava, enfurecido e debilitado.

Do chão, uma aura azul fraca começou a emanar de Mor'Rein, sua mão se erguendo lentamente. Seus olhos, ainda semicerrados, brilharam com uma última força arcana. Com um gesto final, ele sussurrou as palavras de poder, e uma Onda Trovejante emergiu de suas mãos. A força da magia explodiu do chão sob os pés do ogro, criando um estrondo ensurdecedor.

O ogro, já amarrado pelas pernas, foi jogado para trás pela explosão, cambaleando como se estivesse à beira do colapso. Suas pernas se enroscaram nas cordas, e ele caiu com um baque pesado no solo, sua maça escapando de suas mãos e rolando para longe. O som da queda ecoou pela pradaria, o corpo colossal do ogro imóvel.

Asher suspirou aliviado, caminhando até o monstro caído, ainda respirando com dificuldade após a batalha intensa. Genna, ainda em sua forma de carneiro, soltou a corda e voltou à sua forma halfling, o rosto tenso, mas aliviado. "Conseguimos... mas a que custo?" ela murmurou, olhando para a vila em destroços.

Mack Flurry guardou seu arco e sorriu com satisfação, ainda com a adrenalina pulsando em suas veias. "Nada como uma boa queda para acabar com a festa."

O silêncio voltou à pradaria, o cheiro da morte ainda presente no ar. Genna com os olhos cheios de lágrimas ao ver seu vilarejo destruído. "Eles... não deveriam estar aqui. Meu povo estava seguro..."

Ludus, colocando a mão no ombro da amiga, falou suavemente: "Nós vamos descobrir o que causou isso. Mas, por agora, precisamos garantir que sua família esteja bem e que nada mais nos ameace."

Os heróis, cansados, mas ainda com energia suficiente para ajudar, se organizaram rapidamente. As chamas que ainda lambiam as pequenas construções da vila precisavam ser contidas. Impetor, com sua força impressionante, começou a derrubar os poucos restos de madeira que ainda pegavam fogo, enquanto Ludus corria de um lado para o outro, utilizando os baldes de água que os halflings sobreviventes traziam dos poços. Genna, ajudava a retirar as ovelhas assustadas do caminho.

Asher organizou os halflings, orientando-os a resgatar tudo o que pudesse ser salvo. Ele também começou a tratar os feridos, com mãos firmes e palavras calmas. Mesmo com a face endurecida pela batalha, havia um olhar de compaixão ao tratar as famílias devastadas pela tragédia.

Mack Flurry, após garantir que a área estava segura, começou a coletar as flechas que havia disparado e a verificar os arredores. Ele não confiava que apenas dois ogros tinham vindo — a praga necromântica podia esconder muitos outros perigos nas sombras.

Enquanto os outros heróis ajudavam na reconstrução da vila, Mor'Rein, ainda recuperando-se do golpe do ogro, observava com um olhar preocupado. Ele se movia lentamente, seus pensamentos imersos na situação caótica ao seu redor, tentando entender a conexão entre os ogros mortos-vivos e a praga necromante que devastava a região.

Dahaka, por sua vez, mantinha-se à margem, observando atentamente os arredores da vila. Ele não se oferecia para ajudar diretamente, mas sua presença furtiva garantiu que nenhum perigo inesperado se aproximasse. Com um olhar astuto, ele analisava os escombros, em busca de objetos que poderiam ser úteis na jornada, aproveitando a situação para coletar qualquer coisa que chamasse sua atenção, sempre ciente de que, em tempos de crise, um pouco de astúcia poderia ser valioso.

Ao longo da noite, os heróis trabalharam ao lado dos halflings, consertando o que podiam, levantando paredes desmoronadas e velando os corpos dos que tinham caído. O luto silencioso se misturava ao cansaço, e as palavras de consolo que trocavam entre si eram breves, mas sinceras.

Quando o fogo finalmente cessou e a vila estava relativamente estável, os heróis se reuniram ao redor de uma fogueira improvisada. Ludus, sempre o primeiro a quebrar o silêncio com sua voz animada, tocou uma melodia suave em seu pandeiro, uma canção que trouxe um pequeno consolo aos corações abatidos. Genna, com o rosto sujo de cinzas, se aproximou dele e sentou-se, a tristeza ainda visível, mas suavizada pela música.

"Obrigada... a todos vocês," disse Genna, a voz tremendo um pouco, mas cheia de gratidão.

Impetor, polindo a lâmina do machado à luz das chamas, acenou com a cabeça. "Fizemos o que devíamos fazer. Amanhã partimos para a King's Forest... mas por enquanto, o importante é que você e os seus estão a salvo."

Eles se recolheram entre as ruínas da vila, exaustos, mas com a consciência tranquila por terem ajudado. O céu, limpo e estrelado, observava sobre eles, uma lembrança de que, mesmo nas horas mais sombrias, ainda havia esperança.

Ao amanhecer, com o primeiro raio de sol, os heróis se levantaram prontos para continuar sua jornada. Havia muito a ser feito, mas agora estavam unidos por algo maior — não apenas por uma missão, mas por um propósito compartilhado.

Episódio 4 - Por Dentro do Bosque.

Data: 18 de Uktar de 1372, 6h
Local: Vilareijo dos Pele-de-Ovelha - Padarias próximas a King's Forest, Cormyr, Faêrun.

Os heróis partiram do vilarejo dos Pele-de-Ovelha ao amanhecer. Com a vila parcialmente destruída pelo ataque dos mortos-vivos, a despedida foi silenciosa e marcada pelo peso de sua nova missão. Avançando pelas pradarias cobertas de orvalho, o grupo se dirigiu à King's Forest, seguindo o plano traçado com Mack Flurry. Ele os guiaria por um caminho oculto, afastado da rota principal, onde poderiam evitar olhares curiosos e, esperavam, diminuir o risco de emboscadas.

A King's Forest, tingida pelos tons avermelhados e dourados do outono, era um lugar silencioso e envolto em uma aura pesada e misteriosa. As copas altas de carvalhos, bordos e sorveiras formavam um teto denso de folhas, espalhando raios de luz esmaecidos pelo chão úmido e quase desprovido de vegetação rasteira. A ausência de ruídos típicos da floresta era perturbadora. Nenhum pássaro cantava, nenhum esquilo saltitava de galho em galho. O silêncio opressor parecia ecoar entre os troncos das árvores, levando o grupo a murmurar sobre a possibilidade de a presença dos mortos-vivos ter expulsado a fauna local.

Apesar da tensão, o grupo manteve o ânimo. Dahaka, Ludus e Genna ocupavam-se em criar uma corrente constante de piadas e provocações. A halfling, com seu humor afiado e jeito simples, arrancou algumas risadas de Dahaka, que começava a simpatizar com sua presença. Mais à frente, Asher e Mack Flurry trocavam histórias sobre caçadas, com o caçador veterano comentando as caçadas aos javalis enquanto Asher, um tanto mais experiente em criaturas incomuns, falava sobre métodos para derrubar uma estige – o que deixou Mack ligeiramente inseguro ao perceber que Asher era mais que um simples caçador.

Impétor, liderando o grupo na linha de frente, avançava entre os troncos com a confiança de um batalhão inteiro, empunhando sua arma como quem traça uma rota de guerra. O meio-dragão abria o caminho, empurrando galhos e abrindo espaço enquanto o restante do grupo seguia, seus passos pesados contrastando com os movimentos discretos e quase reverentes de Mor'Rein. Este, ao longo do caminho, inspecionava plantas e colhia ervas junto aos troncos, a mão esguia deslizando pelos musgos e caules de modo quase ritualístico.

Mack Flurry, o guia, liderava-os pela floresta, evitando as estradas principais – rotas que serpenteavam pela King's Forest e ligavam as pequenas vilas e fazendas de Cormyr. Evitar as estradas significava percorrer um trajeto mais denso e acidentado, mas o grupo parecia acostumado com a adaptação ao terreno. Enquanto avançavam pela trilha improvisada, a presença do rio Starwater, fluindo lentamente próximo deles, oferecia um raro som no ambiente silencioso e monótono da floresta.

Durante a caminhada exaustiva pela floresta, já próximo do anoitecer, Genna interrompeu a marcha ao perceber algo peculiar no chão – um círculo místico desenhado em traços finos e precise, tingidos de um leve brilho arcano. O pequeno selo intrigava a halfling, e sua curiosidade a aproximou, examinando o emaranhado de símbolos que, a princípio, pareciam inofensivos. Mor'Rein, com experiência em magia, logo reconheceu o desenho, identificando-o como um selo de contenção. Tratava-se de uma armadilha arcana, usada para confinar criaturas e impedir que escapassem de um ponto específico.

Mas antes que ele pudesse alertá-la, Genna já havia se inclinado para tocar o selo, desfazendo-o. Uma esfera de luz nebulosa surgiu no ar, preenchendo o ambiente com um brilho amarelo intenso, como uma tocha viva em meio à penumbra da floresta. Genna, assustada, recuou alguns passos, mas não rápido o suficiente. A esfera atravessou seu corpo em um movimento brusco e rápido, emitindo um som pesado ao colidir com o solo, deixando-a instantaneamente desacordada.

Os heróis ergueram as armas, mas, antes que pudessem reagir, a esfera lançou-se sobre Genna, emitindo um brilho intenso que fazia o ar vibrar. Em uma cena perturbadora, o corpo da halfling começou a desintegrar-se sob o toque da entidade. Sua pele parecia derreter, expondo ossos e músculos que se desintegravam em fragmentos de luz. O olhar de horror congelou no rosto de seus companheiros, incapazes de interromper a manifestação. A luz desapareceu tão subitamente quanto surgira, levando consigo qualquer sinal de vitalidade que restava em Genna.

Em silêncio, devastados pelo ocorrido, os heróis se reuniram para enterrar o que restou de sua companheira, suas feições marcadas pela tristeza. A noite caiu ao redor deles, a floresta finalmente devolvendo seu silêncio em respeito à amiga perdida.

À medida que o grupo processava a trágica perda de Genna, Mor'Rein quebrou o silêncio sombrio, explicando que o círculo místico era, na verdade, uma barreira para conter um Fogo Fátuo – um ser Morto-Vivo faminto por energia vital que drenava a vida de quem ousasse cruzar seu caminho. A revelação provocou uma onda de indignação; Ludus virou-se contra o mago, exclamando com raiva sobre o porquê de Mor'Rein não tê-los alertado antes. “Esses malditos segredos,” gritou Ludus, “custaram a vida de alguém! De alguém do nosso grupo!”

Mor'Rein, impassível e defensivo, rebateu: “Passei anos munindo minha mente com informações mais antigas que o tempo. Não tenho a obrigação de proteger os outros da própria ignorância.” As palavras cortaram o grupo de maneira dolorosa, um lembrete do risco que a magia e o conhecimento arcano podem representar quando mal interpretados ou não compartilhados.

Assim que o silêncio tomou conta do grupo após a discussão acalorada, Asher, tentando trazer algum consolo, interrompeu a tensão. Sua voz baixa e controlada convocou os demais para uma breve cerimônia em memória de Genna. “Alguém gostaria de falar algumas palavras?”

Mor'Rein, normalmente seguro de suas palavras, disse apenas, “Sinto muito.” Sua voz, ainda que contida, soava carregada de pesar.

Dahaka foi o próximo. Ele respirou fundo, visivelmente afetado pela perda da halfling, e disse, “Ela era mais corajosa do que qualquer um de nós poderia imaginar. Não importa de onde viemos, ela nos lembrou que todos somos iguais, ninguém é melhor que ninguém.”

Impetor, que preferia aço a discursos, buscou as palavras por um instante antes de falar: “Genna… era uma ovelhina guerreira com o coração de um leão. Que sua memória viva na nossa luta.”

Mack Flurry, que conhecia Genna desde antes da jornada, sorriu com tristeza e disse, “Os Pele-de-Ovelha nunca esquecerão a heroína que escolheu partir para enfrentar o desconhecido. Genna… Que os Deuses acompanhem sua partida.”

Quando Asher ergueu a cabeça, preparando-se para encerrar com uma prece final, Ludus, que até então estivera em silêncio, começou a cantar. Sua voz, a princípio baixa, logo se ergueu com força, e os outros permaneceram imóveis enquanto ele cantava uma melodia de lamento, chamada:

A Valente Ovelha

"Na vila de sonhos e lãs, ela nasceu,
De passos pequenos, com força floresceu.
Da sombra, fez caminho, em meio à neblina,
Ela, nossa amiga, nossa luz divina.

Por colinas e vales, seu riso se foi,
Com o aço e o riso, até o fim, se expôs.
Corajosa e leve, enfrentou o perigo,
Nunca temeu, sempre foi abrigo.

Oh, Genna, de coração doce e alma bravia,
A estrela que parte, mas jamais se esfria.
Em nossas memórias, ao sol e à lua,
És a ovelha valente que pra sempre flutua.”

A canção reverberou na clareira, e por um momento, o ar parecia mais leve, como se a própria Genna tivesse ouvido a homenagem.

No caminho, sinais de acampamentos orcs apareceram, restos de fogueiras ainda recentes e ossos de caça espalhados. Mor'Rein recordou que, após o fim da Guerra Goblin no ano anterior, muitos orcs buscaram refúgio na King's Forest, encontrando ali uma segurança temporária em meio ao caos que tomava conta das regiões ao redor. Cansados e tensos após os eventos do dia, o grupo optou por montar acampamento no mesmo local, aproveitando-se das instalações rudimentares deixadas para trás pelos orcs. Sob a luz bruxuleante das fogueiras, examinaram os pertences abandonados: armas de metal enferrujado, pedaços de couro reforçado e alguns ossos parcialmente roídos. A presença orc era evidente, mas parecia que o grupo tinha abandonado o local com pressa.

Na manhã seguinte, Mack Flurry, ansioso por cruzar a floresta antes do anoitecer, liderou o grupo através das trilhas ocultas da King's Forest. As árvores se erguiam em um silêncio inquietante, galhos secos quebrando-se sob os pés enquanto avançavam. A floresta, envolta em sua atmosfera de mistério e perigo, parecia ecoar a perda recente de Genna a cada passo.

Finalmente, após horas de caminhada e uma longa exploração pelos caminhos menos trilhados da mata, o grupo avistou os muros de Arabel.

Com a visão das muralhas de Arabel ao longe, o grupo sentiu um alívio palpável. As horas de caminhada pelas trilhas pouco trilhadas da King's Forest, com o peso da perda ainda fresco em suas mentes, finalmente levaram a algum lugar seguro, ou ao menos ao próximo passo de sua jornada.

Mack Flurry parou, olhando para o grupo com uma expressão firme, mas serena. “Aqui estamos, Arabel. Missão concluída.” Ele estendeu a mão, recolhendo seu pagamento enquanto trocava um último olhar com cada um dos heróis. “A partir daqui, é com vocês. Se precisarem de um guia, já sabem onde me encontrar. Estarei voltando para o ‘Ninho’… e passarei na Vila dos Pele-de-Ovelha para contar a eles sobre o triste fim da nossa Genna. Eles merecem saber.”

Com uma saudação e um sorriso que carregava respeito e luto, Mack partiu. Os heróis observaram enquanto ele se afastava, um aliado que carregava consigo a memória de sua companheira e as promessas de que, nas dificuldades, sempre há laços que persistem.

Episódio 5 - A Hora de Horusk.

Data: 18 de Uktar de 1372, 10h 30min
Local:  Padarias próximas a King's Forest, Cormyr, Faêrun.

Aproximando-se de Arabel após horas de caminhada, os heróis enfim chegaram aos portões da cidade fortificada. Ao entrar, eles foram rapidamente envolvidos pela vida mercante agitada, com carroças carregadas de carvão, barris de vinho e caixas de joias sendo transportadas pelas ruas pavimentadas. Conhecida por ser o principal centro de comércio de Cormyr, Arabel ressoava com o som de transações e martelos. Além das joias finas e preciosidades negociadas em feiras e praças, mercadorias como Bitter Black — uma cerveja preta encorpada e reverenciada pela população — e o saboroso queijo local estavam entre os produtos mais populares. Os habitantes de Arabel, ao contrário das outras cidades de Cormyr, podiam portar armas abertamente, desde que respeitassem a segurança real, o que acrescentava uma atmosfera imponente às ruas.

Dahaka, reconhecendo algumas figuras familiares, rapidamente se desviou do grupo e procurou os becos mais discretos. Seus antigos conhecidos logo o reconheceram: “Ora, ora, ora, Dahaka Faca-de-Manteiga!” A expressão de Dahaka se fechou, e ele rosnou em resposta, “Ora, Cedric, já falei pra não me chamar assim!” Cedric riu e deu-lhe um tapinha no ombro. “Como quiser, de qualquer jeito, é bom ver essa cara feia!” A interação amistosa rendeu ao grupo informações valiosas. Dahaka soube, por meio dos seus contatos criminais, que a notícia da fuga deles ainda não havia se espalhado, o que lhes dava alguma segurança temporária.

Ainda assim, os heróis sabiam que a discrição era essencial. Com passos cuidadosos e se misturando à multidão, eles seguiram em direção ao objetivo. Impetor, no entanto, estava inquieto, resmungando sobre a falta de ação, insatisfeito com os dias de travessia pela floresta sem combates.

A tensão e a expectativa aumentaram quando, à distância, eles avistaram a Torre da Gema de Horusk. A torre, brilhando com uma tonalidade verde-esmeralda sob a luz do dia, parecia irradiar uma aura arcana. Seu topo cintilante refletia a luz em todas as direções, e as pedras incrustadas em suas paredes emanavam uma presença quase hipnotizante, como se contivessem um poder escondido.

Horusk.
Ao chegarem à torre de Horusk e baterem na porta, ela se abriu sozinha, claramente manipulada por magia. Uma voz aguda ecoou de cima: "Intrometam-se!" Os heróis trocaram olhares rápidos e subiram a escadaria, o ambiente repleto de símbolos arcanos e fragrâncias desconhecidas. No alto, eles encontraram Horusk, o gnomo magricelo envolto em trajes volumosos de cor índigo e com um chapéu extravagante, que o fazia parecer um cogumelo de jardim. Ele estava sentado diante de um grande grimório, e, sem tirar os olhos do livro, perguntou: "Pois não? Posso ajudar em alguma coisa?"

Asher Greymane respirou fundo e, com um olhar determinado, começou: “Capitão Emorgo nos enviou. Precisamos de ajuda com a situação dos mortos-vivos.” Quando o nome do capitão foi mencionado, Horusk fechou todas as janelas com apenas um gesto sutil de sua mão, e as luzes acenderam de forma repentina, deixando os heróis tensos e com a atenção total voltada para o mago.

“Continue,” ordenou o mago.

“Fomos contratados por Haroldo Benthor para a comitiva ‘Ponta da Lança’,” Asher explicou. “A primeira missão dos meus companheiros aqui foi atacar um laboratório da ‘A Cura’. Eles tinham o elixir que poderia proteger os mortais dos mortos-vivos.”

Dahaka interrompeu, com um sorriso astuto. “E claro, a gente achou que tudo era muito bonito… até descobrir que Benthor estava em conluio com uma Megera chamada Darsha e por extensão... Os Zentharim.”

“Fomos feitos prisioneiros por um dia!” Impetor Ragrinof exclamou, o tom de indignação evidente em sua voz. “Mas o Capitão Emorgo nos ajudou a escapar.”

“E isso foi apenas o começo.” Mor'Rein comentou, com sua voz calma e profunda. “A corrupção vai além de uma simples traição.”

“Como se já não houvesse drama o suficiente!” Ludus acrescentou, piscando. “Acho que temos material suficiente para uma canção de sucesso!”

Horusk ouvia atentamente, balançando a cabeça. “Desconfiava de Benthor. Os Zentharim estão tramando algo grande, e essas invasões necromânticas estão conectadas a interesses maiores. Não sei quem está por trás disso, mas sinto que é alguém poderoso.”

Asher, sentindo o peso das palavras de Horusk, disse: “Precisamos agir rapidamente. Os Zentharim já devem saber da nossa fuga a essa altura.”

“Perfeitamente, fico feliz de saber que estamos na mesma página.” Horusk concordou. “Vocês devem seguir de onde o Capitão Emorgo parou. Precisei cortar contato com ele para não comprometer sua infiltração na corte de Suzail. O próximo passo dele era encontrar Manter Clipster, um ‘Presa’ que faz negócios em Arabel. Ele pode ter informações sobre a base dos Zentharim em Cormyr.”

Dahaka falou encostado da parede. “Eu conheço Krim, o Falador. Nenhuma maldita peça de cobre troca de mão nessa cidade sem que ele fique sabendo. Se alguém puder nos ajudar, é ele.”

Horusk então providenciou cinco poções de cura, entregando-as a cada um. “Preparem-se. Não será uma missão fácil. Os Zentharim são astutos.”

“Finalmente! Um Pouco de ação...” declarou Impetor, com um sorriso cheio de confiança.

Asher olhou para os outros, firme. “Então, vamos limpar essa podridão de Cormyr.”

Os Heróis deixaram a Torre de Horusk com uma determinação fervorosa, cada passo ecoando em suas mentes como um mantra: encontrar Krim e, com ele, descobrir a localização de Manter Clipster. Nas ruas escuras de Arabel, Dahaka, Ludus e Impetor formavam um trio inusitado para buscar informações sobre Krim.

Enquanto Dahaka avançava com passos firmes e um olhar perscrutador, sua mente era um turbilhão de estratégias e planos. Ele mantinha o foco, observando cada esquina, cada sombra, como se estivesse esperando que um bando de bandidos saltasse à vista. Ao seu lado,  era um contraste vibrante, suas mãos gesticulando animadamente enquanto parava para admirar um mural colorido que adornava a parede de um beco estreito. “Olhem isso! Que obra de arte! Se isso tivesse em alguma parede aristrocrática iam chamar de arte moderna, mas aqui é vandalismo... Hipocrisia!” ele exclamou, como se acabasse de descobrir o significado da vida.

Impetor, com seu jeito mais pragmático, revirou os olhos e riu. “Se você não parar de olhar para a parede, vai acabar levando um golpe de alguém. Não acho que Krim esteja se escondendo atrás de um grafite.”

Dahaka lançou um olhar fulminante para os dois, a impaciência evidente em seu tom. “Precisamos nos concentrar. Vamos encontrar Krim rapidamente.”

Mas Ludus, irrefreável, deu um passo à frente, quase dançando enquanto falava. “Objetivo, até parece! A vida é feita de momentos! Precisamos viver um pouco! Afinal, não estamos a caminho da aventura?”

“Espero que com aventura você queira dizer: Luta,” Impetor comentou, cruzando os braços e mantendo um semblante sério. “O que você diria a um bando de bandidos? ‘Oi, sou Ludus, o artista?’”

Ludus fez uma pirueta, como se desafiasse a lógica de seu amigo. “Talvez eu devesse! Imagine, um bardo salvando o dia com canções e pintura!” A energia contagiante dele fez Dahaka suspirar pesadamente, mas a tensão da missão ainda pairava no ar.

Vitral de Selune.
Enquanto isso, Mor'Rein e Asher se dirigiam a uma antiga capela dedicada a Selune, transformada em biblioteca. O ambiente era envolvente, com a luz suave da tarde filtrando-se através dos vitrais coloridos, criando sombras dançantes no chão de pedra. Asher, no entanto, parecia distraído, os olhos fixos em um vitral que capturava sua atenção. Uma bela mulher de cabelos prateados, cercada por seres licantropos, se destacava na imagem. Ele franziu a testa, a confusão evidente em seu olhar.

“Essa é Selune...” Mor'Rein se aproximou, sem desviar o olhar de seus livros e papiros. Ele notou a expressão intrigada de Asher e decidiu esclarecer. 

“Lobisomens? Devotos a uma Deusa? Mas eles são monstros... Como podem seguir uma Deusa bondosa?” Asher questionou, tentando entender o paradoxo. Seu passado o assombrava, e a imagem o fazia questionar suas próprias crenças.

“Selune aceita todos, mesmo os mais perdidos. Existem licantropos que renegam a maldade que acompanha sua maldição, buscando redenção,” Mor'Rein explicou, se aproximando do Paladino enquanto folheava um tomo antigo. “São conhecidos como os Filhos da Lua. Eles acreditam que Selune pode purificá-los.”

Asher balançou a cabeça, fingindo desinteresse. “Um monte de bobagem.” Mas no fundo, uma fagulha de anseio e instigação lhe pertubava.

“Você não parece convencido,” Mor'Rein observou, um impassível enquanto percebia a luta interna de Asher.

“Não me diga que você acredita em tudo isso,” Asher retrucou, tentando esconder sua verdadeira curiosidade. “Parece mais uma história para acalmar crianças assustadas.”

“Ou um apelo a aqueles que procuram por esperança,” Mor'Rein respondeu, seu olhar perspicaz examinando Asher enquanto a conversa se tornava um entrelaçamento de palavras e silêncios significativos.

Com a tarde avançando, Dahaka finalmente conseguiu localizar Krim. “Eu sei onde ele está! Venham comigo!” Ele liderou o grupo por ruas tortuosas, até que chegaram a um local conhecido como “O Buraco do Rato”. Era um antro de informações clandestinas, um lugar emaranhado em sombras e segredos, onde sussurros permeavam o ar. As paredes eram cobertas por cartazes de ofertas e anúncios de negócios escusos, como se cada um deles guardasse uma história sinistra.

Dahaka empurrou a porta, que rangeu ao abrir, revelando um espaço pequeno e mal iluminado, com mesas ocupadas por figuras de todas as estirpes. “Krim deve estar aqui. Fiquem atentos,” ele sussurrou, seus olhos varrendo o ambiente.

Krim, o Falador.
Sentado em uma mesa no fundo, cercado por mercadorias duvidosas, estava Krim. Um homem de aparência polida e refinada, com olhos que brilhavam com astúcia, ele exibia um sorriso que misturava ironia e curiosidade ao ver os heróis se aproximando. “Ah, mais visitantes! O que traz vocês ao Buraco do Rato?” ele indagou, seu tom insinuando que já sabia que a conversa não terminaria de forma amigável.

“Ouvimos dizer que você tem contato com um homem chamado Manter Clipster,” Dahaka comentou casualmente, tentando captar a atenção de Krim sem assustá-lo. O esconderijo era um verdadeiro labirinto de sombras e luzes, com o cheiro de bebida e o murmúrio de conversas baixas dos rufiões ali presentes criando um cenário envolvente, quase íntimo.

Krim, recostado em sua cadeira com uma confiança relaxada, olhou para os novos visitantes com um misto de curiosidade e interesse. “Ah, Clipster,” ele disse, um sorriso desafiador se formando em seus lábios. “Sim, sim... Me recordo desse nome, deve ter passado por aqui uma ou duas vezes. O que faz um grupo como vocês atrás dele?”

“Precisamos de informações,” Dahaka respondeu, procurando ser diplomático. “Algo que, se não me engano, você pode nos ajudar.”

Krim se inclinou levemente, os olhos brilhando com um tom de malícia. “E o que vocês estão dispostos a oferecer? Informação tem seu preço, meus amigos.”

Antes que Dahaka pudesse responder, Impetor, com a energia típica de um gladiador, socou a mesa agressivamente, quase como um desafio. “Oque você me diz da seguinte proposta, você fala onde ele tá e eu não arranco esse sorrisso pomposo da sua cara oleosa!”

“Claro... claro...” Krim interrompeu, balançando a cabeça como se ponderasse a proposta. “Eu poderia muito bem auxiliar vocês e tudo mais. Mas...” Ele fez uma pausa dramática, olhando por cima do ombro, como se as sombras do lugar pudessem ouvir sua confissão. “Dois motivos me impedem de seguir nessa linha de negociação. O primeiro: Manter Clipster é um cliente fiel, além de ter conexões com os Zentharim. Iria ser uma péssima jogada entregá-lo. E o segundo…” Seu sorriso se alargou, quase irreverente, enquanto ele gesticulava para o ambiente ao redor. “Estou prestes a ficar muito, muito, muito rico! Pois acabo de perceber que um grupo de heróis foragidos da coroa acaba de entrar livremente em meu território!”

Com um estalar de dedos, Krim chamou a atenção de todos na taverna. Instantaneamente, uma onda de ladrões e rufiões começou a se preparar, puxando armas e tomando posições. O ambiente transformou-se em uma panela prestes a explodir, e as expressões dos heróis mudaram, com Impetor exibindo um brilho de animação nos olhos, pronto para a ação.

“Impetor... Camaradas contrabandistas sem nenhum escrupulo... Que tal mantermos a calma,” Ludus interveio, tentando manter a tensão sob controle. Ele percebia que a atmosfera começava a se aquecer, e a última coisa que queriam era uma briga em um lugar como aquele. Com um olhar persuasivo, ele decidiu que poderia usar suas artimanhas para criar um caminho mais suave para a conversa.

“Só precisamos de um tempo para conversar, não é mesmo?” Ludus sorriu, puxando seu pandeiro do lado, fazendo um leve toque que chamou a atenção de todos. Com uma suavidade quase hipnótica, ele começou a tocar, as batidas do instrumento criando um ambiente mais leve e descontraído. A melodia era alegre e cativante, como um convite sutil à amizade.

Krim, inicialmente intrigado, logo se viu absorto na música. O som vibrante do pandeiro parecia envolver a taverna, transformando o ar em algo palpável, quase elétrico. As tensões em seu rosto se dissolveram enquanto a melodia dançava ao seu redor.

Dahaka, percebendo a mudança, aproveitou o momento. “Sabe, Krim, não somos inimigos aqui. Estamos apenas tentando nos conectar, fazer algumas perguntas.”

A magia de Ludus começou a entrar em ação, suavizando o olhar de Krim, que agora parecia mais caloroso, quase encantado. “Conectar... sim, eu gosto da ideia.” Ele estava mais próximo de Ludus do que antes, seus olhos fixos no bardo com uma intensidade que ia além do mero interesse. “Você tem um sorrisso tão lindo... É difícil resistir a isso.”

"Ora... São os seus olhos,” Ludus disse, um pouco envergonhado, mas sorrindo de volta, sentindo a energia do momento. Ele percebeu que havia mais na situação do que apenas negócios.

“Talvez... talvez eu possa ajudar vocês com suas perguntas,” Krim respondeu, sua voz agora mais suave, como se estivesse navegando em um mar de emoções que não esperava sentir. “Mas, por favor, entendam que... Clipster é um homem difícil. Um cliente fiel, além de ter conexões com os Zentharim. A entrega dele não seria uma jogada sábia.” Ele inclinou-se mais para frente, quase como se estivesse oferecendo um segredo.

“Estamos dispostos a ouvir,” Dahaka disse, enquanto o ar ao redor deles parecia vibrar com a possibilidade de uma nova aliança.

“Então vamos conversar,” Krim respondeu, a música ainda ressoando em suas mentes, tornando tudo mais leve e próximo. Ele se deixou levar pela conversa, o encantamento de Ludus agindo como um laço invisível que os unia, enquanto a tensão que antes existia agora se transformava em algo mais intrigante. A troca de informações parecia promissora, e as interações entre eles tornaram-se um jogo de olhares e sorrisos sutis, criando um enredo inesperado que se desenrolava entre a troca de segredos e um charme que pairava no ar.

A noite caía lentamente sobre Arabel, e a taverna do Lagarto Largado se enchia com risadas e a sonoridade dos copos tilintando. Enquanto aguardavam a chegada de Manter Clipster, os Heróis discutiam em um canto, suas vozes baixas, mas a ansiedade palpável.

“Krim disse que ele estaria aqui logo,” murmurou Dahaka, olhando em volta como se esperasse que o homem aparecesse do nada. “Precisamos estar prontos. Assim que ele chegar, não teremos tempo a perder.”

Impetor, com seus músculos pulsando de impaciência, balançava os punhos. “Pronto para o combate, sempre! Vamos pegar esse Clipster e arrancar tudo o que ele sabe.”

“Vamos com calma,” Asher advertiu, um toque de racionalidade em sua voz. “Não queremos espantar o homem antes que possamos fazer perguntas.”

Manter Clipster.
Finalmente, na penumbra da noite, a figura de Manter Clipster se aproximou. Ele caminhava com um ar de confiança, mas havia uma leve hesitação em sua postura, como se estivesse aguardando alguém. Assim que ele entrou na rua, Asher e Impetor trocavam olhares significativos antes de se moverem, cercando o homem com uma determinação feroz.

“Ei, você! Manter Clipster!” Dahaka chamou, dando um passo à frente. Clipster se virou, mas antes que pudesse reagir, eles o agarraram, arrastando-o para o beco escuro atrás da taverna.

“Malditos Harpistas! Eu vou rasgar as gargantas de vocês um por e... Ei, espera um minutinho, vocês não são harpistas?” Clipster gritou, sua voz transbordando indignação enquanto lutava contra as garras de seus sequestradores. Ele se debatia, tentando se soltar, cuspindo insultos e ofensas.

“Vamos direto ao ponto,” Dahaka disse, forçando Clipster contra a parede, sua expressão feroz. “Aonde fica a base dos Zentharim?”

“Chupem um canavial de grossas e pulsantes rolas!” Clipster retrucou, desafiador. O homem, apesar de preso, mantinha uma atitude obstinada.

“Está bem, vamos fazer isso do jeito difícil,” Dahaka disse, fechando a mão em um punho ao redor dos dedos da mão esquerda de Clipster e os quebrando com um estalo que ecoou no beco. O homem gritou de dor, mas sua determinação parecia inabalável.

“Você realmente acha que pode me intimidar? Vocês são homens mortos!” ele vociferou, enquanto Impetor olhava com impaciência, quase ansioso para esmagar o homem.

“Fala logo!” Dahaka gritou, fazendo um movimento ameaçador com a lâmina. “Com quem você veio falar?”

Clipster apenas ria, a dor não o fazendo ceder. Com um movimento rápido e cruel, Dahaka usou sua lâmina para amputar a mão esquerda de Clipster, e o homem gritou de dor, seu rosto pálido se contorcendo em agonia.

“Pare! Por favor!” Ele finalmente gritou, a bravata dando lugar ao desespero. “Tudo bem! A base está em uma caverna subterrânea na parte leste das Stormhorns! Mas é impenetrável! Somente Zentharins podem entrar!”

Dahaka fez uma pausa, processando a informação. “Com quem você está trabalhando? O que mais sabe?”

“Uma carruagem com carregamento saiu de Daerlun hoje e vai passar na estrada próxima a Arabel em três dias! Eles estão levando itens cabalísticos para um ritual dos Zentharim,” Clipster revelou, o medo agora moldando suas palavras.

“Ataque! É isso que precisamos!” Impetor exclamou, empolgado com a nova informação.

Enquanto a tensão aumentava, Asher, que estava quieto até então, não pôde deixar de intervir. “Ludus, você não usou uma magia em Benthor que o obrigava a falar a verdade? Por que não usou isso agora?”

Ludus suspirou, olhando para Asher com um leve olhar distraído. “É, é, é, poderíamos ter feito um monte de coisas! Esse feitiço é complicado, tá bom? Eu vivo esquecendo dele!” 

Mas agora, com Clipster à mercê deles, Ludus rapidamente se preparou, canalizando a magia que envolveu o local em uma aura luminosa. O ar parecia vibrar, e a presença de uma verdade pura preenchia o espaço ao redor.

“O que mais você está escondendo?” Ludus perguntou, sua voz baixa e envolvente.

Com a magia envolvendo Clipster, o homem não conseguiu resistir. “Uma carruagem! Um carregamento! Altamente protegida." ele exclamou, agora verdadeiramente aterrorizado.

“Perfeito,” Dahaka murmurou, olhando para seus companheiros, um plano começando a tomar forma em sua mente.

Enquanto discutiam os detalhes, Dahaka puxou um cordão com um brasão dos Zentharim que estava pendurado no pescoço de Clipster. “Isso pode nos ajudar a nos passarmos por eles quando formos interceptar o carregamento.”

No entanto, enquanto eles discutiam os pormenores do plano, Clipster começou a rir maquiavélicamente. “Vocês realmente acham que vão sair daqui?"

De repente, das sombras, um grupo de mortos-vivos emergiu, arrastando-se em direção a eles. Quatro zumbis, com rostos pálidos e olhos vazios, marchavam em uma linha desarticulada. E, liderando-os, um ser robusto, sua armadura negra reluzindo sob a fraca luz da lua. O brilho de seus olhos sem vida iluminava a escuridão ao seu redor como brasas incandescentes.

O wight, enorme e musculoso, parecia uma abominação da vida que conhecemos. Sua carne mumificada cobria um esqueleto retorcido, e suas garras afiadas se destacavam como se fossem armas prontas para o ataque. A clava pesada que ele carregava, feita de um metal negro e retorcido, emanava uma aura adoecida e esverdeada.

“Graças à Bahamut... Um Pouco de ação!” Impetor gritou, preparando-se para o combate, sua adrenalina disparando ao ver o grupo de mortos-vivos se aproximando.

Os zumbis se moviam de maneira errática, enquanto o wight, com um sussurro gutural, dizia: “A vida é uma tolice. Vocês não têm ideia do que os espera.”

A tensão no beco aumentou, e a batalha parecia inevitável. Os heróis se preparavam para enfrentar não apenas um interrogatório mal sucedido, mas agora uma luta pela sobrevivência, em meio à risada do homem que, mesmo em sua fraqueza, havia se tornado uma fonte de traição e revelação.

Dahaka, sem perder tempo, lançou correntes em Manter Clipster antes mesmo dos mortos-vivos se aproximarem. Clipster, por sua vez, gargalhou com a boca cheia de desprezo e cinismo.

“Hahaha! Cês tão fodidos!”

O sorriso debochado de Clipster foi prontamente interrompido pelo punho cerrado de Dahaka, que o calou com um golpe direto, nocauteando-o e o atirando contra a parede. Clipster caiu inerte no chão, o riso substituído pelo silêncio, enquanto a ameaça real avançava.

Mor'Rein invocou as palavras de um encantamento antigo, e com movimentos ágeis e precisos, ele ergueu as mãos e conjurou um antigo feitiço. No centro do beco, do chão rachado, surgiram tentáculos de energia negra que se retorciam e se lançavam contra os mortos-vivos. Os zumbis foram enredados, e os tentáculos exalavam um fedor de necrose enquanto sugavam a força dos corpos apodrecidos. Sob o efeito da magia, os mortos-vivos eram incapazes de reagir, sendo momentaneamente aprisionados naquela dança de escuridão que sugava sua energia.

Impetor, vendo a cena com olhos faiscantes, avançou para enfrentar o wight. Eles se encararam por um momento, e o som do impacto de suas armas ecoou pelo beco. Com um golpe certeiro, o wight brandiu sua clava contra o peito de Impetor, que sentiu a força corrosiva da arma se infiltrando em seu corpo. Uma onda de dor o fez estremecer, mas ele rugiu em resposta, seu espírito de luta despertando em uma explosão de raiva. Impetor atacou, trocando golpes furiosos com a criatura. Cada impacto de seu machado era um desafio à energia sombria do wight, que revidava com golpes de clava em uma batalha de puro ódio.

Enquanto isso, Asher viu uma abertura. Ele ergueu sua espada, uma aura sagrada envolvendo a lâmina. Com um salto, ele desceu o golpe contra um dos zumbis que tentava escapar dos tentáculos de Mor'Rein. A devoção de Asher encheu a lâmina com uma luz radiante que cortou o ar e atingiu o zumbi, pulverizando-o em uma nuvem de poeira sagrada. Os fragmentos do cadáver morto-vivo dissiparam-se no ar, enquanto Asher, impassível, preparava-se para o próximo ataque.

Ludus Lefou, com um brilho nos olhos e sorriso astuto, observava o caos que dominava o beco. Tocando seu pandeiro com um ritmo intenso e vibrante, ele soltava um cântico desafiador, com uma energia contagiante que reverberava nos corações dos aliados.

“Vamos lá, seus molengas! Derrubem esses pedaços de carne podre! Mostrem quem manda aqui!”

As notas de sua música ganhavam força, e suas palavras, carregadas de confiança, pareciam inflamar cada um dos heróis, especialmente Impetor, que estava em uma luta brutal com o wight. Ludus sabia que seus aliados precisavam de mais do que coragem; eles precisavam de foco e persistência. Ele continuou tocando, a batida do pandeiro aumentando conforme a batalha se intensificava, como se o próprio ritmo fosse um prenúncio de vitória.

Mas então, seus olhos captaram algo: Impetor parecia começar a ceder, seus movimentos tornavam-se mais lentos, a clava venenosa do wight já o atingira diversas vezes. A determinação de Impetor era evidente, mas Ludus sentiu que as palavras de encorajamento não eram suficientes. “Droga lagartão..."

Sem perder o ritmo, Ludus olhou ao redor e avistou uma pequena pedra perto de seu pé. Ele se abaixou parando de tocar, pegou a pedra e a segurou com firmeza. Observou a movimentação do wight por um breve segundo, e, com a precisão de quem já se enfiara em muitas brigas, lançou a pedra direto na cabeça da criatura. O impacto ressoou com um “tunk!” abafado, mas o suficiente para fazer o wight virar-se, os olhos brilhosos e odiosos fixando-se em Ludus.

“Ouvira isso? O som inconfundível do reverberar de uma cabeça oca!” Ludus provocou, mantendo o sorriso debochado. O wight rosnou, irritado, e deu um passo em direção ao bardo, preparando-se para acabar com o importuno.

Era exatamente o que Ludus queria.

Impetor, percebendo a brecha, ergueu seu machado com um rugido que misturava dor e raiva. Seus olhos brilharam enquanto ele reunia toda a sua força e desferia um golpe lateral certeiro na costela do wight, afundando a lâmina profundamente na carne morta e retorcida. O impacto forçou o wight a soltar um grito gutural, cambaleando para o lado.

O wight tentou girar de volta para Impetor, mas o meio-dragão, aproveitando o desequilíbrio da criatura, deu um passo à frente e atacou novamente, seu golpe carregado com o peso da fúria acumulada. O som da lâmina rasgando o ar era quase tão feroz quanto o rugido de Impetor.

Do outro lado, Dahaka lutava para se livrar de um zumbi que se jogou sobre ele. Com força, Dahaka segurou a criatura com o braço enquanto o zumbi tentava morder seu rosto, os dentes quebrados raspando perigosamente próximo. Ele lutava para manter a cabeça do monstro afastada, sentindo o peso da criatura o pressionando para baixo. Em meio à luta, Asher surgiu e, com um movimento certeiro, cortou a cabeça do zumbi, libertando Dahaka.

No caos do beco, Dahaka se movia como uma sombra viva, esgueirando-se pelas trevas, aguardando o momento exato. Ele espreitava o wight, observando cada movimento até identificar um ponto vulnerável nas costelas esqueléticas da criatura. Com a precisão de um predador, ele se lançou das sombras, a adaga em mãos, e a cravou profundamente no corpo do wight, que soltou um urro furioso. Dahaka sentiu a adaga penetrar a carne morta, buscando o núcleo sombrio que alimentava a criatura, enquanto o wight tentava se virar, rosnando.

Enquanto isso, um dos zumbis, com uma húbris estranha e obstinada, conseguiu escapar dos tentáculos que o aprisionavam. Ele cambaleou em direção a Mor'Rein, os braços levantados de forma grotesca, o olhar vazio fixo no elfo. Mor'Rein, no entanto, permaneceu calmo. Com um simples gesto e palavras sussurradas em um idioma antigo, ele invocou uma rajada mística que desintegrou o zumbi, reduzindo-o a pó antes que pudesse atingi-lo.

De repente, o wight, ainda sofrendo com a dor da adaga de Dahaka, girou brutalmente. Em um movimento rápido, acertou Dahaka com a clava, projetando o tiefling contra a parede de pedra. Dahaka gemeu, sentindo o impacto o desorientar enquanto o chão parecia girar ao seu redor.

Recuperando-se, Impetor avançou com uma força renovada. Ele segurou o wight pelos ombros e o empurrou com força contra a parede, sua determinação inabalável. Com um grito poderoso, ele ergueu seu machado e, com um golpe brutal, o cravou no crânio do wight. A lâmina afundou na cabeça da criatura, forçando-a a soltar um grito agudo que ecoou pelo beco.

Do outro lado, Asher focava no zumbi restante. Ele ergueu sua espada e, com um movimento rápido e letal, empalou o último zumbi, ainda preso nos tentáculos de Mor'Rein. Sem perder tempo, puxou o chicote e lançou um olhar severo na direção do wight, preparado para sua próxima investida.

Enquanto isso, Ludus percebeu que Dahaka estava ferido. Ele se aproximou do tiefling, um brilho suave envolvendo suas mãos enquanto murmurava palavras de cura em uma melodia suave. Ele pousou as mãos sobre Dahaka, e uma luz dourada e reconfortante irradiou de seus dedos, fechando cortes e feridas enquanto um calor gentil se espalhava pelo corpo de Dahaka. A aura de Ludus pulsava em harmonia com a própria melodia de fundo, como um cântico de esperança em meio ao caos.

Na sombra, Dahaka, recuperado do golpe, se ergueu, balançando a cabeça para clarear a visão. Com um sorriso cínico, ele se esgueirou novamente em direção ao wight, ansioso para devolver o golpe. O wight, porém, desviou do ataque, revidando com um movimento rápido que fez Dahaka recuar, os olhos atentos e focados no próximo passo.

Mor'Rein ergueu as mãos, conjurando outra rajada mística contra o Wight. A energia arcana explodiu em um turbilhão, despedaçando parte do corpo podre e lançando pedaços da criatura pelos ares, enquanto ele se afastava, buscando evitar contato direto com o monstro.

Impetor, vendo que a batalha se aproximava do fim, rugiu em um frenesi de fúria. Ele se lançou contra o wight mais uma vez, seus golpes crescendo em força e ferocidade. O wight revidava, mas Impetor, impulsionado pela força coletiva de seus aliados, aproveitou um momento de fraqueza na postura da criatura e desferiu o golpe final. Com um rugido triunfante, ele ergueu o machado e o desceu com toda a sua força, cravando-o uma última vez no crânio do wight, dessa vez o rachano ao meio e finalmente extinguindo a energia sombria que alimentava a criatura.

Enquanto o wight se desfazia em pó, Impetor ergueu o machado, agora coberto com o sangue necromante da criatura, e bradou em vitória, um som profundo e feroz que reverberou pelo beco. Ele olhou para seus companheiros, cada um deles ferido, mas triunfante, enquanto segurava a clava da criatura como um troféu.

A batalha estava vencida.

Episódio 6 -A Emboscada.

Data: 18 de Uktar de 1372, 22h 30min
Local:  Prédio Abandonado. - Arabel, Cormyr, Faêrun.

A calma vida noturna de Arabel é pertubada pelo som de protestos indignados de Manter Clipster. Ele estava amarrado firmemente a uma das vigas, sua voz ressoando pelo espaço vazio, com ecos que tornavam seus gritos ainda mais dramáticos.

"VOCÊS! VOCÊS NÃO PODEM ME DEIXAR AQUI PRESO! ISSO É DESUMANO... ESSE LUGAR FED...!”

Antes que ele conseguisse completar a frase, Dahaka se aproxima com um sorriso sarcástico, ajustando um pedaço de tecido para amordaçar o refém. "Então você vai se sentir em casa," diz ele com uma expressão indiferente, prendendo a mordaça sobre a boca de Clipster, que lança um olhar assassino em resposta.

Enquanto isso, Ludus se posiciona com as mãos na cintura, fazendo cara de quem dá um conselho amistoso. “Ora, você entende, né, Clipster? Não podemos deixar você solto por aí, sabendo de tudo sobre nossa pequena... digamos... interceptação aos seus parceiros da Zentharim.”

Clipster tenta protestar, mas só consegue emitir sons abafados.

Impetor, cruzando os braços, solta um resmungo e completa: “Fique grato que estamos lhe deixando vivo!”

Ludus dá de ombros e sorri, agora com um tom debochado. “É isso aí. E depois que tudo isso acabar e nós voltarmos daqui... quem sabe? Podemos até lembrar de te soltar... talvez.” Ele faz uma pausa dramática, trocando um olhar com Dahaka e Impetor. “Vamos ver, ok? Tchauzinho!”

Com um último aceno, eles saem e fecham a porta, deixando Clipster amarrado e em silêncio forçado, enquanto seus grunhidos vão se tornando mais distantes.

Enquanto caminham de volta à Torre de Gema de Horusk, o grupo sente a tensão aliviada momentaneamente pelo tom descontraído da cena anterior. No entanto, a adrenalina borbulha silenciosamente enquanto o plano contra a Zentharim toma forma em suas mentes.

Mor'Rein, surpreendentemente é quem quebra o silêncio pensativo: "Então, a interceptação... Vamos fazer o plano ou improvisar no meio do caminhho novamente?"

Dahaka sorri com um brilho nos olhos. "Bom, até agora a segunda opção tem dado resultados." O grupo solta uma risada abafada, compreendendo bem o humor seco do tiefling.

Impetor, com as mãos firmemente sobre o cabo de sua nova clava, comenta em voz alta: "Estou mais do que pronto para esmagar quantos Zentharim forem necessários para isso acabar logo."

Ludus observa, enquanto anda saltitante ao lado do grupo. “Perfeito. Vamos fazer nossa pequena visita aos Zentharim, mas antes de mais nada, meus amigos...” Ele sorri, dessa vez com uma faísca de excitação no olhar. “Temos um certo gnomo mandão para vistiar."

Os heróis chegam à Torre de Gema de Horusk com passos firmes e expressões confiantes, seu plano fresquinho e uma recente satisfação estampada em seus rostos. O prédio de pedra polida e esculpida os recebe com o brilho suave de lanternas encantadas, cada uma suspensa ao longo dos corredores que levam à sala do gnomo.

Asher toma a dianteira, dando um breve toque na porta e entrando com naturalidade. “Clipster já está amarrado e bem longe dos olhos dos Zentharim," anuncia, direto ao ponto. O gnomo Horusk, ao ver o grupo adentrar a sala, abre um largo sorriso, genuinamente surpreso e impressionado.

“Ah! Magnífico! Meus caros, devo dizer que superaram qualquer expectativa! Clipster capturado em tão pouco tempo? Estou impressionado com tamanha eficiência!”

Ludus observa o entusiasmo de Horusk com uma sobrancelha arqueada e um sorriso de canto. Então, num tom quase casual, mas calculado, ele pergunta: “Mas, me diga, vossa magonifecência... o que exatamente você ganha com isso tudo?”

Horusk, pego de surpresa, fica por um instante confuso, mas Ludus continua, apertando o assunto sem disfarçar o tom incisivo. “Olha, nada contra você, mas nossa experiência com ‘benfeitores’ não é das melhores. O último que nos contratou, você sabe… NOS MANDOU DIRETO PARA A MORTE!”

O gnomo observa os olhos atentos de Ludus, e a desconfiança que se estende por todos os integrantes do grupo, de Asher a Mor’Rein. Ao perceber que precisava acalmar as suspeitas, Horusk adota um semblante compreensivo, abre um largo sorriso e, com um toque quase teatral, ergue-se e ajeita as dobras do longo manto.

“Ah, claro, uma pergunta justa! Onde estão meus modos? Permitam-me, então, uma apresentação digna.”

Ele inspira profundamente, e parece se preparar para um extenso e complicado monólogo:

“Eu sou Horusk Ilenbon Tertellium Harriston, o Segundo Filho do Senhor de Harriston, Guardião da Sabedoria Secreta, Protetor dos Equilíbrios Arcanos, e — talvez o título que mais orgulho me dá — membro honorável e fervoroso dos Harpistas. Somos uma sociedade antiga, nascida nas sombras, mas sempre guiada pela luz do propósito. Combatemos a opressão, buscamos o equilíbrio entre a natureza e a civilização, e juramos proteger aqueles que não podem se proteger.”

Horusk prossegue com o tom de alguém contando uma história que já fora contada diversas vezes. “Entrei para os Harpistas há décadas, quando ainda era jovem, e meu coração ansiava por justiça e sabedoria. Participei de batalhas cruéis e de missões diplomáticas nas profundezas de calabouços esquecidos. Estive lado a lado com homens e mulheres notáveis, mas nada — e digo isso sem a menor dúvida — superou a honra de ajudar Elminster em pessoa em sua cruzada. Atualmente, ele lida com assuntos de altíssima importância para o equilíbrio da magia em Faêrun, e eu, como um ‘Coruja Sábia’ dos Harpistas, tenho a missão de agir aqui, no âmago de Cormyr, contra o avanço inclemente dos Zentharim.”

Horusk faz uma pausa para inspirar dramaticamente, permitindo que suas palavras fiquem ecoando nos pensamentos dos heróis. Ele então caminha até uma mesa próxima e abre um compartimento oculto, retirando uma série de cartas cuidadosamente preservadas, todas com o selo dos Harpistas. Entre as cartas, uma se destaca: um papel envelhecido, escrito em tinta mágica, com o familiar e icônico símbolo de Elminster no canto superior.

“Ora, senhores, posso garantir que não sou um oportunista qualquer, tampouco um mero contratante. Aqui estão os documentos que autenticam minha posição e correspondências trocadas com o próprio Elminster. Confiem que minha missão aqui é mais do que altruísmo: é dever.”

Ele sorri ao ver que as dúvidas e tensões dos heróis se dissolvem pouco a pouco. Ludus, especialmente, parece agora mais convencido, enquanto Asher e Mor’Rein observam com genuíno interesse as cartas nas mãos do gnomo.

“Então, caros amigos,” continua Horusk, sua voz mais calorosa, “que tal unirem-se à minha causa? Os Harpistas sempre se beneficiaram de almas corajosas e ágeis. Tenho a plena confiança de que juntos poderemos frear o avanço dos Zentharim em Arabel — talvez até além.”

Os heróis trocam olhares cúmplices, e um sentimento de entusiasmo coletivo se espalha entre eles.

Ao longo daquela noite, Horusk e o grupo de heróis traçaram cada detalhe do plano com o minucioso cuidado necessário para garantir a interceptação do carregamento Zentharim. Horusk, com mapas detalhados da estrada de Arabel e relatos de patrulhas da área, forneceu informações essenciais para escolherem um ponto ideal para a emboscada.

Logo ao amanhecer, após uma noite de preparação cuidadosa, os heróis deixaram a torre e começaram a longa caminhada pela estrada. Por dois dias, viajavam sob o sol pálido de Uktar, avançando apenas durante o dia, parando para descansar e observar o terreno, atentos a qualquer movimento ou sinal dos Zentharim ou dos Mortos-Vivos que rondavam a região. As paisagens variavam entre colinas pedregosas e clareiras empoeiradas, mas os heróis mantinham-se concentrados na tarefa, debatendo estratégias e discutindo suas opções.

No terceiro dia, Dahaka, após um longo tempo de análise silenciosa, apontou para um desfiladeiro profundo e íngreme. A vegetação escassa e as pedras grandes ofereciam pontos de cobertura adequados. O terreno ali forçava a estrada a uma única e estreita passagem entre as rochas, ideal para uma armadilha. Dahaka sorriu com seu costumeiro tom de ironia e disse, satisfeito:

“Este lugar é perfeito! Eles vão passar exatamente por ali, e quando perceberem, estarão presos entre nós e as pedras. Um verdadeiro pesadelo para eles… e diversão para nós.”

Ao final da tarde, cada um dos heróis se posicionou estrategicamente em suas respectivas coberturas, aguardando o momento certo. O sol começava a descer no horizonte, tingindo as rochas com um tom avermelhado. Durante a espera, Ludus, sempre inquieto, se aproximou de Asher, que observava a estrada com uma expressão distante e pensativa.

“Você anda meio estranho, sabia?” comentou Ludus, tentando puxar conversa. “Desde que chegamos em Arabel, você está mais… distante.”

Asher desviou o olhar, evitando a pergunta. “Estou bem. Só focado.”

Ludus, porém, não se deu por vencido e sorriu de lado. “Ah, sei como é. Esse olhar eu conheço bem... Saudade de casa, né? Às vezes, penso nos Lefou, sabia? Minha família mambembe. É complicado não sentir falta.”

A menção à família pareceu tocar uma ferida em Asher, e ele lançou a Ludus um olhar ríspido. “Deixe disse, Bufão. Isso virou uma sessão de terapia?”

Ludus ficou em silêncio, o sorriso esmorecendo, sentindo-se desconfortável com a reação inesperada de Asher. Com um olhar magoado, ele se afastou, deixando o paladino sozinho em seus pensamentos. Asher, agora isolado, permaneceu em silêncio, a sombra de algo mais profundo e secreto pairando sobre sua expressão.

Pouco depois, Dahaka, cansado de esperar, aproximou-se de Mor’Rein e, com um ar curioso, começou a observá-lo com um sorriso inquisitivo.

“Mor’Rein, sempre quis perguntar… de onde vem esse seu lance de magia? Não parece ser fonte de estudos? Maldição? Só por curiosidade, claro.”

Mor’Rein manteve-se em silêncio, como de costume, com um olhar enigmático e impenetrável.

“Já tive conversas mais animadas com cadáveres, sabia?” comentou Dahaka, divertido, tentando arrancar alguma reação.

Mor’Rein apenas abriu um sorriso vitorioso, curtindo o desconforto do tiefling, que finalmente desistiu de interrogar o elfo.

Enquanto isso, Impetor, posicionado em uma saliência de pedra, observava sua nova clava, o troféu tirado do Wight, girando a arma em suas mãos com admiração. A superfície da clava exibia marcas sombrias, e havia algo nela que inspirava tanto fascínio quanto inquietação. Era uma arma de peso peculiar, carregada de energia, e Impetor sentia-se intrigado com seu poder desconhecido.

Mor’Rein, observando de soslaio, reconheceu de imediato a natureza da arma. Ele sabia que se tratava de uma Maça dos Caídos, forjada nas profundezas do fogo negro de Orcus, o príncipe demônio dos mortos-vivos. Era uma arma criada para inspirar terror, especialmente contra os seres celestiais, associada a morte e dor. No entanto, ele manteve esse conhecimento para si, apenas assistindo a curiosidade de Impetor crescer em silêncio, compreendendo que aquela arma carregava uma maldição implícita — e que qualquer uso dela teria seu preço.

As horas passaram, e o grupo manteve-se alerta, cada um lidando com seus próprios pensamentos e ansiedades, enquanto aguardavam o momento exato para realizar a emboscada que colocaria o plano de Horusk em prática e, esperançosamente, desferiria um golpe certeiro contra os Zentharim.

Dahaka, com os olhos aguçados, percebeu o destacamento ao longe, bem quando o crepúsculo lançava sombras longas e tortuosas pelo vale. Eles avançavam lentamente pela estrada, o som dos cascos abafado pela poeira e a textura seca do terreno. O tiefling, sempre atento aos detalhes, ergueu a mão em um sinal rápido e preciso para Asher, mantendo os dedos firmes e o olhar fixo nos alvos.

Asher, em resposta, desembainhou ligeiramente sua espada, inclinando-a para captar a luz enfraquecida do sol poente. O reflexo cintilante se projetou na direção de Mor'Rein e Impetor, que, posicionados mais adiante, entenderam a mensagem: os alvos haviam chegado.

A estrada que serpenteava pela região era isolada e perigosa, atravessando uma rota íngreme em direção às Cordilheiras de Stormhorns. Este era o único caminho viável para o transporte secreto de cargas preciosas, e o grupo de Zentharim a escolheu justamente pela discrição que ela oferecia. A trilha evitava qualquer povoado ou centro comercial, mantendo-os longe de olhos curiosos, e as montanhas ofereciam uma proteção natural para quem dominava o terreno.

O grupo de inimigos seguia em uma carroça de aparência robusta, coberta por caixotes e sacos de lona que mal disfarçavam seu conteúdo misterioso. Ao lado das caixas, uma figura encapuzada e corpulenta estava sentada, os braços cruzados e a postura tensa, pronta para qualquer eventualidade. A carroça era puxada por dois jumentos desgastados, e, ao seu redor, quatro homens a cavalo mantinham uma formação cuidadosa, montando em silêncio absoluto. Suas vestes negras os denunciavam: eram Zentharins, experientes e sem dúvida letais. O quinto membro do grupo estava sentado na frente, guiando a carroça com olhos vigilantes e uma expressão sombria.

Dahaka observava cada movimento com um foco quase clínico, notando como cada um dos guardas verificava constantemente os arredores. “Estão preparados para uma emboscada, mas não o suficiente”, murmurou consigo mesmo. Ele era um especialista em furtividade e antecipação, e sabia reconhecer uma formação de guarda prudente, mas com lacunas. O tiefling estudou cada detalhe: o padrão de olhares, a rota lenta e calculada da carroça, as armas presas aos cintos dos guardas. Tudo indicava que carregavam algo importante, talvez até mais valioso do que Horusk imaginava.

Impulsivo e com o sangue fervendo pela chance de combate, Impetor ajeitou a mão ao redor de sua nova clava, sentindo o peso firme e sombrio da arma. Uma expressão de excitação e ansiedade tomava conta de seu rosto enquanto aguardava o sinal. Ele sentia o poder da clava, a energia pulsante que parecia crescer em sua palma, quase como se a arma estivesse pronta para a carnificina.

“Vamos ver do que você é capaz…” murmurou Impetor, o olhar fixo na figura encapuzada na carroça, vislumbrando o impacto da clava sobre qualquer um que ousasse cruzar seu caminho.

No silêncio do crepúsculo, o grupo manteve-se oculto e atento, aguardando o momento exato para iniciar a emboscada.

A tensão pairava no ar enquanto os heróis se posicionavam, cada um à espera do momento certo para atacar. Ludus, no entanto, já se preparava para um golpe sutil, o tipo de magia que confundiria e desestabilizaria os Zentharim antes que o caos começasse. Ele murmurou palavras arcanas enquanto executava gestos precisos com os dedos, e uma energia suave, quase cômica, tomou forma sobre a cabeça de um dos cavaleiros na linha da frente. Em vez da coroa usual, um chapéu de bufão ilusório adornado com guizos e pontas caídas manifestou-se, uma provocação criada pela mente artística e excêntrica de Ludus. O toque final da magia trouxe um brilho maníaco aos olhos do cavaleiro, que se voltou para um dos companheiros como se o visse pela primeira vez.

Com uma expressão vazia e movido por uma vontade que não era sua, o cavaleiro ensandecido sacou a espada e atacou o homem ao seu lado. O som do aço rasgando o ar e acertando seu companheiro fez o grupo girar em confusão. Assustados e tentando entender o que estava acontecendo, os homens recuaram um instante, e foi esse pequeno momento de desordem que selou o destino do líder.

Dahaka, frio e calculista, não perdeu tempo. Em um movimento rápido, sacou sua besta de mão e puxou o gatilho, o virote silvando pelo ar até acertar a testa do homem que guiava a carroça. Ele caiu para trás, sem vida, com uma expressão congelada de surpresa. A carroça perdeu momentaneamente o controle, os jumentos reagindo com inquietação.

Enquanto isso, Mor’Rein, envolto em uma aura obscura, puxou do bolso um olho petrificado de salamandra e começou a entoar cânticos antigos. “Hadar, escute meu apelo…”, murmurou, lançando uma maldição sobre o robusto ser encapuzado que ainda permanecia imóvel na carroça. A maldição pairou sobre a criatura, invisível, mas potente, comprometendo sua resistência. Ele então disparou uma rajada mística em direção ao encapuzado, mas a distância dificultou o alvo, e acabou por não acertar o disparo, errando o oponente por poucos centímetros e atingindo o chão ao lado da carroça.

Nesse momento, Asher irrompeu do esconderijo como um relâmpago, investindo contra um dos homens que ainda se recompunha do ataque surpresa. Seu chicote estalou com um som cortante, enroscando-se na perna do Zentharim e puxando-o com força suficiente para que ele perdesse o equilíbrio e caísse pesadamente ao chão, aturdido.

Do lado oposto, Impetor avançou com um rugido ensurdecedor, sua clava nova cintilando com uma energia maligna. Com um golpe feroz, ele atingiu um dos cavalos, derrubando não só a montaria, mas também o cavaleiro que foi jogado ao chão, ofegante e desorientado.

A frente da comitiva estava em desordem completa: dois homens ainda tentavam se erguer após os golpes recebidos, enquanto o cocheiro, que guiava a carroça, jazia morto com o virote cravado na testa. Dois cavaleiros restantes ainda estavam montados, um deles sobre influência da coroa da loucura, permaneciam na retarguada. Por fim, a figura robusta e encapuzada, ainda imóvel na carroça, emanava uma aura de ameaça que deixava os heróis em alerta.

A batalha estava apenas começando, e o elemento surpresa já havia garantido aos heróis uma vantagem decisiva.

O combate se intensificava rapidamente, e Dahaka não desperdiçou a vantagem. Ele rolou para o lado, se reposicionando de forma furtiva enquanto recarregava a besta de mão. Com um disparo preciso, ele mirou no homem de nariz longo e traços árabes que estava caído próximo ao corpo de seu cavalo morto. A flecha penetrou seu ombro, e o homem gritou, seu rosto contorcendo-se de dor enquanto tentava, em vão, se levantar.

Outro Zentharii, esse desprovido de cabelos e sombrancelhas, ainda caído no chão, cambaleou para uma posição de joelhos. Olhando para Dahaka com ódio nos olhos, ele ergueu sua espada em um esforço para se defender. Mas a dor e o medo embotavam sua concentração, e ele apenas conseguiu manter a lâmina erguida, incapaz de realizar um ataque.

Do seu esconderijo, Ludus sorriu ao ver o caos se espalhar e concentrou sua energia na Coroa da Loucura. Sob sua influência, o homem de cavanhaque longo e trançado, dominado pela feitiçaria, virou-se abruptamente para o Zentharim ao seu lado, um homem magrelo de cara esticada, com um brilho ensandecido nos olhos. Antes que seu alvo pudesse reagir, ele já havia desferido um golpe feroz, que arrancou um grito de surpresa e desespero.

Asher aproveitou a confusão e investiu novamente contra o homem de nariz longo, que agora sangrava. Com agilidade precisa, ele girou a lâmina de sua espada, cravando-a na lateral do Zentharim e derrubando-o no chão. Mas, antes que pudesse recuar, Asher sentiu um impacto brutal no flanco: o Zentharim careca havia se levantado e desferido um golpe certeiro com a espada. Asher cambaleou para trás, o sangue escorrendo da ferida.

Minotauro.
Mor'Rein voltou sua atenção para a criatura encapuzada que agora começava a emergir da carroça. Quando o encapuzado tirou o capuz, revelando a cabeça de um minotauro de pelagem negra, o bruxo pôde ver um símbolo em seu peito queimado, como um selo antigo: a marca de Baphomet, o temido Demônio das Bestas. Canalizando seu poder, Mor’Rein reforçou a maldição de Hex, lançando uma onda de energia sombria que se aderiu ao corpo do minotauro, imobilizando-o por um breve instante. A criatura soltou um rugido furioso enquanto sentia o peso do feitiço corroendo suas forças.

O minotauro, furioso, ergueu-se em um salto e, com os olhos brilhando de ira e dor, direcionou sua carga contra Asher. Asher tentou rolar para o lado, mas foi tarde demais. Os chifres do minotauro o atingiram com força, levantando-o do chão e lançando-o para longe. Ele caiu pesadamente, o impacto lhe arrancando o ar e intensificando a dor da ferida.

Impetor, ao ver seu amigo ferido, urrou de raiva. Ele avançou contra o minotauro, sua clava erguida, a arma nova cintilando com uma energia brutal. Com um golpe devastador, ele acertou o flanco da criatura, arrancando-lhe um rugido de dor. As energias amaldiçoadas de Mor'Rein ainda pesavam sobre o minotauro, intensificando cada golpe que sofria, e ele tropeçou, mas ainda se manteve em pé.

Dahaka aproveitou a situação e mirou novamente em um dos Zentharim ao redor, desta vez no magrelo de rosto esticado. O virote voou certeiro, atingindo o homem no peito e derrubando-o no chão. Ele ainda respirava, mas o sangue começava a encharcar suas roupas escuras.

O Zentharim careca, agora em pé, tentou novamente investir contra Dahaka em seu esconderijo. Ele brandiu a espada em um golpe horizontal, mas Dahaka desviou com um giro rápido, sua habilidade de evasão frustrando completamente o ataque.

Ludus, controlando o homem sob o efeito da Coroa da Loucura, fez com que ele voltasse sua lâmina para o próprio companheiro caído. Em um ataque frenético, ele desferiu um golpe fatal no Zentharim já caído, e o homem magro e de nariz bulboso soltou um último suspiro antes de sucumbir.

Asher, ainda se recuperando do impacto, aproveitou a distração do minotauro para atacar a criatura pelas costas, cravando sua espada em sua perna. O minotauro rugiu, mas virou-se com velocidade impressionante, desferindo um soco que quase acertou Asher, fazendo-o se esquivar rapidamente.

Mor'Rein, com os olhos fixos no minotauro, murmurou palavras de poder enquanto conjurava uma nova rajada mística. Desta vez, a magia atingiu em cheio o peito do minotauro, espalhando uma sombra negra ao redor de sua marca de Baphomet, e o dano necrótico o fez estremecer.

O minotauro, enfurecido, ignorou os outros e investiu mais uma vez contra Impetor, soltando um grito de ódio. Mas Impetor estava preparado. Ele se colocou em posição defensiva e bloqueou o golpe dos chifres com sua clava, fazendo o minotauro recuar em dor.

Dahaka, vendo a oportunidade, mudou de alvo e mirou no Zentharim careca, disparando um virote certeiro que atravessou sua garganta, silenciando-o de uma vez por todas.

O cavaleiro restante, ainda sob o efeito da Coroa da Loucura de Ludus, atacou cegamente o minotauro. Sua lâmina cortou a pele negra da criatura, que soltou um urro de dor. Ludus riu, observando como seu feitiço fazia o próprio aliado atacar seu campeão monstruoso.

Asher, mancando e ensanguentado, não desistiu. Com uma determinação feroz, ele atacou o minotauro mais uma vez, agora mirando os tendões na perna da criatura. Sua lâmina cortou fundo, e o minotauro cambaleou, enfraquecido e lento.

Impetor, aproveitando a abertura, soltou um grito de guerra e desferiu um golpe esmagador com sua clava. A força do impacto atingiu o braço do minotauro com tal violência que o arrancou de uma só vez. O sangue espirrou, e o minotauro caiu de joelhos, enfraquecido e dominado pela maldição de Mor'Rein.

A batalha estava praticamente encerrada. O grupo de Zentharim e o minotauro jaziam derrotados, e os heróis vitoriosos observavam os corpos ao redor, ofegantes e feridos, mas prontos para seguir adiante em sua missão.

Com um último rugido de dor, o minotauro tombou sobre o chão de terra batida, seu corpo poderoso soltando um estrondo ao atingir o solo. As marcas queimadas no peito com o símbolo de Baphomet pareciam ainda arder, uma lembrança do juramento sombrio ao Senhor das Feras. Impetor, com sua nova clava em mãos e um olhar de orgulho, ergueu-a para o alto, ainda tingida de sangue fresco e com fragmentos de ossos do minotauro. Era a vitória personificada.

Dahaka, movendo-se como uma sombra, aproximou-se do último Zentharim, o homem de cavanhaque trançado que ainda estava sob o efeito da Coroa da Loucura de Ludus. O olhar vazio e insano do homem apenas piscou brevemente antes de Dahaka enfiar-lhe a lâmina, encerrando a influência da magia e a vida do combatente.

Enquanto os outros relaxavam e limpavam suas armas, Ludus finalmente emergiu de seu esconderijo, observando o campo de batalha agora silencioso. Ele deu um sorriso leve, satisfeito com a confusão que havia orquestrado. Cada centímetro daquela cena era a sua obra.

Mor'Rein aproximou-se do cadáver do minotauro, olhos fixos na marca de Baphomet. Sabia que esse símbolo não era incomum entre os minotauros cultistas, que viviam isolados, em comunidades onde a brutalidade e o caos eram o único credo. Os sacerdotes minotauros adornavam seus chifres com pictogramas sangrentos e seus corpos com as cicatrizes das batalhas; qualquer um com o mínimo de familiaridade com essas comunidades entenderia a gravidade dessa devoção. Para eles, a morte não era apenas aceitável, mas sagrada — um reencontro com o caos que adoravam.

Asher, ainda dolorido e com os flancos feridos, examinou o corpo do minotauro ao lado de Mor'Rein. Ele se apoiou sobre o elfo e disse, com a voz baixa e reverente, “Os Greymane encontraram formas de aproveitar partes dos minotauros, em especial a sua glândula pineal. Acredita-se que ela dê aos minotauros uma capacidade única de visualizar rotas e perseguir suas presas com precisão mortal. É uma bola de carne no centro do cérebro, é valiosa para alquimistas e estudiosos da demonologia... Acho que poderíamos retirar para vender ou acharmos um método para usar.”

Eles se agacharam sobre o cadáver, começando uma cirurgia pós-mortem e retirando a glândula e guardando-a com cuidado, ciente do potencial que ela poderia ter em mãos certas. Para Asher, era mais do que uma simples pilhagem; era uma tradição de sua linhagem.

Enquanto isso, Dahaka já passava a mão pelos corpos dos Zentharim, pegando cordões, algibeiras, moedas e objetos que pudessem ser úteis ou ter algum valor. Ele não tinha pressa, cada compartimento era revirado com calma. Ele parecia saborear o momento, até finalmente se dirigir para o verdadeiro prêmio: a carroça.

Ludus observou os companheiros enquanto se aproximavam, todos respirando o alívio de uma vitória. A batalha estava terminada, mas cada um sabia que as marcas dela permaneceriam — tanto nos corpos quanto nos despojos que agora carregavam.

Dahaka e Ludus adentraram a carroça, o cheiro de madeira envelhecida e ferrugem misturando-se ao aroma metálico do sangue fresco. No interior, em meio a barris e sacos de provisões, encontraram uma pequena arca de madeira entalhada, coberta de runas arcaicas. Ao abri-la, eles se depararam com uma série de instrumentos ritualísticos: velas negras, frascos de líquidos de colorações duvidosas, e ferramentas de sacrifício, cada uma marcada por inscrições antigas que indicavam um propósito sinistro.

Espalhados ao redor, eles também viram tomos de couro envelhecido, suas páginas densamente preenchidas com escritas e diagramas detalhando um ritual de sacrifício que invocava algo que não estava completamente explicado. No fundo da carroça, tábuas de pedra entalhadas mostravam figuras de seres disformes e símbolos profanos, ao lado de pequenos ídolos em formatos bestiais, adornados com dentes e ossos humanos. Era claro que o ritual não era apenas sombrio, mas antigo, e envolvia mais do que simples magia — ele exigia sacrifícios vivos, algo que os próprios Zentharim pareciam estar tentando realizar.

Enquanto Dahaka revirava um compartimento secreto sob o banco da carroça, Ludus notou um pequeno estojo de obsidiana no canto. Ao pegá-lo, sentiu o peso sólido e misterioso. Ele abriu lentamente o estojo, revelando um tecido rubro que envolvia o objeto em seu interior. E lá, repousava uma adaga.

Adaga.
A lâmina reluzia com inscrições antigas gravadas ao longo de seu fio, carregando símbolos de um idioma perdido no tempo. O cabo, feito de um material negro translúcido, parecia quase absorver a luz, e no pomo estava esculpido o rosto de um homem careca, com feições furiosas e olhos sem vida, mas que pareciam observar Ludus com uma presença oculta. Ele sentiu um calafrio subindo por sua espinha enquanto estudava a peça.

Antes que pudesse analisar mais, uma voz sussurrou de forma fraca em sua mente, com uma autoridade maligna que penetrava sua consciência:

"Me alimente... Me alimente imediatamente, seu verme!"

A adaga parecia pulsar em sua mão, como se estivesse viva, aguardando algo que Ludus ainda não compreendia completamente. Ele ficou ali, absorto, sentindo a presença da adaga como uma entidade faminta e inquieta. A cena se encerra com o olhar fascinado de Ludus, preso àquele artefato que agora, de alguma forma, parecia exigir mais do que apenas ser empunhado.

Episódio 7 - Forte Zentharim.

Data: 21 de Uktar de 1372, 18h 30min
Local:  Cordilheira Stormhorns, Cormyr, Faêrun.

A fria brisa montanhosa da Cordilheira Stormhorns soprava ao anoitecer, enquanto Ludus se abrigava ao lado da carroça dos Zentharim. A presença dos outros era apenas um borrão distante; todos estavam espalhados para se prepararem para a próxima movimentação, e ele estava contente por um momento de paz.

Desde que achara aquela adaga, havia algo estranho pairando sobre ele. Era como se... bom, como se a adaga tivesse vida. Cada vez que ele a segurava, uma sensação de inquietação e presença o envolvia, mas era algo difícil de explicar. Ele pensou que talvez fosse sua imaginação — até agora.

De repente, a voz que parecia ter ouvido antes, tão fraca que ele quase achou que fosse o vento ou sua mente prega-lhe peças, ressoou novamente, de forma imperativa e sinistra. Um sussurro cortante e firme:

"Me alimente."

Ludus olhou ao redor, engolindo seco. "Ah... Alguém... ouviu isso?" Perguntou em voz alta, mas todos estavam distraídos, sem sequer virar o rosto para ele. Ele balançou a cabeça, desconfiado, e começou a sussurrar para si mesmo, debruçando-se sobre a lâmina sombria.

"Você... você tá viva?" ele perguntou, incrédulo, com um sorriso quase infantil de excitação.

A resposta veio, não como uma voz comum, mas uma presença na sua mente, um tom que exalava desprezo e uma paciência mínima.

"Eu... eu já caminhei entre os vivos," ecoou a voz da adaga, tingida de uma amargura profunda. "Em minha vida mortal, chamavam-me Sebastian Debast, um devoto às entidades abissais, um cultista que entregava almas aos vorazes poderes que espreitam além dos véus deste mundo. Em troca, eu ascendia ao poder absoluto, em majestosa reverência às forças do caos..." A voz parecia reverberar com um toque sombrio de nostalgia. "Mas fui assassinado — traído, mesmo após minha lealdade incomensurável. E agora, tudo o que resta de minha essência despedaçada está aprisionado nesta lâmina. Não sou mais do que uma sombra faminta, um fragmento condenado à sede insaciável por sangue... e sacrifício."

A voz, antes lenta e calculada, agora era uma ordem incandescente: "ME ALIMENTE!"

Ludus sorriu, mas por algum motivo abafou a voz, como se temesse que os outros o ouvissem conversando com a adaga. "Ah... por isso ninguém tá me ouvindo, então, é isso? Hã, interessante. Melhor manter isso só entre a gente por enquanto," ele sussurrou, imaginando o que diriam se o vissem falando com uma adaga.

Sebastian Debast, a voz na adaga, deu um suspiro cansado, o que parecia quase um rosnado.

A voz se tornou mais austera, um sussurro quase ameaçador que reverberava na mente de Ludus. "Ouça-me atentamente, pois só direi isso uma vez, tolo mortal. Desde o momento em que ousou fazer contato comigo, nosso destino foi entrelaçado numa eternidade irremediável. Jamais poderá me afastar de ti, por mais que tente. Estamos... ‘sintonizados’, para entendimento de sua mente simplória. Sim, minha maldição o envolveu, e agora sua existência será marcada por minha presença. Para sempre."

Ludus fez um som de surpresa. "Uau, então... quer dizer que estamos, sei lá, ligados? Tipo melhores amigos?! Ah, que maravilha! Depois que Genna se foi... nem te conto como tem sido um pouco solitário com o pessoal, sabe?" Ele murmurava, com um entusiasmo e inocência tão grandes que a voz de Sebastian hesitou por um segundo, quase chocada.

"Melhores amigos?!” A voz na adaga ecoou em sua mente, preenchida de uma indignação quase ferina e uma insuportável irritação. “Eu estou aprisionado nas mãos de um ignorante absoluto! Um imbecil de mente rasa que, na sua infeliz simplicidade, acredita que um pacto amaldiçoado, destinado à perdição e à sede pelo caos, teria sido feito para que eu me tornasse... um amigo imaginário!"

Ludus ignorou a indignação da adaga e apertou-a mais forte, com uma expressão satisfeita e um sorriso largo. "Ah, mas vai ser divertido! Podemos conversar sempre que eu me sentir meio pra baixo... ou até pedir uns conselhos de vez em quando!"

"Conselhos?!" bufou a voz de Sebastian, a adaga tremendo levemente em sua mão, como se tentasse, inutilmente, se livrar dele. "Eu sou uma entidade faminta por sangue, uma sombra da vida de um servo das trevas, um fragmento das trevas do abismo — e você quer conversar?!"

"Sim," respondeu Ludus, com uma sinceridade tranquila que só tornava tudo pior para a adaga. "Afinal, quando não estamos lutando, o que você vai fazer? Ficar calado o tempo todo? Isso parece chato."

Sebastian rosnou de frustração, ciente de que estava, pela primeira vez, aprisionado não apenas a um objeto, mas às lamentáveis esperanças de um bobo. "Chato? CHATO? Você fala como uma infante de doze anos, seu néscio!"

"Ah, que isso, não precisa exagerar... Eu falo no máximo como uma de treze," retrucou Ludus, rindo.

A voz de Sebastian suspirou, resignada. "Perdido... completamente perdido. O destino me condenou ao suplício eterno de ouvir a voz de um tolo..."

Ludus deu de ombros, satisfeito, e lançou um último olhar furtivo aos outros, que ainda estavam dispersos. "Ah, vai dar tudo certo! Com o tempo, você vai ver. Vamos nos dar bem, Debast."

"Não me chame assim," resmungou a adaga, cada sílaba impregnada de desprezo.

"Então vou te chamar de Basti. É... soa menos formal," disse Ludus, enquanto a adaga vibrava ligeiramente em sua mão, como se protestasse. Ele ignorou a hostilidade e deu um último sorrisinho de canto, feliz por finalmente ter uma companhia em quem confiar.

O item apenas respondeu com um silêncio revoltado, ecoando em seu espírito como se tivesse sido amaldiçoado a um destino pior que a própria morte — preso, e agora pior, “melhor amigo” de Ludus Lefou.

Caminhando pelas trilhas sinuosas das Cordilheiras Stormhorns, o grupo seguia atento às instruções de Manter Clipster. A entrada do forte Zentharim ainda ficava a cerca de uma hora à frente, mas o caminho montanhoso e encoberto pela neblina noturna tornava tudo mais difícil. Eventualmente, a trilha se estreitava, conduzindo-os a uma fenda nas pedras — um caminho entre duas rochas que parecia levar a lugar nenhum, exceto para aqueles que sabiam o que procurar. Foi ali que os heróis avistaram a entrada disfarçada.

A passagem estava escondida sob uma formação rochosa natural, com um tipo de portal rudimentar entalhado nas pedras. Na frente da entrada, vigiando com um olhar cético e pouco entediado, estava um meio-elfo franzino, com um semblante de quem já não dava tanta importância a quem passava ali, mas ainda cumpria o trabalho de vigia com uma dose suficiente de profissionalismo. Ele observou o grupo com desconfiança enquanto eles se aproximavam, examinando seus capuzes e os cordões com o símbolo Zentharim que eles usavam.

Foi Ludus quem deu o primeiro passo e, com um ar exagerado de autoridade, começou a descrever sua falsa missão, balançando seu cordão como se fosse um passe vip.

"Ah, perfeito, você aí. Estamos com o... carregamento," Ludus disse, enfatizando o termo como se fosse um código importante. "Manter foi bastante claro que estaríamos atrasados, mas que tudo estaria conforme o protocolo. Certo? E, se precisar, posso contatar a gerência superior e fornecer o número de identificação do nosso pedido, mas sinceramente, quem tem tempo para tanto formalismo quando temos um produto tão urgente? Entende o que quero dizer?"

O meio-elfo o encarou, piscando algumas vezes em confusão. "Er... claro, claro, é só... número de identificação? Não sei se temos isso, acho que os Ardragons não mencionaram nada para..."

"Exato! Foi o que pensei. Desnecessário," Ludus prosseguiu, com um gesto amplo da mão. "Mas veja bem, anotaram que éramos o grupo com a 'carga especial'. Então, se você tiver um problema em nos deixar entrar agora, sugiro que escreva para a chefia — aqui, eles adoram esse tipo de reclamação — mas saiba que quem terá problemas será você!"

O meio-elfo começou a suar, alternando o olhar entre Ludus e o restante do grupo, todos tentando manter a expressão mais séria possível.

"Não, não... eu, eu só vou... é, por favor, entrem, claro." Ele fez um gesto com a mão para que passassem, visivelmente inseguro. "Eles... vão entender... eu acho."

Ao passar pela entrada, Ludus ainda fez um aceno quase arrogante para o meio-elfo, resmungando algo sobre “incompetência e insubordinação em níveis regionais” enquanto desaparecia pela passagem, seguido pelos demais na carroça. A expressão de Ludus, satisfeita e divertida, contrastava com o esforço dos outros para não rir da atuação desajeitada mas bem-sucedida.

Logo após cruzarem a passagem estreita, o túnel se abria para uma escadaria íngreme que conduzia ao coração do covil Zentharim. Escura e úmida, a escada serpenteava para baixo, ladeada por tochas em suportes de ferro. No fundo, eles se depararam com um espaço cavernoso e irregular, claramente cavado na rocha com alguma técnica peculiar. Os capuzes e cordões foram descartados, deixados na carroça e, finalmente, o grupo trocou olhares. A próxima etapa seria investigativa, mas precisariam ser furtivos ao máximo.

De repente, ecoando ao longe, a voz abafada do meio-elfo subiu pelo túnel:

“Não, senhor... Eles disseram que tavam com... carregamento?” Pausa. “Como assim foi assaltado?! EU NÃO SABIA SENHOR! Eu… eu os deixei entrar.”

Mor’Rein deu um leve sorriso cínico, e Dahaka rolou os olhos, sussurrando: “Parece que o novo plano vai ter que ser o mais silencioso possível.”

O grupo avançou com cautela. As paredes do túnel revelavam marcas de arranhões, como se fossem cavadas não por ferramentas comuns, mas por algo mais sombrio. Asher, observador como sempre, franziu a testa enquanto tocava a superfície irregular da rocha.

“Esses túneis não foram cavados por mãos humanas ou mesmo por ferramentas… Eu já vi esse tipo de escavação antes, e é possível que usaram Ankhegs para isso.” Ele sussurrou, inclinando-se mais próximo à parede. “Essas criaturas, quando domesticadas, são utilizadas por alguns fazendeiros para escavar a terra de forma eficiente e até ajudar no fluxo de água e nutrientes. Só que… esses túneis parecem grandes demais para algo controlado. Podem ter usado Ankhegs selvagens, talvez.”

Os túneis os conduziam por corredores sinuosos e, em alguns pontos, até um pouco alagados. O odor de terra misturado ao de decomposição era quase nauseante, mas o grupo avançava furtivamente, mantendo-se nas sombras.

Chegaram finalmente a uma grande câmara onde, parcialmente coberta por camadas de solo e detritos, uma escultura em pedra de aspecto antigo espreitava do canto, iluminada apenas pela luz fraca das tochas. Imagens de entidades horrendas estavam gravadas nas paredes, e o ar era pesado, quase opressor.

O grupo observava as paredes antigas do covil, onde desenhos rústicos e símbolos enigmáticos pareciam pulsar com uma presença maligna. Asher, sentindo o peso profano do lugar, ergueu os olhos e murmurou:

"Esse lugar foi conspurcado. Eu sinto o odor tenebroso do profano nessas paredes... Seja o que a guilda dos Zentharim está tramando, envolve seres ínfimos e corrompidos."

Ludus fez um comentário sarcástico, sorrindo apesar do nervosismo:

"Maravilha... Mortos-vivos e agora corruptores. Isso está ficando cada vez mais interessante."

Impetor Ragrinof, com a costumeira bravata, cruzou os braços e proclamou em voz alta:

"Não importa se é do céu ou inferno, vivo ou morto — ninguém derrota o Campeão Ragrinof!"

Ilustração Baphomet.
Enquanto isso, Mor'Rein estava absorvido pelos detalhes das figuras gravadas nas paredes. Seu olhar analisava as linhas sombrias e cheias de significado, como se estivesse desenrolando um pergaminho antigo em busca de respostas. As imagens representavam uma cena de aliança sombria e traição: Orcus, o príncipe demônio dos mortos-vivos, elevava um cetro enquanto Yeenoghu, o príncipe dos gnolls, inclinava-se diante dele com um sorriso selvagem, dentes afiados como lâminas. No centro da cena, Baphomet — o temido Demônio das Bestas — aparecia em correntes, seus olhos flamejando de ódio enquanto estava preso, subjugado pelas forças dos outros dois.

Esses símbolos representavam uma antiga aliança feita em 1357 DR, onde Orcus e Yeenoghu se uniram em um pacto que aprisionou Baphomet. Mor'Rein sentiu um calafrio ao lembrar-se de como essa passagem histórica parecia conectada com os eventos recentes em Cormyr. Havia algo familiar naquela figuração de Baphomet, agora que ele lembrava o minotauro cultista que haviam enfrentado, aliado aos Zentharim. Sua mente ligou os pontos: a praga de mortos-vivos que assolava Cormyr, a aliança com o cultista de Baphomet, e a presença cada vez mais forte dos Zentharim em tramas sombrias... Tudo sugeria que estavam tentando reviver antigos conflitos demoníacos, possivelmente para trazer alguma forma de poder ou caos ao reino. Era como se os mortos-vivos fossem apenas o começo de algo muito maior.

Dahaka, sempre atento, aproximou-se da porta dupla da câmara e espiou pela fresta, vendo o movimento de Zentharims pelo corredor. Havia um ar de tensão e vigilância; os agentes andavam de um lado para outro, claramente à procura deles. Ele xingou baixinho:

"Merda... Merda... Precisamos pensar em algo, depressa. Chegamos longe demais para desistir agora."

O grupo trocou olhares, compreendendo o perigo da situação.Impetor tamborilava os dedos impacientemente na empunhadura da maça, seus olhos faiscando com impaciência:

"Não temos a noite toda! Vamos acabar logo com isso e sair daqui — ou vamos esperar que eles nos encontrem e decidam por nós?"

"Controle sua bravata, Ragrinof," sussurrou Dahaka, seus olhos afiando enquanto espiava novamente pela fresta. "Um passo em falso, e acabamos encurralados. Precisamos de informações sobre os caminhos... os corredores... a guarda."

Asher olhava ao redor, em sintonia com o peso opressivo daquele lugar. Ele sentia o frio da magia escura se infiltrando pelas paredes como uma camada invisível. A tensão que se acumulava parecia prender o ar em seus pulmões, e ele murmurou:

"Esse não é apenas um forte... Há algo insidioso aqui. Precisamos ser cuidadosos — eles estão lidando com forças que não compreendemos totalmente."

Mor'Rein, por sua vez, parecia alheio aos ruídos, como se sua mente estivesse vagando por outro plano. Ele mantinha os olhos fixos nas figuras demoníacas entalhadas na parede, desenhando mentalmente as conexões entre os símbolos, absorvido nas complexidades e implicações de cada linha. Um ar de mistério emanava de sua figura silenciosa, um enigma que quase complementava o lugar.

Ludus quebrou o silêncio com um sorriso discreto, trazendo uma leveza inesperada:

"Bem, se informações são o que precisamos, acho que posso ajudar. Ando treinando umas canções... algumas que podem moldar a trama da magia e lançar um véu de invisibilidade sobre uma pessoa. Talvez  nosso amigo Dahaka possa desfrutar do benefício e espiar por aí sem ser notado."

Dahaka ergueu as sobrancelhas, considerando o plano com um leve sorriso no rosto. "Invisibilidade? Isso já facilita as coisas. Só espero que a sua ‘magia musical’ não me deixe no meio do caminho."

Ludus piscou, divertido. "A magia está na música, meu caro. E confie em mim, eu conheço minha música."

Ele começou a entoar uma melodia suave e hipnotizante, como o murmúrio de uma brisa encantada. As notas flutuavam pelo ar, dançando e vibrando ao redor de Dahaka, que sentiu a própria forma desfocar gradativamente, como se estivesse desaparecendo entre as ondas sonoras que Ludus produzia. A figura do ladino se tornou um borrão translúcido, até finalmente sumir por completo.

Ludus encerrou a canção, sua voz suavizando até virar um sussurro.

"Você tem uma hora," avisou, dando um tapinha invisível no ombro de Dahaka. "E vê se não demora."

Os heróis observaram com um misto de fascínio e expectativa enquanto a porta da câmara aparentemente se abria sozinha. Um sutil rangido ecoou quando Dahaka passou pela abertura e, logo em seguida, a porta fechou-se, como se uma sombra tivesse deslizado através dela.

Asher respirou fundo, ainda sentindo a aura pesada ao redor, mas agora com uma pontada de esperança. "Que os deuses o guiem..."

Mor'Rein, ainda absorto, murmurou para si, seus olhos ainda fixos nos símbolos: "Se há realmente uma conexão com Orcus... então estamos entrando em algo maior do que Cormyr poderia prever."

O silêncio voltou a envolver a câmara, e o grupo aguardou, cada um lutando com seus próprios pensamentos, enquanto Dahaka partia, invisível, para desbravar o templo escuro dos Zentharim.

Dahaka avançava silenciosamente pelos corredores subterrâneos, sua figura invisível deslizando entre as sombras e as vigilâncias dos guardas Zentharim. O complexo era um labirinto de pedras escuras, com corredores tortuosos que pareciam entrelaçar-se infinitamente. Cada nova passagem revelava mais câmaras, algumas repletas de suprimentos e armas, outras onde rituais sombrios pareciam ter sido realizados. O cheiro de incenso queimado e sangue seco impregnava o ar, alimentando o nervosismo e a aversão do ladino.

Enquanto avançava, Dahaka se forçava a manter a calma. Ele sabia que estava cercado de inimigos — e, ao mínimo deslize, sua invisibilidade não seria suficiente para salvá-lo. Suas mãos, escondidas sob o manto invisível, suavam. “Inferno... Esses corredores são como um formigueiro,” ele pensou consigo, desviando-se de dois guardas que caminhavam por um corredor lateral.

Mais adiante, Dahaka ouviu vozes abafadas vindo de uma pequena sala à frente. O som o fez congelar, um suor frio escorrendo pela nuca. Havia algo familiar naquelas vozes. Ele avançou com cautela, passos leves como o roçar de uma folha ao chão, enquanto uma onda de apreensão o tomava.

“Essas vozes… poderia ser?” O pensamento o inquietou, o suficiente para quase comprometer a precisão de seus movimentos. Ele se aproximou da porta, respirando baixo, esforçando-se para manter a compostura.

Eslovak Akmenos.
Ao abrir a porta, suas suspeitas foram confirmadas — o sangue gelou em suas veias ao ver a figura à sua frente. Um tiefling de feições parecidas com as dele, um sobretudo de couro escuro cobrindo-lhe a figura, adornado com tranças negras e uma barba bem aparada. Eslovak Akmenos, seu irmão.

Eslovak estava de costas para a porta, inclinado sobre um espelho opaco. Mas não era o próprio reflexo que o espelho devolvia — em vez disso, o rosto de uma tiefling encapuzada tomava a superfície da magia arcana. Apesar do manto, Dahaka reconheceu o padrão arrogante e traiçoeiro daquela voz. Ele murmurou, quase para si mesmo: “Mãe…”

A respiração de Dahaka se intensificou, mas ele manteve-se imóvel, os olhos fixos naquela cena familiar e ainda assim cheia de rancor. Ele observava com uma mistura de fúria e incredulidade, sentindo-se um espectador em um distorcido drama familiar.

Hamura Akmenos falava com uma voz cortante:

“Eslovak, espero que você compreenda a importância de concluir esse acordo. O Clã Akmenos não pode sair de mãos vazias dessa transação. Essa é uma oportunidade única, e a aliança com os Zentharim deve nos render muito poder... e você não gostaria de me desapontar, não é?”

Eslovak, com um sorriso levemente tenso, respondeu:

“Estou ciente minha mãe. Tudo está sob controle. Esses tolos Zentharim são fáceis de manipular. Logo teremos o que é nosso.”

“Espero que sim,” Hamura respondeu, sua voz carregada de uma ameaça sutil. “O tempo está passando, Eslovak. Quero que o Clã saia fortalecido dessa aliança, não vejo outra possibilidade. Se falhar, saiba que não terá mais lugar entre nós.”

Antes que Eslovak pudesse responder, a porta se abriu bruscamente, e o meio-elfo que Dahaka vira antes na porta do esconderijo entrou, seguido de alguns outros Zentharim. O meio-elfo parecia nervoso, lançando olhares aflitos para Eslovak enquanto tentava justificar-se.

“Senhor, eu... eu não sabia! Eles tinham símbolos dos Zentharim... se identificaram como carregadores... Eu os deixei entrar, mas não sabia que... que eram invasores. Eles me disseram—”

Eslovak, com um olhar frio e desdenhoso, ergueu a mão e conjurou uma rajada de fogo, carbonizando o meio-elfo em segundos. O corpo do infeliz caiu em chamas, o cheiro de carne queimada preenchendo a sala. Os outros Zentharim recuaram um passo, suas faces pálidas de terror.

Eslovak os encarou com uma expressão que beirava o desprezo:

“Devo lembrá-los quem está no comando dessa empreitada? Não quero mais erros. Achem os invasores, ou sofrerão a mesma sorte que ele. Se o ritual for comprometido pela incompetência de vocês, vão desejar ter uma morte tão rápida quanto essa.”

Virando-se, Eslovak desceu uma escadaria, desaparecendo em direção ao andar inferior, e bateu a porta com força. Dahaka, ainda invisível, conteve o impulso de segui-lo, a mente fervilhando de raiva e angústia.

Ele sabia que seu tempo estava acabando — já havia passado mais de meia hora desde que Ludus conjurara a magia de invisibilidade, e ele não podia arriscar ser pego no coração do covil Zentharim sem seu disfarce. Ele respirou fundo, forçando-se a controlar a pulsação acelerada, e recuou, memorizando o caminho de volta.

Enquanto esperavam no silêncio sombrio da câmara, Impetor olhava ao redor, inquieto. Ele se aproximou de Asher, que permanecia atento aos arredores, seus olhos focados na direção por onde Dahaka partira.

“Então, Greymane,” começou Impetor, disfarçando a impaciência com um tom casual, “já caçou muitos monstros em sua vida? Todos aqueles com os quais cruzou?”

Asher olhou para Impetor, um meio sorriso se formando no rosto.

“Um ou outro,” ele respondeu, modesto. “Mais conheço pela teoria do que pela prática. Tem certas criaturas que não encontramos toda hora.” Ele se ajeitou, curioso. “Por que a pergunta? Algum monstro específico que gostaria de ouvir sobre?”

Impulsivo como sempre, Impetor perguntou: “Dragões. Digo… já enfrentou algum?”

Asher deu uma risada leve e balançou a cabeça.

“Dragões?” ele repetiu, como se estivesse avaliando a ideia. “Eles estão muito acima do meu patamar, meu amigo. Já ouvi falar de um ou outro em minhas jornadas, mas a maioria são apenas lendas ou histórias. Especialmente os Dragões de Prata..." Diz ele olhando paras escamas prateadas de Impetor. "...são conhecidos por serem benevolentes, justos até.” Ele inclinou a cabeça, estudando o semblante de Impetor. “De onde vem essa dúvida repentina?”

Impetor deu de ombros, rapidamente respondendo: “Curiosidade apenas.”

O silêncio voltou à câmara, com Asher observando-o por um momento a mais antes de retomar a vigília.

Do outro lado, Ludus murmurava baixinho, aparentemente consigo mesmo, enquanto Mor’Rein se aproximava silenciosamente. Ao ouvir o murmúrio do bardo, Mor'Rein ergueu uma sobrancelha, percebendo que Ludus falava… com sua adaga. Ele o observou, intrigado.

“Com quem você está falando, Ludus?” perguntou Mor'Rein, tentando entender.

Ludus se virou rapidamente, um sorriso maroto escapando enquanto ele guardava a adaga.

“Oh, estava só… decorando um novo texto,” ele respondeu, em tom descontraído. “Ensaiando para uma nova peça. Se chama Eu e Minha Adaga. Uma comédia romântica.”

Mor'Rein olhou para ele, sem demonstrar surpresa, apático. Com um aceno distraído, ele se afastou, deixando Ludus com seus próprios pensamentos.

Assim que Mor’Rein se afastou, Ludus ouviu o sussurro desdenhoso de Debast, o espírito em sua adaga.

“Romântica?” resmungou Debast, com uma nota de repúdio.

Quando Dahaka finalmente retornou, o ar na câmara ficou mais tenso. Asher foi o primeiro a perceber uma presença, e num reflexo, puxou a espada, mas logo reconheceu a figura de Dahaka se materializando, saindo da invisibilidade. Aliviado, ele abaixou a lâmina, esboçando um sorriso ao ver o companheiro intacto.

Dahaka parecia hesitante, ponderando o que revelaria ao grupo. Ele respirou fundo antes de falar, como se se preparando para um peso difícil de suportar. “É hora de eu abrir o jogo,” começou, a voz fria e séria. “Minha família… os Akmenos… são mais do que apenas um clã de tieflings.Eles acumulam poder através de empréstimos, almas e conluios com Patronos Transcendentais.” O brilho amargo em seu olhar indicava mais do que simples desprezo: era uma história de amargura e rancor. “E agora eles se aliaram aos Zentharim. Eslovak, meu irmão, está aqui, liderando essa operação. Eu sei o caminho para onde ele foi.”

Impetor mal conseguiu conter a excitação. Levantou-se com um sorriso largo e desafiador. “Então, o que estamos esperando? Vamos matar uns bruxos… sem ofensas, Mor'Rein…” Ele olhou para o amigo, mas Mor'Rein nem pareceu ouvir.

Enquanto o grupo conversava, Mor'Rein estava ajoelhado, concentrado em um círculo arcano que havia preparado no chão, com carvão e ervas colhidas em King’s Forest espalhadas ao redor. A fumaça dançava, e ele murmurava palavras em um idioma antigo, as mãos em gestos precisos, desenhando a última runa no ar, invocando um familiar grotesco de outra dimensão.

Familiar de Mor'Rein.
Um sussurro sinistro começou a ecoar pela câmara. Mor'Rein abriu os olhos, e uma criatura amórfica começou a tomar forma sobre o círculo: uma massa de tentáculos retorcidos, coberta de escamas e gosma esverdeada, com asas membranosas se desdobrando. Os tentáculos moviam-se de forma imprevisível, alguns se enroscando em outros, enquanto o monstro emitia pequenos gritos guturais e espasmos nauseantes, como se estivesse em um estado constante de metamorfose.

Mor'Rein abriu os braços com um sorriso carinhoso, ignorando o grotesco da criatura, e a acolheu num abraço familiar, sussurrando palavras gentis e tranquilizadoras ao horror antigo, como se fossem velhos amigos.

Os outros heróis observavam a cena com olhares incrédulos e, no mínimo, perplexos. Asher tentou disfarçar seu desconforto, mas seus olhos mostravam claramente a inquietação. Ludus ficou boquiaberto, piscando algumas vezes para ter certeza de que estava vendo aquilo de verdade. Impetor, sem jeito, deu um passo para trás, a mão instintivamente se movendo para a clava enquanto tentava esconder seu pavor e Dahaka teve que engolir o vômito quando não conseguiu distinguir se oque estava olhando se tratava da boca ou de outro orifício da criatura.

“Você sabia que ele tinha isso?” Asher murmurou baixinho, e Ludus apenas balançou a cabeça em negação, sem palavras para descrever a cena diante deles.

Os heróis deslizaram para fora da câmara, com passos firmes e cautelosos, seguindo Dahaka, que guiava o grupo pelos corredores sinuosos e mal iluminados. O ambiente era opressivo, abafado, e os ecos de passos distantes indicavam a movimentação dos guardas dos Zentharim em cada sombra. Dahaka liderava o grupo de maneira precisa, seus movimentos eram calculados e certeiros, evitando encontros desnecessários.

Enquanto avançavam, uma memória ardente pulsou na mente de Dahaka. Ele se lembrava de um tempo em que ainda era uma criança, magra e fraca, diante de seu irmão Eslovak. A imagem de Eslovak era clara: segurava um chicote, o braço forte e seguro desferindo golpes precisos. A cada estalo, a pele de Dahaka ardia, e ele gritava, mas sem nenhuma reação de Eslovak além de uma expressão dura e controlada. Ao fundo, sua mãe, Hamura, observava com um ar frio e calculista, impenetrável. A fúria e a humilhação cresceram dentro de Dahaka; um fogo ardia em seu peito, e ele sentia cada lembrança como um chicote cravando-se em sua alma.

A raiva o trouxe de volta ao presente, e ele percebeu que seus passos haviam se tornado mais pesados. Ele respirou fundo e fez um sinal para o grupo parar. Um guarda passava perto, e com um movimento ágil, Dahaka deslizou pela parede, sacando a adaga e golpeando a figura na garganta com um movimento suave e certeiro. Asher e Impetor rapidamente ajudaram a carregar o corpo e escondê-lo em uma sala vazia.

Cada guarda eliminado era uma vitória silenciosa, uma vingança pequena, mas cada vez mais próxima. Os heróis finalmente chegaram a uma porta de metal maciço, trancada e imponente. Ela levava para os andares inferiores, onde Eslovak estava.

Dahaka puxou suas ferramentas de ladrão, examinando a fechadura enquanto se ajoelhava. Ele retirou algumas chaves de pinos, pinças e uma pequena lâmina de aço fino.

“Vamos lá, devagar agora…” Dahaka começou o trabalho com cuidado, focado nos detalhes minuciosos do mecanismo.

Mor'Rein respirou fundo atrás dele, e Dahaka revirou os olhos sem se virar. “Não me venha com suspiros, Mor'Rein. Todo mundo esperou bonitinho quando você quis… parir essa coisa para a existência,” ele murmurou entre dentes, referindo-se ao familiar grotesco que estava ao lado de Mor'Rein, e que, ao ouvir a alfinetada, emitiu um suspiro magoado, uma lágrima escorrendo de um dos seus muitos olhos, como se tivesse sido profundamente ofendido.

O processo de abrir a porta estava demorando, e Impetor começou a bater o pé no chão, impaciente. “Tem como ir mais depressa?”

Ludus, que observava com desinteresse, inclinou-se para frente e descansou o braço nos ombros de Asher. “Calma, Lagartão. Não tá vendo que essa parte do processo é muito imPORTAnte... Entendeu? ImPORTAnte!” Ele se virou, esperando uma reação de Asher, que apenas lançou um olhar irritado para o bardo.

“Já falei para não me encostar, Ludus,” disse Asher, seco, dando um leve empurrão no braço do bardo.

Dahaka, em um sussurro exasperado, interrompeu o momento. “Vocês podem, pelo amor dos Deuses, calarem essas bocas?!”

Ele voltou ao trabalho, franzindo a testa enquanto mexia na fechadura, sentindo cada clique dos pinos. Porém, o silêncio que se seguiu foi interrompido por um leve “clique” que ele não reconheceu. Antes que Dahaka pudesse reagir, um vergalhão de cobre disparou da porta, perfurando-o no peito. Ele soltou um grito abafado de dor ao sentir o metal entrar em sua carne, uma sensação ardente percorrendo sua pele enquanto o veneno invadia seu corpo. Ele recuou, respirando com dificuldade, as mãos tremendo.

Os outros olharam, surpresos, enquanto ele tentava se manter em pé. “Acho… que essa era a parte em que o trapaceiro… se dava bem,” Dahaka murmurou, forçando um sorriso torto, antes de cair de joelhos.

Dahaka, ainda ofegante e tremendo de dor pelo vergalhão envenenado, se apoiou na parede, o rosto contorcido em uma expressão de frustração. Antes que pudesse dizer uma palavra, Impetor bufou de impaciência e, com um movimento decidido, deu um passo à frente. “Pois bem, plano B!” Com uma força explosiva, ele chutou a porta, fazendo-a se partir e abrir com um estrondo que ecoou pelo corredor.

Atrás dele, Asher se aproximou rapidamente de Dahaka, erguendo as mãos e deixando que uma luz dourada e suave emanasse dos seus dedos. O brilho envolveu o peito ferido de Dahaka, enquanto o veneno era purificado e seus músculos relaxavam gradualmente. Ele assentiu, agradecido, e o grupo desceu a escadaria em formação.

Ao final da descida, eles se depararam com um salão amplo e sombrio, o ar pesado com o cheiro de incenso e algo metálico. Imagens do demônio Baphomet adornavam as paredes e cercavam uma mesa de pedra no centro do salão, onde veias negras e pulsantes se espalhavam pelo chão e se entrelaçavam nas paredes, exalando uma aura corrupta. No outro lado, outra escadaria descia ainda mais, levando aos níveis inferiores onde as veias também se estendiam.

De costas para eles, uma figura alta e imponente estudava antigos tomos sobre a mesa de pedra. Sem se virar, Eslovak reconheceu a presença do grupo e, com um tom desdenhoso, declarou:

“Eu sempre soube que, mais cedo ou mais tarde, nossos caminhos se cruzariam, irmão…” Ele se virou lentamente, revelando um sorriso cruel. “E quem diria que o destino me daria mais uma chance de discipliná-lo depois de tanto tempo.” Ele olhou para Dahaka de cima a baixo, desprezando-o com cada palavra. “Você é uma desgraça para os Akmenos. Escolheu viver como um mendigo, um criminoso, cortando gargantas por alguns trocados.”

Dahaka deu um passo à frente, a fúria transparecendo em seus olhos. “Do meu ponto de vista, irmão… a única pessoa trocando vidas por poder aqui é você!”

Eslovak ergueu as mãos, pronunciando palavras em um idioma antigo e sombrio. Três duplicatas ilusórias surgiram ao redor dele, movendo-se em uníssono, suas formas distorcidas tornando impossível identificar qual era o verdadeiro Eslovak. Um sorriso maligno brincava em seus lábios enquanto olhava para o grupo, desafiando-os.

"Seus Primos?" brincou Ludus.

Dahaka rosnou de raiva e avançou em direção ao irmão, suas adagas brilhando nas mãos. Ele desferiu um golpe rápido, mas o ataque apenas atravessou uma das duplicatas, que explodiu em uma neblina espectral. Eslovak apenas riu, sua voz ecoando pelo salão, e as duplicatas restantes continuaram a se mover, dificultando o próximo ataque.

Mor'Rein, os olhos brilhando em tons místicos, estendeu uma mão para lançar uma magia das sombras, tentando dissipar as ilusões de Eslovak. Ele conjurou uma onda de energia arcana que avançou sobre as duplicatas, destruindo outra delas. No entanto, uma ainda restava, e Eslovak parecia imperturbável.

“Vamos, bruxo, mostre-me algo digno,” provocou Eslovak.

Impetor rugiu e investiu contra Eslovak, brandindo sua maça com uma força impressionante. Ele atacou com um golpe lateral, mas a última duplicata intercedeu, sendo destruída com o impacto. Agora, Eslovak estava desprotegido, encarando o meio-dragão com um sorriso afiado.

 Eslovak ergueu a mão direita, e uma esfera de energia esverdeada repulsiva começou a pulsar em seus dedos. Com um movimento rápido, ele lançou o feitiço diretamente em Dahaka. Um raio de energia envenenada o atingiu no peito, fazendo-o recuar, tossindo e cambaleando. O veneno percorreu suas veias, e o efeito anterior, que Asher havia dissipado, se reativou com intensidade brutal. Dahaka caiu de joelhos, vomitando e sentindo a visão turva, os lábios ficando com um tom esverdeado do veneno.

Asher, com um olhar determinado, ergueu a espada, protegendo Dahaka enquanto se aproximava para tentar ajudar o amigo. Ele murmurou uma oração fervorosa, canalizando luz divina para purificar novamente o veneno do corpo de Dahaka, que respirou aliviado, ainda que extremamente debilitado.

Com um olhar sombrio para Eslovak, Asher sussurrou, “Você não passará de hoje, demônio.”

Ludus, aproveitando a distração, começou a cantar uma melodia que ecoava pelo salão, fortalecendo os aliados e enchendo o ar com uma vibração inspiradora. Com um sorriso de deboche, ele gritou, “Só para constar: Sobretudo de couro nessa época da estação é muito cafona!” Sua magia inspirava cada aliado, aumentando sua moral para enfrentar o oponente.

Furioso, Eslovak conjurou um feitiço de trevas e chamas, fazendo sombras quentes pulsarem ao redor dele, mas Asher foi mais rápido. Ele usou sua força para agarrar Eslovak, fazendo-o perder o equilíbrio. Com um movimento poderoso, Asher lançou o inimigo na direção de Dahaka, que se ergueu, cambaleante, mas determinado. O tiefling aproveitou a oportunidade, erguendo sua adaga uma última vez enquanto Eslovak era atirado para ele.

A lâmina perfurou o corpo de Eslovak, que parou, surpreso, os olhos se arregalando ao encarar o rosto de Dahaka. A expressão de fúria no rosto do irmão era clara, mas ao ver a satisfação na face de Eslovak, Dahaka sentiu uma mistura de alívio e ódio. Ele apertou o irmão em um abraço mortal, segurando-o próximo.

As palavras de Eslovak saíram como um sussurro final, “Você ainda nos pertence.”

Mas, com um último esforço, Dahaka sussurrou, “Não mais.” Ele cravou a adaga mais fundo, até que a vida se esvaiu dos olhos de Eslovak, que caiu sem vida em seus braços. E logo depois sem forças pelo veneno, Dahaka também cai ao lado de seu irmão.

Os heróis carregam Dahaka, que está cada vez mais pálido, enquanto descem as escadarias. Com a morte de Eslovak, os Zentharim perderam seu líder, e a possibilidade de completarem o ritual desapareceu no ar pesado da câmara. As veias negras que emanam da sala do ritual serpenteiam pelas paredes, tornando-se mais pronunciadas conforme descem, como se fossem um sistema circulatório de alguma criatura grotesca. A atmosfera é tensa, e o mistério que envolve essas veias faz com que todos se sintam intrigados.

“Isso é realmente estranho,” diz Asher, olhando para as veias pulsantes. “Nunca vi nada parecido.”

“Essas veias parecem pulsar com algum tipo de energia,” Mor'Rein observa, franzindo a testa. “É como se o lugar estivesse vivo de alguma forma. Nunca vi nada igual, nem em meus livros.”

Quando finalmente chegam a um grande portão negro, as veias parecem continuar a se estender para além dele, como se o próprio portal fosse uma extensão do que já viram. Os heróis se aproximam do enorme Portão Negro, cuja superfície é estranhamente lisa e fria, com as veias escuras das paredes entrelaçando-se nele como raízes em pedra. Na frente do portão, encontram um painel de pedra, onde três figuras estão entalhadas: um lobo, uma ovelha e uma folha. O painel emite uma leve pulsação, como se estivesse à espera de um comando.

Eles tentam mover duas peças ao mesmo tempo, mas o painel trava imediatamente. Ludus, franzindo o cenho, toca na ovelha, que desliza para uma nova posição, e um leve clique ecoa. Mor'Rein tenta mover o Lobo e a Planta juntos e as engrenagens do painel parecem travar o movimento

"Parece que só podemos mover uma peça por vez" observa Ludus.

Impetor, impaciente, resmunga. "Peças? Movimento? Que palhaçada..."

Eles começam a fazer tentativas com o painel. Movem a ovelha e, em seguida, o lobo, mas quando vão mover a folha o painel emite um som alto de engrenagens, e as peças retornam ao ponto de partida, como se um mecanismo interno o reposicionasse automaticamente.

— Então deixar o lobo e a ovelha juntos... não é uma boa ideia — conclui Mor'Rein.

Quase uma hora se passa. Após várias tentativas, Dahaka, no chão, começa a gemer, lutando contra os efeitos do veneno. A preocupação aumenta quando ele finalmente perde a consciência.

Asher se ajoelha ao lado de Dahaka, tentando estabilizá-lo. "Precisamos resolver isso rápido. Ele está piorando, e não temos muito tempo."

Enquanto isso, Impetor, cada vez mais impaciente, decide dar um golpe no portão com sua maça, que apenas provoca um eco profundo, enquanto a arma vibra em sua mão.

"Isso é inútil!" ele diz, enfurecido. O meio-dragão, cada vez mais impaciente, cerra os punhos, seu olhar fixo nas paredes escuras cobertas pelas veias ao lado do portão. Em um impulso, a ideia de abrir um caminho pela força o domina, e, sem aviso, ele começa a esmurrar a parede com toda a sua força, como se pudesse cavar um túnel através dela. Os golpes ecoam pelo corredor, o primeiro golpe faz uma dessas veias estourar, e um líquido denso e escuro escorre, respingando em seu braço. Ele mal nota o sangue enegrecido que, ao tocar sua pele, começa a ser absorvido, ardendo como ácido. Por um instante, ele hesita, sentindo a dor latejar na carne, mas a raiva logo prevalece.

Ignorando a ardência que se intensifica com cada respingo, ele volta a esmurrar a parede com ainda mais força, esmagando mais veias que explodem sob seus punhos e braços. O sangue negro pinga cada vez mais, se infiltrando em sua pele em um processo quase visceral.

Ele começa a socar a parede ao lado do portão com seus punhos, em uma explosão de raiva. Ludus balança a cabeça, incrédulo. "Genna morreu por muito menos..."

Mor'Rein ergue uma sobrancelha, e responde:"Bom, ao menos ela era inofensiva.

"Esse comportamento vai contra... a natureza dos Halfling." Diz Ludus sem desviar o olhar daquela cena tragicômica. 

"Contra a Natureza de qualquer um com mais de metade do cérebro na verdade." Mor'Rein completa retornando seu olhar para o desafio a sua frente.

Ludus dá um leve sorriso, mas é Mor'Rein quem para de repente, como se tivesse sido iluminado por uma ideia.

"Natureza! Claro, é isso!" Mor'Rein exclama. "Ludus, você me deu a resposta."

Ludus pisca, surpreso."Eu? Como assim?"

"Pense: o lobo não come alface, mas a ovelha sim. Precisamos levar em conta a natureza de cada um. Se fizermos isso, o painel deve responder corretamente."

Eles então seguem o plano de Mor'Rein:

  1. Primeiro, ele move a ovelha para o outro lado, deixando o lobo e a folha.
  2. Depois, ele traz o lobo para o outro lado, mas retorna a ovelha ao ponto de partida.
  3. Em seguida, ele leva a folha para o outro lado com o lobo, deixando a ovelha sozinha.
  4. Por fim, ele leva a ovelha novamente para o outro lado, onde ela se junta aos outros.

Com a última peça posicionada, o painel emite um som profundo, e o Portão Negro começa a se abrir, revelando a escuridão do caminho adiante.

Impetor, limpando a poeira das mãos, observa o portão se abrir e dá de ombros, contrariado."Teria sido mais rápido na força."

"Claro, lagartão, você deveria abrir uma demolidora ao invés de se arriscar em colisseus." Ludus responde com um sorriso, enquanto passam pelo portão, agora abertos para a próxima fase de sua missão.

Ao atravessarem o Portão Negro, os heróis se deparam com uma escadaria que, pela primeira vez, sobe. Passo a passo, eles avançam, sentindo o peso da atmosfera que se torna mais sufocante. As veias negras que antes serpenteavam pelas paredes agora estão por toda parte, como uma rede entrelaçada que converge em direção a um ponto no centro da sala — um enorme casulo negro.

O casulo é um espetáculo de horror. Sua superfície é uma mistura grotesca de gosma e muco, reluzente sob uma luz trêmula e espectral que parece emanar de algum ponto escondido. Ele pulsa de maneira irregular, como se estivesse vivo, vibrando em um ritmo nauseante, cada pulsação liberando pequenas nuvens de vapor enjoativo. Partes de sua superfície parecem ter consistência sólida, mas outras exalam o cheiro putrefato de carne apodrecida, revelando pedaços de tecido cinzento e viscoso que escorrem em finas linhas de pus. O cheiro azedo e forte de enxofre preenche o ar, tornando impossível não imaginar a decadência e corrupção de algo preso ali dentro.

Mor'Rein observa o casulo atentamente, franzindo a testa e inclinando a cabeça, como se tentasse extrair algum sentido ou familiaridade daquela visão repulsiva. Mas não há nada em seus estudos — nem nos livros de que se lembrava — que o preparem para isso. Ele estreita os olhos, incerto.

Asher, com o rosto torcido de nojo, examina o casulo e declara, tentando sufocar o próprio asco:
"Algum tipo de corruptor se abriga aqui... Eu diria que é algo pra alojar um."

Enquanto isso, Ludus recua para um canto, puxando sua adaga de Sebastian Debast e a segurando rente ao rosto, sussurrando em voz baixa:
"Ow, Bestie… você sabe o que é isso?"

A voz da adaga responde, com um tom arrastado e mordaz, carregado de uma eloquência obscura:
"Ah, sim, sei muito bem."

Ludus bufa e insiste:
"E... o que é, então?"

"Por que eu deveria lhe contar, verme?" a adaga sibila com uma ponta de sarcasmo na voz.

Ludus revira os olhos, ciente de como manipular o objeto:
"Grosseiro. Vale lembrar que, sem mim, você fica sem alimento. Quer ficar mais um dia sem sangue?"

A voz na adaga suspira em relutância, mas responde, com um toque de condescendência:
"Argh... maldito seja, bufão intrometido. Muito bem... Isso aí é um portal. Imagine-o como um caldeirão de invocação, um ventre infernal que, ao ser nutrido com sacrifícios adequados, é capaz de ‘parir’ uma entidade demoníaca neste plano. O sangue sacrificado nas veias, como combustível em um forno, alimentaria o casulo, permitindo que algum demônio nefando rompesse as barreiras de seu plano e caminhasse entre os mortais."

Satisfeito, Ludus murmura um agradecimento à adaga, guardando-a, antes de se virar para os companheiros. Com um sorriso malicioso e confiante, ele explica:

"Parece que esse aí é um portal. Só que, em vez de ser aquele tipo de portal bonitinho que a gente vê nos contos, esse tá mais pro lado de caldeirão das trevas, só esperando pra abrir e soltar algum demônio pentelho por aí."

Mor'Rein o encara, surpreso.
"Ora, Ludus… pelo visto, você tem mais conhecimento do que aparenta."

Ludus ergue o queixo com ar de modéstia fingida, claramente gostando do elogio inesperado, embora não revele a verdadeira fonte de sua descoberta. Ele sorri, satisfeito, saboreando a glória de parecer mais sábio do que realmente é — tudo graças a algumas poucas palavras sussurradas de sua astuta adaga Debast.

Asher, olhando para o grotesco casulo, volta-se para Ludus e pergunta: "É melhor destruirmos isso, ou teria algum problema?"

Ludus, sempre dramático, levanta um dedo no ar e respira fundo, como se estivesse prestes a dar uma resposta certeira. Por um momento, ele se esquece de que não tem ideia sobre o que está falando. "Um momentinho," diz, virando-se de costas. Ele repete a pergunta de Asher para sua adaga, que responde em sua mente.

"Apenas se, por ventura, desejarem ser imersos nas gélidas profundezas do sangue negro que se infiltrará em suas peles, uma essência viscosa que, com o passar do tempo, se aninhará em suas almas e corroerá a luminosidade de seus espíritos."

Ludus se vira novamente para o grupo, agora com um ar de grande entendimento. Com uma voz pomposa e uma pose digna de um grande sábio, ele declara: "Eu não recomendaria. Sangue negro e blablabla... Ia nos ferir, e acabar com nosso espeto."

"Espirito," corrige a adaga na mente de Ludus.

"Espirito, perdão," ele se corrige quase que instataneamente.

Enquanto ouve isso, Impetor olha para suas mãos, lembrando do óleo negro que se alojou em sua pele quando ele socou as veias. Um momento de preocupação toma sua mente. O que isso poderia fazer com ele? A ideia de ser corrompido por aquele líquido repugnante não era nada animadora.

Os heróis, compartilhando olhares preocupados, finalmente decidem que deixar o casulo para trás é a melhor escolha. Já haviam feito o suficiente para desbaratar os planos dos Zentharim, e agora precisavam notificar Horusk sobre o que encontraram.

Subindo pela escadaria, a tensão vai se dissipando lentamente, e após alguns minutos, um aroma fresco os envolve. Eles emergem da escuridão, sentindo o céu estrelado acima de suas cabeças e a brisa outonal da noite acariciando suas peles. O peso do que viram e do que poderiam ter enfrentado parece desaparecer, e, por fim, eles estão fora da base dos Zentharim.

“Finalmente, ar fresco!” Asher exclama, respirando fundo e deixando a tensão de lado.

“Mais uma aventura emocionante, não?” Ludus sorri, com uma piscadela.

“Foi bastante... Instrutiva eu diria,” Mor'Rein acrescenta.

“É, e ninguém se feriu muito!” Impetor diz, com um tom de alívio.

"Me levem pra casa..." Dahaka murmúra recobrando a cosciência enquanto é carregado por Impetor.

E assim, sob o manto estrelado da noite, os heróis se afastam da base, prontos para o próximo desafio que aguardava.

Episódio 8 - Retorno à Arabel.

Data: 21 de Uktar de 1372, 21h 30min
Local:  Saída do Covil Zentharim - Cordilheira Stormhorns, Cormyr, Faêrun.

Noite cerrada sobre o descampado. Os heróis se encontravam finalmente fora do covil Zentharim, respirando o ar fresco que, mesmo com o cheiro enjoativo de cadáveres e da praga que corroía Cormyr, era uma melhora em relação ao ambiente sufocante de onde haviam saído. A vastidão das montanhas Stormhorns se abria ao redor, cercando-os como guardiãs severas, envoltas nas sombras de um céu sem luar. A tensão no ar sugeria que aquele silêncio era passageiro, uma pausa temporária, mas necessária.

Eles não poderiam prosseguir até que estivessem mais descansados. Dividiram turnos para vigiar, e Impetor, agora exausto de corpo e alma, preparou-se para deitar, deitando a cabeça pesada sobre o manto de viagem que lhe servia de travesseiro improvisado.

Mas o sono não trouxe descanso. Ele não sabia se já dormia ou se estava em algum estado entorpecido entre sonho e vigília. Subitamente, uma imagem surgia de trás da escuridão: um homem esguio, de escamas prateadas e expressão calma, que fitava Impetor com um olhar que misturava distância e algo que ele julgava ser arrependimento. O homem possuía uma presença inabalável, como se nada, nem o próprio tempo, pudesse afetá-lo. Este era seu pai, o dragão que lhe legara o sangue e uma sombra que ele nunca soubera realmente preencher.

"Pai," murmurou Impetor, estendendo uma mão em sua direção, mas o dragão se desvanecia, recuando para além do alcance de suas garras, até que se tornava apenas um borrão prateado. Então, Impetor se viu de volta no Coliseu Ragrinof, rodeado pelo clamor de multidões que não o aclamavam – apenas observavam, impassíveis. O chão de areia, sempre tingido de sangue, agora parecia querer absorvê-lo.

Ele gritou, mas o som de sua voz foi engolido pelo silêncio. A arena se desfazia, restando apenas ele e uma sensação esmagadora de abandono.

Impetor acordou com um sobressalto, seu corpo tenso, como se ainda estivesse pronto para lutar ou se defender. Olhou ao redor, e lá estava Asher, de vigia ao lado de uma fogueira discreta que brilhava fraca na noite.

"Você fala dormindo," comentou Asher, impassível , como se já estivesse habituado à inquietude do amigo.

Impetor bufou, desviando o olhar, tentando esconder o peso de seu pensamento recente. Ao longe, Asher observava com o tipo de atenção discreta e paciente que só um amigo verdadeiramente confiável possui. Ele não pressiona Impetor a falar, mas havia uma tranquilidade em sua presença, algo que naturalmente convidava à abertura.

"Sonhos estranhos, não é?" comentou Asher, casualmente, jogando uma lasca de madeira na fogueira. "Fazem a gente revisitar coisas que estavam melhor enterradas."

Impetor ergueu uma sobrancelha, sem olhar diretamente para ele, mas algo nos traços de Asher o fez relaxar. "Memórias podem ser… traiçoeiras." Ele hesitou, os olhos ainda vagando pela penumbra da noite. "Elas mostram um mundo que não enxargamos mais ."

Asher assentiu, como se compartilhasse da mesma dor. "Sim, ou o que tentamos não enxergar. Sabe, eu tinha um legado para proteger, algo grande demais para qualquer um carregar sozinho. E, de repente… tudo desapareceu. Agora, sobrou só eu.” Ele riu suavemente, um som misto de ironia e melancolia. “E que grande exemplo eu sou para o que restou.”

Impetor o observou de soslaio, captando a sinceridade nas palavras. Percebeu, por um momento, o peso que eles compartilhavam, mesmo que de formas diferentes. Ele suspirou, sem saber exatamente por que, mas encontrando ali uma espécie de abertura.

“Eu… Eu também carrego algo assim,” murmurou Impetor, a voz áspera, como se cada palavra fosse uma batalha por si só. “A diferença é que… bem, não me deixaram exatamente um legado. Ele Deixou… bem... eu.” Ele fez uma pausa, lutando com a própria frase. “Eu e um monte de perguntas sem respostas, na porta de um colisseu.”

Asher não fez qualquer movimento de julgamento, apenas escutava, sem pressa. Sua postura parecia conter uma compreensão genuína, a mesma dor silenciosa que Impetor sentia.

"Eu achei que, se me tornasse mais forte, se continuasse vencendo, ele viria," continuou Impetor, fitando as próprias mãos como se buscasse ali alguma resposta. "Lutava por ele. Sempre pensei que, no fundo, ele reapareceria quando eu fosse… digno."

Asher, sentindo a sinceridade do amigo, deu um leve aceno. "Faz sentido. Eu carregava a esperança de que o que restava da minha família me visse como um vingador digno de nossa história, que eles me sentissem do lado de onde quer que estejam.” Ele sorriu, mas era um sorriso carregado. “O legado é uma coisa engraçada. Você não pediu por ele, mas… acaba lutando por algo que nem sabe se ainda acredita."

As palavras de Asher, envoltas em uma gentileza firme, provocaram um breve silêncio entre os dois. Finalmente, Impetor se permitiu soltar um riso triste. "E aqui estamos. Dois homens tentando provar algo… para quem nem sequer nos vê."

Asher notou o peso das palavras, o desânimo que escorria do semblante de Impetor. Sem perder o espírito que carregava, lançou-lhe um olhar provocador, uma faísca de desafio se acendendo em seus olhos. "Então, que tal me mostrar o quanto você evoluiu, prateado?"

Impetor ergueu a cabeça, surpreso, mas ao mesmo tempo animado. Asher sabia que um bom combate sempre lhe dava ânimo. Sorrindo, ele se ergueu de onde estava, aceitando o desafio. Os dois se afastaram um pouco do acampamento, as estrelas testemunhando o combate amistoso entre guerreiros.

Por toda a vigília de Asher, duelaram sob o céu estrelado, suas espadas se cruzando, suas risadas abafadas preenchendo a noite. O peso dos legados e das ausências que ambos carregavam parecia dissipar-se a cada golpe trocado, enquanto se lembravam de que, no campo de batalha, as dúvidas se transformavam em força e destreza.

Quando a manhã enfim chegou, o sol emergiu timidamente, derramando uma luz suave sobre a cordilheira e dissipando a escuridão. Os heróis despertavam, prontos para continuar a jornada de volta a Arabel, deixando para trás o covil Zentharim e as lembranças sombrias da noite.

A viagem de volta para Arabel transcorreu em um ritmo tranquilo, mas o silêncio das montanhas e o vento frio de Uktar logo deram lugar à animada comédia de Ludus. Montado em uma pedra na beira da estrada durante uma pausa, o bardo começou a recontar os eventos no forte Zentharim com entusiasmo exagerado, seus gestos amplos e sua voz enérgica, como um verdadeiro artista diante de uma plateia.

"E então, caros amigos," começou ele, com um tom dramático e os olhos brilhando, "nos vimos rodeados por aqueles brutamontes sem um pingo de charme. O lugar? A base Zentharim, um lugar pra lá de acolhedor, decorado com aquela estética única de... hum... 'prisão medieval com pitadas de entranhas infernais'."

Dahaka, ainda pálido e sentindo o efeito do veneno, soltou uma risada inesperada e sincera, encostado em uma árvore. Era raro vê-lo tão à vontade, e seus olhos ainda estavam semicerrados, como se estivesse levemente zonzo. Ludus, percebendo o bom humor do amigo, não perdeu a oportunidade de subir o nível da comédia.

"E quando as coisas estavam prestes a piorar... o irmão de Dahaka apareceu com um feitiço antigo e misterioso! De repente, cópias de Dahaka começaram a brotar de todos os cantos. Por um momento, eu juro que achei que fosse uma reunião de família! Vocês sabem, eu sinto muito, mas esses mestiços infernais têm uma tendência a parecerem… praticamente idênticos!”

Dahaka gargalhou, tossindo um pouco, mas ainda mantendo o riso. A piada, embora atravessada, parecia ter encontrado um espaço de leveza. Mor’Rein, no entanto, que observava Ludus de perto, cruzou os braços.

“Por que tudo para você tem que ser uma piada, Ludus?” perguntou ele, com um tom um pouco irritado, embora houvesse uma curiosidade sincera em sua expressão.

Ludus ergueu uma sobrancelha, fingindo surpresa. “Ora, nobre elfo,” ele respondeu, colocando a mão no peito com um ar dramático. “A comédia é o que mantém o mundo em ordem. Veja, a vida é um palco, certo? E o papel da comédia é nos lembrar que, no fundo, somos todos iguais. Não importa o quão diferentes ou poderosos nos achem, no final das contas, rimos dos mesmos medos, das mesmas fraquezas.”

Mor’Rein permaneceu em silêncio, absorvendo as palavras, enquanto Ludus lhe dava uma piscadela. Asher sorriu levemente, dando um tapinha amigável no ombro do elfo. "E também serve para nos lembrar que estamos vivos, não é mesmo?"

O Dia foi seguindo com conversas e reflexões, até que, em um dos momentos mais sérios, o grupo se voltou para Dahaka. Asher ergueu o olhar na direção do ladino e perguntou: "Então, Dahaka, o que acha que sua família está tramando com os Zentharim?"

Dahaka deu de ombros, com uma expressão carregada de desdém e resignação. “Minha mãe é uma serpente ardilosa, Asher. Aposto que ela está apenas posicionando suas peças do lado que parece mais promissor no tabuleiro. A única lealdade que ela conhece é com o poder.”

O grupo assentiu, cada um perdido em suas próprias considerações sobre o assunto. A caminhada recomeçou com esse ar de mistério e conjecturas, enquanto Ludus prometia que a versão final da história ficaria ainda melhor e, com sorte, bem menos trágica.

Finalmente, após dois dias de viagem, os heróis chegaram a Arabel. No coração da cidade, as primeiras faixas do mercado noturno já se erguiam, os sons de pregões e o aroma de comida de rua eram revigorantes. Contudo, algo na praça principal chamou a atenção deles.

Fixado em um dos painéis de madeira, um cartaz de procurados brilhava à luz das tochas: os rostos dos heróis estampados, oferecidos pela Coroa de Suzail.

Ao se depararem com os cartazes espalhados na praça central de Arabel, cada herói pareceu reagir de forma única, mas a expressão de Ludus foi a mais explícita. Ele se aproximou do cartaz, arregalando os olhos ao ler a descrição, e recitou em tom indignado: “Quatro perigosos criminosos acompanhados de um bufão.”

Ele virou-se para o grupo, simulando uma expressão de dor ofendida e murmurou com escárnio: “Bufão? Apenas Bufão?! E eu aqui achando que, no mínimo, tinha sido promovido a um criminoso perigoso como vocês.” Ele fez uma pausa dramática e acrescentou, com uma risada disfarçada: “Qual é!? Queriam me acusar de roubar corações e espalhar graça pelo reino?”

Asher balançou a cabeça, escondendo um sorriso com um suspiro. “Ludus, agora não é hora para isso,” disse ele, mantendo os olhos atentos ao redor, ciente do perigo que os cartazes representavam.

Antes que pudessem debater mais, uma voz familiar ecoou à sua direita. “Arabel não é mais segura para vocês,” disse Horusk, que emergira das sombras ao lado deles. Ele rapidamente fez um gesto para que o seguissem em direção a uma rota menos exposta. Sob a cobertura do crepúsculo, ele os guiou por becos discretos e passagens escondidas até a segurança de sua torre, longe do olhar da guarda real e de possíveis espiões Zentharim.

Já na torre de Horusk, o grupo se reuniu no salão principal para relatar sua aventura no forte Zentharim. Eles narraram desde as batalhas intensas até as descobertas sombrias sobre a conexão dos Zentharim com o clã Akmenos, mencionando a participação suspeita da família de Dahaka. Horusk ouvia atentamente, e ao término do relato, levou a mão a barba, pensativo.

“Eu conheço o clã Akmenos,” comentou Horusk, cruzando os braços enquanto refletia. “São velhos conhecidos em Cormyr. Se Hamura Akmenos está de fato envolvida, vocês podem ter certeza de que as intenções dela não são nada menos do que ardilosas. Mas não sei aonde ela está no momento.” Ele fez uma pausa, observando Dahaka com um olhar perspicaz. “Mesmo assim, continuem a investigar os Zentharim. Seus caminhos podem cruzar o dela de novo, e talvez vocês encontrem respostas.”

Ajeitando a postura e assumindo um tom de comando, Horusk então revelou o motivo de sua urgência. “Há alguém que pode ajudar. Um antigo harpista aposentado chamado Calobri Perdracious. Ele sabe mais sobre os Zentharim e seus cultos antigos do que qualquer outro que ainda respire em Faêrun. Calobri foi responsável por dizimar cultos sombrios e servos de deuses da selvageria que os Zentharim apoiavam. Suas ações foram cruciais para manter esses males afastados… mas ele resolveu agir sem a influência dos Harpistas.”

Os heróis trocaram olhares intrigados, enquanto Horusk continuava. “Eu não consigo mais estabelecer contato com Calobri,” explicou ele, lançando um olhar sombrio para o grupo. “Tivemos um desentendimento anos atrás, o suficiente para ele se afastar de vez. Mas vocês têm uma missão agora: procurem Calobri na Floresta de Hullack, sua última localização foi lá. Ele saberá algo sobre esses cultos demoníacos e a selvageria dos Zentharim. Expliquem a situação e, com sorte, ele os ajudará. A entrada para a floresta fica a dois dias e meio de viagem daqui; recomendo que partam ao amanhecer.”

Após essa última orientação, Horusk despediu-se dos heróis e os deixou livres para se prepararem. A torre oferecia um ambiente seguro, e cada um deles recolheu-se para um pouco de descanso. Durante a noite, eles revisaram suas provisões, afiando lâminas, polindo armaduras, e empacotando mantimentos para a longa viagem até Hullack. Quando finalmente todos se recolheram para dormir, a torre estava envolta em um silêncio de expectativa, como se o próprio lugar pressentisse o peso da missão que aguardava ao amanhecer.

Enquanto Mor'Rein meditava nas sombras da torre de Horusk, uma presença antiga e devoradora se insinuou em sua mente como uma escuridão fria e faminta. Sentiu o ar rarefazer-se ao seu redor, uma sensação de vazio se espalhando, sugando até mesmo o calor de sua pele. Então, uma voz incompreensível e reverberante começou a sussurrar, como o eco de um trovão distante e faminto. Hadar, o faminto, fazia sua vontade conhecida, mas suas palavras eram fragmentos de algo muito além do entendimento mortal, reverberando entre o lamento e a necessidade, uma estranha melodia cósmica de fome e entropia.

"Luz... extinguir... sustento fugaz, mentes acesas — elas... cintilam e caem, caem para mim. Sentem, eles... tua espécie sente, eles fogem... sombra, como... minha fome..."

Mor'Rein, acostumado às mensagens caóticas de seu patrono, respirou fundo, absorvendo as palavras. Sabia que o entendimento era algo que, no pacto com Hadar, surgia não por clareza, mas por afinidade, uma dança entre o incompreensível e o destino. Ele inclinou-se levemente para frente, seus olhos fechados enquanto tentava compreender o significado nas sombras dos sussurros.

"Meu Senhor... a fome não conhece limites. O que deseja que eu faça? Qual será minha oferta ao seu apetite?"

Hadar emitiu uma risada baixa e retorcida, um som que poderia ter vindo de uma galáxia distante ou do vácuo entre as estrelas. A voz voltou a se enroscar em sua mente, um eco corroído pela necessidade desmedida.

"Pelo... limite... colapso, tu irás onde a chama queima... onde o sangue pulsa... eles percorrem a trama... eu quero... ébrio... tão doce... tão efêmero... arraste, arraste suas almas... sacrifícios... para mim..."

As palavras pareciam flutuar em espirais, mesclando-se com sentimentos de fome e desespero, evocando imagens de estrelas mortas e esferas de energia desmoronando em nada. Mor'Rein assentiu, compreendendo que o desejo de Hadar era contínuo, interminável, como o ciclo das marés que se impunham contra a terra sem fim.

"Entendo... onde quer que eu vá, trarei suas presas ao vazio que lhe pertence," respondeu Mor'Rein calmamente, a determinação em sua voz obscurecendo qualquer temor.

Hadar respondeu, seu timbre confuso e fragmentado, mas com uma ponta de satisfação, um gosto fugaz de saciedade e tormento misturados.

"Sim... vai, arauto... eles... sacrifícios, colhe... enquanto ainda... ainda há algo... ainda há... para devorar..."

E assim, com as últimas palavras de Hadar se dissipando como cinzas ao vento, Mor'Rein sentiu a presença desaparecer, mas o peso da fome de seu patrono ainda permanecia com ele, como um eco na alma. Ele abriu os olhos, sentindo-se mais vazio e mais pleno ao mesmo tempo, ciente de que a viagem que faria com seus companheiros o levaria mais perto dos desígnios incompreensíveis daquele que habita o nada.

Episódio 9 - Sacrifício de Prata.

Data: 24 de Uktar de 1372, 6h
Local:  Torre de Gemas de Horusk - Arabel, Cormyr, Faêrun.

Era o amanhecer do dia quando os heróis se levantaram, prontos para deixar Arabel e seguir em direção à Floresta de Hullack. O céu lentamente tingia-se de laranja e dourado, enquanto o sol nascente projetava longas sombras pelas ruas da cidade. Moviam-se em silêncio pelas vielas, com os primeiros raios de sol banhando seus rostos e aquecendo suas capas. Dahaka, que sempre fora o mais atento às nuances da multidão, subitamente notou uma presença inquietante: uma figura envolta em sombras, que os observava de longe. Antes que pudesse reagir, a figura desapareceu na multidão como fumaça. Com um tom de alerta, Dahaka comunicou aos amigos: “Estamos sendo observados, melhor seguirmos com cautela.”

O primeiro dia de viagem seguiu com tensão crescente, o grupo ciente de que havia olhos sobre eles. O caminho era longo e desolado, o som de passos no solo úmido misturando-se ao farfalhar das árvores e ao bramido distante do rio que cruzaram ao entardecer. O grupo decidiu acampar logo após a travessia. Ao redor de uma fogueira fraca, enquanto o frio da noite se intensificava, o silêncio pairava pesado entre eles. 

O corpo de Impetor repousava sobre o chão irregular e frio, mas o sono não lhe trazia descanso. Ele caíra numa escuridão espessa, onde sombras dançavam ao seu redor, ameaçadoras, serpenteando como víboras prestes a dar o bote. Ele não conseguia discernir onde estava; sua mente, enclausurada num limiar entre o real e o espectral, estava envolta em um negrume pulsante. Vislumbres de um campo de batalha retorcido, com corpos sem vida e rostos disformes o cercavam, esboçando sorrisos de deboche e zombaria.

Impetor tentava erguer sua arma, mas os braços pesavam, como se estivessem envolvidos por correntes invisíveis. Sua respiração acelerava, cada suspiro transformando-se em um vapor escuro, enegrecido por uma força estranha. Ele se contorcia, lutando contra algo dentro de si, algo que emergia das profundezas de seu próprio ser, uma força desconhecida que roía sua sanidade e sussurrava palavras intraduzíveis em sua mente, como uma língua esquecida que ameaçava arrastá-lo para a loucura.

De repente, Impetor despertou, mas não se sentia totalmente presente. Seu corpo se sacudia em um espasmo involuntário, e ele arquejava, o peito subindo e descendo violentamente, como se algo estivesse comprimindo seu coração. Ele sentiu a garganta queimar, uma dor aguda que o obrigou a abrir a boca num grito mudo. Seus olhos estavam entreabertos, mas não reconheciam o mundo ao seu redor. Então, sem aviso, ele inclinou o corpo para frente, e algo escapou de sua boca – uma substância negra, oleosa, que parecia ter vida própria.

A massa viscosa esguichou de sua garganta em ondas, contorcendo-se como uma cobra enraivecida antes de cair ao solo, onde continuou a se mexer, pulsando e evaporando lentamente, como se estivesse sendo consumida pelo solo. Gotas escuras manchavam a escama prateada de seu queixo, e ele ainda tremia, os dentes cerrados num esforço de manter o controle sobre si mesmo. Suas garras afundaram na terra, tentando ancorá-lo de volta à realidade.

Lentamente, a massa negra dissipou-se no chão, deixando apenas manchas enevoadas na terra úmida. O ar ao seu redor parecia pesado, carregado de uma energia densa que ninguém mais notara. Seus companheiros continuavam adormecidos ao seu redor, alheios ao que acabara de acontecer, indiferentes àquela batalha silenciosa. Impetor ergueu a cabeça, o olhar perdido na escuridão além da fogueira moribunda, e encostou-se numa rocha, exausto e confuso, a mente ainda invadida por ecos do que acontecera.

Ele não sabia o que aquilo significava, mas, de algum modo, sentia que um pedaço de si mesmo havia sido arrancado naquela noite, consumido pela própria sombra. Fechou os olhos com força, tentando recobrar a sanidade, ainda sentindo o gosto amargo do desconhecido em sua boca, e se recostou, esperando que o sono lhe trouxesse, ao menos, uma trégua de seus demônios internos.

Na manhã seguinte, enquanto os primeiros raios de sol filtravam-se através das copas das árvores e o orvalho ainda brilhava como pequenas pérolas sobre a grama, o grupo se preparava para a jornada que os levaria adiante. Asher estava ajeitando suas armas, enquanto Impetor revisava os suprimentos. A atmosfera estava carregada com a expectativa de um novo dia, mas uma inquietação crescente começou a se infiltrar entre eles.

Mor'Rein sentou-se à sombra de uma árvore antiga, mas seu semblante, normalmente sereno e contemplativo, havia mudado. Seus olhos agora pareciam mais vazios do que o normal, como se estivessem mergulhados em um abismo distante. Ele fixou o olhar em um ponto no horizonte que os outros não podiam ver, como se estivesse absorvido em uma visão que o isolava do mundo. Um leve tremor percorreu seu corpo, e seus lábios começaram a se mover, emitindo murmúrios que pareciam ecoar de lugares obscuros da mente.

“Fome... Comer... Eterna fome... AGORA!” A voz era um sussurro agonizante, que cortava o ar como uma lâmina afiada, reverberando nas paredes de sua consciência. Era um chamado, uma invocação que pulsava em seu interior, queimando como fogo nas entranhas. A urgência da voz empurrava-o para frente, e a cada palavra murmurada, Mor'Rein se afastava um pouco mais da realidade que os cercava.

Ludus notou a mudança drástica em seu amigo. Uma onda de preocupação o envolveu, e ele correu na direção de Mor'Rein, sua voz carregada de confusão: “Ei, Mor'Rein! Onde você está indo? Volte, não se afaste assim!” Mas suas palavras pareciam se dissipar na brisa matinal, perdendo-se entre os galhos das árvores. O elfo, em seu estado de transe, ignorou completamente a chamada do amigo, movendo-se como um sonâmbulo guiado por uma força invisível.

Os passos de Mor'Rein tornaram-se firmes e decididos, levando-o para fora da estrada, em direção a um caminho coberto de ervas altas e silvestres, como se estivesse respondendo a um chamado ancestral que pulsava em seu sangue. O grupo, confuso e alarmado, trocou olhares inquietos, percebendo que a essência do elfo estava longe do alcance deles, perdida em um labirinto de devaneios e anseios.

“Mor'Rein!” gritou novamente Ludus, agora com a voz tingida de urgência e medo. “Por favor, não vá! O caminho é pra cá!” Mas o elfo apenas continuou sua marcha, os olhos opacos fixos em uma visão que o tornava surdo aos apelos de seus amigos.

A estranheza da cena envolvia os companheiros, como se um manto escuro os cobrisse. O que poderia estar chamando Mor'Rein tão intensamente? O que o aguardava na trilha que ele escolhia seguir? Com o coração apertado, Ludus sentiu que não tinham escolha a não ser segui-lo. Ele trocou um olhar decidido com Asher, Dahaka e Impetor, e, juntos, adentraram no mato, preocupados, mas determinados a trazer o elfo de volta à realidade.

Os heróis não tiveram escolha a não ser seguir Mor'Rein em sua jornada enigmática. Eles atravessaram uma paisagem rochosa que se desenrolava à sua frente como um quebra-cabeça de pedras irregulares e desiguais, onde a vegetação se tornava escassa, lutando para prosperar nas fendas e rachaduras do solo árido. O sol se erguia, ardente no céu, lançando sombras longas e angustiantes sobre o terreno, e o calor começou a se acumular, tornando a caminhada extenuante. Cada passo era um desafio, as pedras escorregadias sob seus pés exigiam atenção redobrada, enquanto arbustos espinhosos tentavam agarrá-los, como se quisessem desviar seu caminho.

Mor'Rein prosseguia com uma determinação estranha, seus passos guiados por um impulso invisível que parecia empurrá-lo cada vez mais longe do grupo. O silêncio que o cercava era pesado, interrompido apenas pelo som de pedras se deslocando sob os pés dos heróis, enquanto eles tentavam manter-se próximos ao elfo. O ar estava impregnado de uma expectativa quase palpável, e o que deveria ser uma simples travessia tornou-se uma experiência carregada de tensão e incerteza.

Finalmente, após uma longa e inquietante marcha, Mor'Rein parou abruptamente em uma clareira rochosa. Seus olhos, antes perdidos em um abismo de escuridão, agora pareciam focalizar algo à sua frente. Ele estava diante de uma área coberta por uma profusão de pedras, onde o solo se inclinava para baixo, como se ocultasse um segredo sombrio. Os contornos de uma entrada subterrânea, quase invisível sob as pedras que a camuflavam, começaram a se revelar conforme o elfo se aproximava.

Os heróis, percebendo a estranheza do momento, se agacharam rapidamente, buscando abrigo atrás de rochas próximas. O coração de Ludus batia acelerado em seu peito enquanto ele observava, atento a cada movimento de Mor'Rein. Dahaka, agachado ao lado dele, lançou um olhar nervoso em direção ao elfo, e Impetor, com sua presença imponente, mantinha-se alerta, com a massa pronta para agir caso algo ameaçador emergisse.

O transe que dominava Mor'Rein começou a se dissipar gradualmente, como névoa sendo empurrada pelo sol. O toque firme e reconfortante de Asher em seu ombro parecia trazer o elfo de volta à realidade, e ele piscou algumas vezes, a confusão lentamente tomando conta de seu semblante. As palavras sussurradas que o guiavam se tornaram um eco distante, e ele começou a compreender onde estava e o que havia feito.

"O que… onde estou?" murmurou Mor'Rein, seus olhos se arregalando à medida que a lucidez retornava. Ele olhou ao redor, o brilho de sua antiga determinação se misturando a uma nova incerteza.

O chão à frente dos heróis começou a vibrar, uma ressonância profunda que parecia emanar das entranhas da terra. As rochas, como se possuíssem vontade própria, se moviam com um estrondo baixo e reverberante, revelando uma entrada sombria que se erguia do solo em um arco majestoso, como se um portal para outro mundo estivesse se abrindo diante de seus olhos atônitos. Uma brisa fria emanava do interior da caverna, trazendo consigo um sussurro distante, como se a própria escuridão estivesse chamando-os para adentrar.

Das sombras profundas da caverna recém-aparecida, uma figura encapuzada começou a emergir, sua forma envolta em mistério. O capuz ocultava seus traços, deixando apenas um vislumbre de um semblante delicado e firme, mas a penumbra a envolvia de tal forma que o grupo teve dificuldade em discernir suas características. A tensão era palpável, e os heróis prenderam a respiração, olhos arregalados, tentando identificar a estranha figura que parecia ter surgido diretamente de um pesadelo.

Miro'San.
Foi então que um som ensurdecedor reverberou pelos céus, uma onda de poder que fez os corações acelerarem. Contra o brilho ofuscante do sol, uma vasta silhueta começou a descer em direção ao chão. A imponente figura de um dragão de prata rasgava o céu com sua grandeza, suas escamas brilhando como estrelas em uma noite clara, refletindo a luz em um espetáculo de cores prateadas que hipnotizou os heróis. Com um movimento fluido e gracioso, o dragão pousou suavemente diante da figura encapuzada, a força majestosa da criatura dominando a paisagem.

Os heróis, boquiabertos, observaram enquanto o dragão, com sua cabeça colossal e olhos brilhantes como lâmpadas, direcionava seu olhar penetrante à figura misteriosa. Sua voz, grave e ressonante como um trovão distante, cortou o ar denso: "Está pronta?"

A mulher, que até então parecia uma sombra indistinta, confirmou com um gesto solene de cabeça, o capuz balançando suavemente em um movimento decidido. Seus dedos começaram a dançar no ar, traçando formas precisas que revelaram uma proficiência mágica impressionante. Um selo mágico começou a se formar sob seus pés, pulsando com uma energia vibrante. As runas complexas dançavam e giravam como pequenas estrelas, iluminando o espaço ao redor com um brilho etéreo que contrastava com a escuridão da caverna.

O dragão observou, sua presença imponente combinando-se com a aura da figura encapuzada, como se ambos estivessem entrelaçados em um destino há muito predeterminado. O clima ao redor parecia mudar, a atmosfera se tornando eletricamente carregada, e os heróis, ainda escondidos nas sombras, sentiram uma onda de poder e antecipação crescendo à medida que a cena se desenrolava diante deles. Eles estavam prestes a testemunhar algo que transcendia a compreensão comum, algo que poderia mudar o curso de suas vidas para sempre.

Hamura Akmenos.
A figura envolta no manto finalmente se revelou como uma tiefling de pele rubra e longos cabelos negros: Hamura. Quando ela rompeu o silêncio, suas palavras flutuaram no ar, carregadas de um respeito profundo e uma resignação inquietante: "Fez a escolha certa, Miro'San..."

A voz de Hamura tinha um tom melodioso, como um vento suave que passava por entre as folhas, mas, ao mesmo tempo, ressoava com a gravidade de um destino inevitável. O momento parecia suspenso no tempo, um breve instante em que a realidade se dobrava sobre si mesma, e Impetor, tomado por uma emoção que fervilhava em seu interior, não pôde se conter. Ele saiu do esconderijo, ignorando o olhar de Ludus, que tentava, em vão, segurá-lo pelo braço, murmurando palavras de advertência que se perdiam em um turbilhão de sentimentos.

Impetor se postou atrás do dragão, sua figura draconiana imponente contrastando com a delicadeza da cena, e, com um assobio que misturava nervosismo e determinação, conseguiu atrair a atenção da majestosa criatura. As escamas do dragão brilhavam intensamente à luz do sol, refletindo a resplendor de sua ancestralidade.

"Há 26 invernos, um grande dragão de prata me deixou na porta de um coliseu... " sua voz, apesar de firme, tremia com a vulnerabilidade de suas palavras. "Passei minha vida em busca do meu verdadeiro progenitor. Por isso, preciso saber: você é ele?"

O dragão virou-se lentamente, como se o peso das eras estivesse sobre seus ombros, avaliando Impetor com olhos profundos e melancólicos que pareciam conter o próprio universo. Cada escama reluzente do dragão parecia brilhar com a luz de lembranças antigas e, ao olhar nos olhos do draconato, algo mudou na atmosfera. Hamura arqueou uma sobrancelha, surpresa com a ousadia da interrupção, mas decidiu permanecer em silêncio, observando a troca.

Então, a figura colossal, a quem chamavam de Miro'San, suspirou profundamente, um som que reverberou no coração dos presentes, como o eco distante de uma tempestade. A tristeza palpável em sua voz transbordou quando ele disse: "O destino, às vezes, é cruel… Minha criança. De todos os dias que poderia escolher para nosso reencontro, ele escolheu este."

Impetor sentiu um tremor percorrer seu corpo, um arrepio que ia do topo da cabeça até a ponta dos dedos do pé, a confirmação de que aquele ser majestoso era realmente seu pai, pesando em seu coração como uma âncora, tanto uma benção quanto uma maldição. Uma onda de emoções tumultuadas o invadiu — alegria, raiva, tristeza — tudo se misturando em um turbilhão que o deixou quase atordoado. Ele tentou falar, mas as palavras se emaranhavam em sua mente, cada uma lutando para se libertar de sua garganta.

"Eu... tenho tantas perguntas..." começou, hesitante, as palavras saindo de sua boca como um sussurro, ainda incrédulo de que aquele momento, que havia buscado durante toda a sua vida, finalmente estava diante dele. Ele olhou para Miro'San, buscando respostas nos olhos do dragão, uma expectativa fervorosa pulsando dentro dele, como um coração ansioso por finalmente encontrar seu lar.

Hamura cruzou os braços, seu semblante impaciente quebrando a conexão emocional que se formara entre Miro'San e Impetor. A expressão de seu rosto era uma mistura de desdém e urgência, e suas palavras cortaram o ar pesado que os rodeava. "Isso tudo é muito tocante, mas Miro'San, está na hora."

Dahaka, que tinha uma flecha apontada para Hamura, hesitou. O desejo de preservar o momento entre o dragão e Impetor o impediu de disparar contra sua mãe, sua curiosidade maior do que sua cautela. Miro'San, como um gigante enredado nas teias do destino, lançou um olhar resoluto para Hamura, e uma sombra de resignação cruzou seu rosto escamoso.

"Certo," murmurou, o peso das palavras se desfazendo em um eco profundo. Em seguida, voltou sua atenção a Impetor, sua voz carregada de uma melancolia tangível. "Lamento profundamente que nosso reencontro seja tão breve, meu filho. No entanto, há um dever que não posso ignorar..." sua voz era um sussurro carregado de pesar, mas também ressoava com uma firmeza inabalável.  

Ele se abaixou lentamente, como se cada movimento fosse acompanhado pelo fardo de uma eternidade. Miro'San apontou com sua grande pata em direção a caverna que havia surgido do chão — fragmentos de um passado que se entrelaçavam com o destino de seu filho. "Sangue do meu sangue… Estas são suas heranças. Oque conservei em vida, agora é teu."

Impetor segurou as lágrimas, seu coração disparando, as emoções colidindo em seu peito como tempestades em alto-mar. Ele estava confuso, a respiração pesada enquanto Miro'San se movia em direção ao círculo mágico que pulsava com uma luz própria, o ar vibrando com a expectativa do que estava por vir.

No instante em que Miro'San cruzou a linha das runas, a atmosfera se alterou. Tentáculos negros emergiram do solo, contorcendo-se como serpentes enfurecidas, envolvidos em uma energia pulsante e caótica que emanava um frio intenso. A cena era aterrorizante, como se o próprio espaço estivesse se desintegrando, e o chão começava a reclamar por sua presa. As garras distorcidas dos tentáculos pareciam ansiar pela carne e pela essência do dragão, criando um ambiente de pura ansiedade.

Mor'Rein observava tudo com um brilho sombrio em seus olhos, reconhecendo a presença de seu patrono, Hadar, o faminto. O dragão prateado, em um ato de rendição, fechou os olhos e aceitou o destino que se aproximava. Sua expressão era serena, mas os contornos de sua forma brilhante eram consumidos pelas trevas que se aproximavam, transformando-se em um pesadelo vívido.

Num último ato de desespero, Impetor se lançou para frente, gritando: "PAI!"

O som da palavra reverberou no vale de pedras como um grito de dor e esperança. Em um salto desesperado, agarrou o chifre do dragão. A dor se refletiu nos olhos de Miro'San, mas ele não ofereceu resistência; em vez disso, uma única lágrima prateada escorreu de seus olhos, caindo suavemente até se perder no vazio. Com um estalo ressonante, o chifre se partiu, deixando um fragmento nas mãos de Impetor, uma conexão física e emocional com o que havia sido seu pai.

Impetor caiu de joelhos, segurando o fragmento com reverência silenciosa, enquanto o portal negro se fechava atrás de Miro'San, consumindo tudo em seu caminho e deixando um vazio absoluto onde o dragão estivera, como se o próprio universo tivesse se esquecido de sua presença.

Quando o silêncio se instalou, os heróis se aproximaram de Impetor, cada um carregando sua própria incredulidade. Hamura havia desaparecido na confusão, e Dahaka, com os punhos cerrados, procurou-a em vão entre as sombras, tentando processar o que acabara de presenciar.

Com o fragmento do chifre de seu pai delicadamente segurado em suas mãos, Impetor começou a se recuperar do turbilhão emocional que o envolvia. O peso da perda ainda era palpável, mas havia uma centelha de determinação em seu olhar. Ele se ergueu lentamente, sua mente processando cada momento que testemunhara. Com um gesto respeitoso, colocou o pedaço de chifre em sua ombreira, como uma insígnia de sua linhagem e da herança deixada por Miro'San. Aquela pequena peça de cor prateada, embora simples, pulsava com a força de um legado ancestral, um lembrete constante de seu verdadeiro destino.

Após um instante de contemplação, Impetor se dirigiu à gruta onde a magia pulsava, a porta imponente adornada com runas complexas que brilhavam sob a luz que emanava de seu toque. Assim que ele a tocou, as runas se iluminaram com um brilho intenso, respondendo à sua presença como um herdeiro do dragão prateado. Com um leve estrondo, a porta se abriu, revelando o interior da caverna. Uma atmosfera mágica e misteriosa envolveu-o, uma promessa de segredos antigos e desafios por vir.

Os outros heróis, ainda atordoados pelo que haviam presenciado, se aproximaram da pilha de ouro e tesouros que Miro'San deixara para trás. O espaço era monumental, a caverna feita proporcionalmente para um humano, com riquezas acumuladas ao longo de uma vida de aventuras. O ouro reluzia como estrelas caídas, e relíquias mágicas, armas ancestrais e objetos de grande valor estavam espalhados por toda parte. No centro, uma mesa estava preparada para um banquete magnífico, com pratos de frutas exóticas, carnes assadas, e vinhos de cor rubra que pareciam convidar os heróis a se juntarem em celebração.

Ludus, quebrando o silêncio que pairava na atmosfera pesada, comentou com um sorriso tímido: "Bem, pelo menos agora temos um investimento em nossas aventuras." Dahaka, ao seu lado, concordou, os olhos brilhando com a ideia das possibilidades que aquele tesouro poderia proporcionar. "Podemos comprar o que quisermos, armar-nos para os desafios que virão…"

Entretanto, Impetor, que havia descido até a gruta, virou-se para encarar seus companheiros, a expressão em seu rosto mudando de um momento para o outro. "Não," ele vociferou, a voz firme e resoluta, cortando a conversa como uma lâmina. "Esse tesouro... é a única coisa que resta do meu pai. Ninguém tocará nele." Seu olhar ardente refletia a dor da perda e a determinação de proteger o que restava de sua linhagem. A emoção envolvia suas palavras, e os outros heróis puderam sentir o peso do que aquilo significava para ele.

A cena ficou marcada no ar, uma junção de tesouro e luto, de promessa e lembrança, enquanto a equipe observava Impetor, que estava decidido a manter sua herança intacta. Assim, o episódio chegava ao fim, deixando uma mistura de expectativas e incertezas para o futuro, mas também um profundo entendimento de que o verdadeiro valor não estava nas riquezas, mas nas conexões e legados que carregamos.

Episódio 10 - Caos em Hullack.

Data: 25 de Uktar de 1372, 22h
Local:  Caverna de Miro'San - Rochedos próximos a Floresta de Hullack, Cormyr, Faêrun.

Na noite gelada de Uktar, enquanto a caverna de Miro'San repousava sob um silêncio profundo, os heróis decidiram fazer daquele o seu abrigo temporário. A rocha guardava memórias, e Impetor Ragrinof, embora sem dormir, percorria cada canto, absorvendo as lembranças que seu pai deixara. O coração dele pulsava forte ao tocar relíquias e objetos antigos: um elmo de prata desgastado, adornado com rubis desbotados; uma lâmina dourada decorada com runas agora apagadas; e pequenas estátuas que representavam figuras de dragões prateados, como se cada uma fosse um guardião eterno.

No fundo da caverna, sua atenção foi capturada por uma grande pintura pendurada na parede. A moldura era de um prata brilhante, como se refletisse o esplendor de Miro'San. Na tela, estava retratado um homem de aparência imponente e jovem, cabelos prateados e lisos caindo até os ombros, com um brilho enigmático nos olhos. Vestia-se com trajes polidos e carregava uma expressão de serenidade. Ao seu lado, abraçando-o carinhosamente, havia uma mulher de pele escura e cabelos amarrados em um rabo de cavalo, suas vestes e adornos sugerindo origens de Zakhara. Em seu pescoço, um colar feito com pedras azuis reluzentes repousava elegantemente. Abaixo, a legenda simples, porém cheia de significado, lia: “Lorde Miro'San e Kyaren Saamiqa al-Parsa”.

Perdido na observação, Impetor sentiu o peso da solidão que o pai deve ter enfrentado ali. Ele tocou suavemente o quadro, um fio de indignação preenchendo-o, e ficou ali até que a madrugada se aproximasse, imerso em memórias que nem ele vivera, mas que agora ressoavam dentro dele.

Ao amanhecer, Dahaka e Ludus se afastaram para conversar, observando o tesouro que reluzia pela caverna. Dahaka, franzindo o cenho, sussurrou: “Vamos mesmo sair e deixar esse ouro todo aqui? Isso é loucura!” Ludus coçou o queixo, pensativo, e respondeu: “Bem... É a escolha dele. E você sabe como ele é cabeça-dura.” Dahaka balançou a cabeça, bufando. “É, ninguém nessa terra vai conseguir fazê-lo voltar atrás.”

Nesse momento, Ludus ergueu a sobrancelha, seus olhos brilhando com uma ideia travessa. “Você quis dizer... ‘ninguém vivo nessa terra’.” Ele sorria de forma sapeca, e Dahaka, percebendo o que ele planejava, apenas cruzou os braços, curioso para ver até onde aquilo iria.

Enquanto Impetor terminava de reunir suas coisas, Ludus, com um brilho travesso nos olhos, afastou-se em silêncio. Ele moveu as mãos com destreza, entrelaçando os dedos enquanto entoava um encantamento. Então, bem diante de Impetor, uma figura colossal começou a se materializar. Aos poucos, uma cabeça flutuante, espectral e translúcida, tomou forma no ar.

A imagem era uma mistura de sombras prateadas e contornos brilhantes, pulsando levemente, como se a própria essência do dragão se projetasse do além. Apenas a cabeça de Miro'San se formou, mas ela dominava o espaço da caverna, pairando a alguns metros de altura. Seus olhos, duas fendas resplandecentes de um azul frio e etéreo, miravam diretamente o filho, como se perfurassem sua alma. Cada detalhe estava lá: as escamas iridescentes, que cintilavam em tons metálicos sob uma luz invisível; as imponentes linhas de sua mandíbula, onde dentes afi ados surgiam como lanças de prata, e o par de chifres curvados, espectrais, que desafiavam o ar como coroas de um monarca perdido.

A imagem tremeluzia levemente, os contornos se desvanecendo em certos pontos antes de reaparecerem, dando à visão um aspecto fantasmagórico, quase onírico. E então, em um tom grave e reverberante, como um trovão ecoando no fundo de uma caverna, a voz se fez ouvir:

“Meu filho...”

O som ressoou como um lamento ancestral, envolvendo Impetor em ondas de emoção e deixando-o paralisado, os olhos arregalados e a expressão de choque se transformando em emoção. Tremendo, Impetor caiu de joelhos, lacrimejando. “Pai... É o senhor se comunicando do além-vida?”

A ilusão, conduzida por Ludus com habilidade teatral, fez uma pausa solene antes de continuar. “... Sim, Impetor. É de suma importância que você me escute. Você precisa imediatamente partilhar de todo o meu tesouro com seus amigos. Será importante na jornada de vocês.”

Com lágrimas escorrendo pelo rosto, Impetor se aproximou mais da figura do pai, tentando tocá-la, sentir algum vestígio de calor ou conexão. Quando encostou no espectro, a imagem dissipou-se no ar, revelando-se uma mera ilusão. Logo, as risadas abafadas de Ludus ecoaram na caverna.

Ainda processando o que acontecera, Impetor percebeu a verdade da brincadeira de mau gosto. Uma expressão de fúria se formou em seu rosto, e ele disparou em direção a Ludus, os olhos flamejantes, enquanto Ludus se preparava para correr, ainda rindo de sua travessura. O caos irrompeu na caverna, o rugido de Impetor ecoando pelos corredores de pedra enquanto ele prometia uma vingança à altura da afronta.

Quando Impetor avançou, Ludus, já com um olhar de desespero, esquivou ligeiramente se abaixando, desviando do golpe que quase o acertara. A pesada maça de Impetor passou de raspão e se chocou com uma pilastra de pedra da caverna, rachando-a com um estrondo que ecoou pelo salão. Pedaços de pedra se desprenderam, caindo no chão com um baque, enquanto Ludus cambaleava para trás, tentando recuperar o equilíbrio.

"Calma, grandão, foi só... foi só uma piada para te animar!" Ludus balbuciou, com um tom de humor defensivo, mas seu olhar trazía a preocupação ao ver a fúria contida nos olhos de Impetor.

Sem dizer uma palavra, Impetor rugiu de volta, levantando a maça para outro ataque. Nesse instante, Asher se colocou entre os dois, desembainhando a espada e lançando um olhar confuso para Ludus, que continuava sorrindo, mas já claramente nervoso. “Vocês perderam o juízo?” Asher disse, tentando fazer com que Impetor focasse nele. Mas o olhar do meio-dragão era fixo, irado, e pronto para esmagar qualquer um que ousasse brincar com o sagrado legado de seu pai.

Enquanto o caos se desenrolava, Dahaka, já adaptado à confusão dos outros, aproveitou a oportunidade. Com movimentos rápidos e leves, ele se esgueirou até uma das arcas abarrotadas de ouro e jóias. O brilho das gemas dançava sob a luz da caverna, e ele, como o bom ladino que era, rapidamente começou a encher os bolsos e a bolsa com o que conseguia carregar, convencido de que aquele tesouro seria necessário na jornada deles.

No entanto, a solução inesperada veio de Mor'Rein, que ergueu a mão em um gesto contido, recitando palavras em uma língua antiga e distante. Ele retirou de uma bolsa um pedaço de ferro pequeno e reto, e com um movimento fluido o segurou firme, canalizando a magia que corria por suas veias. Sua voz reverberou de forma quase hipnótica, e um brilho opalescente surgiu ao redor de Impetor, envolvendo-o em um espectro esverdeado e fantasmagórico. Como se uma onda de energia o atravessasse, o corpo do draconato travou-se no mesmo instante, a maça ainda suspensa no ar e os olhos ainda fixos em Ludus, paralisado em um silêncio que revelava a intensidade do feitiço.

A caverna ficou em silêncio, com todos observando, apreensivos, enquanto a magia contida de Mor'Rein mantinha o furioso Impetor sob controle. Enquanto Impetor permanecia paralisado, Ludus se ergueu com uma expressão tensa, mas rapidamente recobrou a compostura. Com um movimento ágil, se levantou, enquanto gesticulava de forma teatral, evocando um  feitiço para acalmar as emoções. Sua voz projetou-se pela caverna, preenchendo o ar com uma energia tranquilizadora e carismática.

“Meu querido amigo, acho que todos eu esqueci o quão importante essa jornada era para você... talvez eu tenha deixado a piada passar um pouco dos limites. A verdade é que admirei seu senso de honra desde o primeiro dia, sua lealdade e o valor que dá à sua palavra. Não quis zombar disso, mas apenas trazer um momento de leveza. Eu realmente sinto muito.”

A magia fluiu das palavras de Ludus, suavizando o ambiente com uma aura serena. O olhar feroz de Impetor começou a se desfazer, e, quando a paralisia da magia de Mor'Rein finalmente se dissolveu, ele abaixou sua maça, ainda bufando, mas a raiva dissipando-se aos poucos.

Impetor, um tanto emburrado, aproximou-se da arca de ouro e, com um semblante misturado entre tristeza e irritação, resmungou: “Ora, se vocês tivessem pedido com jeito, talvez eu compartilhasse o ouro. Mas como resolveram se virar contra mim…” – ele lançou um olhar cortante para Ludus, Mor'Rein e Asher, que disfarçaram a tensão com sorrisos desajeitados – “…não vão receber nada! Só vou dar para o único amigo confiável aqui…”

Com um gesto grandioso, Impetor pegou um punhado generoso de ouro e o colocou em uma pequena algibeira, dirigindo-se até Dahaka. O ladino, já com os bolsos abarrotados de jóias que conseguira furtar durante o tumulto, sorriu nervosamente e, em um movimento rápido, escondeu a bolsa transbordante nas costas, tentando parecer inocente.

“Eu agradeço a sua confiança, Impetor,” respondeu Dahaka, com um sorriso amarelo, segurando a algibeira entregue por Impetor enquanto seus olhos evitavam a pilha de moedas escapando de seus próprios bolsos. A situação arrancou um riso abafado de Ludus e um olhar de reprovação divertido de Mor'Rein.

A jornada dos heróis seguiu seu curso quando a caverna de Miro'San, atrás deles, fechou-se com um lento ranger. A estrutura de pedra parecia se retrair, enterrando-se no solo até que não restasse mais vestígio, como uma criatura antiga se escondendo das forças do mundo exterior. Sem mais o que fazer ali, o grupo retomou um dia na estrada. Agora envoltos pelas sombras e mistérios da Floresta de Hullack, cujas árvores pareciam carregar segredos ancestrais em cada galho retorcido.

Mor'Rein, com um semblante pensativo, observava as árvores imponentes. Ele sabia que aquela floresta fora outrora parte do lendário território de Cormanthor, reverenciada por seu vigor e por abrigar criaturas e lendas há muito esquecidas. Naqueles tempos, o druida Hullack de Eldath velava por ela. Em silêncio, Mor'Rein manteve essas histórias para si, ciente das ligações que talvez os conectassem àquela antiga história — ele tentava esquece o fato perturbador de que o devorador, Hadar, seu patrono insaciável, poderia ter sido o responsável pelo desaparecimento do pai de Impetor, em conluio com Hamura Akmenos. A sensação de que algo maior os conduzia, um fio invisível manipulando seus passos, atormentava Mor'Rein. Mas ele manteve seus pensamentos trancados como segredos sombrios, apenas observando a floresta com olhos atentos.

Quando a noite caiu, trazendo consigo uma garoa fria, Ludus decidiu tomar providências. Com seu pandeiro em mãos, ele começou a bater em um ritmo suave, entoando um poema:

"Ó, cabana acolhedora, sob a noite a nos guardar,
que nos cerque com paz e sombra, um santuário a se formar."

Com gestos amplos, Ludus fez movimentos como se estivesse construindo paredes invisíveis ao seu redor, e uma leve energia emanava dele, formando aos poucos a cúpula protetora. A magia de Cabana de Leomund completou-se, erguendo uma estrutura transparente de dentro para fora, reluzente como uma bolha que os protegia do frio e da chuva, oferecendo um abrigo caloroso e seco. Os heróis entraram e se instalaram, finalmente relaxando e aquecendo-se do clima inóspito do lado de fora.

Dentro da cabana mágica, o sono envolveu o grupo como um cobertor, protegendo-os das gélidas gotas de chuva lá fora. Mas o descanso de Impetor logo deu lugar a uma escuridão profunda e opressiva. No vazio de seu subconsciente, a realidade se desfez, dando espaço para um cenário sombrio e distorcido que parecia infinito.

Impetor se viu, de repente, arrastando-se em um deserto pálido, com um céu negro sem estrelas ou lua. O horizonte era apenas uma linha turva, e um vento sussurrante cortava a aridez ao redor, erguendo nuvens de poeira esbranquiçada. Ao olhar para baixo, ele notou que seus punhos, tornozelos e até o pescoço estavam presos por correntes pesadas e desgastadas, cujas marcas haviam se cravado profundamente em sua pele escamosa. Seu corpo doía ao carregar aquele peso, mas o que mais lhe cortava a alma era o som — o eco constante dos grilhões de outras figuras acorrentadas, marchando ao seu lado em um desfile de desespero.

Ele ergueu os olhos e viu, à sua frente e atrás, uma fila interminável de figuras encurvadas, todas arrastando os próprios grilhões em sincronia com a marcha tortuosa e pesarosa. Os rostos de seus companheiros eram vazios, quase borrados pela escuridão, mas o sofrimento transbordava de cada um deles como um perfume acre e podre. Era como se a esperança houvesse sido extirpada de seus corações, deixando apenas corpos desfalecidos e olhares sem vida.

Confuso e atormentado, Impetor parou, lutando contra as correntes que lhe pressionavam o pescoço e os pulsos. A cada movimento, as algemas apertavam ainda mais, cravando-se em sua carne e o fazendo se curvar sob o peso implacável. Ele tentou clamar, sua voz um eco rouco e fraco que se perdeu na vastidão do lugar, sufocada pelo vento e pela dor.

Foi então que um som cortou o ar: um estalo agudo e cruel, como um trovão que ressoou entre as sombras. Antes que pudesse reagir, uma dor ardente e lancinante explodiu em suas costas, como se algo invisível tivesse dilacerado sua pele com uma chicotada brutal. O impacto foi tão vívido, tão intenso, que o fez gritar — um grito que rasgou o silêncio pesado do sonho e ecoou para além dos limites do mundo onírico, atravessando as barreiras de sua mente adormecida.

Mas as chicotadas não paravam. Mais uma, depois outra, cada vez mais cortante, cada vez mais real. O deserto ao seu redor parecia pulsar ao ritmo daquela dor, e o chão tremia como se dele emanasse uma fome oculta, uma entidade sedenta que ansiava por consumi-lo por completo. Cada golpe desenhava faixas de sangue nas costas de Impetor, e ele lutava para não cair, seu corpo estremecendo com o esforço de manter-se de pé.

A dor continuava a atravessar seu ser, como uma lâmina afiada que o prendia àquele lugar amaldiçoado. Mas, no último golpe, algo se rompeu dentro dele, e a escuridão se dissipou. Seu corpo foi arrancado do deserto desolado para a cabana iluminada e quente, mas a dor persistia em suas costas como se ele ainda carregasse as marcas daquela tortura.

Impetor acordou com um grito sufocado, o corpo tremendo, as costas ardendo com o toque frio do sangue que escorria de feridas reais, deixando o grupo ao seu redor em um estado de alerta e horror.

Com um grito de angústia, Impetor despertou, estremecendo de dor, e o som reverberou por toda a cabana. Os demais heróis se levantaram alarmados, e os olhos de Mor'Rein imediatamente se fixaram nas costas de Impetor, onde marcas sangrentas de chicotadas apareciam, reais e pulsantes. Todos pareciam perplexos com a ferida aparentemente conjurada do nada.

Mor'Rein aproximou-se, examinando as marcas com um olhar atento, buscando sinais de uma maldição ou magia. Ele sentiu uma energia inquietante no ar, mas, por mais que tentasse decifrar a origem daquele ataque, o mistério permanecia inconclusivo, até mesmo para o sagaz bruxo.

Na quietude apreensiva que seguiu, o grupo trocou olhares preocupados, cientes de que um novo e terrível perigo se avizinhava — um inimigo invisível e impiedoso, talvez operando nas profundezas da mente de Impetor, ou algo ainda mais ameaçador.

Quando o primeiro raio de sol rompeu o céu nublado da manhã, os heróis se colocaram em marcha, afastando-se do abrigo da cabana de Ludus e mergulhando novamente na densa e mística floresta de Hullack. Durante dois dias, vagaram por entre as árvores ancestrais, seus passos abafados pelo chão úmido, os sentidos sempre em alerta. Apenas se moviam sob a luz do dia, quando a névoa fina que pairava sobre a floresta parecia menos densa, e ao cair da noite, repousavam em silêncio, com a sensação crescente de serem observados.

O silêncio da floresta era apenas quebrado pela voz de Asher, que, de tempos em tempos, murmurava, insistente, que deveriam reconsiderar a missão. Naquela manhã, após mais um percurso em que o grupo se movia com cuidado calculado, ele parou abruptamente e, com um tom um tanto sombrio, virou-se para os companheiros:

"Se continuarmos sem encontrar Calobri… talvez seja melhor voltarmos." Asher dizia, com um brilho de urgência nos olhos." Algo nesta floresta está… errada. Não sei se é seguro insistir. Se não a encontrarmos nos próximos dias, estou pensando em me separar do grupo. Posso tentar rastrear sozinho, talvez consiga algo enquanto vocês seguem outro caminho."

O grupo trocou olhares de incerteza e tensão, cientes de que a floresta parecia se tornar mais opressiva a cada dia. Ludus, Mor'Rein, Dahaka e Impetor absorveram as palavras de Asher com reservas, mas nenhum deles ousou questionar o motivo da inquietação, compreendendo que o peso daquela missão já os afetava de maneiras diferentes.

No dia 29 de Uktar, quando a neblina da manhã ainda se prendia ao solo como um véu, algo se destacou entre os troncos altos e as sombras sinuosas da floresta. Movendo-se com cautela, os heróis se aproximaram e, à medida que seus olhares se fixavam na figura pendurada em uma árvore adiante, a gravidade da cena os atingiu como um golpe.

Diante deles balançava suavemente, suspensa por uma corda que cortava o tronco em profundidade, o corpo sem vida de uma pessoa. O rosto estava rígido em uma expressão de horror congelado, com marcas brutais que cobriam a pele ferida e manchada. A morte não fora rápida; o corpo mutilado e o buraco no olho esquerdo contavam a história de uma execução meticulosa e fria. Asher soltou um suspiro curto e incrédulo ao reconhecer o homem pendurado.

"Mack…" murmurou, sua voz impregnada de surpresa e amargura. "É Mack Flurry, o patrulheiro que nos guiou dias atrás pela King's Forest…" Ele desviou o olhar, consternado, e engoliu em seco, enquanto as mãos se fechavam em punhos.

A visão do corpo já era por si só um presságio sombrio, mas havia mais. No peito nu e pálido de Mack, havia um entalhe grotesco e calculado. Era o símbolo de uma serpente retorcida em uma pedra. Dahaka aproximou-se, franzindo o cenho ao analisar a marca com uma intensidade sombria. Ele a reconhecia — era um aviso, um código deixado para aqueles que entendessem.

“Voltem, se não…” disse Dahaka, quase em um sussurro, como se pudesse sentir o perigo em cada sílaba. "É gíria de ladino, um aviso. Alguém não está contente com a nossa presença aqui, e acho que a morte do Homem-corvo aqui é só o começo."

O grupo permaneceu em silêncio, cada um processando as implicações da ameaça e o destino sombrio que recaía sobre todos eles. Com um último olhar para Mack, eles compreenderam que, dali em diante, não havia mais segurança ou retorno fácil. Havia uma força desconhecida nas sombras, uma presença que não desejava testemunhas — e, se continuassem, estariam entrando em seu domínio por sua conta e risco.

E assim, encerrava-se mais uma etapa na jornada dos heróis, o prenúncio de uma luta invisível contra um inimigo que parecia estar em cada sombra da floresta.

Episódio 11 - Lua Cheia.

Data: 29 de Uktar de 1372, 17h
Local:  Floresta de Hullack, Cormyr, Faêrun.

Os heróis cercaram o corpo inerte de Mack Flurry, retirando-o com cuidado da árvore, em silêncio. O patrulheiro, que os havia guiado tão bem pelas trilhas de King's Forest, agora jazia em uma cova rasa no coração da Floresta de Hullack, envolto pela penumbra crepuscular.

Ao redor, o som suave do vento movia as folhas. Sombras escuras e agitadas atravessaram os galhos altos: um grupo de corvos, que parecia ter sido atraído até ali, sobrevoava, empoleirando-se nas copas. Alguns dos pássaros desceram, pousando no solo próximo à cova, e depositaram pequenos objetos brilhantes — uma moeda de prata, um pedaço de vidro polido, um anel enferrujado. As oferendas, simples e misteriosas, reluziam brevemente antes que a sombra dos corvos as cobrisse novamente.

Os heróis observavam a cena em um silêncio reverente, todos cientes da conexão que os animais possuíam com aquele homem. A floresta, antes apenas um local inóspito, agora parecia viva de uma forma inquietante, como se o próprio solo testemunhasse os perigos que se acumulavam sobre eles. Ao fim da breve cerimônia, eles se afastaram, com os passos lentos, cada um imerso em seus próprios pensamentos. O peso da realidade se impunha; até mesmo aqueles em quem confiavam estavam agora vulneráveis.

Na manhã do último dia de Uktar, enquanto a luz cinzenta do amanhecer filtrava-se entre as copas espessas, Asher pôs-se de pé com um ar tenso e apreensivo. Os demais se entreolharam ao vê-lo encarar o grupo com uma expressão hesitante, como se uma verdade amarga lhe prendesse na garganta.

"Asher?" Ludus quebrou o silêncio, franzindo as sobrancelhas. "O que está pegando?"

O paladino suspirou, evitando encarar os companheiros por um instante. “Preciso... preciso me separar do grupo por um tempo.” Ele finalmente disse, hesitante. "Não é nada grave, só acho que seria melhor se eu ficasse para trás e vasculhasse a floresta por conta própria.”

“Separar do grupo?” Impetor riu, incrédulo. “Isso não faz o menor sentido, Asher. Você mesmo disse que, aqui, qualquer movimento sozinho é quase um convite para a morte.”

Mor'Rein cruzou os braços, estudando o caçador  de monstros com um olhar profundo. “Parece que você esconde mais do que diz, Asher,” murmurou, o tom carregado de suspeita.

Asher mordeu o lábio, visivelmente desconfortável. "É só... eu sinto que posso cobrir mais terreno sozinho. Não quero perder tempo; estamos perto de algo, eu sei.”

Mas o argumento soava forçado, como se ele próprio não acreditasse totalmente no que dizia. Ludus balançou a cabeça, frustrado. "E desde quando você quer deixar alguém para trás? Para um paladino, você anda parecendo mais descrente do que nunca.”

Asher ergueu a voz, quase ofendido. “Olha, vocês não entenderiam…”

Enquanto ele falava, Ludus deu um passo frustrado para trás, até que sentiu uma pressão súbita sob o pé. Um estalo seco ecoou, o suficiente para silenciar o grupo. Eles congelaram, trocando olhares de alerta.

“Ludus…” Mor'Rein murmurou, com uma expressão grave. Mas era tarde demais.

Um som metálico reverberou pela floresta, como uma engrenagem sendo acionada. De algum ponto à frente, um fio se tensionou, puxando uma série de cordas que faziam balançar recipientes estrategicamente colocados entre as árvores. Como um efeito dominó, os recipientes caíram, chocando-se no chão e se rompendo, liberando uma névoa verde e espessa que começou a se espalhar em torno deles, com um cheiro acre e pungente. Eles tentaram cobrir o nariz, mas não havia tempo — a névoa era densa demais, impregnando o ar.

Asher foi o primeiro a cambalear, seus olhos se cerrando conforme respirava mais fundo o gás tóxico. “Isso... isso não…” Ele murmurou, antes de desmoronar ao chão, desacordado. Asher estava completamente imóvel, o rosto parcialmente coberto pela poeira e folhas ao redor.

Ludus, Mor'Rein, Dahaka e Impetor sentiram o gás arranhar suas gargantas e olhos, mas não perderam a consciência; lutaram contra o efeito com respirações curtas e controladas. Observavam, impotentes, enquanto Asher permanecia inerte.

Impulsivamente, Mor'Rein aproximou-se, tentando abanar o gás com as mãos e, em seguida, apalpou o pulso de Asher. “Ele está vivo,” confirmou, embora sua expressão mantivesse uma preocupação profunda.

Ludus esfregou o rosto, os olhos lacrimejantes. “Mas por quanto tempo?”

As horas de busca para acordar Asher se prolongaram sem sucesso, o que desgastou ainda mais o grupo já enfraquecido. A floresta ao redor se fechava densa, e até os pássaros pareciam emudecer diante do esforço quase desesperado dos heróis. Ludus tentou encantamentos de cura, enquanto Mor'Rein aplicava ervas e elixires que trazia consigo. Impetor, com suas habilidades rudimentares em primeiros socorros, fazia o possível para manter o patrulheiro estável. Dahaka, silencioso e inquieto, observava a tentativa de todos, mas conforme os minutos se tornavam horas, a realidade era clara. Asher não despertaria.

“Precisamos tirá-lo daqui,” sussurrou Ludus, quebrando o silêncio pesado. “Se continuarmos nessa mata, acabaremos nos tornando presas também.”

O grupo, em um consenso sombrio, concordou. Ajustaram a posição de Asher sobre os ombros largos de Impetor e partiram de volta pela trilha que mal haviam seguido. Com os olhos atentos e os sentidos aguçados, cada um sabia que a floresta poderia revelar novos perigos a qualquer momento. O crepúsculo dourado se espalhava entre as árvores quando, então, um estranho silêncio mortal tomou o lugar.

Foi então que perceberam tarde demais — a emboscada já estava armada. Das sombras, figuras sombrias emergiram com a precisão de um ataque predador. Os Zentharim. Eles cercavam o grupo, bloqueando todos os lados com olhares cruéis e sorrisos sádicos. O primeiro a se revelar foi um Lizardfolk de escamas verdes-escuras, os olhos vermelhos e predatórios cintilando no fim da tarde como brasas em meio à penumbra. Ele caminhou à frente dos outros, ereto, com uma calma terrível, o tipo de confiança que apenas um assassino verdadeiramente mortal possui. Cada passo era tão cuidadoso e metódico que parecia quase uma dança silenciosa. Ele carregava uma espada curta, mantida rente ao corpo com a mão firme.

“Vocês foram tolos em continuar,” sibilou ele, e sua voz parecia um veneno escorrendo entre os dentes afiados. “A mensagem que deixamos não foi clara o suficiente?” Ele inclinou levemente a cabeça, fitando-os com um olhar de escárnio, sua língua bifurcada aparecendo por entre os lábios, num riso sarcástico. “Achei que aventureiros teriam mais bom senso.”

“Que mensagem?” Impetor deu um passo à frente, os punhos cerrados e o rosto contorcido de fúria. Mas o Lizardfolk apenas riu, seu riso curto e maligno reverberando entre as árvores.

“O cadáver do seu amigo Mack Flurry,” ele respondeu, sorrindo de maneira fria. "Não é óbvio?" Ele estalou a língua, os olhos inspecionando o grupo. “Vocês sãoteimosos... e ignorantes.”

“Você não passa de um lacaio,” disparou Impetor, cerrando os punhos com a raiva fervendo no olhar. “Um verme que se esconde nas sombras.”

“Vermes vivem mais tempo do que vocês imaginam,” respondeu o Lizardfolk, com um brilho malicioso no olhar. “Mas estou surpreso... esperava mais de vocês, de verdade.” Ele olhou para o corpo inconsciente de Asher nos ombros de Impetor e balançou a cabeça em desgosto. “E olha só, já perderam um dos seus. Que patético.”

Um calor de tensão preencheu o ar entre o grupo e os Zentharim, uma hostilidade que parecia eletrizar a atmosfera e fazê-la vibrar. Dahaka não esperou mais; com um movimento ágil, ele disparou seu adaga na direção do Lizardfolk, e a batalha começou.

O assassino Lizardfolk foi o primeiro a agir, desferindo um golpe rápido e mortal com a espada curta, a lâmina cortando o ar e acertando Dahaka, que mal teve tempo de desviar completamente. O Tiefling cambaleou para trás, sangue escorrendo da ferida no braço, mas o olhar frio permanecia firme.

Dahaka reagiu com destreza, sacando outra adaga e mirando o pescoço do bandido com tapa-olho que estava próximo. Ele conseguiu acertar o alvo, mas o golpe foi superficial, arrancando apenas um grunhido de dor do oponente. Em seguida, Impetor avançou com um rugido, erguendo sua maça e lançando-se contra um meio-orc de moicano. A pancada acertou o braço do bandido, mas a resposta veio rápida: o bandido o atingiu com um chute brutal no abdômen, fazendo o meio-dragão recuar com o impacto.

O bandido de tapa-olho se aproveitou do momento e avançou contra Ludus, desferindo um golpe com sua espada curta que abriu um rasgo na roupa e pele do bardo. Ludus reagiu com destreza, recuando enquanto cantava um encantamento que fez o chão tremer levemente. Mas antes que pudesse terminar, o bandido com o rosto coberto de pústulas o atacou, interrompendo seu feitiço e forçando-o a bloquear com o pandeiro.

A luta continuou com golpes ferozes de ambos os lados. Em certo momento Mor'Rein disparou uma série de rajadas intensas contra o capitão bandido, um homem corpulento de olhos brilhantes, que ria a cada disparo como se estivesse se divertindo. Ele desferiu um golpe brutal contra o elfo, forçando Mor'Rein a se defender com todas as forças, mas mesmo assim o impacto quase o derrubou.

Mais adiante, o bandido de moicano avançava contra Dahaka com fúria nos olhos, o machado indo e voltando com rapidez, enquanto o Tiefling esquivava-se com agilidade, porém já começava a mostrar sinais de cansaço. Por fim, os heróis estavam no limite de suas forças, enquanto os Zentharim, ainda em maioria e com sua postura cruel e predadora, os encurralavam.

Com um movimento silencioso e letal, o Lizardfolk surgiu atrás de Dahaka. O brilho assassino nos olhos rubros contrastava com a calmaria assustadora em sua expressão. Ele não hesitou. Cravou a espada curta nas costas do tiefling com precisão cirúrgica, atravessando músculos e ossos com facilidade. Dahaka soltou um grunhido abafado, sentindo a lâmina fria rasgando sua carne. Seus joelhos cederam, e ele caiu ao chão, sem forças, sua visão embaçando enquanto o sangue quente escorria para a terra úmida.

Impetor rugiu ao ver seu companheiro caindo e, com uma fúria renovada, lançou-se sobre o meio-orc de moicano. Sua maça desceu com uma força tremenda, partindo o ombro do oponente em um golpe mortal, que ecoou pela floresta. O bandido caiu sem emitir som. Sem pausa, Impetor girou, seus olhos focados no bandido de tapa-olho que vinha em sua direção. Em um só movimento, ele bloqueou o golpe do adversário com a maça e retaliou com um golpe direto no peito, esmagando o esterno do homem e deixando-o inerte.

Enquanto isso, Ludus lutava desesperadamente para se soltar do bandido com o rosto coberto de pústulas. O bandido o segurava firme, um sorriso vil estampado nas feições cobertas de lesões purulentas. Ludus se contorcia, mas a força do homem era descomunal. Com um movimento rápido, o bandido empurrou a cabeça do bardo contra o tronco de uma árvore, o som surdo da batida ecoando. A visão de Ludus escureceu, e ele caiu ao chão, desacordado.

A uma curta distância, Mor'Rein tentava manter a concentração, convocando sua última rajada mística, mas seu corpo cansado e ferido vacilava. O capitão bandido se aproximou, seus olhos brilhando de maneira sádica. Com um riso frio, ele desferiu um golpe de cima para baixo, a lâmina cortando com violência através do corpo de Mor'Rein. O elfo caiu, suas energias místicas se dissipando no ar.

Impetor, agora o último herói de pé, deu um passo atrás, seus olhode s correndo entre os corpos seus companheiros caídos. O Lizardfolk avançou sem pressa, observando-o com aquela calma perturbadora. "Um dragãozinho solitário," ele sibilou em dracônico, com um sorriso torcido. Impetor tentou golpear, mas o assassino se esquivou com uma velocidade sobrenatural, desarmando-o num único movimento fluido e derrubando-o com um chute devastador no peito. O Meio-Dragão caiu ao chão, sua respiração ofegante e o peito queimando de dor enquanto o Lizardfolk se aproximava, com a espada levantada, pronto para o golpe final.

Justo nesse instante, duas flechas surgiram do meio da mata, cortando o silêncio. A primeira atingiu o capitão bandido no pescoço, penetrando até a metade e fazendo-o desabar, morto, antes que pudesse entender o que o atingira. A segunda flecha se cravou nas costas do meio-orc de moicano, que caiu, morto, ao lado do capitão. O Lizardfolk recuou, surpreso, e esboçou um sorriso ao ver as flechas.

"Guldain... De volta tão cedo, velho amigo?" sibilou o assassino, enquanto seus olhos escaneavam a densa vegetação em busca do atirador escondido.

Das sombras das árvores, um pequeno e reluzene objeto foi lançado, rolando pelo chão até parar próximo ao Lizardfolk. Num instante, uma cortina espessa de fumaça cinzenta se espalhou pelo campo de batalha, impedindo qualquer visão. O Lizardfolk deu um passo atrás, movendo-se para longe da fumaça. Quando ela finalmente dissipou, ele se viu sozinho, com os corpos dos bandidos ao redor e nenhuma pista de seus alvos.

Ele guardou a espada, sorrindo com malícia e murmurou para si mesmo: "Bom... Isso vai deixar as coisas mais interessantes."

Enquanto o Lizardfolk se afastava, a floresta voltou a um estranho silêncio. A luz do sol filtrava-se pelas copas densas, lançando feixes suaves sobre os galhos e arbustos. Debaixo de um tronco caído, Impetor piscou os olhos, a visão ainda turva e o corpo latejando de dor. O peso das pálpebras era quase insuportável, mas um brilho sutil entre as árvores o forçou a permanecer acordado.

Ali, espreitando cautelosamente o inimigo que se afastava, estava a figura robusta e sólida de um anão. Ele era baixo, mas com um porte incrivelmente firme e imponente, como uma muralha em miniatura. Sua barba clara entremeada com fios grisalhos caía como uma cascata sobre o peito, adornada com pequenos anéis de metal que não faziam barulho algum. Olhos de um verde tão profundo que pareciam esconder as florestas de Faerûn brilhavam com uma astúcia incomum. Cada movimento seu era calculado e silencioso, de forma quase impossível para uma figura tão robusta.

Impetor lembra como viu a pequena figura, com uma precisão que revelava anos de experiência,havia se movido com agilidade pela fumaça. Com gestos suaves, ele se agachava junto aos corpos caídos, escondendo-os em locais estrategicamente escolhidos: atrás de troncos grossos, em camas improvisadas de folhas ou nas sombras das raízes expostas. Não uma folha fora do lugar, nem um galho quebrado sinalizava sua presença. Era como se ele fosse parte da floresta, um espírito vigilante que parecia conhecer cada detalhe ao redor.

Impetor mal conseguia focar no rosto do patrulheiro, mas notava os traços duros, esculpidos por uma vida de batalhas nas montanhas e florestas do norte. Ele usava uma armadura leve de couro e escamas, pintada em tons terrosos que o misturavam perfeitamente ao ambiente, como se fosse um predador esperando pacientemente pela presa. Um longo arco esculpido à mão estava apoiado em suas costas, suas pontas adornadas por entalhes rústicos, mas precisos, talhados com o capricho de quem respeita tanto sua arma quanto o que representa.

Num último gesto, antes do meio-dragão apagar, o anão lançou um olhar para Impetor. E, naquele breve instante, Impetor sentiu a força inabalável daquele desconhecido: um guardião das florestas, um caçador experiente, um sobrevivente de reinos esquecidos que agora se movia como uma sombra, sem ser detectado por nenhum dos inimigos. Em silêncio, o anão se aproximou do gladiador que lentamente apagava.

A luz amarelada do fogo era suave e lançava sombras dançantes nas paredes rústicas da cabana. Impetor abriu os olhos, sentindo o peso no corpo e uma dor pulsante nas têmporas, mas o cheiro acolhedor de ervas e madeira queimada o reconfortou. Ao seu redor, as paredes estavam cobertas de troféus de caça, armadilhas cuidadosamente alinhadas e estantes carregadas de ungüentos e ervas medicinais penduradas com precisão.

Dahaka estava conversando com o anão, e Ludus se abaixava ao lado do corpo ainda desacordado de Asher, verificando seu pulso e sussurrando palavras suaves. Mor'Rein, por sua vez, estudava os frascos de ungüentos com seu olhar investigativo.

“Ah, acordou, lagartão!” — Dahaka interrompeu a conversa com o anão ao perceber Impetor se movendo. — “Acho que levamos uma bela surra dos Zentharim.”

Impetor estreitou os olhos, seu rosto endurecendo ao recordar. “Aquele Lizardfolk…” ele murmurou, irritado consigo mesmo. “Ele é mortal.”

O anão, com um olhar experiente que deixava entrever velhos embates, assentiu. “Yizk. Um dos assassinos favoritos de Dhamir Ercals.”

Impetor franziu o cenho, virando-se diretamente para o anão. “E você seria…?”

Antes que o tom de Impetor pudesse soar grosso, Dahaka interveio, com um sorriso cortês. “Esse é Guldain Burrowreach. Ele também está atrás de Calobri nessa floresta. Foi ele quem nos salvou dos Zentharim.”

Impetor bufou, erguendo a cabeça em um gesto de desdém. “Não precisávamos de ajuda,” murmurou, a voz carregada de orgulho.

Guldain esboçou um sorriso, compreendendo a postura orgulhosa do meio-dragão. “Como preferir, grandalhão. Mas já que todos estão bem agora, vamos ao que importa.” Ele cruzou os braços, olhando cada um dos heróis nos olhos. “Imagino que foi Horusk quem os mandou aqui?”

Os aventureiros assentiram, confirmando as suspeitas do anão.

“Então serei direto: Calobri está nas mãos dos Zentharim. Fui surpreendido ontem ao encontrá-los aqui nessas matas. Eu venho mensalmente para ajudar meu velho amigo com… problemas que ele vinha enfrentando em Hullack.” Guldain suspirou, a expressão fechada e dura. “E adivinhem? Dei de cara com aqueles homens aqui, provavelmente caçando esta cabana como predadores.”

Um silêncio pesado pairou na cabana. Ludus interrompeu, lançando um olhar preocupado para Asher. “E você… sabe o que há de errado com ele?”

Guldain ergueu uma sobrancelha, avaliando o corpo desacordado de Asher. “O que aconteceu com ele, exatamente?”

Dahaka explicou, relatando o ocorrido com detalhes, a armadilha de névoa que enfrentaram e como Asher foi o único derrubado.

O anão esfregou o queixo pensativamente. “Hum… Esta floresta está cheia dessas armadilhas. Algumas são obra de Calobri, mas outras mais recentes foram colocadas pelos Zentharim. Para ajudar o jovem aí, vou precisar ver exatamente onde isso aconteceu.”

Mor'Rein se prontificou de imediato, o olhar intrigado. “Eu também quero ver que componentes poderiam ter feito isso com ele.”

Impetor se ergueu lentamente, ajustando a postura e observando o anão e Mor'Rein. “Está escurecendo. Vocês vão precisar de reforço. Vou com vocês.”

Guldain assentiu, e seu olhar se tornou mais sério. “É uma boa ideia. Quando a lua sobe nesta mata, é um convite para o festim sombrio de algumas criaturas que vagam por aqui.”

Enquanto Mor'Rein e Impetor se preparavam para partir com o anão, Dahaka e Ludus permaneceram junto a Asher, atentos e preparados para cuidar do amigo desacordado, garantindo que a cabana se mantivesse segura.

A escuridão caía como um manto espesso sobre a floresta. À medida que Impetor, Mor'Rein e Guldain avançavam lentamente pela mata densa, cada passo era um cuidadoso teste de silêncio, uma tentativa de evitar que o menor som traísse sua presença. A luz da lua, difusa entre as folhas, pintava sombras misteriosas no chão, enquanto os ruídos da noite pareciam crescer ao redor deles, como se toda a vida selvagem despertasse ao seu redor. Havia um peso no ar, uma tensão que apertava o peito e trazia um frio involuntário à espinha.

Logo, um uivo agudo e distante cortou o silêncio, acompanhado por uma série de outros sons: gritos animalescos e ruídos de combate no fundo da floresta. Impetor, com os olhos estreitados e uma expressão preocupada, lançou um olhar ao anão ao seu lado.

“Lobos? Wargs?” perguntou em voz baixa, tentando captar alguma pista sobre os barulhos.

Guldain franziu a testa, seus olhos de um verde intenso observando as sombras. “Algo um pouco maior… Esses sons vêm do verdadeiro motivo pelo qual eu venho ajudar Calobri todos os meses: Lobisomens.”

Mor'Rein respirou fundo, sua expressão transparecendo um misto de surpresa e desconforto. Ele olhou para Impetor, cujas escamas prateadas brilharam levemente ao se contrair. Os dois se entreolharam, tentando entender a gravidade daquilo.

Guldain observou as expressões deles antes de continuar. “Há quase uma década, uma seita de licantropos tomou essa região. Não são apenas lobisomens vagando sem rumo. Eles pertencem ao Povo do Sangue Negro, seguidores de Malar, o Senhor das Feras. Atacaram as Wyvernstones de Hullack — um santuário sagrado para Eldath, erguido em um círculo de menires pelo antigo Wyvern Circle. Druidas zelavam por ele séculos atrás, mas o lugar foi abandonado na década de 1100.”

Mor'Rein, ainda processando, lançou um olhar intrigado ao anão. “Então, é uma guerra religiosa? Esse povo quer… profanar o santuário?”

Guldain assentiu, apertando a mão no seu arco com firmeza. “Exatamente. Eles o tomaram como parte de sua devoção a Malar, e desde então, caçam e assombram essas matas. Calobri sempre quis proteger o que restava desse lugar, mas sozinho... bem, é uma tarefa que consome e exaure. Eu vim para cá para ajudá-lo a manter o que sobrou das Wyvernstones, pelo menos longe das garras dos licantropos.”

Impetor apertou os punhos, absorvendo as palavras do anão. “Nunca enfrentei um licantropo antes, temos chance de encontra-los?”

Guldain acenou em aprovação, mas não respondeu. Os ruídos à distância diminuíram, e o silêncio pesado retornou, o tipo de calmaria que deixa os sentidos alerta, como se a própria floresta estivesse em guarda.

Finalmente, após contornarem uma série de arbustos densos, Guldain ergueu a mão em sinal para que parassem. Ele se abaixou, examinando o solo com cuidado, e olhou para Mor'Rein e Impetor. “Aqui está,” disse ele, indicando com o olhar as marcas deixadas no chão e o cheiro forte ainda pairando no ar.

Guldain se abaixou lentamente, seus olhos atentos examinando os recipientes de palha espalhados pelo chão, agora vazios, mas ainda soltando um leve resquício de fumaça esverdeada. Ele pegou um deles, com cuidado para não retirar o resto dos vapores, e aproximou o objeto do nariz, farejando o ar. Mor'Rein se inclinou para observar mais de perto, com os olhos alvos brilhando curiosos enquanto o anão destrinchava a fórmula da armadilha.

“Veja aqui,” Guldain murmurou, apontando para um fino resíduo esbranquiçado nas bordas internas do recipiente. “Isso é pedra da lua moída, reagente que emite essa cor pálida e ajuda a manter a estrutura do vapor. Misturado aqui com folhas de acônito e… teias de aranha-lobo. Invenção de Calobri, sem dúvida. Ele adaptou um dos seus ungentos para transmitir esses vapores.” Ele virou-se para Mor'Rein, um sorriso breve nos lábios. “Isso é mata-cão, uma poção feita pra afugentar licantropos. O cheiro forte não apenas os náusea, mas pode derrubá-los sem chance de resistência. Afinal, folhas de acônito são mortais para lobos.”

Mor'Rein inclinou-se, observando o recipiente com uma expressão de curiosidade que lentamente se transformou em um entendimento sombrio. Uma sequência de memórias — cenas de Asher querendo se afastar do grupo essa noite,  seus sentidos alterados, o mistério de sua aversão à proximidade com poções e odores que os outros toleravam com facilidade — formaram uma imagem clara em sua mente. O elfo piscou, entreabrindo os lábios enquanto olhava fixamente para o recipiente.

“Mas espere…” sussurrou, a compreensão finalmente se encaixando. “Para o Asher ter desmaiado com esses vapores, isso só pode significar uma coisa…”

Antes que pudesse completar seu raciocínio, Impetor interveio, com o cenho franzido e uma expressão ponderada que refletia sua tentativa de entender a situação. “O Asher é alérgico a acônito?” perguntou, parecendo totalmente convicto de sua conclusão.

Mor'Rein lançou-lhe um olhar incrédulohh. “Que? Não… O Asher é um…” Ele parou, sua voz sumindo quando seus olhos se voltaram para o céu. Acima deles, a grande Lua Cheia pairava com um brilho frio e imponente, lançando um brilho pálido sobre a floresta.

“Oh, não… Ludus e Dahaka!” O olhar de Mor'Rein, preocupado, encontrou o de Guldain. 

Dentro da cabana de Calobri, o fogo na lareira bruxuleava, lançando sombras sobre as paredes de madeira tosca. Ludus, responsável pela vigia, tentava manter os olhos abertos, mas a calma quase sufocante da noite e o calor da lareira o faziam lutar contra o sono. Ele resistia bravamente, mas seus olhos pesavam, até que finalmente cedeu e fechou-os por alguns segundos.

Foi então que o silêncio foi rompido por um som gutural, baixo e agressivo. Ludus despertou num sobressalto, o coração batendo rápido. Ele se virou e encontrou a figura de Asher contorcendo-se no chão, gemendo enquanto seus músculos se transformavam em ondas de tensão crescente. Os pelos começaram a se espalhar, acinzentados e densos, por toda sua pele, enquanto suas mãos e pés se distorciam em garras, e seus ossos se alongavam com estalos dolorosos.

Arregalando os olhos, Ludus não perdeu tempo. Começou a cutucar Dahaka, que dormia profundamente ao seu lado, sem se incomodar com os sons sinistros.

“Dahaka! Acorda! Pelo amor de Tymora, acorda!” Ludus sussurrava desesperado, tentando evitar chamar atenção.

Dahaka murmurou algo incoerente e se virou para o outro lado. “Ainda não passou uma hora, Ludus… aguenta seu turno terminar,” disse, a voz sonolenta e irritada.

Ludus insistiu, agora empurrando o tiefling com mais força, mas Dahaka continuava imperturbável. Sem mais opções, Ludus ergueu a mão e desferiu um tapa na cara do companheiro.

Asher - Lobisomem.
“OW, seu filho da p-!” Dahaka começou a protestar, mas sua fala se interrompeu assim que viu a enorme figura lupina de Asher, agora completamente transformado, fitando-os com olhos brilhantes e selvagens. Seus caninos reluziam com o reflexo das chamas da lareira, e um rosnado profundo e ameaçador escapava de suas mandíbulas.

“Calma…” Ludus levantou as mãos devagar, tentando transmitir tranquilidade para a criatura. “Bom… bom cachorrinho. A gente é amigo, lembra? Sou eu, Ludus… o cara que você foi enviado para caçar…”

A fera soltou um uivo cortante que ecoou pela cabana, um som primal e aterrador que fez Ludus e Dahaka gelarem até os ossos.

Dahaka lançou um olhar incrédulo para Ludus. “Você poderia ter usado literalmente QUALQUER outro descritor para definir a relação de vocês dois!”

Mas não houve tempo para mais discussão. Com um rosnado que vibrava as paredes de madeira da cabana, O Lobisomem avançou, garras estendidas, seu peso e velocidade devastadores. Ludus e Dahaka, ambos desarmados, apenas correram na direção oposta, pulando por cima dos baús de poções e se escondendo atrás da mesa onde Calobri guardava suas ervas.

O monstro não se detinha. Com um golpe das patas, ele empurrou a mesa para o lado, fazendo potes de vidro e frascos de poções se estilhaçarem no chão. Ludus se esgueirou por uma das janelas, tentando escalar o parapeito, mas foi impedido quando o lobisomem saltou, bloqueando sua saída. Ele rolou para o lado, desviando das garras, enquanto Dahaka aproveitava a distração para lançar uma prateleira na direção do Lobisomem.

“Acho que isso não vai segurá-lo por muito tempo, Dahaka!” gritou Ludus, respirando com dificuldade enquanto observava a fera se libertar dos entulhos com um rosnado enfurecido.

“Não me diga!” Dahaka respondeu, ofegante, enquanto tentava pensar em uma estratégia. Ambos olharam ao redor, procurando desesperadamente qualquer coisa que pudesse ajudá-los.

O ser que outrora respondia por Asher, completamente tomado por sua fúria bestial, avançava cada vez mais perto, seus olhos selvagens fixos em suas presas.

O lobisomem avançava a passos lentos, cada movimento carregado de uma ameaça calculada, enquanto suas garras deslizavam pelo chão de madeira. Os olhos selvagens estavam fixos em Ludus, e o som gutural que saía de sua garganta era como o prelúdio de um ataque final. Ludus engoliu em seco, recuando o máximo que podia, até sentir a madeira fria da parede às suas costas. Seus olhos percorriam freneticamente o ambiente em busca de uma saída, mas não havia para onde correr.

A criatura se inclinou para frente, os dentes afiados a centímetros do rosto de Ludus, pronto para atacá-lo sem piedade. O mundo parecia parar, e Ludus pôde apenas fechar os olhos, preparando-se para o pior.

Foi então que a porta da cabana escancarou-se com um estrondo. A figura de Guldain apareceu, seguido por Mor'Rein e Impetor, todos com expressões decididas. Sem perder um segundo, o anão ergueu sua zarabatana, mirou com precisão e disparou um dardo que atravessou o espaço e cravou-se no pescoço do lobisomem.

A fera soltou um grito de dor, o som reverberando nas paredes enquanto seu corpo se contorcia descontrolado. Seu olhar selvagem voltou-se para os recém-chegados, mas o efeito do dardo começava a dominá-lo, enfraquecendo sua coordenação. Os músculos da fera se contraíam violentamente, como se um veneno queimasse em suas veias, e ela começou a girar pela cabana em ataques frenéticos, derrubando prateleiras, mesas e baús no processo.

A pequena cabana de Calobri tornava-se um caos de destroços enquanto o lobisomem, furioso e zonzo, tentava recuperar o equilíbrio, mas seu corpo já não obedecia sua vontade. Por fim, com um último rugido ensurdecedor, a criatura tombou pesadamente no chão, o impacto sacudindo a estrutura da cabana.

Quando o silêncio finalmente se instalou, Ludus, ainda sentado no chão e ofegante, olhou para o monstro caído, sem acreditar que estava a salvo. Ele suspirou, mas antes que pudesse reagir de outra forma, sua cabeça pendeu para trás, e ele desabou comicamente no chão, completamente desmaiado.

Mor'Rein observou o amigo com um sorriso contido, enquanto Guldain recolhia a zarabatana com um suspiro satisfeito. Impetor, franzindo o cenho e cruzando os braços, se aproimava de Asher.

Dahaka olhou para os outros e estupefato, quebrando o silêncio: “Oque caralhos aconteceu aqui?”

Episódio 12 - Passado em cinzas.

Data: Festival da Lua, 7h
Local:  Cabana de Calorbi - Floresta de Hullack, Cormyr, Faêrun.

O céu era um pano escuro e opressivo no sonho de Asher, pontuado por uma chuva lenta e interminável de cinzas. Elas caiam silenciosas, cada floco um fragmento de lembrança, pedaços incandescentes que se desfaziam antes de tocar o solo. Ele era uma criança, pequena e frágil, e suas pernas afundavam nas sombras ao seu redor enquanto ele tentava andar. Um som rítmico e sufocante preenchia o ar — o pulsar de um coração que ele não sabia se era seu ou de algo maior, algo monstruoso.

Cinzas dançavam ao seu redor como fantasmas, carregando consigo o cheiro de madeira e carne queimadas. À distância, entre as nuvens de fuligem, ele via o semblante de um homem, um vulto indistinto com olhos cruéis e óculos redondos brilhando na penumbra. O homem gargalhava, um som frio, afiado, e cada risada dele se tornava um presságio, um fragmento de algo horrível e inevitável.

No chão, à medida que Asher avançava, ossos apareciam entre as cinzas, dedos esqueléticos que tentavam alcançá-lo, mas que se dissolviam antes de tocá-lo. Ele sentia o peso de tudo que jamais entenderia; vislumbres de rostos que ele mal podia reconhecer o fitavam em meio à poeira, como se esperassem por ele… ou como se o julgassem. A pressão era insuportável.

De repente, as cinzas tornaram-se líquidas, e ele afundou em um mar negro, incapaz de respirar, cada tentativa de puxar ar um afogamento em desespero.

Asher despertou com um sobressalto, o peito arfando. Ele abriu os olhos para ver o teto da cabana destruída, a madeira rachada e o teto aberto permitindo que a primeira luz da manhã filtrasse, como um lembrete incômodo da sua realidade.

A cena ao redor era um caos: estantes viradas, poções quebradas, móveis despedaçados. As garras que haviam causado isso — que haviam arranhado paredes, derrubado mesas e rasgado tudo ao redor — eram suas. Ele sentia, no peso de suas mãos, a verdade crua do que havia feito.

Com os olhos fixos no chão, Asher começou a se vestir em silêncio, tentando engolir a vergonha que o consumia, evitando o olhar de seus amigos. O anão Guldaim estava de pé, observando-o com uma expressão difícil de ler, e os outros o cercavam, mudos, pesando cada movimento com uma inquietação desconfortável.

Ludus quebrou o silêncio. “Asher, aonde você vai?”

Ele não respondeu de imediato. Apenas ajustou o cinto, prendendo a espada com um gesto determinado e impassível, mas os olhos, baixos e sombrios, traíam a sua dor. "Embora."

“Você não pode, nós—” começou Ludus, avançando um passo.

Asher levantou a mão, parando-o. Ele inspirou fundo e, sem encarar os amigos, deixou as palavras escaparem como um desabafo, um peso que há muito ele carregava.

“Não é o que vocês querem, Ludus, não se trata disso... É sobre o que eu preciso fazer.” Asher exalou, a voz trêmula. “Vocês acham que entenderiam, que poderiam me ajudar, mas não podem. Vocês não têm ideia do que significa ser isso. Ninguém está seguro perto de mim, ninguém.” Ele ergueu o olhar por um segundo, os olhos vazios e perdidos. “Cada noite de lua cheia é uma luta para não me tornar um monstro... Mas eu falho, de novo e de novo.”

Ele pausou, quase hesitando, mas continuou, num tom mais amargo. “Eu deveria ter aprendido a lição há muito tempo. O quanto antes eu aceitar isso, menos vítimas serão feitas. Esse... esse é o único caminho.”

Com um último olhar, pesado e pungente, Asher virou-se e marchou para fora da cabana, batendo a porta com força. A madeira tremeu, um estrondo final que deixou a cabana em completo e doloroso silêncio.

A neblina leve pairava sobre o solo da Floresta de Hullack, envolvendo os galhos retorcidos e troncos antigos com uma umidade fantasmagórica. Asher andava em silêncio, a cabeça baixa, os olhos fixos nas raízes e folhas mortas que esmagava sob as botas. Sua mente estava longe, perdida em um passado enevoado como aquela floresta. A cada passo, sentia-se puxado de volta para a época em que ainda acreditava que podia escapar do destino que lhe havia sido imposto, uma maldição que o corroía, como as cinzas de seu clã.

El-Khadim
Os ecos da memória o levaram para um momento mais simples: A manhã estava apenas começando quando El-Khadim levou Asher até o campo de treinos. O céu cinzento carregava uma ameaça de tempestade, mas o paladino parecia não se importar. Empunhando uma espada longa em uma das mãos, ele olhou para o jovem Asher com um olhar grave e calmo. Asher, com quatorze anos, estava ali com a mesma espada que o paladino havia lhe presenteado há poucos meses. Sua postura era impaciente, e ele balançava a lâmina desajeitadamente, os ombros tensos e o maxilar travado.

"Respire, Asher," El-Khadim falou, segurando a espada à sua frente com destreza. "A espada não é apenas uma arma; ela é uma extensão de você. E, para ser eficaz, precisa de controle."

Asher franziu o cenho, ignorando as instruções de Khadim enquanto se lançava para um ataque direto. O paladino desviou com facilidade, usando um movimento mínimo para desviar a lâmina de Asher e girá-lo pelo próprio impulso. Asher tropeçou, frustrado.

"Isso é impossível, você é muito mais forte!” disse, quase exasperado.

El-Khadim balançou a cabeça, esboçando um leve sorriso. "Ser forte não é o bastante. Seu clã, os Greymane, eram mestres da contenção. Protegiam a Costa da Espada dos monstros que assolavam suas vilas, sim. Mas faziam isso com calma e paciência. Lembre-se disso, Asher. É preciso saber esperar o momento certo."

O paladino ergueu a espada novamente, e Asher respirou fundo, ajustando sua postura. Khadim continuou: "Eles entendiam que uma mente inquieta é o primeiro passo para o fracasso. Quer você enfrente uma fera ou sua própria escuridão, o controle sobre si mesmo será sempre seu melhor escudo."

Asher assentiu, relutante, mas um brilho determinado aparecia em seus olhos. Avançou de novo, desta vez de maneira mais contida, atento aos movimentos do paladino, esforçando-se para manter a calma como Khadim lhe ensinara.

De volta à cabana destruída, um silêncio desconfortável pairava no ar. O resto do grupo estava reunido em meio à desordem, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Ludus estava sentado sobre uma mesa virada, a expressão abatida, quase derrotada. Pela primeira vez, ele não conseguia encontrar nada engraçado a dizer, nenhuma piada ou comentário sarcástico que suavizasse o clima. O bardo suspirou, a cabeça baixa, sentindo o peso do desabafo de Asher como um golpe direto.

Dahaka quebrou o silêncio, cruzando os braços e olhando para Mor'Rein. "Você já sabia disso, Mor'Rein? Sobre o que ele estava passando?"

Mor'Rein o encarou, mas não disse nada de imediato. O elfo apenas desviou o olhar, deixando que o silêncio falasse por ele. Dahaka franziu o cenho, mas Impetor deu uma leve bufada incoformado. "Vamos sair daqui..."

“Vamos limpar este lugar primeiro,” disse Mor'Rein, finalmente. “Ver se encontramos algo útil."

Os outros assentiram e começaram a recolher os destroços. Mesmo que em silêncio, o trabalho coletivo trouxe uma espécie de alívio ao ambiente.

Em uma noite sombria, Khadim o conduziu até um quarto simples e escuro, apenas uma cama estreita e uma janela alta. Asher se lembrava de sentir o peso das correntes em seus pulsos, frias e inevitáveis, enquanto Khadim as prendia com um toque ao mesmo tempo firme e cuidadoso.

“Controle é a chave para sobreviver, Asher. O que acontece aqui, o que você sente, é tudo questão de domínio sobre si mesmo.” Khadim falava pausadamente, seus olhos escuros fixos nos de Asher, quase como se desejasse ler as profundezas do seu ser. Asher engoliu em seco, a voz escapando dele num murmúrio trêmulo.

“Khadim…” ele sussurrou, a voz baixa e os olhos assustados, “você… você poderia ficar aqui comigo? Só até… até acontecer.” Era um pedido simples vindo da criança, mas carregado do medo do que viria com a lua cheia. Khadim não respondeu, mas puxou um banquinho de madeira, sentando-se a frente da do pequeno Asher acorrentado em silêncio, como uma sentinela. Ele se manteve ali, impassível e sereno, como uma rocha que Asher poderia segurar enquanto as ondas se quebravam ao redor.

Na cabana de Calobri, os sons de madeira sendo martelada e estantes sendo recolocadas invadiam o ambiente em ruínas. Ludus suspirava enquanto tentava equilibrar uma estante quebrada, enquanto Dahaka bufava, praguejando contra o dano que a transformação de Asher causara no lugar. Impetor, com seu ar resoluto, ajeitava as tábuas da parede destruída, enquanto o elfo Mor'Rein observava calmamente, balançando a cabeça diante do caos. No canto, Guldain Burrowreach, o anão de barba densa e dourada, selava uma carta com cera quente, o rosto impenetrável.

“Amanhã, se quisermos encontrar Calobri, será nossa última chance,” Guldain anunciou de forma enfática, enquanto selava a carta e a guardava. “Os Zentharim já sabem que nos encontramos. Não vão esperar muito antes de colocar o plano deles em prática.”

Dahaka ergueu uma sobrancelha, observando o anão com um ar cético. “Essa carta... é para quem?”

O anão apenas deu um sorriso enigmático, ajeitando seu capuz com o olhar distante. “Nosso plano de fuga, é claro… para o caso de tudo ir pelos ares,” respondeu, dando uma piscadela sarcástica antes de sair pela porta da cabana, prometendo voltar em breve.

No coração da floresta, Asher parou ao lado de uma árvore imponente, as mãos trêmulas enquanto sentia o peso do silêncio ao redor. Sentou-se entre as raízes expostas e robustas, a cabeça enterrada nas mãos enquanto a culpa e o desespero o inundavam. O peso da maldição, da fera que vivia dentro dele, tornava-se insuportável. Lentamente, fechou os olhos e murmurou uma oração, uma prece hesitante para Selûne, a deusa da lua, a única que poderia entender o sofrimento de alguém amaldiçoado por seu poder.

“Selûne…” começou ele, a voz rouca e tímida, como se não soubesse direito como começar. “Eu… eu não pedi isso. Cada noite é uma batalha, cada vez mais difícil. Eu não quero… não quero ferir ninguém. Eu não escolhi ser uma ameaça.” Sua voz se quebrou, e ele engoliu em seco, sentindo a garganta apertada. “Se há algo… se há qualquer coisa que possa fazer para me libertar, por favor… me mostre um caminho.”

Ele esperou, as palavras ecoando em sua mente enquanto o silêncio da floresta o envolvia. Nenhuma resposta veio; apenas o vento, que balançava as folhas ao redor dele, sussurrando segredos ininteligíveis. Asher suspirou, sentindo-se tolo e derrotado, pronto para voltar ao caminho. Porém, antes que se levantasse, notou algo peculiar: uma luz tênue, quase imperceptível, brilhando no interior de um tronco velho, oco e tortuoso.

Com a mão trêmula, estendeu os dedos em direção ao brilho, puxando cuidadosamente o objeto de dentro do tronco. Era um símbolo sagrado, ornado com delicadeza: um par de olhos femininos, adornados por pequenas estrelas prateadas, cada uma esculpida com precisão e devoção. Os olhos de Asher se arregalaram, e por um instante ele sentiu uma estranha calma, uma sensação de que, talvez, havia sido ouvido.

Ali, no meio da Floresta de Hullack, o peso de sua maldição pareceu ceder, apenas o suficiente para que ele acreditasse que, por uma breve e quase inatingível possibilidade, ele pudesse encontrar redenção.

"...por favor, me mostre um caminho."

A prece de Asher se dissipou no ar silencioso, envolta na névoa que pairava como um véu espesso sobre a Floresta de Hullack. Ele sentiu a brisa gelada acariciar seu rosto, mas nenhum sinal veio em resposta. A deusa da lua, ao que parecia, permanecia em um silêncio distante, como se observasse, mas decidisse não intervir naquele momento.

No entanto, algo mudou em seu interior. Uma sensação leve, quase imperceptível, trouxe um breve conforto, como se Selûne, mesmo em silêncio, o estivesse ouvindo. Era uma esperança tênue, frágil, mas suficiente para que ele respirasse fundo e se reerguesse.

De volta à cabana, a tensão entre o grupo permanecia latente. Ludus, ajustando a estante com um olhar cansado, olhou para os amigos ao seu redor. Ele sabia que, apesar de não expressarem, todos estavam preocupados com Asher, e aquela preocupação pesava sobre cada um de forma diferente. Sem saber o que dizer, ele apenas murmurou:

"Algum de vocês pretende ir atrás do Asher?"

Impulsivamente, Dahaka bateu nas costas de Ludus, um gesto camarada e, talvez, de conforto mútuo. "A missão continua, ele escolheu trilhar o próprio caminho por si só... Calobri é o nosso destino agora.”

Ao terminar de organizar o pequeno chalé, Mor'Rein percebe um brilho esverdeado no canto do quarto onde estavam reunidos. Ao se aproximar, nota que é um cajado antigo, apoiado contra a parede, coberto de poeira e com marcas de uso. A ponta do cajado exibe uma pedra verde, onde uma figura de sapo foi habilidosamente entalhada, dando-lhe um ar peculiar e místico.

Intrigado, Mor'Rein estende a mão e toca o cajado. Imediatamente sente um fluxo de energia arcana percorrer seus dedos, um poder antigo e adormecido. Ele o levanta, estudando-o com olhos aguçados. "Acho que se trata de um cetro-transfigurado," murmura. "Provavelmente pode se transformar em outro ser... com a palavra certa de ativação."

Nesse momento, o Anão entra e o observa com um sorriso de canto. "Ah, isso aí era do Calobri. Pegou de um shaman Bullywug que tava fazendo um ritual nas matas," comenta, cruzando os braços. "Mas o Calobri? Ele usava pra segurar a porta... e coçar o rabo." Ele ri, dando um tapinha no ombro de Mor'Rein. "Acho que tem mais serventia em suas mãos, bruxo."

Mor'Rein sorri, ajeitando o cajado e sentindo uma conexão com ele. Era como se esse objeto esquecesse seu uso mundano e ganhasse uma nova jornada em suas mãos.

O Anão, satisfeito com a decisão, reúne o grupo ao redor da pequena lareira. Sua expressão endurece, e o ar ao redor deles se torna pesado enquanto ele começa a falar. "Pois bem, escutem bem, porque amanhã de manhã partiremos. Nossa rota nos levará direto para as Stormhorns até o maldito forte dos Zhentarim. Aqueles covardes podem ter se escondido em suas pedras e defesas, mas vocês já conhecem as fraquezas deles." Ele faz uma pausa, o olhar fixo em cada rosto ao redor da fogueira, sua voz grave reverberando.

"Nossa missão não é só invadir. É pelo Calobri. O desgraçado pode estar nas mãos deles ainda... ou talvez esteja do outro lado do véu. Mas, se houver alguma chance de resgatá-lo, nós vamos encontrá-lo. Eu conheço os segredos da montanha então fiquem atrás de mi-"

Nesse instante, a porta range e se abre. Emoldurado pela escuridão do lado de fora, Asher entra no ambiente com a intensidade costumeira, os olhos brilhando sob a luz do fogo. Com um meio sorriso, ele observa o grupo reunido e declara com voz firme: "Espero que estejam prontos. Eles não sabem o que está vindo até eles."

A visão de Asher, sua aura de determinação e força recuperada, reacende o espírito de cada um dos companheiros. Com o retorno de seu líder, eles sentem o peso da missão esvair-se, dando lugar a uma coragem renovada. Amanhã, o inimigo enfrentaria não apenas guerreiros, mas uma força guiada por um propósito, unidos em um espírito renovado.

Horas depois, quando a larareira já começava a diminuir e o grupo estava prestes a se deitar, Ludus observa Asher preparando um espaço no canto da cabana. Ele se aproxima com aquele sorriso sagaz que os outros já conheciam tão bem.

"Então... Devemos colocar um lugar para você fazer suas necessidades, ou você é do tipo limpinho?" brinca Ludus, dando uma piscadela. Asher levanta os olhos, inicialmente apenas suspirando, mas um pequeno sorriso escapa enquanto ele balança a cabeça.

"Bom... Tirando as pulgas. Até que sou bem limpinho." responde Asher, secamente, mas o tom deixa transparecer um humor contido. Ele cruza os braços, como se ponderasse, mas logo percebe o olhar curioso dos outros ao redor.

"Vocês não vão sossegar enquanto eu não abrir o livro, não é?" ele fala, meio relutante, mas logo se senta ao lado da fogueira novamente. Os demais se ajeitam, e Mor'Rein se inclina ligeiramente, intrigado, enquanto Ludus abre um sorriso satisfeito.

Asher olha para o fogo, e o reflexo das chamas brilha em seus olhos enquanto ele começa a falar, numa voz baixa, mas firme.

Godfrey Schultz
"Nasci em uma família antiga e honrada... o clã Greymane. Fomos guerreiros e guardiões das fronteiras de Profundáguas por gerações, sempre leais aos valores que passávamos de pai para filho. Mas –" ele faz uma pausa, seu olhar endurecendo ao recordar, "tudo isso mudou quando Godfrey Schultz apareceu."

Mor'Rein ergue as sobrancelhas. "Schultz... Não é o nome de uma das famílias dos Lordes da cidade?"

"Sim," responde Asher. "Um Lorde popular, por fora. Mas ele tinha um segredo. Era devoto de forças sombrias... Um cultista insano. E, através de artimanhas e mentiras, conseguiu envenenar a população contra minha família. Acusou os Greymane de traição, de praticar feitiçaria, e a multidão – cega pelo pânico – virou-se contra nós. Em uma noite, Schultz invadiu nossa casa com homens armados, e, ao usar uma maldição antiga, ele lançou um feitiço cruel sobre o clã inteiro.”

Asher faz uma pausa, o olhar distante, como se revivesse aquela cena.

"Ele nos transformou em lobisomens. Uma maldição hedionda... Uma aberração contra nossa própria natureza. A população se virou contra nós. Eu, um infante nascido naquela noite, fui o único polpado daquela noite. Minha família... eles não tiveram a mesma sorte. Fui levado para longe por um dos criados da minha família."

Há um silêncio pesado. Até Ludus, que raramente se deixa abater, permanece em silêncio, sua expressão séria.

"Fui entregue para El-Kadhim pouco tempo depois," continua Asher. "Ele era um andarilho de terras distante, um Paladino que já cruzou este continente de uma ponta a outra e tinha uma dívida com minha família. Me viu como um garoto amaldiçoado, perdido, mas também como alguém digno de compaixão. Ele me ensinou que, apesar de tudo que aconteceu, eu ainda era um Greymane. Que eu podia seguir os valores da minha família, mesmo que de uma maneira diferente. Sob sua tutela, aprendi a controlar a maldição. A suportá-la... e não prejudicar os outros."

Ludus finalmente fala, sua voz confusa e aguda: "Puxa... Profundáguas só dá maluco."

Dahaka complementa, aspero e ranzinza: "Gente rica... Isso que dá ter dinheiro sobrando e a mente vazia."

Impetor, ainda curioso, volta o foco para história de Asher: "Sua maldição então, você carrega deste de criança?"

Asher assente lentamente. "É... não é fácil, mas é parte de mim. El-Kadhim dizia que não somos apenas o que o destino nos dá... somos o que fazemos com isso."

Mor'Rein, pensativo, quebra o silêncio. "Um líder com espírito renovado, mas que carrega o peso de um legado. Não é um fardo fácil... mas, por isso mesmo, talvez seja digno de ser carregado."

Asher dá de ombros, um tanto desconfortável com os elogios. "Estou apenas cumprindo o que devo. E agora, tenho uma chance de honrar meu clã de uma forma que nunca imaginei. Se puder proteger Cormyr... se puder fazer algo certo no meio deste caos... então, pelo menos, o nome Greymane viverá um pouco mais."

Ludus sorri novamente, agora com um brilho diferente nos olhos, como se reconhecesse algo familiar em Asher. "Bem, meu caro líder... com certeza temos um caminho pela frente. E, entre pulgas e maldições, acho que posso dormir tranquilo, sabendo que temos alguém como você ao nosso lado."

A tensão no ar se dissipa um pouco, e os outros sorriem, talvez sentindo que conhecem Asher um pouco mais. Em silêncio, eles se ajeitam para o descanso, sabendo que o dia seguinte trará batalhas, mas que enfrentarão juntos, com suas histórias e lealdades entrelaçadas como a corrente que os une.

Episódio 13 - O Resgate de Calobri.

Data: 1 de Nightal, 8h
Local:  Cabana de Calorbi - Floresta de Hullack, Cormyr, Faêrun.

A madrugada era fria quando os heróis deixaram a cabana de Calorbi na floresta de Hullack. Ainda era outono, mas os primeiros traços do inverno pairavam no ar como uma ameaça adormecida. O cheiro das folhas úmidas e da terra revolvida anunciava a mudança das estações, e o céu parecia cinzento e pesado enquanto o grupo adentrava as trilhas densas da floresta. Cada um carregava suas armas e pertences com seriedade, cientes do desafio que tinham pela frente.

Ao longe, as cordilheiras Stormhorns se erguiam imponentes, quase ocultas pela névoa. A caminhada foi longa e exigente, com poucas palavras trocadas além das orientações para manter o ritmo e evitar as raízes traiçoeiras que saltavam do solo coberto de folhas. O anão Guldain liderava o caminho com passos firmes, resmungando baixinho sobre o frio que invadia seus ossos. Quando finalmente pararam para descansar, já era tarde e o frio aumentava, gelando a ponta dos dedos e as orelhas.

Na manhã seguinte, os heróis avistaram a entrada de um vale estreito que levava até a base das montanhas. O anão olhou ao redor com um brilho astuto nos olhos e declarou com um tom de quem já sabia a resposta:

"Conheço uma passagem nos túneis internos da montanha. Mas pra chegar lá, vamos ter que escalar um bom trecho."

Ludus ergueu uma sobrancelha, espiando a parede rochosa que se erguia íngreme à frente.

"Claro que você conhece uma passagem ‘fácil’," ele disse, com um toque de ironia. "Me lembre de ter mandar a conta da lavagem das minhas roupas."

Guldain riu, já erguendo a corda.

"Deixe de frescura e me passe o martelo e os pistões. vamos subir!"

"Como quiser Guldain," disse Asher preparando as ferramentas de escalada do anão.

Impetor, que observava a troca de farpas com um sorriso discreto, deu um tapa um pouco mais forte doque o necessário para ser amigável no ombro do bardo.

"O que foi Ludus? Medo de altura?"

"Claro que não..." Ludus disse engolindo em seco. "Não é a altura que me assusta." Diz ele olhando para cima, a montanha se erguendo majestosa em um paredão rochoso. "Mas sim a queda..."

Mor’Rein, sempre com sua expressão séria, inclinou a cabeça e avaliou a subida.

"Melhor subir agora enquanto o tempo está estável."

A subida não foi fácil. Guldain seguiu na frente, firme e acostumado ao terreno rochoso, subindo com passos calculados e seguros. Atrás dele vinha Asher, cuja a força permitia escalar sem muita dificuldade. Ludus e Dahaka seguiam com certa dificuldade, mas sempre mantendo o humor, ainda que ofegantes. Mor’Rein, com seu semblante impassível, parecia se mover sem pressa, com a paciência de um elfo com todo tempo do mundo. Impetor, por último, observava atentamente o avanço dos companheiros, pronto para qualquer eventualidade.

"Cuidado aí, Ludus!" alertou Asher, ao ver o bardo quase escorregar.

"Não se preocupem comigo," resmungou ele, tentando recuperar o equilíbrio. "Eu só estava testando a resistência da rocha."

Dahaka riu, sua voz ecoando pelos rochedos.

"Bem, pelo menos sabemos que a rocha é mais forte que o seu orgulho."

As palavras flutuaram na encosta da montanha, misturando-se com o vento cortante e o som das botas contra a pedra. A paisagem ao redor parecia se distanciar conforme subiam, revelando um horizonte onde o céu e as montanhas se encontravam em tons sombrios de cinza e azul.

Quando alcançaram uma pequena plataforma segura, pararam para recuperar o fôlego, cada um envolto em seus próprios pensamentos. Ao longe, podiam ver a trilha que ainda precisavam vencer, mas também o vislumbre dos túneis que Guldain prometera. Com um aceno de cabeça, o anão sinalizou que a jornada só estava começando.

O vento frio se acalmou assim que o grupo entrou no túnel estreito, onde apenas a respiração de cada um e o som de botas contra a pedra ecoavam na penumbra. A passagem era irregular e serpenteava para baixo, revelando paredes de rocha crua que pareciam nunca ter sentido o toque de mãos humanas ou sequer anãs.

"Esses túneis... são antigos," murmurou Guldain, passando a mão calejada nas paredes ásperas com uma expressão quase reverente. "Posso sentir as veias de minério adormecidas, esquecidas no escuro. Algumas dessas cavernas foram esculpidas bem antes dos Zentharim porem os pés por aqui."

Dahaka, que vinha logo atrás, ergueu uma sobrancelha, visivelmente interessado. "De onde vem toda essa conexão dos anões com as pedras, afinal?"

Guldain bufou, dando uma risada abafada que ecoou nas profundezas. "Você acha que é só enfiar uma picareta e cavar?" Ele bateu no peito com orgulho. "Montanhas têm alma. Meus antepassados sempre acreditaram nisso. Cada túnel escavado, cada pedra arrancada… é preciso respeito, entender o que a rocha pede e dar algo em troca."

Ludus observava tudo com uma expressão intrigada. "E o que a rocha te pediu até agora, Guldain? Fora uma bela camada de sujeira nas suas botas, claro."

O anão soltou uma gargalhada que reverberou pelas paredes. "A rocha é paciente, Ludus. Não liga pra pressa de quem passa. Mas, com o tempo, ela revela o que há de mais valioso. Seja prata ou...," ele deu de ombros, "...silêncio."

Mor'Rein, sempre observador, tocou uma das paredes, fechando os olhos por um momento. "Há algo puro nessas passagens," ele murmurou. "Talvez nunca tenham sido tocadas, nem mesmo pelo tempo."

Eles avançaram em silêncio por um tempo, com apenas a luz de suas tochas iluminando as sombras que dançavam pelas paredes. À medida que se aprofundavam, o túnel se alargava, e pequenos nichos surgiam nas laterais, abrigando estalactites e estalagmites que reluziam em minerais sutis.

"Os Zentharim que chegaram aqui, ainda não exploraram tudo," sussurrou Asher, seus sentidos atentos, captando a quietude ao redor. "Vejo poucas pegadas na poeira… e nenhuma recente."

"Isso é bom," comentou Impetor, sua voz baixa mas decidida. "Melhor pra nós, e pior pra eles."

Logo, o túnel se abriu para uma caverna maior, e o ar ficou mais denso, cheirando a metal e umidade. Sinais de escavação recente começaram a aparecer, marcas que indicavam o uso de ferramentas afiadas, nada parecido com o toque cuidadoso que Guldain descrevera.

"Esses não são os traços dos anões, com certeza," resmungou ele, franzindo o cenho. "Isso aqui foi arrancado com violência, sem atenção ao que a montanha poderia ceder."

Ludus assentiu, lançando um olhar desconfiado ao redor. "Pois bem, pessoal, estamos chegando aos Zentharim, que tal darmos um 'oi' discreto?"

O grupo continuou a avançar, mais cauteloso agora, os olhos buscando qualquer sinal de armadilhas ou emboscadas. Em silêncio, o espírito antigo das rochas parecia os guiar, como se os próprios túneis torcessem para que esses visitantes não fossem como os últimos a profanar o solo.

O silêncio que enchia o túnel foi abruptamente quebrado por vozes graves e despreocupadas. À frente, um grupo de Zentharim emergia de um cruzamento entre as passagens, suas sombras longas lançadas na luz das tochas que carregavam. Ao perceberem os heróis, ergueram as armas e se posicionaram em alerta, formando uma barreira ameaçadora.

Dahaka foi o primeiro a reagir. Com a graça e a precisão de um predador, ele deslizou pelo flanco esquerdo do grupo, aproximando-se silenciosamente do Zentharim mais próximo, um homem barrigudo com cicatrizes escuras no rosto. Num movimento rápido e calculado, Dahaka puxou a adaga e cortou a garganta do homem, que soltou apenas um ruído abafado antes de desabar no chão. Sem perder tempo, Dahaka desapareceu de volta nas sombras, misturando-se ao ambiente rochoso.

Nesse momento, Guldain, sem tirar os olhos do grupo de inimigos, tirou uma pequena moeda do bolso e a arremessou para o alto. O som metálico atraiu a atenção de um dos Zentharim, que seguiu o brilho com os olhos até que a moeda caiu ao chão com um tilintar agudo. Quando os olhos do mercenário voltaram ao grupo, o anão já não estava lá.

Ludus aproveitou a distração e soltou um sorriso confiante, levantando o pandeiro em uma postura defensiva. Com um gesto ágil, ele começou a fazer uma melodia rápida e hipnotizante, enquanto murmurava palavras encantatórias. O som reverberou pelo túnel, e uma névoa sutil envolveu o ar ao redor dos Zentharim, embotando seus sentidos e os fazendo vacilar. Dois dos mercenários começaram a balançar a cabeça, visivelmente desnorteados.

Mor'Rein, aproveitando o momento, levantou as mãos e invocou uma aura sombria ao seu redor. Ele sussurrou um encantamento em uma língua antiga, e tentáculos negros e espinhosos surgiram do solo pedregoso, serpenteando em direção aos Zentharim e prendendo suas pernas. Os espinhos se enrolaram ao redor dos tornozelos dos mercenários, perfurando suas peles com farpas afiadas.

Um dos Zentharim, um homem esguio com uma cicatriz em forma de cruz na bochecha esquerda, forçou-se a resistir ao encantamento e avançou, puxando uma cimitarra curva. Ele investiu na direção de Asher, grunhindo, "Vocês vão se arrepender de terem pisado aqui!" Asher, no entanto, moveu-se rápido demais; desviou para o lado, puxando sua espada e estocando o Zentharim em um movimento fluido.

Impetor avançou logo atrás, com seu imponente porte ocupando o espaço e atraindo a atenção dos outros. Ele brandia sua maça com força e precisão, seus movimentos poderosos combinando com seu olhar fixo e determinado. Com um rugido, desferiu um golpe direto contra um Zentharim corpulento com um tapa-olho, forçando-o a dar passos trôpegos para trás. O homem cambaleou, o peito aberto pelo golpe de Impetor, sangue escorrendo nas escamas prateadas de seu peitoral.

Outro Zentharim, um homem alto e magro com um estranho símbolo tatuado na testa, ergueu a espada e tentou atacar Ludus, mas os efeitos da música encantatória ainda embotavam seus reflexos. O golpe passou longe, e Ludus aproveitou a abertura, girando e atingindo o homem com um golpe preciso de sua nova adaga. "Sim! Sangue, me dê mais!" A voz de Debast ecoou de dentro do item mágico.

À esquerda, um Zentharim loiro e sardento, com uma expressão furiosa e dentes manchados, avançou em direção a Mor'Rein, soltando uma série de impropérios. Mas Mor'Rein, com um movimento preciso, estendeu a mão e conjurou uma energia sombria que envolveu o homem em uma neblina negra. O mercenário soltou um grito de agonia e caiu de joelhos, contorcendo-se enquanto a escuridão o consumia.

Outro Zentharim, com um elmo enfeitado e um sorriso confiante demais para alguém em sua posição, ergueu uma lança e apontou na direção de aonde pensava se encontrar Guldain. "Vocês podem tentar lutar, mas ninguém supera os Zentharim em seu próprio território." Antes que pudesse terminar a frase, Guldain reapareceu atrás dele, cravando a espada curta em suas costas. O sorriso desapareceu rapidamente, substituído por um grito de dor antes que ele caísse ao chão, inerte.

O combate continuava feroz nos túneis estreitos, e as sombras dançavam ao ritmo frenético da luta. Dahaka, aproveitando o caos instaurado e as posições instáveis dos Zentharim, deslizou novamente pelas sombras. Ele se esgueirou até o homem com a cicatriz em cruz na bochecha, que ainda tentava recuperar o equilíbrio após o ataque de Asher. Em um movimento silencioso, Dahaka puxou sua adaga e cravou-a na lateral do pescoço do homem, que gorgolejou e tombou, seus olhos ainda arregalados pela surpresa. Dahaka desapareceu de volta nas sombras, apenas um vulto entre as rochas.

Guldain, agora posicionado mais à frente, se virou para o Zentharim loiro e sardento, que observava Mor'Rein com ódio no olhar. Com um sorriso sagaz, o anão assobiou para chamar sua atenção. Quando o mercenário olhou, Guldain arremessou um punhado de pó de mico que carregava, cegando temporariamente o homem. Ele deu alguns passos para trás, enquanto o anão avançava de forma ameaçadora.

Ludus observava a confusão que se formava ao seu redor. Sentindo o calor da batalha pulsar no ar, ele ergueu-se e começou a praguejar insultos e escárnios direcionados aos Zentharim, zombando de seus movimentos desajeitados. A voz de Ludus, misturada com o ritmo hipnótico do pandeiro, começou a ecoar no túnel, aumentando a tensão psicológica dos inimigos restantes, que trocavam olhares desconfiados. Debast, a adaga em sua mão, murmurou novamente: "Mais sangue... deixe-me provar mais deles." Ludus, ainda confuso, deu um sorriso nervoso "Tá bom Bestie, entendi... Você é insasiável né?" se preparando para o próximo ataque.

Mor'Rein, em um movimento fluido, ergueu as mãos e conjurou um feitiço sombrio. Sussurrando uma prece para seu patrono, ele convocou o seu familiar, uma esfera de tentáculos negras com assas de morcego, que flutuava sobre sua cabeça, girando lentamente antes de ser lançar em direção ao Zentharim loiro, que estava cego pelo pó. O familiar se chocou contra o mercenário, consumindo-o com uma energia escura que se espalhava como raízes. O homem gritou, sua pele escurecendo à medida que as sombras tomavam conta de seu corpo, até que ele desabou, imóvel.

Outro Zentharim avançou — um homem largo e de barba cheia e embaraçada, com dentes amarelados e um escudo amassado. Ele rosnou, partindo para cima de Asher, tentando esfaquear o caçador com uma lâmina curta. Asher, ágil como sempre, desviou para o lado, segurando o pulso do inimigo e, com um giro rápido, desferiu um golpe com sua espada diretamente na barriga do mercenário, que soltou um grito abafado e caiu, derrotado.

Impetor avançou em direção ao próximo inimigo, um Zentharim de olhos pequenos e astutos, com uma corrente de ferro enrolada ao redor do punho. O draconato soltou um rugido e brandiu sua maça com uma força inigualável. O mercenário tentou bloquear com a corrente, mas a maça de Impetor o atingiu com um golpe devastador, quebrando seus ossos. O som seco ecoou pelo túnel, e o Zentharim caiu ao chão, imobilizado e gemendo em dor.

O último Zentharim, um homem de pele morena e tatuagens tribais nos braços, recuou. Os olhos dele se moviam rápidos, percebendo que a vantagem dos números não os salvava do massacre em curso. Em um gesto de desespero, ele ergueu a espada, gritando: "Vocês vão pagar por isso, seus malditos!" Contudo, antes que pudesse avançar, Dahaka surgiu de uma sombra à sua direita, cravando uma segunda adaga em seu flanco e sussurrando ao seu ouvido: "Apenas se unirá ao seu fim." O Zentharim estremeceu e caiu, com o eco de sua voz abafado pelas sombras.

Com o último mercenário abatido, o silêncio desceu novamente sobre o túnel. O grupo respirou fundo, absorvendo o peso do combate recente. A atmosfera sombria e o cheiro metálico do sangue no ar lembravam a todos de que estavam em território inimigo, e que ainda havia muitos desafios pela frente.

Os heróis olharam ao redor, avaliando os Zentharim caídos no chão frio e escuro do túnel. Após um breve instante, Ludus fez um gesto com a mão, indicando um dos corpos — o homem de barba embaraçada, que parecia mais resistente do que os outros. Ele ainda respirava, tossindo entre gemidos de dor. Impetor segurou o homem pelo colarinho, arrastando-o até uma parede de pedra onde o sentou de modo que ficasse encostado, semicongelado pelo medo e pela exaustão.

Ludus, observando o Zentharim com um brilho nos olhos, sussurrou palavras arcanas enquanto levantava as mãos em um gesto suave. Um leve brilho esbranquiçado começou a emanar de seus dedos, criando um campo invisível ao redor do prisioneiro. Com a voz séria, Ludus pronunciou, "E que a verdade seja dita." A aura ao redor se fixou, e o Zentharim estremeceu, como se algo profundamente inquietante tivesse tocado sua mente.

"Vai dizer a verdade agora, ou os tentáculos do Mor’Rein não vão ser tão gentis com você da próxima vez," murmurou Ludus, forçando um tom de ameaça.

Os olhos do mercenário se arregalaram, e ele começou a murmurar palavras desconexas, seus instintos de resistência se dissolvendo ao perceber que não poderia mentir.

"Calobri," começou Asher, inclinando-se levemente para perto do homem. "Onde ele está?"

O Zentharim hesitou, os olhos dardejando para o grupo. Com a Zona da Verdade ativa, a luta era vã; ele começou a falar, as palavras saindo como se forçadas por uma mão invisível.

"Calobri está... está no salão principal... a caminho de um ritual. Os cultistas… eles estão preparando-o para ser... oferecido," sussurrou, a voz vacilante. "As veias negras... estão conectadas ao portal. Elas o... alimentam."

Asher trocou um olhar sombrio com Dahaka e disse, em tom baixo, “Pelo visto os trabalhos de seu irmão ainda estão acontecendo. Esse ritual não pode se completar.”

Impetor apertou os punhos, o peito vibrando com um calor desconhecido, enquanto o óleo negro em suas veias parecia agitar-se. O zumbido fraco dentro dele tornava-se cada vez mais presente, como se ecoasse o pulsar dessas "veias negras" que permeavam o complexo.

Dahaka deu um sorriso frio ao Zentharim, e, com um golpe preciso da parte chata da adaga, o desacordou, deixando-o cair inconsciente no chão rochoso.

O grupo avançou pelos corredores, agora com um propósito renovado. À medida que desciam mais fundo no complexo Zentharim, perceberam que as veias negras, como raízes pulsantes, se espalhavam por todo o entorno — linhas escuras e viscosas, como corredores de energia sombria, corriam pelas paredes e teto, iluminadas por um brilho esverdeado sutil. O ar ficava mais pesado, com um cheiro levemente metálico, quase sufocante.

Impetor sentia seu corpo responder de maneira estranha à presença dessas veias. O óleo negro que fora derramado sobre ele dias atrás, algo que ele pouco compreendia, agora parecia esquentar em suas veias, vibrando com uma pulsação incontrolável. Um calor interno e opressor se agitava, como se tentasse se sincronizar com as pulsações negras ao redor.

"Droga," murmurou ele, passando a mão no peito. "Esse maldito sangue... está como fogo dentro de mim."

Mor'Rein o observou atentamente, com um olhar calculista. "É a presença dessas energias profanas. A escuridão no ar está se entrelaçando com o que te banhou. Resista, Impetor. Precisamos de você inteiro."

Impetor respirou fundo, lutando contra o calor crescente, e assentiu. "Não se preocupem. Vou aguentar." Ele ergueu o olhar, olhos brilhando de determinação. "Mas vamos logo. Calobri não tem tempo a perder."

A sensação opressora aumentava à medida que seguiam mais fundo, o ambiente se tornando cada vez mais claustrofóbico e denso. As veias negras pulsavam como se estivessem vivas, como serpentes em espera, enquanto os heróis avançavam com passos firmes e alertas, sentindo que estavam prestes a enfrentar algo muito além do que poderiam imaginar.

Os heróis continuaram avançando pelos corredores labirínticos do forte Zentharim, cada vez mais rodeados pelas pulsantes veias negras que recobriam as paredes. O ambiente parecia apertar-se ao redor deles, o ar pesado tornando a respiração um pouco mais difícil. Subitamente, um som abafado ecoou de uma sala adiante. Era uma voz familiar, falando de forma baixa e áspera, com um leve tom de impaciência.

Dahaka parou, erguendo a mão para que o grupo ficasse em silêncio, e se aproximou cautelosamente de uma porta entreaberta. Espiou por uma fresta, estreitando os olhos para observar o que estava acontecendo lá dentro.

Na sala mal iluminada, um Zentharim magricela e de olhar nervoso estava sentado em uma cadeira de madeira, com as mãos tremendo em seu colo. Ele tinha cabelos ralos e desgrenhados, um bigode desalinhado, e trajes que, apesar de seu esforço para parecerem apresentáveis, estavam visivelmente surrados. Era claro que ele não estava confortável com a situação. Do outro lado da pequena mesa de pedra, estava um homem de aparência intimidante — mas não tanto pela presença física, e sim por um detalhe que chamou imediatamente a atenção de Dahaka: sua mão... ou a ausência dela.

Dahaka reconheceu a figura. Era Manter Clipster, o Presa Zentharim que eles haviam interrogado há alguns dias em Arabel e que, ao que tudo indicava, estava tentando descobrir como os heróis haviam encontrado a localização do forte. Clipster, com uma postura quase solene, inclinou-se sobre a mesa e encarou o homem à sua frente com uma expressão desinteressada e cínica.

"Então, Harkin," começou Clipster, tamborilando os dedos da única mão na mesa com um ar enfadado. "Diga-me, quais são suas... habilidades principais?"

O pobre Zentharim se remexeu, limpando a garganta nervosamente. "Bom... eu... sou ótimo em emboscadas e... e manejo de adagas. E sou bom com... fugas rápidas, senhor."

Clipster ergueu uma sobrancelha, quase desdenhosamente. "Aham. E o que você diria que são seus... pontos fracos?"

Harkin engoliu em seco, o rosto pálido. "Ah, sim, claro, senhor. Bom, eu... às vezes fico nervoso, sabe? Em situações de alta pressão."

Clipster suspirou, revirando os olhos. "Harkin, estamos na Zentharim. Alta pressão é basicamente o dia a dia aqui. Se não consegue lidar, bem... talvez este não seja o melhor lugar para você."

Harkin começou a suar. "Sim, senhor, entendo perfeitamente. Eu... eu posso melhorar, prometo."

Clipster, então, baixou o tom de voz, inclinando-se mais perto. "Última pergunta, Harkin... você está, por acaso, envolvido em algum vazamento de informação? Digo, algo que tenha, por acidente, revelado a localização deste forte a inimigos? Porque a chefia está muito interessada em saber por que, de repente, tivemos uma invasão."

Os olhos de Harkin se arregalaram. Ele balbuciou, quase em pânico. "N-não, senhor! Eu... eu não tenho a menor ideia de como isso aconteceu!"

Dahaka não pôde evitar um leve sorriso e sussurrou para os colegas. "É o Manter Clipster. Parece que está em um... interrogatório, o safado está tentando se livrar do fato de que foi ele quem nos deu a informação do local. Querem entrar e acabar logo com isso?"

Os heróis assentiram, e Dahaka empurrou a porta sem cerimônia, interrompendo a sessão de "recursos humanos" improvisada. Clipster ergueu o olhar, visivelmente surpreso, mas antes que pudesse reagir, Dahaka se aproximou rapidamente, empunhando a adaga. Com um movimento calculado, ele silenciou Harkin, que caiu para o lado, o olhar ainda assustado.

Clipster apenas ergueu as sobrancelhas, tentando manter uma postura impassível, apesar do medo evidente em seus olhos.

Clipster olhou para os heróis com um misto de pavor e indignação quando eles invadiram a sala. Com uma mão apenas, ele gesticulou, exasperado.

"O caralho! Porra, que merda... Já tava a ponto de tirar uma confissão dele!" Clipster gritou, enquanto o Zentharim inconsciente tombava para o lado.

Asher arqueou uma sobrancelha. "Confissão? Foi você quem deu a informação da localização pra gente e sabe muito bem disso!"

Clipster bufou, exasperado. "Claro que eu sei disso! Só que precisava de alguém pra levar a culpa!" Ele olhou para eles, e a frustração em seu rosto deu lugar ao sarcasmo. "O que diabos vocês estão fazendo aqui? Vieram levar minha outra mão?"

Impetor deu um sorriso malicioso. "Quem sabe... Se você cooperar direitinho, podemos levar apenas alguns dedos."

"Vão pro inferno!" Clipster respondeu, firme.

Dahaka, sem perder tempo, lançou uma adaga que cravou com precisão na poltrona de Clipster, a centímetros de seu rosto. "Viemos atrás de Calobri, verme. Mas nada impede que você aproveite e nos dê mais informações! Já sabemos onde ele está... Mas o que está rolando aqui? O que os Akmenos estão ganhando com tudo isso?"

Clipster soltou uma risada rouca e nervosa. Ele claramente temia mais os chefes Zentharim do que os heróis à sua frente. "Vocês acham que eu vou abrir o bico? Nada que vocês façam vai me fazer revelar mais segredos do Zentharim. Já quase não saí vivo da última vez... Dei sorte."

Ludus, animado com o tom do interrogatório, decidiu que era hora de agir. Ele avistou uma pilha de cartas e documentos em cima da mesa e, num impulso quase cômico, pegou as cartas, sacudindo-as dramaticamente. "Aposto que essas coisas devem ser importantes, né? Vamos ver se isso te faz abrir o bico!" Ele lançou as cartas direto no fogo da lareira.

Os outros heróis gritaram em uníssono: "Não!"

Asher levou a mão ao rosto, inconformado, enquanto Dahaka ficava boquiaberto e Impetor permanecia estático, assistindo as chamas consumirem as cartas. Ludus, com um sorriso de vitória no rosto, olhou para eles como se tivesse feito a maior contribuição ao interrogatório. Mor'Rein, tentando manter a calma, suspirou fundo e disse, com uma voz séria e quase fria: "Ludus... Você não acha que se essas cartas eram importantes para os Zentharim, também poderiam conter informações importantes para nós?"

O sorriso de Ludus foi desaparecendo lentamente, a compreensão finalmente o atingindo. "Ah... É... talvez…"

O grupo permaneceu em silêncio por alguns segundos, encarando Clipster, que, divertindo-se com o desespero deles, estava claramente confortável em manter seus segredos.

Asher se aproximou e soltou um suspiro impaciente. "Esse cara não vai falar nada. É só um charlatão esperto que conseguiu escapar na última vez. Não vamos perder mais tempo com ele."

Impetor deu um aceno afirmativo e, sem cerimônias, golpeou Clipster na cabeça, fazendo-o cair desmaiado. Eles o amarraram firmemente na cadeira e se certificaram de que ele não escaparia tão cedo.

O grupo se lançou de volta ao corredor escuro, deixando Clipster desmaiado e amarrado. Com cada passo, eles se aproximavam mais de seu verdadeiro objetivo, determinados a impedir que o ritual se completasse e prontos para enfrentar qualquer um que cruzasse seu caminho.

Calobri Perdracious
Os heróis chegaram ao salão principal e pararam, com um misto de horror e incredulidade. O ambiente era sufocante, o ar pesado com a presença de uma energia sombria que permeava cada pedra e sombra ao redor. As veias negras cobriam as paredes e o chão como raízes pulsantes, carregando o óleo escuro e viscoso que parecia pulsar como sangue demoníaco, espalhando-se e nutrindo o ambiente com uma essência profana.

Acima deles, grudado ao teto e quase encasulado pelas veias escuras, estava o corpo de um homem. Ele pendia como um fardo, a pele pálida, a barba desgrenhada e os olhos vidrados e vazios, quase sem vida.

Guldain deu um passo à frente, olhos fixos na figura suspensa. “Calobri?” sussurrou ele, quase sem reconhecer o amigo que um dia conhecera tão bem.

A resposta não veio de Calobri, mas de uma figura em meio aos cultistas que recitavam cânticos estranhos, cada palavra soando como um eco sombrio e enraizado nas profundezas de Baator. Entre os acólitos, uma pequena criatura peluda, um halfling de feições selvagens, olhou para o grupo com um sorriso sádico e desdenhoso. Um servo da escuridão, e ele parecia ansioso para fazer o grupo sentir a futilidade de sua missão.

Bezthortun.
“Vocês chegaram tarde demais, heróis!” disse Bezthortun, a voz ressoando pelo salão com um tom de zombaria. Ele esticou os braços pequenos, quase como se estivesse abraçando a própria energia maligna que preenchia o lugar. “Vocês acham que vão conseguir salvar esse pobre desgraçado? Acham que podem desfazer o que já foi selado nas gargantas do abismo ou nossos poços infernais? Quanta ingenuidade! Este ritual é apenas o começo! Cada gota desse óleo negro é uma oferenda às profundezas de Baator!”

Ele se interrompeu com um suspiro dramático, lançando um olhar venenoso a um dos cultistas que murmurava algo ao seu lado. Bezthortun virou-se irritado, os olhos estreitos de fúria.

“O que você quer agora, tolo?” disparou ele.

O cultista, hesitante mas reverente, inclinou-se. “Mestre Bezthortun, o portal já está se conectando... o primeiro servo das trevas, um corruptor, está sendo enviado para auxiliar os Zentharim. Eles aceitaram a oferenda da alma de Calobri junto ao sangue negro.”

Bezthortun esboçou um sorriso sombrio, os olhos faiscando de satisfação. Ele voltou-se para os heróis, o semblante agora carregado de uma perversidade feroz.

“Pois bem, parece que os mestres das trevas têm planos mais grandiosos do que gastar seu tempo com invasores medíocres como vocês,” disse ele, sua voz fria e cortante. “Vocês não são dignos de estar na presença de um corruptor. MATEM-NOS!”

Ao comando, os cultistas ergueram suas lâminas e iniciaram uma investida, olhos brilhando com uma devoção fanática. O salão principal se encheu com o som de passos e lâminas afiadas. Bezthortun recuou, observando com um sorriso sádico enquanto os heróis se preparavam para mais uma batalha decisiva.

A batalha irrompeu com um estrondo de aço contra aço, gritos ferozes e explosões de magia preenchendo o salão enegrecido. Bezthortun, com um sorriso cruel e olhos sádicos, recuou para um canto, observando o caos desenrolar-se ao seu redor. Os cultistas avançaram em uníssono, como uma onda de fanatismo implacável, seguidos por Zentharim de armas em punho e olhares predatórios.

Dahaka sentiu o cerco se fechar ao seu redor. Movendo-se rapidamente, ele esquivava de golpes e estocadas, mas os cultistas, determinados e implacáveis, começaram a usar correntes e chicotes para prendê-lo. O aço cortante das correntes rasgou a pele de Dahaka, e a dor intensa o fez ranger os dentes, mas ele ainda se movia com precisão e graça. Um chicote atingiu seu braço, forçando-o a largar uma de suas adagas. Ainda assim, Dahaka não cedeu; com um movimento rápido, girou o corpo, cravando a lâmina em um dos cultistas e se soltando por um momento. A luta ao redor estava apenas começando.

Impetor avançou como uma muralha de força. Com sua maça em punho, ele investiu contra os Zentharim que tentaram interceptá-lo. O chão tremia com seus passos pesados, e seus golpes eram como marteladas em pedra. Um Zentharim tentou desferir um golpe com uma cimitarra curva, mas Impetor desviou habilmente e respondeu com uma estocada brutal que quebrou o peito do homem em um estrondo surdo. Sangue salpicou nas escamas prateadas do rosto do meio-dragão, mas ele apenas rugiu em desafio, avançando para enfrentar o próximo inimigo.

Ludus, posicionado estrategicamente se movendo com cambalhotas, lançava suas inspirações e mantinha os inimigos sob uma constante distração. Contudo, ele percebeu um Zentharim avançando furtivamente em direção a Asher, que estava ocupado com dois cultistas à sua frente. Em um ato desesperado, Ludus segurou a adaga Debast e a lançou. A lâmina cortou o ar, atingindo o Zentharim no peito em um brilho vermelho. Em um segundo, a adaga desapareceu e reapareceu na mão de Ludus, envolta em um brilho escarlate. O riso sinistro de Debast ecoou em sua mente, sussurrando palavras que ele mal conseguia compreender, e uma sensação de poder obscuro e insaciável o percorreu, ao mesmo tempo que o deixava abalado.

"Eu lhe disse bufão.. 'Para sempre juntos!' " rogou a voz de Debast.

Guldain, com passos calculados, movia-se pelas sombras. Ao se aproximar de um cultista distraído, ele cravou sua lâmina no flanco do inimigo, que soltou um grito sufocado antes de cair no chão. Guldain se movia como um fantasma, sempre reaparecendo em pontos inesperados, cortando e subjugando os inimigos sem que eles pudessem reagir. Ele lançou um olhar a Bezthortun, que estava ocupado recitando cânticos e segurando um pergaminho antigo nas mãos.

Bezthortun ergueu o pergaminho com um brilho perverso nos olhos, recitando as palavras arcanas com fervor. Com um gesto triunfante, ele conjurou uma Bola de Fogo, arremessando-a em direção ao grupo. A esfera de chamas se lançou pelo salão como uma estrela cadente, queimando o ar ao seu redor e deixando um rastro de calor incandescente.

“Cuidado!” gritou Guldain.

Mor'Rein estendeu as mãos, invocando uma barreira de sombras em uma tentativa desesperada de conter o impacto. A barreira absorveu parte do impacto, mas a explosão ainda os lançou para trás, o calor queimando a pele e o choque reverberando nos ossos. Mor'Rein caiu ao chão, sentindo o efeito debilitante da magia; antes que pudesse se levantar, um grupo de cultistas aproveitou o momento e o cercou, lançando cordas e correntes para amarrá-lo. Ele tentou resistir, mas o cansaço e os ferimentos o deixaram vulnerável.

Asher, com as costas ainda queimando pelo impacto da explosão, ergueu-se, olhos fixos em Bezthortun. Ignorando a dor, ele avançou com uma fúria silenciosa. Bezthortun, agora sem o pergaminho, recuou, tentando murmurar alguma maldição, mas sua voz falhou quando viu o brilho afiado da lâmina de Asher. Em um movimento ágil e certeiro, Asher ergueu a espada e, com um golpe mortal, decapitou o halfling vil. A cabeça de Bezthortun rolou pelo chão, e um silêncio momentâneo pairou no salão, interrompido apenas pelo som dos cultistas ofegantes e hesitantes.

Ainda com a batalha em curso, Impetor notou que os cultistas, ao verem seu líder morto, hesitaram por um breve segundo. Aproveitando a oportunidade, ele ergueu sua maça e desferiu um golpe brutal em outro Zentharim, que cambaleou para trás antes de ser finalizado por Guldain. Os inimigos, agora sem coordenação, começaram a recuar desordenadamente.

Ludus aproveitou a confusão e, com um sorriso confiante, invocou uma melodia rápida e frenética em seu pandeiro, lançando um feitiço de atordoamento sobre os cultistas restantes. Os que ainda estavam de pé caíram de joelhos, os rostos contorcidos em confusão e pavor enquanto os heróis avançavam implacavelmente.

Com um último movimento, Dahaka libertou-se das correntes que o imobilizavam, abatendo os últimos cultistas que tentavam resistir. Ele, Mor'Rein e os outros ergueram-se, encarando o salão agora repleto de corpos caídos e o rastro de destruição.

O grupo permaneceu em silêncio por um momento, ofegante, observando o corpo encasulado de Calobri ainda preso ao teto pelas veias negras.

As veias negras que preenchiam o salão começaram a pulsar com uma energia doentia, cada pulsação iluminando a sala com um brilho vermelho, como o sangue corrompido fluindo de uma ferida infernal. Preso no teto, encasulado pelas mesmas veias, Calobri começou a contorcer-se em agonia, soltando gritos rasgados que ecoavam como se viessem do próprio submundo. Asher olhou para ele e, com urgência em sua voz, disse:

"É melhor pegarmos Calobri e partirmos rápidos!"

Mas antes que pudessem agir, um dos cultistas, coberto de ferimentos e sangue, se arrastou para perto de uma alavanca escondida em uma parede lateral. Com um sorriso insano, ele murmurou algo incompreensível e puxou a alavanca com um último esforço. Em resposta, um estrondo profundo encheu o salão, e todos os olhos dos heróis se voltaram para o portão de pedra que começava a descer, bloqueando a única saída.

"Não!" gritou Asher, mas o portão já estava a meio caminho, descendo rápido demais para que escapassem sem agir.

Impetor avançou com uma determinação feroz, correndo até o portão com toda a força que tinha. Ele estendeu os braços escamosos, pressionando as mãos contra o portão, e o esforço fez seus músculos tremerem com a resistência. O portão rangeu, e ele conseguiu retardar sua queda, mas o peso era colossal.

"Vão! Depressa!" gritou Impetor, os dentes cerrados e os olhos arregalados enquanto mantinha o portão suspenso com todas as suas forças.

Sem perder tempo, um a um, os heróis passaram por baixo do portão em direção à saída. Ludus, o último a passar, olhou para o teto e disse, com uma careta de desculpa:

"Perdão, Senhor Calobri... mas pegamos você outra hora!"

Porém, ao cruzarem o portão, eles perceberam que Impetor não os seguia. Ele continuava segurando o portão que, agora mais baixo, ameaçava esmagá-lo se ele soltasse a pressão.

"Vamos, Impetor! Está quase lá!" gritou Dahaka, mas Impetor balançou a cabeça, os músculos tremendo sob a força absurda que mantinha o portão suspenso.

"Eu… não consigo... Vão sem mim!" A voz de Impetor ecoou forte, mas não escondia o sacrifício que estava fazendo.

Os heróis pararam, trocando olhares rápidos entre si. O som de passos fortes e pesados começou a ecoar das escadarias que levavam ao andar inferior, cada passo aumentando o tremor no chão como uma batida de tambor anunciando o inevitável.

Ludus deu um passo à frente e fixou o olhar em Impetor.

"É bom se lembrar disso dá próxima vez que herdar uma motanha de ouro." O Bufão escorregou para debaixo da passagem voltando par ao salão ao lado de Impetor.

Asher desembainhou sua espada. "Se alguém vai enfrentar o que está vindo, seremos todos juntos. Ou saímos daqui como um time… ou não saímos de jeito nenhum."

Dahaka, Guldaim e Mor'Rein se postaram ao lado dos companheiros, erguendo armas e se preparando para o que viria. Um brilho determinado cruzou o olhar de cada um deles; estavam prontos para enfrentar o que quer que o inferno tivesse reservado, desde que estivessem juntos.

Impetor, ainda segurando o portão, olhou para os companheiros. Sua expressão mostrava um misto de surpresa e gratidão, mas ele sabia que não teria forças para continuar segurando. O som dos passos se aproximava, e uma sombra gigantesca começou a se delinear no corredor.

Ele então soltou o portão, que desceu com um estrondo ensurdecedor, selando qualquer rota de fuga.

A única saída agora era através das escadarias daonde o chão de estremecedor se originava. Os heróis se posicionaram ao lado de Impetor, encarando a escuridão de onde vinham os passos pesados e ameaçadores. Sabiam que o inimigo que enfrentariam não era comum, mas estavam prontos. Como uma força unida, como companheiros até o fim.

"Então, vamos ver o que o inferno reservou par anós!" disse Ludus, com um sorriso determinado.

E juntos, lado a lado, os heróis se prepararam para enfrentar o desconhecido.

O Diabo do Osso.
A criatura emergiu das sombras, cada passo ecoando como um trovão pesado que fazia o solo vibrar sob seus pés monstruosos. Era uma figura que mais parecia uma aberração arrancada das profundezas de algum pesadelo ancestral. Tinha quase três metros de altura, mas seu corpo, apesar de massivo, era grotescamente magro, quase esquelético. A pele doentia, em um tom acinzentado e ressequido, esticava-se sobre cada osso e articulação, como um véu seco sobre uma relíquia apodrecida. Cada costela, cada junta estava tão proeminente que parecia pronta para romper a superfície, como se o corpo daquela criatura lutasse para conter algo ainda mais terrível em seu interior.

Um fedor insuportável, de carne em decomposição e de ossos quebrados, acompanhava seu movimento, como se trazesse consigo o aroma do submundo. O ar ao redor parecia se contaminar com a podridão, tornando a respiração de qualquer um que ousasse se aproximar uma tarefa nauseante. E então, atrás de si, arrastava uma cauda monstruosa, grotesca e letal, idêntica à de um escorpião colosal, pulsando com uma ameaça venenosa. A ponta afiada da cauda se mexia com uma precisão inquietante, como uma serpente à espreita, ansiosa por perfurar e injetar sua corrupção em qualquer um que ousasse desafiar seu caminho.

Mas era seu rosto que mais desafiava a compreensão. Onde deveria haver carne, restava apenas um crânio deformado, pálido e ossudo, com cavidades onde olhos de um vermelho doentio brilhavam com um ódio que parecia não ser deste mundo. As mandíbulas rangiam lentamente, como se fossem serras de ossos, exalando um bafo pútrido que flutuava no ar, pesado e maldito.

A criatura parou por um instante, observando-os com uma inteligência bestial, e então, como uma marionete puxada por cordas infernais, curvou-se para frente, soltando um som gutural que parecia misturar risos e gritos de agonia em um só.

Ludus sentiu o peso da adaga vibrar em sua mão, e a voz telepática de Debast sussurrou em sua mente, rouca e sibilante, com um tom de familiaridade sombria. “Ora, Ora um Osyluth, que visão formidável para um servo das trevas.”

Ludus franziu o cenho, processando a informação, e sem perceber, murmurou em voz alta: “Pera aí, você sabe o que é essa coisa?”

“Falou comigo, bufão?” Dahaka, mais ao fundo, olhou desconfiado. Ludus arregalou os olhos, lembrando-se que ninguém ali, além dele, sabia do poder telepático da adaga. “Hã... claro, claro, Dahaka, eu tava só... dizendo, sabe como é, Diabos, tiefling, achei que fosse algum primo seu!”

Dahaka estreitou os olhos, mas pareceu deixar o comentário de lado enquanto Ludus rapidamente desviava o olhar, voltando-se para a adaga e sussurrando para ela. “Tá bom, Debast, me diga, o que mais eu preciso saber sobre essa coisa?”

A adaga vibrava, sua voz ressoando sinistramente em sua mente. “Os Osyluths são os chicotes dos infernos, Ludus. Capatazes e detetives dos Nove Infernos. Eles obedecem apenas aos corruptores das foassas e são conhecidos por uma devoção cega à Lei e ao Mal. Amam infligir sofrimento, seja em mortais ou até em seus próprios.”

Ludus tentou manter o semblante sério enquanto absorvia as palavras da adaga. “Então... ele é tipo uma polícia infernal?”

“Mais do que isso, bufão.” Debast continuou, com um toque de diversão maligna. “Os Osyluths cuidam da ordem entre os próprios seres corruptores, fiscalizando para que ninguém saia da linha. Vê aquele olhar vazio? É a fome pelo tormento, a satisfação em ver o medo pulsar na pele de quem o encara. Ele foi feito para espionar, castigar, e arrancar segredos até de almas sem mais palavras para contar.”

A descrição causava um frio na espinha de Ludus, e ele sussurrou com uma pontada de sarcasmo misturada a ansiedade. “Ótimo, só o que faltava, um demônio que faz hora extra... e com um gosto por sadismo.”

Debast sibilou com satisfação. “Isso não é um adversário qualquer. Ele vai tentar quebrar suas mentes antes mesmo de quebrar seus ossos. Vai sugar cada medo, cada hesitação, para seu deleite. Prepare-se para lutar mais com sua coragem do que com sua lâmina, bufão.”

As palavras de Debast ainda ecoavam na mente de Ludus quando Dahaka, com um sorriso meio amargo e os olhos fixos na criatura ameaçadora à frente, murmurou: “Então, Asher... algum plano?”

Asher desviou o olhar para cima, onde Calobri permanecia aprisionado, sua forma encasulada pelas veias negras e pulsantes. As contrações de dor do homem alimentavam as linhas vivas que serpenteavam pela sala, vibrando em um ritmo doentio. “Precisamos tirá-lo de lá,” disse Asher, o olhar fixo em Calobri enquanto cada contorção parecia tornar o encasulamento ainda mais opressivo.

Ludus soltou um riso nervoso. “Fácil falar, difícil fazer, né?”

Asher ignorou o comentário e começou a traçar um plano, apontando para diferentes partes da sala enquanto falava em tom firme. “Dahaka, você e Guldaim peguem a retaguarda e vejam com Mor'Rein uma forma de tirá-lo de la.  Ludus, distraia o demônio numa distância segura.” Ele olhou para Impetor. “E nós, seguramos essa coisa!”

Os heróis estavam se preparando quando o demônio ósseo começou a proferir algo em uma língua gutural e infernal, o som áspero e cheio de ameaças ecoando pela sala. Todos se viraram para Dahaka, que ergueu as sobrancelhas, visivelmente irritado. “Ah, tá! Só porque eu sou um tiefling, então eu deveria saber o que ele falou?” Um silêncio desconfortável pairou, enquanto os olhares se mantinham sobre ele. Ele suspirou, levantando as mãos em sinal de rendição. “Tá bom, eu sei... Mas ainda assim, foi uma suposição racista!” Ele cruzou os braços e, finalmente, traduzindo com certo desgosto: “Ele disse que vai arrancar nossa pele e usar nossos ossos como troféus para o seu mestre.”

A batalha começou com uma tensão palpável, o grupo observando atentamente o Diabo de Ossos, que aguardava com suas garras e ferrão erguidos, em uma postura ameaçadora. O demônio não era apenas uma visão aterradora, mas também um adversário que prometia desafiar cada habilidade e nervo de cada herói.

Dahaka foi o primeiro a agir. Ele deslizou furtivamente para o lado do Osyluth, os olhos fixos em seus pontos fracos. Com precisão calculada, ele disparou uma flecha diretamente contra a criatura, tentando desviar sua atenção do grupo e estabelecer uma abertura. A flecha cravou-se no peito ossudo do Diabo, mas apenas arrancou um grunhido de irritação. Dahaka recuou alguns passos, atento a qualquer movimento de retaliação.

Em seguida, Asher avançou. Empunhando sua espada com firmeza, ele concentrou a energia sagrada em sua lâmina e desferiu um golpe direto. Ao tocar o Diabo de Ossos, a espada de Asher liberou uma explosão de energia divina, o Destruição Divina, que reverberou com um brilho intenso. O demônio soltou um grito de agonia quando o golpe perfurou sua carcaça, a força sagrada queimando sua essência infernal. A criatura cambaleou, mas rapidamente voltou a se estabilizar, os olhos fixos em Asher com uma fúria ainda mais intensa.

O Diabo de Ossos então contra-atacou, seu ferrão chicoteando no ar em um movimento rápido em direção a Asher. O paladino, com reflexos rápidos, desviou para o lado, sentindo o ar gelado e denso do ferrão passar ao seu lado. Antes que ele pudesse reagir, a criatura continuou sua investida, girando seu corpo esquelético com força brutal. Asher saltou para trás, empunhando sua espada com destreza, mas a criatura parecia estar em todo lugar ao mesmo tempo, suas garras e cauda cortando o ar com uma fúria incansável. Asher, agora mais focado, se preparava para o próximo ataque, sua fúria crescente contra o monstro infernal.

Guldaim observou o ataque do demônio e, aproveitando a distração criada por Asher, se moveu rapidamente para a frente, empunhando sua besta pesada com precisão letal. Ele alinhou a mira e disparou com uma força impressionante. O projétil cortou o ar e acertou em cheio o Osyluth, cravando-se profundamente na carne podre da criatura com um estrondo surdo. A flecha atravessou a armadura óssea do demônio, fazendo-o retroceder com um grito de dor, mas o olhar vazio da besta infernal só parecia se encher de mais fúria. Guldaim não hesitou, preparando outra carga em sua besta enquanto observava atentamente os movimentos da criatura.

Impetor então se posicionou ao lado de Asher, com um olhar determinado e calculista. “Segure-o firme, Asher. Essa criatura não vai cair.” Impetor usou sua maça para golpear o demônio, cada golpe uma afirmação de sua força bruta. Ele manteve-se em constante movimento, uma parede de poder para conter o avanço do monstro, auxiliando Asher na contenção da criatura, enquanto mantinha sua atenção focada no demônio.

Ludus continuava a dançar ao redor do Diabo de Ossos, movendo-se com uma fluidez impressionante, seus saltos e cambalhotas mais parecendo uma dança do que uma simples esquiva. O som dos ossos estalando e o zunido do ferrão passando perto de sua pele eram como música para seus ouvidos. Ele se aproximava da criatura com um sorriso travesso, e suas palavras cortantes ecoavam pela sala.

"Não tem muitos espelhos lá embaixo, não é?" Ludus brincou enquanto girava, desviando-se de um ataque rápido. "As pernas, meu amigo... Um pouco finas para um demônio, não? Nem um músculo, só esses ossos frágeis."

O Diabo de Ossos rugiu com fúria e tentou lançar mais um golpe, mas Ludus estava longe, já se afastando com uma acrobacia elegante. Ele parou de repente, com os braços abertos, fingindo uma reverência para a criatura. "Ah, me desculpe! Acho que entendi... está numa dieta nova não é?"

Enquanto isso, Mor'Rein observava atentamente as veias escuras que mantinham Calobri preso no teto. Ele sussurrava palavras em um idioma arcano, suas mãos analisando o padrão e as pulsações das veias, tentando identificar os pontos vitais que as mantinham conectadas. “Dahaka, Guldaim, estejam prontos,” murmurou Mor'Rein, os olhos ainda fixos nas veias. “Precisaremos acertar esses pontos simultaneamente para liberá-lo.”

De repente, o Diabo de Ossos mudou de alvo. Com uma velocidade assombrosa, ele se lançou aos ares e mergulhou diretamente em direção a Ludus. Antes que o bufão pudesse se esquivar, o ferrão do demônio o acertou em cheio, atravessando seu peito. Ludus soltou um grito de dor enquanto o ferrão se cravava em seu corpo, e sua visão ficou turva. O sangue começou a manchar sua roupa, e sua respiração ficou ofegante. O demônio recuou, puxando o ferrão, deixando Ludus caído, gravemente ferido.

“Agora!” gritou Mor'Rein, percebendo que não havia mais tempo a perder. Dahaka e Guldaim, em sintonia, dispararam suas flechas contra os pontos específicos nas veias que mantinham Calobri preso. As flechas cortaram as veias em sincronia exata, e num segundo de tensão, as linhas vivas que envolviam Calobri começaram a se soltar e murchar. Calobri caiu do teto, desacordado, mas livre das amarras.

O Diabo de Ossos, vendo sua fonte de energia destruída, soltou um grito furioso e desesperado. Seu corpo começou a se dissolver em uma gosma fétida e viscosa, um lodo sulfuroso que escorria para o chão, liberando um cheiro de enxofre. A criatura retorceu-se por alguns segundos antes de se desfazer completamente, a poça de lodo sendo sugada lentamente para uma fenda infernal que se abriu no chão, fechando-se com um estalo final e sinistro.

Com a batalha encerrada, o grupo correu para ajudar Ludus, que estava pálido e respirava com dificuldade.

Ludus riu fraco, mas suas palavras saíram com uma pitada de sarcasmo mesmo na dor. "Bem... como eu me saí no combate... eu estou... 'aberto', a críticas. Entenderam?" Ele olhou para o enorme buraco em seu peito, onde o ferrão do Diabo de Ossos ainda o queimava. "Eu adorava essa camisa." O bufão gargalhou, mas logo sua visão se apagou, e ele desmaiou, caindo no chão da caverna.

Guldaim, que observava a cena com um olhar de preocupação misturado com um toque de humor, exalou uma respiração profunda e disse: "Precisamos partir, nossa carona para fora daqui deve chegar a qualquer momento."

Com um último olhar para o corpo de Ludus, que agora jazia imóvel, os heróis começaram a se mover rapidamente. Eles correram por passagens subterrâneas do Forte Zentharim, aproveitando as rotas secretas quse o levavam para o topo das Montanhas Stormhorns. O vento cortante das altas elevações logo os recebeu, e a sensação de estar ao ar livre, embora difícil de suportar devido ao frio, era um alívio após a tensão da batalha. O horizonte se estendia diante deles, mostrando o vasto alcance da terra que haviam cruzado, mas o destino deles não era ainda seguro.

Com os pés firmes nas pedras geladas do topo, o grupo se reuniu ao redor de Ludus e Calobri, ambos desacordados. Asher, de joelhos, observou Ludus com preocupação. Ele abaixou-se perto do bufão e, com um leve sorriso, murmurou: "Conseguimos... ouviu, Ludus? Conseguimos!"

Ludus não respondeu, sua respiração fraca e irregular. O silêncio pairou por um momento, até que o estalo das pedras sob os pés dos heróis foi a única coisa que se ouviu. O ambiente gelado e a tensão no ar tornaram o momento ainda mais pesado. Asher olhou para os outros com uma expressão séria, antes de decidir agir.

"Eu... não vou deixar você partir assim." Ele se concentrou e, com um movimento preciso, começou a canalizar sua energia divina através de suas mãos. Uma luz suave emana de sua palma, iluminando a escuridão ao redor deles enquanto ele invocava um efeito de cura. A energia divina envolvia Ludus, penetrando em sua pele e através dos tecidos, tentando restaurar-lhe a vitalidade. Mas o silêncio que se seguiu parecia interminável, e o ar estava carregado de tensão. O grupo aguardava, paralisado, esperando por uma resposta.

Finalmente, Ludus deu um leve suspiro, e então, com um movimento brusco, ele tossiu. O sangue escorreu de sua boca, e seus olhos se abriram, desorientados. Ele olhou ao redor com um sorriso torto, ainda atordoado. "Pelos Deuses..." ele começou, sua voz rouca e fraca. "Eu vi minha vida toda passando pelos meus olhos... Eu quase esqueci que tinha deixado minhas roupas no varal."

Asher riu aliviado, e até Guldaim não conseguiu segurar uma risada abafada. "Essa foi por pouco, bufão!" disse Guldaim com uma risada nervosa, ainda tentando processar o quanto estavam perto de perder o amigo.

Mor'Rein, observando o estado de Ludus, olhou para Calobri, ainda caído e imóvel. Ele franziu a testa, a preocupação evidente em sua voz. "Eles... sugaram toda a energia vital dele. Ele vai precisar de um descanso de semanas para se recuperar..."

"Vamos, temos que tirá-lo daqui," disse Asher, ajudando Ludus a se levantar com a força de um irmão. "Mas a verdadeira luta será o que vem depois. A recuperação dele vai ser longa."

Impetor, ainda com os ombros tensos e os olhos observando a imensidão das montanhas, fez uma pausa antes de se virar para o grupo, com um sorriso maroto. "Só uma perguntinha... Como vocês pretendem descer daqui?" Ele olhou para as escarpas íngremes da montanha, onde a única visão que se via era um abismo gelado que parecia engolir qualquer esperança de uma descida fácil.

O vento cortava as montanhas com força, e Mor'Rein, com um olhar atento, fixou os olhos no horizonte. As suas feições se suavizaram por um momento, mas então ele franziu a testa. 

No horizonte, pequenas silhuetas começaram a tomar forma contra o brilho do sol poente. Eles estavam vindo em direção a eles com rapidez, e à medida que se aproximavam, os heróis podiam distinguir mais detalhes. Mor'Rein, com sua visão aguçada, foi o primeiro a perceber.

"Eu acho..." ele murmurou. "... Que eu tenho uma leve suspeita."

Mor'Rein observou com atenção enquanto as figuras no horizonte ganhavam mais forma. As silhuetas se tornaram grandiosas, as sombras dançando sobre as colinas com um movimento majestoso. De repente, os detalhes ficaram claros: eram cavaleiros montados em poderosas criaturas aladas, suas asas batendo com a força do vento que as montanhas não podiam conter. Grifos, criaturas míticas de penas douradas e garras afiadas, cortavam o ar com uma destreza impecável. Seus olhos cintilavam com uma inteligência feroz e selvagem, enquanto suas asas se estendiam para alcançar grandes altitudes.

Os Harpistas, membros de uma organização secreta e habilidosa, estavam agora sobre eles. Seus mantos flutuavam nas correntes de ar, e o som de suas asas parecia o ruído de uma tempestade iminente. Os grifos, poderosos e imponentes, desceram com uma precisão impressionante, suas garras firmemente se prendendo ao solo rochoso. A distância que os separava dos heróis parecia ter desaparecido rapidamente, e logo os montadores estavam diante deles.

Marwa Pessegueiro.
"Vamos," disse o líder entre aqueles Harpistas, uma mulher com uma capa esvoaçante e uma cicatriz visível ao longo da mandíbula. "A viagem será curta, mas o tempo não está ao nosso favor. Subam, todos vocês."

Com uma leveza incomum, os heróis subiram nos grifos. Ludus, ainda com a expressão pálida e a dor pulsando em seu peito, foi ajudado a montar com cuidado. Asher se ajeitou rapidamente em um grifo, ajustando atrás da cavaleira. Impetor, com sua postura firme, ficou ao lado de Mor'Rein, e Guldaim parecia estar se acostumando à ideia de voar nas alturas, com um misto de espanto e excitação. Eles subiram todos juntos, voando para longe das montanhas Stormhorns, sentindo a sensação de liberdade que só o vento nas alturas poderia proporcionar.

Os grifos subiram rapidamente, cortando as correntes de ar frio e gélido. O cenário abaixo deles parecia diminuir com cada batida de asas, as montanhas e os vales se esticando como um enorme tapete. À medida que subiam, a paisagem ficava cada vez mais distante, e logo as tempestades que se formavam nas montanhas pareciam uma lembrança distante.

Enquanto o vento cortava seus rostos, Mor'Rein olhou para trás, para a linha de montanhas que haviam deixado para trás. Ele murmurou em voz baixa, mais para si mesmo do que para os outros. "Que outros demônios vocês possuem?"

E assim, com o som das poderosas asas batendo no ar e a sensação de voo nas alturas, os heróis se afastaram das Stormhorns. Eles estavam sendo levados para longe, guiados pela força dos grifos e pela direção de seus aliados Harpistas. O vento e as nuvens carregavam com elas a promessa de novas aventuras e desafios, mas, por enquanto, tudo o que eles tinham era o vasto céu à sua frente.

Episódio 14 - Justa em Suzail.

Data: 3 de Nightal, 12h
Local:  Proximidades de Suzail, Cormyr, Faêrun.

A vastidão dos céus de Faêrun se abria como um oceano etéreo sobre os heróis, que voavam a bordo de grifos imponentes e ferozes, cortando as nuvens como relâmpagos. Escoltados pela elite dos Harpistas dos Ares, os "Ases de Horusk", seus montadores e suas montarias formavam uma sinfonia de asas, vento e velocidade. Cada grifo era majestoso, com asas de penas robustas e garras afiadas como lâminas, os olhos focados e atentos ao menor sinal de perigo no horizonte.

Ludus, sentado no dorso de uma dessas criaturas, observava com admiração e um pouco de receio a força e a natureza selvagem da montaria sob seu comando. Ele sentia cada batida das asas reverberar pelo corpo, uma experiência ao mesmo tempo avassaladora e fascinante. Mas foi então que, sem aviso, o grifo que ele montava fez um mergulho repentino, despencando em direção ao solo com precisão letal. Ludus se agarrou instintivamente às costas do cavaleiro, os olhos arregalados.

"Pelo amor de Tymora! Para onde vamos, meu amigo?" exclamou ele, enquanto o grifo avançava em direção a um pasto.

A criatura investiu direto para o rebanho, estendendo suas garras como foices até capturar um cavalo solitário. Com um movimento ágil e mortal, ergueu o animal indefeso e o levou de volta aos céus, despedaçando-o com o bico enquanto voava. Ludus olhou com uma mistura de repulsa e fascinação, murmurando com ironia enquanto o sangue salpicava o ar ao seu redor.

"Bem… parece que o almoço já está servido," ele sussurrou para si mesmo, estremecendo.

Mais adiante, Asher, montado em um grifo guiado por Marwa, a líder dos Ases de Horusk. Com uma capa esvoaçante e uma cicatriz proeminente que cortava sua mandíbula, Marwa mantinha-se rígida e concentrada, guiando seus grifos com precisão militar. Asher chamou sua atenção com um aceno rápido.

"Marwa, pensei que estávamos voltando para Arabel. Por que a mudança de rota?" perguntou ele, lançando um olhar ao horizonte que se abria em direção à capital, Suzail.

Marwa virou o rosto na direção de Asher, sua expressão inabalável. Ela o analisou por um instante antes de responder.

"Arabel está fora de questão por enquanto," respondeu ela, a voz dura como pedra. "Estamos levando vocês para um refúgio harpista – um forte antigo nas proximidades de Suzail. Essa base foi abandonada há décadas e é um local seguro, fora dos olhares indesejados. Precisamos de discrição."

Asher assentiu, mas não escondeu a surpresa em seu rosto. Marwa, notando o questionamento em seu olhar, continuou.

"Suzail será o próximo palco da nossa missão," ela disse, os olhos fixos no horizonte. "A presença de vocês não passará despercebida, e é melhor que estejam preparados."

A comitiva de grifos avançou, e, ao longe, as torres de Suzail começaram a se erguer contra o céu claro, imponentes e silenciosas. Com os corações inquietos, os heróis pressentiam que algo grandioso os aguardava na capital.

Os grifos pousaram em formação diante de um imponente forte antigo, suas muralhas cobertas por musgo e suas torres projetando sombras sobre o pátio de pedra. Este refúgio dos Harpistas, um baluarte isolado e esquecido aos olhos de Faêrun, agora era revitalizado como um posto estratégico para os “Ases de Horusk” e sua missão. A arquitetura mostrava sinais de batalhas antigas, com pedras desgastadas e algumas partes reparadas de forma rudimentar, mas sua estrutura ainda era robusta e austera.

Do alto da entrada, Horusk, o líder dos Harpistas dos Ares, já aguardava os heróis com um semblante sério e um grupo de curadores a postos. Assim que os grifos tocaram o solo, os curadores se aproximaram rapidamente, focados em Calobri, que jazia inconsciente. Com precisão, levantaram o herói desfalecido e o carregaram em uma maca improvisada, apressando-se para levá-lo à enfermaria do forte.

Enquanto Ludus, ainda se recuperando de seus próprios ferimentos, observava a movimentação com um sorriso cansado e irônico, soltou um comentário sarcástico, ignorado por todos que passavam apressados:
"Ah, não que isso... Eu tô bem. Esse buraco aqui? Só um arranhão!"

Horusk desceu a escadaria de pedra e se aproximou do grupo, olhando cada um deles com um misto de respeito e satisfação. Ao chegar a Guldaim, o líder Harpista estendeu a mão e apertou a do anão com firmeza.

"Fico feliz que tenha engolido o orgulho e nos convocado, mestre anão," disse Horusk, com um leve sorriso de aprovação.

Guldaim assentiu, o rosto sério, mas os olhos refletindo uma determinação implacável. "Para salvar Calobri, meu orgulho foi o menor dos sacrifícios."

Horusk, admirado com a resposta, fez um gesto para os Ases de Horusk. "Patrulhem o perímetro! Os Zentharim provaram o amargo da derrota, mas eles não deixarão esse desfecho impune. Fiquem atentos.”

Com um sinal severo, voltou-se aos heróis, o tom de voz ressoando como um chamado à ordem.
“Vocês precisam descansar. Há outra missão no horizonte, e precisarei de cada um em plena força. Me acompanhem!”

Guiados por Horusk, os heróis adentraram o forte, a promessa de um breve repouso e novos desafios iluminando seus pensamentos enquanto seguiam pelas passagens estreitas e sombrias da fortaleza, em direção a uma batalha que não poderiam ainda vislumbrar, mas já começavam a sentir.

Dentro das paredes do forte, os heróis aproveitavam um momento raro de descanso e recuperação. Cada um, a seu modo, buscava forças após a intensa missão, e o ambiente tomava um ar de tranquilidade. A luz que entrava pelas janelas altas era suave, filtrada pelas pedras desgastadas, criando um ambiente quase místico nas profundezas da fortaleza.

Mor'Rein, afastado em um canto tranquilo, estava sentado com as pernas cruzadas, em profunda meditação. Seu familiar - uma criatura bizarra, com tentáculos retorcidos, asas de morcego e uma dezena de olhos inumanamente atentos - o observava silencioso. Inspirando profundamente, Mor'Rein estendeu o braço e segurou seu cajado Bullywug, deixando sua mente vagar em busca de uma conexão mais profunda. Lentamente, ele ouviu, como um sussurro no fundo de sua consciência, uma palavra antiga: "Kooruru."

Ao murmurar a palavra em voz baixa, Mor'Rein bateu o cajado no chão. Num instante, o cajado rígido começou a transmutar-se. A madeira se expandiu, criando um formato orgânico, até que, em um piscar de olhos, transformou-se em um sapo gigante. Mor'Rein sorriu, os olhos brilhando, enquanto estendia a mão para fazer um carinho afetuoso no topo da cabeça do novo companheiro.

No outro lado do forte, Dahaka estava na enfermaria, sentado ao lado do leito onde Ludus descansava, ainda mais gravemente ferido que o restante do grupo. Tentando distrair-se da dor, Ludus sugeriu uma partida de cartas, e os dois rapidamente se embrenharam em uma competição marcada pela trapaça e o riso contido. Ludus, com seu jeito teatral, tentou distrair Dahaka com uma expressão de surpresa. “O que é aquilo ali?!” exclamou, apontando para o lado oposto da sala.

Aproveitando a chance, ele começou a trocar rapidamente as cartas de sua mão, mas, ao voltar a atenção, percebeu que Dahaka também tinha feito uma jogada esperta. Fingindo cair no truque de Ludus, Dahaka disfarçadamente usara sua cauda para esconder algumas cartas extras que agora lhe davam uma vantagem. Quando Ludus se deu conta, ambos trocaram um olhar cúmplice e riram, aceitando que a trapaça era parte natural daquele jogo entre amigos.

Impetor aproximou-se do leito onde Calobri estava sob os cuidados dos curadores, e notou Guldaim ao lado do companheiro caído. O meio-dragão ficou ao lado do anão em silêncio por alguns instantes, contemplando a figura de Calobri em repouso. Depois de um tempo, ele falou, a voz baixa e contemplativa:

“Se me permite perguntar, Anão… Por que você e Calobri deixaram os Harpistas? Qual foi o ponto de ruptura para vocês?”

O anão permaneceu em silêncio por um tempo, antes de soltar um leve suspiro. “Às vezes, meu amigo escamado, uma organização pode se perder nas próprias engrenagens. Os Harpistas se dizem defensores do bem maior, mas, em meio a toda a burocracia, os pequenos atos de coragem vão se apagando. Os deveres se transformam em ordens, e os propósitos, em dogmas. Quando se perde o contato com quem se quer proteger, o trabalho se torna oco.” Ele balançou a cabeça. “Calobri e eu deixamos porque decidimos que a quem juramos proteger era mais importante do que qualquer bandeira ou causa maior.”

Impetor assentiu, compreendendo mais do que imaginava. Os dois compartilharam um olhar respeitoso, entendendo que, naquele momento, o compromisso entre eles era mais profundo que o de qualquer organização.

Por fim, Asher caminhava sozinho pelos corredores de pedra do forte. Cada passo o fazia relembrar um passado distante, quase como se os ecos de suas memórias ainda habitassem aquelas paredes. Ele passava os dedos pelas paredes frias e observava as curvas dos corredores, os detalhes esquecidos de uma vida que ele sentia já ter conhecido em algum momento. Em seu rosto, uma expressão entre a nostalgia e o mistério revelava que algo mais profundo o conectava àquele lugar.

Ele andava pelos corredores com uma sensação cada vez mais familiar e perturbadora. A arquitetura do forte ressoava com algo profundo, quase inconsciente, em sua memória. Eram traços que ele já tinha lido em livros velhos e pergaminhos do acervo de seu tutor, El-Khadim. Aquelas colunas de pedra robusta, os desenhos gravados nas vigas, tudo era conhecido, e ao mesmo tempo impossível. Ele hesitava em acreditar, um bloqueio instintivo o impedia de conectar o passado ao presente. Mas algo dentro dele, uma fagulha de determinação, o fazia seguir adiante, até que seus olhos se detiveram em uma parede grande e parcialmente coberta por um tecido envelhecido e empoeirado.

Por um momento, Asher apenas encarou o pano, como se ao retirá-lo pudesse trazer à tona um segredo que preferiria não descobrir. Finalmente, respirando fundo, ele ergueu o braço e puxou o pano.

Diante dele, esculpido na pedra fria e cinzenta, estava o brasão da família Greymane. Aquele símbolo antigo e solene estava ali, inconfundível. A face de um lobo feroz, com olhos penetrantes e presas à mostra, cercado por intricados arabescos que simbolizam força e linhagem ancestral. Um arrepio percorreu sua espinha. Por que estaria ali, perdido em um forte de Cormyr? Incontáveis perguntas começaram a girar em sua mente, e ele mal notou quando uma voz familiar o trouxe de volta à realidade.

"Sabia que mais cedo ou mais tarde você perceberia," disse Horusk, surgindo atrás de Asher, seu tom amistoso, mas com um peso de quem guarda verdades ocultas.

Asher se virou, ainda abalado, e perguntou, tentando controlar a emoção na voz. "Como isso é possível? Um forte dos Greymane... em Cormyr?"

Horusk esboçou um leve sorriso e cruzou os braços, como se preparasse para dar uma aula de história. “Você, Asher, herdou um nome com mais ramificações do que imagina. Há cerca de cem anos, Bathos Greymane, um de seus ancestrais, veio a Cormyr após uma campanha contra um antigo lorde vampiro. Naquela batalha, ele foi auxiliado por Sir Ethan Von Braum, um cavaleiro implacável de Suzail. Juntos, conseguiram derrotar o vampiro, e Bathos recebeu a honraria de um refúgio aqui, um presente de gratidão do cavaleiro Von Braum.”

Asher ouvia em silêncio, processando cada detalhe. Durante anos, ele estudou tudo o que conseguira encontrar sobre a história da sua linhagem, mas o nome de Bathos jamais aparecera em qualquer pergaminho ou crônica. “Mas… como eu nunca soube disso? Eu li sobre cada Greymane. Nunca encontrei nem uma menção sobre Bathos.”

Horusk hesitou, um lampejo de indecisão em seus olhos, mas logo suspirou, ciente de que Asher merecia a verdade. “Há razões para isso, Asher. Antes de sua luta final contra o vampiro, Bathos havia sido expulso da ordem Greymane. Ele quebrou seus votos, e sua família jamais perdoou essa desonra. Riscaram seu nome dos registros, e sua memória foi banida. Por isso, Bathos viveu em reclusão até o fim de seus dias, aqui em Cormyr, longe das terras onde seu nome Greymane havia perdido qualquer honra.”

Asher encarou Horusk, o olhar perdido em um misto de choque e compreensão. Sabia que aquela revelação mudaria sua visão sobre a própria linhagem, sobre o que significava ser um Greymane. As paredes frias do forte, até então apenas pedra e poeira, agora pareciam carregadas de uma história pessoal que ele mal começava a desvendar.

Horusk abaixou a cabeça levemente, como se carregasse um peso por se apropriar daquele espaço esquecido. "Lamento por usarmos o forte, Asher... Se preferir, posso ordenar que os harpistas se retirem e busquem outra base."

Asher balançou a cabeça, um olhar distante em seus olhos, absorvendo o brasão e as histórias há muito enterradas sob o pó das gerações. "Não há necessidade, Horusk. Este forte já não é nada além de pedra e poeira. E, pelo visto, não é como se houvesse muita honra na memória dos Greymane para que eu precise defender."

Horusk o observou por um momento, captando o tom pesado na voz de Asher, e assentiu com uma gravidade respeitosa. "Essas câmaras pertencem a você, Asher. São um legado, quer ele esteja nos registros ou não. Que elas revelem o que ainda resta de sua família."

Com um aceno discreto, Horusk se virou, deixando Asher sozinho diante do brasão da família, cercado pelo silêncio pesado de um passado redescoberto.

Ludus, finalmente de pé e aparentemente recuperado, vagueia pelos corredores do Forte. Mais a frente ele avista o grupo de Cavaleiros de Grifo, rapidamente o bufão ajeita as roupas com um certo ar de despreocupação. Ele caminha até um dos cavaleiros dos ares, um ser élfico andrógino de expressão serena e olhos penetrantes. 

Ludus observa o elfo por um instante, intrigado pela aura enigmática e graciosa da figura. O cavaleiro andrógino tem um porte esguio, ombros finos e postura quase etérea, com uma pele pálida que reflete a luz das tochas de maneira suave, acentuando um brilho misterioso. Seus cabelos prateados caem levemente sobre os ombros, e os olhos de um verde translúcido cintilam com uma inteligência afiada e um toque de provocação. Não há detalhes em sua aparência que o entreguem como homem ou mulher, e isso só aumenta o fascínio de Ludus, que sempre apreciou o inesperado.

"Você deve ser Ludus, o famoso bufão," a voz do elfo desliza para fora, carregada de uma suavidade sedutora. "Ouvi dizer que seus talentos vão muito além dos palcos."

Ludus sorri, nunca perdendo uma oportunidade para um flerte. "Ah, vejo que minha fama me precede. Mas e quanto a você? Um cavaleiro dos ares, certo? Como devo chamar esse rosto belo e misterioso?"

Aeliryn.
O elfo inclina a cabeça, um sorriso surgindo nos lábios finos. "Meu nome é Aeliryn," responde, quase em um sussurro.

Ludus ri suavemente, já envolvido pelo mistério de Aeliryn. "Aeliryn… um nome que combina perfeitamente com seu encanto enigmático. Mas diga-me, você sempre deixa os admiradores em dúvida?"

"Em dúvida?" Responde o Elfo, arqueando uma das sombrancelhas.

"Sinto ter que ser rude.. Mas não sei ao certo se estou me dirigindo a um..." Ludus se prepara para esclarecer seu conflito interno. Mas é interrompido por Aerilyn com os olhos verdes faiscando. "Talvez eu goste de testar as certezas das pessoas. Nem tudo precisa ser resolvido, meu caro bardo. Às vezes, o melhor mistério é aquele que escolhemos nunca desvendar."

Ludus dá um passo mais próximo, atraído pela confiança tranquila de Aeliryn. Ele estende a mão, apenas roçando os dedos no antebraço do elfo, observando a reação. "Então, que tal explorar esse mistério… juntos?"

Aeliryn não recua, e um leve sorriso atravessa seu rosto. "E o que você tinha em mente?"

Com essa provocação, Ludus sente o calor subir e, sem hesitar, puxa Aeliryn gentilmente pela cintura, selando o flerte com um beijo inesperado, mas bem-vindo. A resposta é imediata, e ambos se deixam levar, as palavras dissolvendo-se em sorrisos e suspiros. Ele guia Aeliryn para dentro da pequena sala de materiais, onde, entre vassouras e baldes esquecidos, o clima esquenta. Mãos se entrelaçam, explorando o desconhecido, e o som de risadas abafadas e sussurros enche o espaço confinado.

Momentos depois, ambos emergem do quartinho, Aeliryn ajeitando a gola de sua túnica, um leve sorriso de satisfação no rosto. Ludus, por sua vez, sai com a roupa desalinhada, alguns fios de cabelo fora do lugar e um brilho nos olhos, como quem viveu mais uma de suas aventuras pessoais.

Enquanto isso, Asher passeia pelos corredores, refletindo sobre as revelações da noite anterior. Quando passa pela sala de materiais, um murmúrio abafado atrai sua atenção. Erguendo uma sobrancelha, ele lança um olhar na direção do barulho, mas decide deixar o momento em paz, apenas aguardando, encostado à parede. Pouco depois, Ludus sai da saleta, o rosto corado, com arranhões nos braços e um sorriso autossatisfeito, ajeitando a gola com uma leve expressão de exaustão. Ao se deparar com Asher, ele solta uma risada e comenta:

"Ah, as dores do ofício, meu amigo. Alguns heróis enfrentam dragões; eu, bem… lido com aventuras mais pessoais."

Asher o encara com uma expressão indiferente e, com um aceno breve, apenas diz: "Aproveite o descanso, Ludus. Vamos precisar de você inteiro para a próxima missão."

Por trás de Ludus, o cavaleiro élfico surge derrubando uma vassoura em seu caminho, um pouco corado e ajeitando as roupas, mas sem perder o ar misterioso. Ludus, sempre teatral, faz uma reverência exagerada e declara: "Como exige o capitão, descanso terei!"

Assim que Ludus e o cavaleiro se afastam, Asher entra na sala de vassouras, com a intenção de dar uma arrumada na zona dos pombinhos. Mas, enquanto afasta algumas vassouras e baldes, seus olhos captam algo curioso no chão: um símbolo esculpido em pedra, meio coberto por poeira. Ele se aproxima, seu coração acelerando. “Será possível?” Ele murmura, reconhecendo o símbolo descrito nos velhos manuscritos de El-Khadim.

Empurrando tudo para o lado de fora, Asher revela a forma completa no chão – um círculo com cinco símbolos de lobo, quatro nas extremidades e um central, ligeiramente desgastado. Com o cuidado de um arqueólogo, ele se recorda da sequência: pressionar os lobos das pontas, depois inserir a lâmina no lobo central.

Asher toma uma respiração profunda, concentra-se, e faz exatamente isso. Primeiro, pressiona as extremidades uma a uma. Em seguida, enfia a ponta de sua espada no símbolo central, encaixando-a na fenda estreita e girando-a como uma chave. O som surdo do mecanismo sendo acionado ecoa, e o chão começa a tremer ligeiramente. As pedras se movem para baixo, revelando uma escadaria que desce até as profundezas do forte, abrindo um caminho secreto para o subterrâneo.

O chão de pedra se afasta com um ranger antigo e quase reverente, revelando uma escadaria sinuosa que desce até o âmago do forte. A abertura libera uma corrente de ar pesado e úmido, impregnado com o odor acre de pedra, poeira e tempo esquecido. Asher observa a passagem com olhos atentos, sentindo a vibração de algo oculto e profundo. Ele desce os primeiros degraus, e o som de seus passos ecoa nas paredes estreitas, revelando um espaço selado, isolado, mas cuidadosamente preservado.

À medida que desce, o corredor desemboca em uma ampla câmara oculta, construída com paredes de pedra bruta e sustentada por pilares, onde pequenas inscrições arcanas mal são visíveis, quase apagadas pela passagem dos séculos. O ambiente é iluminado apenas pela luz trêmula de sua tocha, que revela estantes repletas de livros antigos, alinhadas ao longo das paredes e cheias de pergaminhos amarelados. Em uma mesa central de madeira maciça, repousam artefatos, manuscritos detalhando antigos ritos e conquistas e relíquias de batalhas passadas. Espadas, elmos e pequenos troféus de campanha jazem ali, cobertos por uma camada de poeira.

Mas, ao avançar, Asher percebe algo além das conquistas materiais e dos tesouros de conhecimento. Em um canto da câmara, coberta por teias de aranha e impregnada de uma escuridão quase palpável, repousa uma arma solitária. É uma espada longa, com uma lâmina marcada por sinais de desgaste, mas ainda resplandecendo com um brilho vermelho-escuro. Gravada com runas desgastadas pelo tempo, sua empunhadura tem a forma de asas de morcego que se abrem para a lâmina afiada. Mesmo sob a poeira, ela exala uma energia poderosa e sombrancelha, como um aviso silencioso. Asher se aproxima e, quase involuntariamente, toca o cabo frio da espada.

É então que a memória de Bathos Greymane, seu ancestral, começa a ressoar nele. Ele conhece a história: Bathos fora um paladino de grande honra, mas sua queda fora brutal e violenta. No auge de seu orgulho, o ancestral desonrara seu juramento, transformando-se em um algoz marcado pela dor, movido pelo egoísmo e pela sede de vingança. Aquele fora o período mais sombrio de sua vida, quando Bathos mergulhara numa cruzada devastadora, pilhando e aniquilando sem misericórdia, acumulando as almas daqueles que se opunham a ele. Sua redenção veio tarde demais, na forma de uma última missão em que derrotara o Lorde Vampiro Strahd Von Zarovich, se entregando por inteiro para vencer o poderoso inimigo. Mas sua espada, a Perdição de Bathos, absorvera tanta dor e ódio que continuava a carregar o peso de suas transgressões, respondendo apenas àqueles que agiam em retaliação ou vingança.

Ao tocar a espada, Asher sente uma onda de poder frio e arrebatador percorrer seu corpo, uma sensação que mistura adrenalina e uma raiva quase sufocante. Em sua mente, a imagem de seu clã massacrado, a queda da linhagem Greymane pelas mãos de Godfrey, emerge com nitidez. Ele mal percebe quando aperta mais o cabo da arma, que parece pulsar com um chamado mudo, uma promessa de retaliação e de justiça sangrenta. É como se, naquele instante, a necessidade de vingar o clã não fosse apenas um dever, mas uma necessidade, uma voz irrefreável que sussurra de dentro da lâmina, despertando cada célula de seu ser.

Asher ouve o eco de um grito distante, talvez de uma alma aprisionada na espada ou de uma lembrança perdida de Bathos. Ele sente uma conexão com seu ancestral, um homem que enfrentou a própria queda, mas que reencontrou a fé em um momento derradeiro. A espada, porém, não concede redenção; ela exige sacrifícios e a cada pulsar, intensifica o desejo de Asher por vingança. Seus dedos se apertam ao redor do cabo, e ele sente a presença das almas confinadas ali, esperando, desejando que sua fúria seja canalizada, mais uma vez, contra aqueles que profanaram seu nome e o legado Greymane.

Asher se mantém ali por um longo momento, ainda com a mão firme no cabo da espada. A Perdição de Bathos parece reverberar em seu braço, quase como se a lâmina pulsasse ao compasso de seu coração. Lentamente, ele retira a mão, mas a presença da espada permanece, pairando em sua mente como um fantasma ardente. O ar da câmara está pesado, e ele percebe que o caminho que seu ancestral traçou ali está repleto de conhecimentos esquecidos, escondidos dos olhos comuns e, talvez, destinado apenas àqueles de sangue Greymane.

Movido por uma curiosidade quase febril, Asher começa a vasculhar os livros e pergaminhos nas prateleiras poeirentas. Os títulos são enigmáticos, escritos em línguas antigas e arcanações sombrias. Ele desliza os dedos por lombadas desgastadas e abre cuidadosamente um tomo encadernado em couro que carrega o título "Sobre as Bestas da Noite." Em suas páginas amareladas, ele encontra relatos detalhados dos mortos-vivos enfrentados por Bathos em sua insana cruzada através dos domínios de Strahd Von Zarovich.

O primeiro capítulo descreve os wights, soldados mortos-vivos de olhar vazio, movidos apenas pelo desejo de consumir a força vital dos vivos. Asher lê, fascinado, sobre os métodos que Bathos usava para derrotar essas criaturas: estacas envenenadas, lâminas abençoadas em sangue celestial, e a força da própria Perdição, que parecia arder mais intensamente contra criaturas atormentadas. As descrições são vívidas, pintando a imagem de batalhas noturnas em campos de ruínas, onde Bathos enfrentava hordas de mortos-vivos, seus olhos brilhando de fúria sob a luz vermelha de sua espada amaldiçoada.

Ele folheia para o próximo capítulo, onde Bathos descreve os vampiros mais jovens que serviam Strahd, criaturas que perseguiam e torturavam vilarejos, drenando o sangue de suas vítimas. Numa das páginas, há um desenho sombrio de um vampiro caído, seu rosto contorcido em ódio, e ao lado, as instruções detalhadas de como Bathos usava orações de penitência, marcadas com símbolos de tormento, para subjugar esses seres. Asher quase consegue ouvir o som de orações perdidas, sussurradas no calor da batalha, enquanto lê as palavras rabiscadas com precisão fria.

À medida que a noite avança, Asher continua sua exploração, absorvendo cada detalhe com uma atenção quase reverente. Em uma prateleira próxima, encontra um pequeno caderno de capa rígida que Bathos usara como diário. Ele abre a primeira página e lê a caligrafia firme, mas irregular: "Para aqueles que buscam a redenção, que o sangue dos inocentes manchando minha espada seja o lembrete de minhas falhas." A anotação traz uma sombra de melancolia ao ambiente, e Asher sente a intensidade das palavras — como se Bathos, mesmo em sua busca por redenção, nunca deixasse de carregar o peso de suas ações.

Conforme Asher se aprofunda nos escritos, ele percebe que Bathos enfrentou terrores indescritíveis: ghouls que emergiam da terra com cheiro de podridão, banshees cujo lamento ameaçava despedaçar a sanidade de qualquer um que as ouvisse, e até espectros que surgiam como sombras negras, presos em uma existência de eterno tormento. Cada descrição é acompanhada por instruções de combate específicas — como manter a calma diante do grito de uma banshee ou como enfraquecer espectros antes de abatê-los.

O tempo passa sem que Asher perceba, imerso naquele mundo de histórias sombrias, conhecimento sobre horrores ancestrais, e fragmentos de sua própria linhagem. A câmara parece se tornar uma extensão de sua mente, onde ecos do passado ressoam em cada esquina. 

Finalmente, seus olhos pesados pela leitura e o peso emocional daquelas memórias, Asher ergue-se e olha ao redor da câmara. As estantes de livros, as armas, os registros... tudo ali parecia contar uma história de redenção e sacrifício, mas também de uma raiva incontida, uma ânsia de justiça que Asher sentia ressoar dentro de si. Ele percebe que não só herdou a maldição do nome Greymane, mas também a responsabilidade de continuar aquela luta — não pela glória, mas por um propósito maior. E em seu íntimo, ele sabe que a Perdição de Bathos aguardava, pronta para ser empunhada novamente.

O sol nascente atravessava as frestas das janelas altas, inundando a sala de reuniões dos Harpistas com uma luz dourada. Os heróis já estavam reunidos em torno da mesa de madeira robusta, com exceção de Asher, cuja ausência começava a chamar atenção. Dahaka estalava os dedos, inquieto, enquanto Impetor mantinha uma postura rígida, mas alertamente silenciosa. Mor'Rein, perdido em seus pensamentos, observava o seu bastão-sapo. Ludus estava encostado de maneira displicente na parede, cantarolando baixinho uma melodia de taberna enquanto observava os companheiros.

Finalmente, a porta rangeu, e Asher entrou. As olheiras fundas sob seus olhos e os ombros levemente curvados denunciavam a noite em claro. Ludus arqueou uma sobrancelha, o sorriso travesso dançando em seus lábios. “Pelo visto alguém não ouviu os próprios conselhos sobre descansar, não é?” disse ele com um tom de falso desdém, rindo baixo.

Asher apenas lançou-lhe um olhar fatigado, mas com um leve sorriso. “Digamos que os arquivos de Bathos não eram exatamente uma leitura leve…”

Antes que qualquer um pudesse responder, as portas duplas foram empurradas, e um gnomo de estatura pequena mas presença imponente atravessou o limiar. Horusk usava um manto pesado que arrastava levemente pelo chão, e seu olhar, sempre atento, iluminou-se ao ver o grupo reunido.

"Bem, bem… estou satisfeito em ver que todos conseguiram chegar..." ele começou, dirigindo um olhar especialmente cuidadoso a Asher. "Espero que tenham se recuperado o suficiente para ouvir o que precisamos discutir sobre o próximo destino de vocês."

"E qual seria esse?" Perguntou Dahaka, impaciente.

Horusk não tomou nem um segundo para responder de forma seca:"Suzail."

O grupo trocou olhares breves, lembranças nada agradáveis de Suzail surgindo em suas mentes. A cidade, que antes parecia um porto seguro, transformou-se numa armadilha mortal, com Haroldo Benthor manipulando-os nas sombras. A traição do conselheiro ainda doía, mas nenhum deles queria verbalizar a indignação que sentiam.

Horusk, atento a cada pequena expressão, continuou. "Precisamos retornar a Suzail. Ao que tudo indica, Benthor está organizando um grande torneio de justa na cidade para selecionar o novo Capitão da Guarda."

Dahaka soltou um suspiro seco, cruzando os braços com desconfiança. "Um torneio de justa? Em meio a esse caos necromante pelo reino? Parece uma desculpa conveniente para ele reunir figuras poderosas e manter as coisas sob controle… do jeito dele."

O gnomo assentiu, sombrio. "Exato. Meu contato de longa data, o Capitão Emorgo, era uma figura de confiança dentro dos muros. Mas temo que ele tenha sido forçado a fugir… ou que tenha encontrado um destino ainda pior."

Impetor fechou os punhos com força, seus olhos brilhando com uma fúria contida. “Esse maldito conselheiro… A essa altura já deve ter convertido a cidade em um ninho de víboras."

Mor'Rein, emergindo na conversa, falou com seu costumeiro tom calmo "Estaremos jogando do lado oposto do tabuleiro, invadindo o jogo do inimigo...”

“Pois não seremos peões,” Ludus comentou com um sorriso irônico, observando os outros. “Seremos, no máximo, cavalos, e olhe lá! Pensando bem, já que é uma justa isso pode até nos da ruma vantagem, né?” Ele riu, mas a expressão de seus companheiros permaneceu sombria, e Ludus se calou, entendendo a gravidade.

Horusk puxou um pergaminho enrolado de dentro de seu manto e o desenrolou sobre a mesa, apontando para o centro da cidade desenhado no mapa. “O torneio, ao que parece, será apenas a fachada. Benthor enviou convites a boa parte das famílias e organizações de influência. Minha suspeita é que ele está tentando consolidar o poder e afastar qualquer ameaça ao seu controle — como nós.”

Asher, ainda exausto, inclinou-se sobre o mapa, o olhar afiado. “Então nossa missão é simples: entrar, observar… e, quem sabe, descobrir quem realmente está por trás da cortina. Mas como vamos nos infiltrar sem sermos reconhecidos?”

“Um dos prêmios do torneio é uma chance de se tornar o novo Capitão,” Horusk disse, levantando as sobrancelhas com uma expressão significativa. “Benthor quer rostos novos e diferentes e a essa altura os rostos de vocês estão espalhadas por todas as principais cidades de Cormyr, precissaram de...”

"Disfarces!" Ludus falou com uma empolgação genuina e um brilho ardente nos seus ohos hetercromáticos.

A sala de preparação dos Harpistas se encheu de risadas contidas e olhares confusos enquanto Ludus, com um brilho maníaco nos olhos, colocava seu plano de disfarces em prática. Com uma sacola de trapos, tintas e acessórios em mãos, ele parecia mais um artista em êxtase do que um bardo tentando garantir a segurança do grupo.

Primeiro, ele começou com Impetor. Ludus aplicou uma peruca loira e ondulada na cabeça do draconato, que bufava impacientemente enquanto o bardo enfeitava seu rosto com um bigode fino e falso, mal colado. "Perfeito! Agora, ninguém acreditaria que você é um meio-dragão," disse Ludus, tentando esconder o riso. Impetor lançou-lhe um olhar de desdém, mas Ludus apenas piscou, terminando com uma capa marrom puída que cobria as escamas reluzente. "Agora você é… um humilde segurança real. Olhe para você, pronto para a vida simples!"

A próxima vítima foi Dahaka, o ladino de olhos atentos. Ludus prendeu óculos redondos, ligeiramente tortos, no rosto dele e prendeu uma cartola que parecia ter visto dias melhores. “Você será… hmm, ‘Mestre Sandhurst’, um bibliotecário aposentado de Arabel que agora dedica sua vida a lecionar para as mentes da corte,” anunciou, com um tom teatral. Ele afivelou um cinto com várias bolsas, que não combinavam em nada com o resto do traje. "Ah, e não se esqueça de andar mancando — vai dar um toque de autenticidade."

Dahaka resmungou, ajeitando a cartola. “Eu vou fazer você mancar palhaço,” murmurou, enquanto os outros riam.

Então veio a vez de Asher, que foi um dos disfarces mais simples, porém o mais pomposo. Ludus pegou uma túnica azul profundo, cheia de detalhes dourados, e a prendeu nos ombros de Asher. Em suas mãos, uma bengala ornada completava o visual de um nobre austero, mas despretensioso. Amarrou os cabelos castanhos do paladino em um rabo de cavalo e anunciou “Eis que surge Lorde Jepperd von Schaultz, um nobre misterioso do norte,” disse Ludus com uma reverência falsa e exagerada. "Não se esqueça da expressão de desdém… Ah, perfeito!"

Finalmente, restava Mor'Rein, que estava quieto enquanto Ludus trabalhava em seu disfarce. Ludus prendeu o longo cabelo prateado do elfo com uma faixa escura, e aplicou uma tinta rosada nas maçãs do rosto pálidas do companheiro. Ele traçou linhas finas sob os olhos, adicionando uma sombra esverdeada ao redor. "Espere... só mais um toque rosado aqui e… perfeito!" murmurou Ludus, inclinado em direção ao rosto de Mor'Rein como um pintor diante de sua obra-prima. O resultado era cômico e imponente ao mesmo tempo: um “curandeiro” exótico do extremo oriente, com traços peculiares e excêntricos.

Por fim, o próprio Ludus apareceu em uma roupa desleixada, digna de um assistente de cozinha, com um avental remendado e manchado de molhos de “sucessos” passados. Com um sorriso travesso, ele ajeitou um chapéu de cozinheiro amarrotado em sua cabeça e estufou o peito com fingida nobreza. "E agora, meus caros, somos o grupo de criados do estimado Lorde Von Schaultz!"

Com os disfarces prontos, os heróis deixaram a sala dos Harpistas e se dirigiram à saída. Cada um, com seu traje exagerado, tentava assumir a nova personalidade imposta por Ludus — uns com mais sucesso do que outros. Na porta, Asher se voltou para o grupo, segurando o pergaminho com o selo da família Greymane em uma das mãos. "Lembram-se, só usaremos isto em último caso. Afinal, o ‘Lorde Jepperd’ prefere a discrição…”

Os heróis, agora disfarçados, se aproximaram da porta para sair, onde Horusk já os aguardava. O gnomo manteve o olhar baixo por um momento, meditando sobre as palavras que diria. Então, com um suspiro discreto, ergueu a cabeça e falou:

"Vocês, bravos e talvez insensatos companheiros, estão prestes a se embrenhar em tramas cada vez mais complicadas. Os caminhos que trilham não levam apenas a glórias e tesouros; levam a inimigos espreitando nas sombras, a alianças traiçoeiras, e a um destino incerto. Se, por acaso, alguém aqui quiser abandonar o navio... eu não os culparia."

Impetor estufou o peito, os olhos brilhando de determinação. “Estamos muito longe para recuar, Horusk. Esse conselheiro de Suzail não sabe com quem está lidando.”

Mor'Rein balançou a cabeça em concordância, murmurando em tom quase inaudível. “Agora, estamos ligados a isso. Recusar é impossível.”

Dahaka, com um sorriso enviesado, apenas estalou os dedos como se quisesse enfatizar o compromisso — ou a falta de uma saída.

Nesse momento, Ludus avançou e ergueu a mão com um dedo em riste. “Ah, e, já que estamos no assunto de... sacrifícios e coragem," ele deu uma piscadela atrevida, "não estaria na hora de conversarmos sobre um… reajuste salarial, Horusk?”

O gnomo ergueu uma sobrancelha felpuda, observando o bardo com uma expressão de seca descrença, que dizia tudo. Sem dizer uma palavra, ele virou as costas e se afastou.

“Grosseria,” murmurou Ludus, ajustando o chapéu de cozinheiro com um falso ar ofendido, enquanto os outros riam.

Do estábulo dos Harpistas, os heróis pegaram uma carruagem de aparência simples, mas robusta, perfeita para passar despercebida. O cocheiro deu o sinal, e logo a carruagem estava em movimento, balançando levemente à medida que o grupo seguia em direção a Suzail.

O caminho era agitado, a estrada cheia de vida e movimento. Cavaleiros, menestreis, e pequenas comitivas vinham de todos os lados, reunindo-se para a justa. Bandeiras coloridas balançavam ao vento, e crianças corriam pelos campos, segurando pequenas estandartes feitas de tecido. A atmosfera era quase contagiante; cada um dos aventureiros podia sentir a energia vibrante que parecia preencher o ar. Mesmo os rumores da praga necromante que devastava o reino pareciam ter sido abafados pela excitação do evento.

Depois de algumas horas de viagem, por volta das treze horas, a carruagem se aproximou dos altos muros de Suzail. A cidade estava em polvorosa, tomada pela euforia. O barulho da multidão, o tilintar das armaduras e o murmúrio das conversas se misturavam como uma sinfonia caótica, enchendo as ruas com uma animação que fazia quase todos esquecerem o perigo constante da praga necromante.

Ludus olhou pela janela da carruagem, admirando as bandeirolas e estandartes coloridos que enfeitavam a cidade. “Ah, que espetáculo… É quase poético como a ameaça da morte deixa todos mais… vivos!”

Ao chegarem aos portões do grande Mercado de Suzail, os heróis foram barrados por um guarda Purple Dragon corpulento, de expressão severa e sobrancelhas arqueadas. Ele ergueu a mão e, em tom autoritário, falou:

"Alto lá! Documentação de entrada, por favor."

Ludus, que estava na frente, pôs as mãos nos quadris, adotando a postura de um criado indignado. Ele lançou um olhar gélido e calculado ao guarda, como se a mera exigência fosse uma afronta sem igual.

“Documentação de entrada?” Ludus repetiu, com uma entonação cheia de desprezo. “Você tem ideia de quem está na sua frente, soldado? Quem ousas barrar à entrada? Esse é o estimado Lorde Jepperd von Schaultz, um nome de respeito e poder que ecoa até as terras do norte!”

O guarda piscou, visivelmente confuso com a situação. Ludus se aproximou mais um passo e baixou o tom, como se fosse confidenciar algo importante.

“Escute bem, jovem... quem você pensa que é para pedir documentos ao Lorde Von Schaultz?” Ludus ergueu uma sobrancelha. “Me chame seu supervisor geral imediatamente! Ou acha que vamos esperar enquanto você decide brincar de autoridade?”

A carranca severa do guarda se desfez em uma expressão embaraçada, e ele olhou para os lados, como se procurasse confirmação de sua posição. Ele gaguejou algo indecifrável, e depois, claramente intimidado, deu um passo atrás e abriu passagem.

“M-Me perdoe, milorde… por favor, prossigam!”

Impetor e os outros trocaram olhares de surpresa misturada com diversão enquanto passavam pelo guarda. Ludus, com um sorriso travesso e confiante, murmurou apenas para os companheiros ouvirem: “Gente rica consegue qualquer coisa com um belo escândalo.”

Ao cruzarem os portões, depararam-se com o grande mercado, transformado em uma praça festiva e grandiosa para a justa. A poeira comum ao chão batido do mercado agora estava suavizada por camadas de flores coloridas, que foram espalhadas pelo espaço, criando uma trilha que levava à arena principal. Barracas e tendas haviam sido rearranjadas, deixando o centro aberto para a movimentação de curiosos, cavaleiros, vendedores, e artistas de rua.

A famosa taberna Bruxa Chorona, que ficava em frente ao mercado, também participava da festividade. Com bandeiras nas janelas e uma fila de barris, era claro que o local havia sido requisitado para fornecer bebida ao evento. Barris marcados com o brasão do Lorde Benthor estavam dispostos do lado de fora, e já se formavam filas de cidadãos ansiosos para tomar a famosa SuzAle, a cerveja local Purple Dragon Ale, um dos orgulhos de Suzail.

As pessoas, todas animadas, riam e discutiam sobre os favoritos para o torneio. Era fácil perceber a energia contagiante e a felicidade no ar. Os mais jovens corriam em meio às tendas e barracas, enquanto os adultos trocavam apostas e comentavam os cavaleiros em preparação.

Ao longe, os heróis avistaram grupos de cavaleiros ajustando suas armaduras, preparando lanças e trocando cumprimentos em tons de desafio amistoso. Soldados mais jovens olhavam com admiração para os cavaleiros veteranos, e alguns já estavam organizados em fila, prontos para o grande evento.

A arena, no centro da praça, estava decorada com pompa e elegância. Em tons de roxo, o brasão de Suzail pendia nas laterais, e nas cores da cidade e dos Purple Dragons, a tribuna de honra fora erguida. Um palco suspenso dominava o espaço central, ricamente adornado com tecidos e insígnias, oferecendo uma visão privilegiada da arena para as autoridades e os mais ilustres espectadores.

As cadeiras próximas ao palco já começavam a ser ocupadas, e os sussurros e conversas intensificavam a sensação de expectativa no ar. Enquanto observavam o cenário, os heróis sentiam o peso da tradição e do prestígio que envolvia a justa, conscientes de que estavam em meio a um momento especial para o povo de Suzail, em que, por algumas horas, os problemas do reino pareciam ter ficado de fora daqueles portões.

Asher parou em um ponto da praça e deu uma última olhada ao redor, confirmando que os olhos não estavam voltados para eles. Com uma expressão determinada, deu a ordem:

"Maravilha, estamos dentro... Agora se separem e busquem informação."

Ele se afastou rapidamente, misturando-se à multidão e desaparecendo no fluxo de pessoas. Cada um dos heróis seguiu em uma direção diferente, assumindo seus disfarces e estratégias para coletar as informações.

Vestindo um manto marrom de viajante e uma barba falsa, emprestada por Ludus, que escondia parcialmente seu rosto, Asher entrou em uma taverna improvisada próxima à arena, onde soldados e civis discutiam animadamente sobre as justas e a organização do evento. Com uma caneca de SuzAle em mãos, ele se misturou ao grupo, ouvidos atentos, até que alguns homens mais velhos começaram a comentar em voz baixa sobre a situação da cidade.

"Desde que a Regente de Aço saiu em missão, o  Lorde Benthor tem feito mais do que seu trabalho... Tem feito o trabalho de todos," murmurou um dos homens, coçando o queixo pensativamente.

Outro assentiu, lançando um olhar em volta antes de responder. "Olhando por fora, ele diz que é por segurança. Mas estamos todos vendo... ele faz concessões, aprova regulamentos... até começou a rever a cobrança dos impostos locais."

"Pois é," continuou o primeiro homem, com ar preocupado. "Cormyr já é praticamente governada por ele."

Asher fingiu um sorriso casual enquanto memorizava cada palavra. A informação sobre Benthor agindo sozinho sem consultar a Regente era crucial. Ele agradeceu aos homens com um brinde e, com uma desculpa casual, desapareceu de volta para a praça.

Dahaka, disfarçado com um capuz preto que escondia as feições afiadas de seu rosto tiefling, deslizou furtivamente pelas ruas laterais do mercado, até parar junto a um grupo de guardas Purple Dragons em uma das barracas de comida. Fingindo ser um curioso local, aproximou-se e fingiu examinar as maçãs expostas, escutando enquanto os soldados conversavam.

“Você ouviu alguma coisa sobre o Capitão Emorgo?” perguntou um dos guardas, enquanto mordia uma maçã com entusiasmo. “Ninguém o vê há dias.”

“É,” disse outro, preocupado. “Dizem que ele estava ajudando algumas pessoas a escaparem da cidade… e que Lorde Benthor descobriu.”

Os guardas trocaram olhares tensos, um deles fazendo um sinal de silêncio com a mão. “Se foi isso mesmo, já sabemos o que acontece com quem atravessa os interesses de Benthor.”

Dahaka fingiu tossir para disfarçar um sorriso. Assim que ouviu o suficiente, afastou-se discretamente e retornou às sombras, sabendo que estavam certos sobre a ligação entre Benthor e o desaparecimento de Emorgo.

Mor’Rein, trajado em seu disfarce, usou suas habilidades telepáticas para entrar nos locais mais restritos, onde a elite local e funcionários da corte comentavam assuntos delicados. Ele se aproximou de uma pequena reunião de serviçais de Benthor, sussurrando sobre os "segredos" do Lorde.

"Você viu alguma coisa suspeita naqueleas coisas que a Bruxa carregava da última vez que esteve aqui?" uma jovem serviçal perguntou a outra, olhando por cima do ombro para ver se alguém ouvia.

“Você não devia comentar sobre isso... Sabe como Lorde Benthor fica quando falam da filha dele e de Darsha…” A outra jovem parecia assustada, os olhos se arregalando.

"E quem é essa Darsha mesmo?" perguntou Mor'Rein em um tom casual.

As duas jovens se calaram ao perceber sua presença, mas uma delas o olhou desconfiada e sussurrou: “Era uma mulher estranha, sempre mexendo com coisas que não são para o conhecimento de todos. Está ajudando o Lorde com… problemas pessoais.”

Mor'Rein sentiu um arrepio ao perceber a profundidade do envolvimento de Benthor com práticas escusas. Agradecendo discretamente e se retirando, ele entendeu que havia algo muito mais sombrio e pessoal entre Benthor e Darsha.

Usando uma roupa simples e disfarçando-se de guarda mercenário, Impetor patrulhou os arredores da praça, aproximando-se de um grupo de mulheres do mercado que conversavam enquanto olhavam para a arena.

“A filha do Lorde Benthor é muito misteriosa,” disse uma das mulheres, ajeitando o avental. “Nunca a vimos em público. E dizem que nem os serviçais do castelo podem se aproximar dela.”

Outra mulher sussurrou: “Ouvi que ela é mantida em um dos quartos mais altos, sempre trancada. Dizem que é para protegê-la… ou será que tem algo mais acontecendo?”

"Aposto que ela deve ser uma moça muito feia." Completou uma das fofoqueiras.

Intrigado, Impetor anotou mentalmente a informação. Lorde Benthor manter a própria filha reclusa parecia suspeito demais, ainda mais considerando sua ligação com Darsha.

Vestindo roupas que imitavam as de um cozinheiro, Ludus se misturava à multidão com seu sorriso maroto e um toque de charme. Ele vagou pela praça até notar um grande casarão nos fundos do mercado, onde as bandeiras e estandartes de diversos Lordes estavam expostos. Ao observar os nobres que entravam, ele prendeu a respiração, quase sem acreditar.

Arien Thernar
Entre eles estava Arien Thernar, o patriarca da antiga e respeitada Casa Thernar, acompanhando uma bela elfa de cabelos cor de fogo, sua aura destacando-se com um mistério vibrante.

“Não… pode ser,” Ludus murmurou para si mesmo. Os Thernar eram conhecidos por sua habilidade de criar instrumentos de música excepcionais – e seu próprio pandeiro, uma lembrança estimada, fora feito por eles.

Curioso e emocionado, ele se aproximou o máximo que pôde, escondendo-se atrás de uma das colunas do casarão para observar. Ele tentava lembrar-se do que sabia sobre Arien Thernar, sem saber que destino o levaria a cruzar caminho com um dos maiores mestres instrumentistas de Suzail.

Ludus respirou fundo, seus olhos fixos em Lorde Thernar enquanto o nobre conversava alegremente com os outros convidados. Ele aproveitou um momento em que a atenção dos guardas estava dispersa e deu um passo para frente, quase tropeçando no chão de paralelepípedos. Os guardas próximos o notaram e avançaram rapidamente, prontos para afastá-lo. No entanto, um gesto breve e um sorriso de Thernar pararam os homens.

“Deixem-no,” disse Thernar com um sorriso caloroso. “Reconheço um verdadeiro apreciador de instrumentos musicais quando vejo um.”

Ludus abriu um sorriso brilhante e se aproximou, tentando conter o entusiasmo, mas seu fascínio era evidente. Observou Thernar, um homem de aparência jovem, ligeiramente acima do peso, mas com uma simpatia contagiante, seu rosto corado emoldurado por cabelos castanhos bem penteados.

“É uma honra... não, é um privilégio estar na presença de um Thernar,” disse Ludus, esforçando-se para não parecer um admirador desesperado. “Eu… eu possuo um dos pandeiros que vocês fabricaram. É a alma da minha música. A precisão, a textura… é como se o próprio som dançasse!”

Thérnar sorriu, visivelmente encantado com o elogio, e colocou uma mão no ombro de Ludus, inclinando-se para ele em cumplicidade. “É sempre gratificante encontrar alguém que compreende a verdadeira essência de um bom instrumento. Fico feliz em saber que nosso trabalho encontrou um lar digno. O som de um pandeiro é a batida do coração dos festejos e das aventuras. Sabe, cada peça é única, criada para ressoar com as vibrações do espírito de quem o toca.”

Ludus riu, assentindo, quase sem palavras diante de seu ídolo. “Não poderia ter dito melhor, senhor. Para mim, tocar um Pandeiro Thernar é mais do que música, é como... como se fosse uma extensão da minha própria alma!”

No meio da conversa, uma tosse suave, porém firme, soou ao lado deles. Ambos os homens se viraram, e Ludus encontrou-se diante da elfa de cabelos ardentes, sua presença emanando uma certa autoridade mística. Ela parecia ligeiramente impaciente, embora sua expressão fosse educada e seus olhos refletissem uma intensidade particular.

Maokada.
Thérnar piscou, como se acordasse de um sonho, e então, lembrando-se da etiqueta, disse: “Ah, onde estão meus modos... Ludus, permita-me apresentá-la. Esta é Maokada, minha... companheira e assistente. Ela desempenha um papel indispensável em meu trabalho.”

Maokada lançou um olhar rápido e avaliativo para Ludus, antes de inclinar a cabeça em um cumprimento cordial. “É um prazer conhecê-lo, Ludus,” disse ela em um tom suave e encantador. “Infelizmente, precisamos nos apressar. Já estamos um pouco atrasados para nossa reunião.”

Lorde Thernar suspirou com um toque de pesar, mas ofereceu um sorriso sincero para Ludus. “Fico feliz em saber que meus instrumentos estão em boas mãos, Ludus. Espero que faça bom uso deles e, quem sabe, nos cruzemos novamente em algum outro evento.”

Ludus mal conseguia disfarçar a emoção, e abriu um sorriso de fã satisfeito, embora com um gosto de "quero mais". Enquanto Thernar e Maokada se afastavam em direção ao casarão, ele ficou parado, observando-os desaparecer na multidão, seu coração ainda palpitando. Ele sabia que acabara de conhecer uma lenda viva – e talvez alguém que ainda teria muito a revelar.

Os heróis se reuniram novamente na entrada da praça principal, onde o burburinho das justas começava a crescer. Pessoas de todas as classes se apinhavam em volta, ansiosas para assistir ao espetáculo. Asher, Dahaka, Mor’Rein e Impetor estavam com expressões focadas, compartilhando rapidamente as informações que haviam coletado. A tensão no ar era palpável enquanto trocavam olhares, cientes das implicações sombrias do que haviam descoberto sobre Lorde Benthor e sua crescente influência em Cormyr.

Asher falou em um tom baixo, olhando ao redor para se certificar de que ninguém os escutava. "Benthor está agindo sozinho desde a ausência da Regente, assumindo um poder que nunca deveria ser dele. Há algo muito errado acontecendo."

Dahaka assentiu, acrescentando, “Parece que até os Purple Dragons têm receio dele. E o capitão Emorgo… desaparecido. Se foi pelo que ouvimos, Benthor não hesita em se livrar de quem está no caminho.”

Impetor olhou ao redor da multidão e franziu o cenho. “Falando em estar no caminho… onde está Ludus? Ele já deveria ter voltado.”

Mor’Rein deu de ombros, sua expressão enigmática. “Conhecendo Ludus, ele deve ter ficado distraído em algum lugar. Talvez tenha encontrado outra ‘musa inspiradora’,” brincou, mas com uma ponta de preocupação no olhar.

Enquanto os heróis se entreolhavam, Ludus, de fato, vagava pelos corredores do casarão, com o coração acelerado e o passo ágil de quem sabe exatamente onde quer chegar. Tinha aproveitado o pequeno momento de descuido de Thernar para deslizar para dentro do salão e, agora, avançava pelos corredores em direção aos aposentos do artesão. Ele atravessou um vasto salão decorado com tapeçarias de antigas batalhas e passou por uma grande janela circular na parede principal, que deixava entrar a luz dourada do final da tarde. Evitava os guardas com habilidade, esquivando-se por trás de colunas e desviando por corredores secundários, determinado a alcançar o quarto de Thernar. Lá, ele sabia, estavam guardados os instrumentos lendários da Casa Thernar.

Do lado de fora, o alvoroço das justas aumentou quando a figura de Lorde Benthor surgiu no palco principal, elevado sobre o pátio, com uma presença imponente e um sorriso calculado. Ele abriu os braços em um gesto grandioso, atraindo a atenção de todos.

“Amigos, amigos!” exclamou ele, com um tom de falsa jovialidade, como se estivesse entre velhos conhecidos. “Que maravilha ver tantos sorrisos, especialmente em tempos tão sombrios. Suzail, nossa querida cidade, continua firme e forte – e é por vocês, por nossa determinação e sacrifícios, que continuamos impenetráveis contra a praga que assola Faêrun.”

A multidão aclamou suas palavras, gritos de apoio e aplausos ecoando pela praça. Benthor fez uma pausa teatral, elevando o tom.

“Enquanto cidades vizinhas sucumbem ao desespero e à morte, Suzail permanece uma fortaleza de esperança! Nós não fechamos nossos portões apenas para nos proteger – mas para proteger vocês, suas famílias, seus futuros! E hoje, celebramos essa resistência com uma justa gloriosa, para lembrar a todos que, enquanto estivermos unidos, nada poderá nos abalar!”

Os gritos e aplausos se intensificaram, e Benthor, com um sorriso satisfeito, acenou para a multidão, ciente do efeito que suas palavras tinham sobre eles.

Enquanto o clamor continuava do lado de fora, Ludus finalmente chegou ao quarto de Thernar. Ele mal conseguia conter o entusiasmo ao abrir a porta e dar de cara com uma infinidade de instrumentos musicais dispostos ao longo das paredes e sobre mesas, como se cada um fosse uma relíquia venerada. Harpas, flautas, alaúdes, tambores – cada instrumento parecia irradiar uma energia própria, cuidadosamente esculpida, afinada e aprimorada ao longo dos anos. Ludus quase entrou em delírio. Ele se aproximou de um alaúde de madeira escura e correu os dedos pelas cordas, produzindo uma melodia suave e nostálgica. Em seguida, pegou uma flauta e tocou algumas notas baixas, emocionado com a pureza do som.

“Meu Deus, isso é um paraíso,” murmurou para si mesmo, passando de um instrumento a outro, o coração batendo como se estivesse em um espetáculo solo.

Do lado de fora, Lorde Haroldo subiu ao palco ao lado de Benthor e fez um sinal para a multidão. O momento tão aguardado estava prestes a começar. “Cidadãos de Suzail,” anunciou Haroldo, sua voz ressoando pelo campo, “damos início às justas! Que os competidores provem sua honra e força em nome de Cormyr!”

A multidão explodiu em vivas enquanto os primeiros cavaleiros marchavam para a arena, suas armaduras reluzindo ao sol, lanças erguidas e estandartes tremulando ao vento. Os heróis observavam com atenção, tanto pelo espetáculo quanto pela expectativa de algo mais sombrio se desenrolando nas sombras.

As justas começavam, mas a sensação de que algo perigoso estava em curso se intensificava. Eles lançaram olhares preocupados uns aos outros, enquanto a tensão crescia – tanto dentro quanto fora da arena.

As justas tomavam forma na arena central, cada duelo mais impressionante que o anterior, enquanto cavaleiros habilidosos cruzavam lanças com precisão e força, atraindo os olhares hipnotizados da multidão. Asher, com a postura atenta de um caçador, aproveitava o frenesi dos espectadores para avançar sorrateiramente na direção da arquibancada central, onde Lorde Haroldo Benthor observava o espetáculo. Ele mantinha a atenção voltada para o anfitrião da noite, tentando captar qualquer detalhe que o entregasse – uma troca de olhares suspeita, um gesto desnecessário. Entre o som estrondoso das lanças se quebrando e os gritos de torcida, Asher permanecia focado, determinado a ver além das aparências.

Sezgar Wintervale.
No centro da arena, o favorito do torneio, Tenente Sezgar Wintervale, montava seu cavalo negro com uma presença formidável. O campeão das justas era conhecido não apenas pela destreza, mas pela intensidade com que lutava, um brilho quase feroz no olhar a cada investida. Seu elmo possuía uma crista esculpida em forma de asas prateadas que pareciam erguer-se como se fossem de um falcão em voo. A cada vitória, o público explodia em aplausos, e as cores do brasão de Sezgar – uma lua crescente sobre um fundo de flocos de neve – tremulavam em bandeiras erguidas pelo público em apoio ao guerreiro. Ele acumulava vitória após vitória com um sorriso contido, acenando para a plateia como um comandante honrado que sentia cada triunfo como uma reafirmação de seu poder.

Enquanto isso, no interior do casarão, Ludus estava em seu próprio mundo, absorto no ritmo de um tambor que descobrira entre os instrumentos. Ele improvisava uma melodia simples e animada, seus dedos batendo com leveza sobre o couro, experimentando tons e batidas. Porém, ao ouvir passos pesados e uma conversa acalorada aproximando-se do lado de fora do quarto, Ludus parou de repente, com o coração disparado.

“Droga!” ele sussurrou, lançando um olhar apressado ao redor, procurando um esconderijo. Em sua pressa, esbarrou em um conjunto de pratos de metal, que caiu ao chão em uma cacofonia de tilintares e ecos que só tornaram sua presença mais óbvia. Ele praguejou baixinho, chutando acidentalmente um alaúde, que caiu com um estrondo. Em um ato desesperado, correu para um armário alto com portas entalhadas, cujas frestas permitiam uma visão parcial do ambiente externo. Escorregou para dentro e fechou a porta, respirando entrecortado, enquanto espremia o rosto contra as frestas para observar o que acontecia lá fora.

De volta à arena, Asher finalmente conseguira se aproximar da área onde Benthor observava as justas. Cercado por guardas, o anfitrião mantinha uma postura tranquila, embora o leve sorriso em seu rosto mostrasse que ele se divertia. Era difícil ignorar os murmúrios e a energia sombria que o cercavam. Em determinado momento, um dos guardas ao lado de Benthor inclinou-se discretamente, murmurando algo em seu ouvido, e lhe passou um pequeno rolo de papel. Benthor o recebeu com uma expressão satisfeita, desdobrando-o rapidamente e lendo seu conteúdo, com um sorriso que parecia conter uma ameaça silenciosa.

Esse processo se repetiu algumas vezes ao longo da justa. Vez após vez, os guardas traziam papéis e informações, e Benthor os lia com um olhar complacente, quase como se estivesse confirmando uma peça de um plano maior. Cada vitória do Tenente Sezgar Invernalis parecia amplificar a satisfação de Benthor, e Asher, observando de perto, não pôde ignorar o brilho cruel e enigmático que dançava nos olhos do anfitrião.

Emeth Bridgestone.
Ludus, apertado no armário, quase prendia a respiração ao espiar pelas frestas o que se desenrolava no quarto. Sua visão era limitada, mas o bastante para enxergar Arien Thernar entrando, com a postura firme e o olhar concentrado, acompanhado por Maokada. Junto a eles estavam dois guardas e um homem de porte altivo, o representante da corte de Suzail, com os cabelos grisalhos e uma expressão de impaciência pintada em suas feições aristocráticas.

A tensão era palpável quando o representante falou, em um tom solene e insistente. “Lorde Benthor está oferecendo uma oportunidade única, Arien. Suzail poderia sair fortalecida disso tudo. Uma simples assinatura de sua parte e a cidade terá uma nova era de estabilidade – sem a interferência exaustiva da Regente.”

Arien cruzou os braços, seu rosto se mantendo impassível. “Uma era de estabilidade ou de servidão, Mestre Emeth? A Regente de Aço tem liderado Suzail com firmeza em meio ao caos, sem ceder às forças externas que tentam corroer o poder do governo. Eu não traio os princípios de Suzail para alimentar ambições de um único homem.”

A sobrancelha do representante, Lorde Emeth, se franziu levemente, mas ele manteve o tom controlado. “E o que é pior, Arien: agir com precaução agora ou permitir que a praga necromante avance ainda mais sobre nós?” Ele estendeu um pergaminho em direção a Arien. “Você poderia salvar essa cidade, basta apoiar Lorde Benthor, e tudo isso... todo esse cenário de incertezas pode desaparecer.”

Arien deu um passo atrás, evitando o papel como se fosse algo tóxico. “Isso é um golpe, Emeth. Você quer que eu traia a Regente e entregue o poder de Suzail nas mãos de um manipulador que só enxerga o próprio benefício. Eu me recuso.”

A postura de Emeth endureceu, e seu olhar tornou-se glacial. “Sinto muito que você não compartilhe da visão que Lorde Benthor possui para Suzail.” Ele fez um movimento em direção à porta, indicando uma despedida. “Mas, devo dizer que sua teimosia será lembrada.”

“Minha teimosia é lealdade, Emeth,” retrucou Arien, com firmeza. “E Suzail há de lembrar quem ficou ao lado do povo e quem se acovardou diante de ameaças e promessas vazias.”

Antes que Arien pudesse dar mais um passo, sentiu uma pontada afiada e ardente em suas costas. Ele se contraiu, levando a mão ao local e se virando com dificuldade. Atrás dele, Maokada permanecia impassível, a adaga em sua mão manchada com o sangue de sua traição.

“Maokada…” sussurrou ele, a dor mesclando-se com uma incredulidade amarga.

No armário, Ludus quase soltou um grito de espanto, mas rapidamente cobriu a boca com as mãos, abafando o som que escapou de sua garganta. Ele podia sentir seu coração disparado, cada batida ameaçando denunciar sua presença escondida.

Maokada limpou a lâmina com a calma de quem realiza uma tarefa cotidiana. Olhou para o corpo de Arien que caía ao chão e, com um sorriso sinistro, murmurou: “Agradeça a Lorde Benthor. Menos uma ponta solta... Até o final da noite, o governo do Alto-Conselheiro possuirá zero opositores.”

Ela deu uma última olhada ao redor, certificando-se de que tudo estava em ordem, e então se retirou junto aos guardas e a Emeth.

Ludus permaneceu no armário por alguns instantes após a saída dos conspiradores, sua mente fervilhando de confusão e incredulidade. O que acabara de presenciar parecia um pesadelo: Arien Thernar, traído e assassinado a sangue frio por aqueles que deveriam zelar pelo bem de Suzail. Mesmo sem se mover, Ludus podia sentir o tremor que lhe percorria o corpo; as mãos estavam suadas, e sua respiração se mantinha rasa e contida.

Finalmente, ele decidiu sair de seu esconderijo. Com um movimento lento, abriu a porta do armário apenas o suficiente para espiar o quarto. Observou o corpo de Arien, caído de bruços no chão de pedra, os dedos ainda crispados em direção ao ferimento nas costas, como se tentassem alcançar a vida que lhe escapava. O silêncio ali dentro era quase opressor.

Ludus engoliu em seco, dando um passo para fora e se aproximando do corpo. Sentiu um aperto no peito, a realização do que aquilo significava. “Golpe… traição…” murmurou em um fio de voz, relembrando as palavras de Arien. O governo da Regente estava em perigo, e, agora, ele estava preso no meio daquela trama. Enquanto tentava processar o que via, ouviu passos e vozes abafadas ecoando no corredor, voltando para o quarto.

Ludus sentiu o pânico tomar conta de si. Precisava sair dali – e rápido. Com os olhos arregalados, começou a vasculhar mentalmente suas opções de fuga. De repente, as palavras de um feitiço surgiram em sua mente, e ele as conjurou com pressa, quase atropelando as sílabas. Sentiu uma sensação gélida percorrer seu corpo, e quando olhou para suas mãos, percebeu que haviam se tornado transparentes. Ele estava invisível, mas precisava ser rápido.

Cuidadosamente, Ludus contornou o corpo de Arien, dando um último olhar ao ídolo caído. Parte dele queria fazer algo – talvez uma despedida silenciosa, ou ao menos fechar os olhos do homem que tanto fizera por Suzail. Mas não havia tempo; precisava priorizar sua própria segurança. Lentamente, abriu a porta, respirando fundo para manter a calma. Um guarda estava próximo, mas não o percebeu, e Ludus aproveitou a deixa para deslizar para fora do quarto.

Cada passo que dava pelo corredor, sentia seu coração martelar mais rápido. O choque do que testemunhara era o suficiente para manter sua mente em um torvelinho de pensamentos.

Ainda invisível, ele cruzou corredores e escadarias, desviando-se de guardas e criados que, alheios à presença de Ludus, continuavam com suas rotinas, indiferentes ao desastre que se armava. Quando finalmente chegou a um local seguro, recostou-se contra a parede e deixou-se escorregar até o chão, ofegante, tentando entender como aquela revelação poderia mudar o destino de Suzail – e o seu próprio.

Episódio 15 - "Sombras Sobre Suzail"

Data: 3 de Nightal, 1372 CV - 17h
Local: Praça do Mercado – Suzail, Cormyr

A praça do mercado fervilhava com a multidão que ainda comemorava as justas. O sol poente tingia os céus de tons laranja e violeta, enquanto bandeiras e estandartes tremulavam ao sabor do vento. Ludus Lefou emergiu de uma das entradas laterais do casarão, o rosto pálido e suado, encontrando seus companheiros reunidos perto da área reservada para os competidores.

Dahaka foi o primeiro a notar a expressão de Ludus, seus olhos escarlates estreitados com desconfiança.

"O que houve?", perguntou o tiefling, cruzando os braços.

"Bem... eu acho que estamos no meio de algo muito maior do que uma disputa política, meus amigos." Ludus fez uma pausa dramática, tentando recuperar o fôlego. "Eu vi Arien Thernar ser assassinado ao se recusar a participar de um complô de Benthor. Eles estão tramando algo... algo enorme."

Os olhos de Asher se arregalaram, e ele deu um passo à frente, segurando o braço de Ludus.

"Como assim? Quem mais estava lá?"

"Um representante real, dois guardas... eles falaram sobre 'golpe' e... Arien se recusou a ceder a Benthor." Ludus olhou ao redor, certificando-se de que ninguém mais estava ouvindo. "É isso! Haroldo Benthor está planejando tomar o poder. Ele está se livrando de quem quer que se oponha a ele."

Mor'Rein franziu a testa, seu tom calmo e analítico como sempre.

"Isso explica os sussurros e mensagens que os guardas entregavam a ele durante as justas. Ele já está consolidando sua posição."

Asher permaneceu em silêncio, seus olhos fixos no palanque onde Benthor reaparecia, acompanhado por trombetas anunciando o vencedor das justas.

"Não podemos agir ainda", disse Dahaka em um tom baixo. "Não sabemos o suficiente."

"Então vamos saber", respondeu Ludus com um sorriso malicioso. Ele esfregou as mãos, sentindo a adrenalina de sua decisão.

No palanque principal. Haroldo Benthor subiu os degraus com a postura de um líder confiável, seu sorriso polido estampado no rosto. Ele ergueu os braços, acenando para a multidão.

"Cidadãos de Suzail! Amigos e aliados de toda Faêrun!" Sua voz ressoava, cheia de energia e confiança. "Hoje celebramos não apenas os talentos e a bravura dos competidores, mas também a unidade de nosso amado reino em tempos difíceis."

A multidão explodiu em aplausos e vivas. Ludus, no entanto, estava mais focado do que nunca. Ele murmurou as palavras arcanas e lentamente começava a conjurar um antigo feitiço de leitura mental, mirando Lorde Benthor enquanto este discursava.

Ludus sentiu sua mente entrar em contato com os pensamentos superficiais de Benthor, mas a resistência do lorde era formidável. A barreira mental se ergueu como uma muralha, rejeitando a sondagem. No entanto, a magia ainda cobrava seu preço.

No meio de sua fala, Haroldo Benthor tropeçou no próprio pé ao virar-se, quase caindo de cara no chão. Ele rapidamente se endireitou, mas o momento já havia arrancado risadas abafadas da plateia.

"Ops! É isso, chega de vinho pra mim hoje!" brincou Benthor, improvisando para cobrir o constrangimento.

Ludus apertou os olhos, concentrando-se nos fragmentos de pensamento que conseguiu captar: "Tolo... Preciso terminar isso rápido... Wintervale já está pronto... Um obstáculo a menos."

As palavras ecoaram na mente de Ludus como um enigma desconcertante. Ele lançou um olhar para os companheiros, sinalizando que eles precisavam discutir o que descobrira. 

Enquanto Isso, no Palanque. Haroldo Benthor se erguia  "É com grande honra que anuncio o vencedor das justas deste ano: o Tenente Sezgar Wintervale!" Haroldo ergueu um braço, apontando para o campeão.

Sezgar, um homem de presença marcante, subiu ao palco com confiança. Sua armadura reluzente parecia quase tão intimidadora quanto sua expressão severa, e sua capa roxa tremulava ao vento. A multidão rugia de entusiasmo.

Ludus sussurrou para os outros: "Acho que essa competição toda foi só um circo armado. Ele está apenas possicionando suas peças favoritas perto de sí pra na hora certa dar o golpe final."

Dahaka olhou para Sezgar, seus olhos avaliando o novo capitão dos Purple Dragons.

"Se ele é o próximo a subir, Benthor está mais perto do que nunca de consolidar seu golpe."

Asher, ainda calado, observava com atenção cada movimento de Benthor e seus guardas. Algo nos gestos deles parecia... fora do lugar.

Ludus concluiu, com a voz mais baixa:

"Precisamos agir antes que o 'obstáculo a menos' seja a Regente de Aço."

O festival das justas se aproximava do fim com a grandiosidade habitual de Suzail. As luzes das tochas começaram a ser acesas ao redor da praça, enquanto os últimos resquícios de luz solar desapareciam. A multidão, exausta mas satisfeita, começou a dispersar em grupos animados, debatendo os feitos heroicos do dia. Bandeiras e estandartes eram recolhidos, enquanto bardos e artistas de rua encerravam suas apresentações com melodias que ecoavam pelas ruas movimentadas.

Apesar do clima de celebração, os heróis permaneceram atentos e cautelosos. As palavras de Ludus e a percepção do golpe iminente pairavam como uma nuvem negra sobre o grupo. Suzail era agora um campo minado de intrigas, e eles sabiam que cada movimento precisava ser calculado.

Eles decidiram permanecer na cidade, optando por não chamar atenção. Sob disfarces variados, seguiram para uma estalagem no centro da cidade, a Casa da Lua Murmurante, uma hospedaria discreta conhecida por sua clientela reservada. Lá, após garantir quartos modestos, reuniram-se no aposento mais afastado para discutir os próximos passos.

Por um dia inteiro, deixaram a poeira abaixar. Evitaram movimentações desnecessárias e analisaram cada detalhe que tinham. Mas foi na manhã seguinte que uma notícia abalou seus planos: a morte de Arien Thernar havia sido abertamente divulgada.

De acordo com os arautos de Benthor, Thernar teria sido vítima de um assassino Zentharim infiltrado. O anúncio era carregado de indignação, colocando Benthor como o defensor da estabilidade em tempos caóticos. A mentira era tão bem elaborada que até mesmo cidadãos descrentes pareciam aceitá-la. O funeral estava marcado para a manhã seguinte, um evento que, certamente, atrairia atenção.

Ludus, inquieto desde que deixara o casarão, anunciou sem hesitação:
"Eu vou a esse funeral. Preciso entender o que Benthor pretende. E... prestar respeito, de certa forma."

Mor'Rein, com sua expressão impassível, respondeu:
"Eu o acompanharei. Funerais atraem sombras, Ludus. E algo me diz que esta será uma cerimônia lotada delas."

Dahaka ergueu uma sobrancelha, com um sorriso cínico.
"Enquanto vocês lidam com cadáveres e discursos, Impetor e eu vamos atrás de algo mais vivo. As ruas falam, e tenho certeza de que Benthor não conseguiu silenciar todas as bocas."

"Então é isso", concluiu Asher, com a voz baixa, mas determinada. "Eu volto ao casarão. Nobres coagidos são alvos fáceis. E talvez encontre algo que Ludus não viu."

Com os planos traçados, o grupo decidiu descansar para enfrentar o dia seguinte. Mas a noite na Casa da Lua Murmurante foi tudo menos tranquila.

O quarto que compartilhavam estava mergulhado no silêncio, interrompido apenas pelo ranger ocasional das tábuas do assoalho e o farfalhar das cortinas ao vento. Ludus, em sua cama estreita, revivia os acontecimentos no casarão, as palavras de Maokada ecoando em sua mente. Mor'Rein, sentado perto da janela, mantinha os olhos fixos na escuridão lá fora, como se esperasse que a própria noite viesse atacá-los.

Dahaka, deitado com as mãos atrás da cabeça, parecia relaxado, mas seus olhos permaneciam abertos, brilhando no escuro, alertas como os de um predador. Impetor, ao contrário, tinha um sono agitado, murmurando frases desconexas, como se estivesse no meio de uma batalha. Asher, no canto mais distante, polia suas armas em silêncio, suas mãos mecânicas e metódicas, enquanto sua mente vagava por preocupações mais profundas.

Eles eram como ratos presos em uma ratoeira, cientes de que cada movimento podia ser o último. Suzail, com toda a sua glória e brilho, parecia menos uma capital e mais uma cela dourada, cheia de olhos que os vigiavam. A tensão pairava sobre o grupo como uma lâmina prestes a cair, e o que os aguardava na manhã seguinte seria mais um passo na dança mortal que haviam sido forçados a dançar.

O sol nascente tingia Suzail com tons dourados, mas o brilho não bastava para dissipar a tensão no ar. Após uma noite inquieta, os heróis partiram para seus destinos logo pela manhã, sem trocarem muitas palavras. Ludus e Mor'Rein, disfarçados para evitar reconhecimento, dirigiram-se ao funeral de Arien Thernar. Dahaka e Impetor rumaram às ruas movimentadas da cidade, determinados a encontrar pistas sobre os planos de Haroldo Benthor, enquanto Asher seguia sozinho, encapuzado, até o casarão onde Ludus havia testemunhado o assassinato.

No caminho para o cemitério, Ludus ajeitava seu chapéu de abas largas e puxava o cachecol para cobrir mais o rosto, murmurando para Mor'Rein, que caminhava ao seu lado, envolto em um manto de tecido grosso com capuz. “Nunca achei que voltaria a este cemitério. Pelo menos não tão cedo.”

Mor'Rein, com o olhar fixo à frente, respondeu em tom baixo: “Os ecos de nossas luta ainda estão aqui, Ludus. Apenas disfarçados pela luz do dia.”

A visão do cemitério, agora iluminado pelo sol, contrastava fortemente com as memórias do confronto contra Darsha. Onde antes havia trevas e tensão, agora os túmulos pareciam tranquilos, quase acolhedores. Ludus suspirou, tentando afastar a lembrança do cheiro pútrido que parecia ainda pairar em sua mente.

Ao chegarem ao local do funeral, a atmosfera era sóbria, marcada pelo murmúrio discreto dos presentes e o som ocasional de um sino distante. Nobres e cidadãos de alto escalão cercavam o túmulo recém-cavado, enquanto sacerdotes murmuravam preces. Haroldo Benthor, posicionado de maneira central, fazia um discurso solene, com a voz modulada para soar genuína. Ludus e Mor'Rein se posicionaram à distância, atentos a cada palavra, mas foi Mor'Rein quem quebrou o silêncio entre os dois.

“Veja quem não está aqui. Às vezes, as ausências falam mais do que as presenças.”

Ludus assentiu, seus olhos dançando de rosto em rosto, registrando cada detalhe. Algo no discurso de Benthor parecia calculado demais, e a menção de um assassino Zentharim como responsável pela morte de Thernar fez Mor'Rein torcer o nariz. Era evidente que aquela versão da história não passava de uma cortina de fumaça.

Enquanto isso, nas ruas agitadas de Suzail, Dahaka e Impetor já haviam identificado um homem nervoso, que parecia carregar informações valiosas. Dahaka, com sua lábia característica, aproximou-se casualmente, encostando na parede e assumindo uma postura descontraída. “Olha, amigo, não queremos complicar sua vida. Só queremos saber o que você sabe sobre os planos de Benthor.”

O homem gaguejou, tentando evitar o olhar penetrante de Dahaka. Antes que pudesse dizer qualquer coisa substancial, Impetor, impaciente, deu um passo à frente. “Você vai responder agora ou eu tenho que... incentivar você?”

O tom de ameaça não deixou espaço para mal-entendidos. Contudo, antes que Dahaka pudesse intervir, Impetor desferiu um soco tão forte no interrogado que ele caiu desacordado no chão de pedra. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo suspiro exasperado de Dahaka, que passou a mão pelo rosto.

“Argh, Impetor... Isso é um interrogatório, não uma execução. Vamos procurar outro.”

Impetor cruzou os braços, confuso, enquanto Dahaka já se afastava. “Ele parecia prestes a fugir”, justificou o draconato, embora a expressão cética de Dahaka deixasse claro o que ele pensava sobre a justificativa.

No casarão, Asher movia-se silenciosamente sob o capuz, tentando atrair o mínimo de atenção possível. Mas ao chegar à entrada, foi barrado por guardas que exigiram um pergaminho de linhagem. Sem alternativa, ele retirou o documento de suas vestes e entregou ao guarda. O homem abriu o pergaminho e, por um breve instante, seus olhos arregalaram-se antes de fazer uma reverência.

“Greymane.”

O nome ecoou pelo corredor, chamando a atenção de alguns nobres que estavam por perto. Asher percebeu os olhares curiosos, mas manteve-se impassível. Pegando o pergaminho de volta, ele caminhou com passos firmes para o interior do casarão, ciente de que, a partir daquele momento, cada movimento seu seria observado.

O casarão era uma ode ao excesso. Lustres de cristal pendiam de tetos abobadados, refletindo a luz das velas em um caleidoscópio de cores sobre as paredes decoradas com tapeçarias luxuosas. O mármore negro do chão fazia os passos ressoarem suavemente, enquanto os nobres de Suzail, vestidos em seus trajes mais extravagantes, desfilavam pela sala. O ar era pesado, saturado pelo perfume de flores exóticas e especiarias, além do sutil odor de cera derretida. Asher, sob seu capuz, movia-se com cuidado, ajustando sua postura para parecer tão indiferente e confiante quanto os presentes.

Mantendo-se próximo das paredes e longe do centro das atenções, ele passou a ouvir fragmentos de conversas. Um grupo debatia as melhores safras de vinho do último ano; outro discutia as tendências artísticas das cortes vizinhas. Finalmente, sua atenção foi capturada por uma conversa mais relevante. Dois homens, vestidos com sobretudos de veludo e chapéus adornados, estavam em uma das varandas laterais. A voz grave de um deles reverberou suavemente.

“Benthor é um homem de ambição. Ele quer mais do que governar Suzail. Quer moldá-la à imagem de suas ideias, expandindo o horizonte da cidade. Suzail precisa crescer, dizem. Mas... a que custo?”

O segundo homem, mais jovem e de fala afiada, respondeu, inclinando-se um pouco para frente: “A um custo alto, sem dúvida. Poder implica sacrifícios. E para crescer, Benthor precisará de algo que ele ainda não tem: influência suficiente para dobrar quem importa.”

“Esperaremos para descobrir então,” murmurou o mais velho, lançando um olhar desconfiado em volta. “Mas se há alguém disposto a tentar, é ele.”

Asher fingiu observar uma tapeçaria próxima enquanto absorvia cada palavra. Quando os dois homens silenciaram, ele começou a caminhar em direção à varanda, ajustando o capuz para garantir que seu rosto continuasse parcialmente coberto. No entanto, antes que pudesse chegar perto, uma voz rouca e áspera chamou sua atenção, cortando o ruído ambiente como uma lâmina afiada.

“Greymane... Um nome que não ouço há anos. É estranho ver um dos seus fora de Profundáguas.”

Barão Agon Afanaz.
A tensão instantânea no corpo de Asher foi impossível de ignorar. Ele virou-se lentamente, a mão instintivamente se movendo para mais perto da lâmina sob sua capa. A figura que o chamara era imponente e perturbadora. O homem, alto e esguio, tinha a pele tão pálida que parecia feita de cera. Seu bigode fino, meticulosamente aparado, mal se mexia enquanto ele falava, mas seus lábios curvavam-se em um sorriso que exalava uma falsa cordialidade.

Os cabelos negros e bem penteados brilhavam sob a luz dos lustres, mas o que mais chamava atenção eram seus olhos: verdes, profundos e doentios, como um pântano traiçoeiro esperando engolir um desavisado. Ele inclinou-se levemente para Asher, como se compartilhando um segredo.

“Uma linhagem de caçadores de monstros, não? Tão respeitável no passado. E tão... caída em desgraça.”

Asher manteve o rosto impassível, mas por dentro, uma tempestade se formava. O Barão Afanaz conhecia os Greymane. E, pior, sabia demais sobre o expurgo e a maldição que agora corria em suas veias. Aquilo não era uma simples conversa, era um aviso, e o homem parecia estar jogando um jogo perigoso, esperando o menor deslize para explorar.

“Não se preocupe, jovem Greymane,” continuou Afanaz, em um tom falsamente afável. “Nem todos aqui compartilham das velhas superstições. Para alguns, o sangue maldito de um caçador é apenas... uma oportunidade interessante.”

O sorriso do Barão alargou-se, os olhos verdes brilhando com uma malícia contida. O ar ao redor deles parecia mais pesado, e Asher sabia que, naquele momento, estava sendo analisado como uma presa.

A tarde em Suzail era abafada, com o sol filtrado pelas nuvens que carregavam uma promessa de chuva. As ruas fervilhavam de atividade, mas em um canto mais escuro e esquecido da cidade, Dahaka e Impetor estavam lidando com um dos habitantes menos respeitáveis de Suzail. O homem diante deles era magro e de aparência desgastada, com cicatrizes que cruzavam seu rosto sujo e olhos que não paravam de olhar em volta, como se buscassem uma rota de fuga.

“Eu já disse tudo o que sei!” protestou o bandido, a voz rouca e trêmula enquanto olhava para Dahaka, que estava perigosamente calmo.

“Você disse o suficiente para me aborrecer, isso sim,” respondeu Dahaka, inclinando-se para mais perto e segurando o homem pela gola esfarrapada. A ponta de sua adaga brilhava à luz fraca que atravessava o beco. “Vamos tentar de novo. O que você sabe sobre Benthor e os Zentharim?”

O bandido olhou de relance para Impetor, que estava parado logo atrás de Dahaka, como uma estátua imponente. Apesar de não se mover, o draconato de prata parecia absorver toda a luz do beco, lançando uma sombra longa e intimidadora sobre o homem.

“Eu... Eu não sei muito!” balbuciou o homem, suando. “Só que Benthor... ele trabalha com os Zentharim! Fez acordos com eles, mas... traiu o pessoal dA Cura. Dizem que foi a mando dos Zentharim! Uma armadilha!”

Dahaka ergueu uma sobrancelha, sem soltar o homem. “‘E Maokada, quem é?”

“Uma espiã, acho. Trabalha pra ele, mas não recebe dinheiro, acho que é só uma maluca com tesão em matar nobres. Não sei mais nada!” respondeu o bandido, quase chorando.

“E os Zentharim?” insistiu Dahaka, apertando ainda mais a gola do homem. “Que mais você sabe sobre eles?”

“Eles têm agentes em toda parte,” o homem respondeu, sua voz quase um sussurro. “Em famílias grandes... nomes importantes. Eu ouvi o nome... Akmenos, você é tiefling, deve conhece-los. Eles têm aliados nessa família também.”

Dahaka congelou por um instante ao ouvir o nome. Seus olhos estreitaram, e um brilho perigoso passou por eles. Ele puxou o bandido ainda mais perto, sua voz agora baixa e ameaçadora: “Continue...”

“É verdade! É tudo o que eu sei, juro!” gemeu o homem, com lágrimas nos olhos.

A respiração de Dahaka ficou mais pesada, seus dedos apertando ainda mais a gola do homem. Seus olhos brilhavam com uma fúria que ele raramente deixava transparecer. O nome "Akmenos" ecoava em sua mente como um sino sombrio, trazendo à tona memórias que ele preferia enterrar.

“Fale mais,” ordenou Dahaka, a voz afiada como uma lâmina.

“Eu já disse tudo! É só isso!” gemeu o bandido, suas pernas tremendo como se fossem desabar a qualquer momento.

“Mentira,” Dahaka sibilou, puxando o homem para mais perto. “Você sabe mais. Sobre os Akmenos. Sobre o que estão fazendo aqui. Não teste minha paciência.”

O bandido engoliu em seco, o suor escorrendo pelo rosto sujo. “Ouvi dizer que a matriarca... ela tá nos dois lados. Trabalha pros Zentharim, mas também tem conexões com Benthor. Agente dupla ou algo assim. Dizem que é ela quem garante que as coisas fiquem ‘controladas’. Só isso, eu juro! Não sei mais nada!”

Os olhos de Dahaka se estreitaram ainda mais. “Agente dupla?” ele repetiu, quase para si mesmo, o conceito soando como veneno em seus lábios. Ele sacudiu o homem com força, como se quisesse arrancar mais informações à força. "Está falando de Hamura, não é?"

“Sim! É esse o nome Hamura!” o bandido gritou, desesperado. “Ela trabalha nos bastidores, manipulando tudo. É tudo o que eu sei! Por favor!”

Dahaka o soltou abruptamente, deixando o homem cair no chão, tremendo como uma folha ao vento. Ele se afastou um passo, tentando controlar a raiva que subia como um incêndio. “Hamura,” ele murmurou novamente, as mãos tremendo ao guardar sua adaga.

Impetor, que até então observava em silêncio, deu um passo à frente, inclinando-se para olhar o bandido com curiosidade. “Então... agora posso bater nele?” perguntou com a voz despreocupada, o tom quase animado.

Dahaka fechou os olhos, massageando a têmpora. “Esquece grandão... Apenas... vamos embora.”

Mas antes que Dahaka pudesse afastar-se, Impetor deu um leve sorriso e, com um movimento rápido, desferiu um soco direto na lateral da cabeça do bandido. O homem desabou imediatamente, caindo desacordado no chão poeirento do beco.

“Pronto. Agora ele não vai se lembrar de nada,” disse Impetor, erguendo-se com um ar satisfeito enquanto limpava os nós dos dedos.

Dahaka suspirou, lançando um olhar cansado para o draconato. “Você é impossível.”

Impetor deu de ombros. “Prefiro o termo eficiente.”

Sem mais uma palavra, os dois se afastaram do beco, deixando o homem desacordado atrás deles enquanto o sol começava a se esconder atrás das nuvens mais densas.

O funeral de Arien Thernar estava em seus momentos finais. O sol, agora baixo no horizonte, projetava sombras longas sobre a multidão que começava a se dispersar. Ludus e Mor’Rein caminhavam entre os presentes, cada um absorvendo o ambiente à sua maneira. Mor’Rein, com sua expressão sempre introspectiva, mantinha um olhar distante, enquanto Ludus parecia absorver cada detalhe com uma curiosidade quase infantil.

As pessoas prestavam suas últimas homenagens ao caixão de Arien, muitos murmurando lamúrias sobre a tragédia que se abatera sobre a família Thernar. Discursos repletos de luto e solenidade ecoavam entre os convidados, mas, conforme o tempo passava, as palavras se tornavam monótonas, repetitivas. A tarde se estendia preguiçosamente, e o fluxo de pessoas começava a diminuir.

Haroldo Benthor foi um dos primeiros a partir, caminhando com sua postura altiva e expressão amigável.

“Olha só pra ele,” murmurou Ludus, inclinando-se para Mor’Rein. “Sempre parece que tá prestes a anunciar alguma coisa importante, mesmo que seja o cardápio do jantar.”

Mor’Rein deu um leve sorriso de canto, sem desviar os olhos de Benthor. “Ele é perigoso, Ludus. Aquele tipo de homem que você nunca sabe se está te admirando ou planejando o seu funeral.”

“Se tratando de mim pode ser ambas, não é?” Ludus brincou, ajustando o capuz.

Irene Lefou.
Enquanto a multidão diminuía, algo chamou a atenção de Ludus. Ele parou abruptamente, piscando como se precisasse ter certeza do que estava vendo. Na beira do pátio, quase escondida nas sombras, estava uma figura que ele nunca esperava encontrar ali. Uma jovem cigana com cabelos negros e lisos, pele escura e uma beleza enigmática. Ela usava um vestido vermelho vibrante com detalhes dourados, o tipo de traje que fazia com que ninguém a confundisse com os nobres de Suzail. A seus pés, uma raposa de pelagem brilhante descansava, com os olhos alertas vasculhando os arredores.

“Irene...” Ludus murmurou, incrédulo.

“Quem?” perguntou Mor’Rein, mas antes que pudesse obter uma resposta, Ludus já estava andando em direção à moça.

“Ludus! Será que é possível que você não consegue se controlar um minuto?” Mor’Rein exclamou em desespero, cobrindo o rosto com as mãos. “É um funeral, pelos deuses..."

Ludus ignorou o amigo, esgueirando-se entre as pessoas até se aproximar de Irene, sorrindo de canto. Quando estava perto o suficiente, sussurrou com uma voz brincalhona, uma frase que eles costumavam dizer quando crianças no circo:

“Vermelho é a cor do perigo... ou da diversão?”

Irene parou, surpresa. Seus olhos escuros se arregalaram enquanto ela se virava para encará-lo. “Ludus?!”

Ele abriu os braços dramaticamente. “Em carne, osso e puro charme, querida.”

A raposa levantou a cabeça, encarando Ludus com desconfiança, mas Irene deu um passo à frente, sorrindo com incredulidade. “Por todos os deuses... você está aqui mesmo. Não acredito!”

“E eu quem não acredito,” Ludus respondeu, examinando-a com olhos curiosos. “O que você está fazendo em um lugar como este? Um funeral pomposo, cheio de gente chata. Não é exatamente o nosso palco favorito, não acha?”

Ela riu, mas o som parecia um pouco nervoso. “Não é o meu palco favorito, mas... Eu precisava vir. Por Arien.”

“Por Arien? E desde quando você conhecia o falecido?” Ludus perguntou, cruzando os braços.

Irene hesitou por um momento, como se tivesse dito mais do que pretendia. “Bem... eu achei que você soubesse.”

“Soubesse o quê?” Ludus perguntou, inclinando-se para mais perto, o rosto cheio de curiosidade.

Ela respirou fundo, como se estivesse se preparando para soltar uma bomba. “Ludus... você é o irmão mais velho de Arien Thernar. Elvira Thernar te deu para os Lefou quando você era um bebê. Você é... um filho bastardo.”

O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Ludus piscou, processando o que acabara de ouvir. Ele olhou para Irene, depois para a raposa, como se ela pudesse confirmar a informação, e finalmente voltou para Irene.

“Pera aí... O quê?!”

A caminhada até o local do funeral era silenciosa, com Dahaka e Impetor mergulhados em pensamentos. O céu começava a mudar de tom, anunciando o fim da tarde, enquanto os dois se aproximavam do cemitério.

Ao longe, já era possível ver os nobres se retirando, suas roupas de cores sóbrias contrastando com a luz dourada que tingia o horizonte. O murmúrio das conversas abafadas e o som de passos ecoavam pela rua de pedra enquanto as famílias se dispersavam.

Impetor quebrou o silêncio primeiro. “Na arena, quando um gladiador caía, era bem diferente.” Ele gesticulou com as mãos, como se tentasse ilustrar suas palavras. “Fazíamos uma festa com muita comida, bebida e histórias sobre as batalhas. Era uma forma de honrar a coragem dele. Isso aqui...” Ele olhou em volta, franzindo o cenho. “Não parece uma celebração.”

Dahaka deu uma risada leve, ajustando a capa. “Talvez porque eles não enxerguem a morte ‘em batalha’ como algo a ser celebrado. Nobres têm uma relação diferente com a morte, meu amigo. Menos glória, mais lamúrias.”

Impetor bufou, mas sorriu de canto, a observação de Dahaka diminuindo um pouco o peso da conversa.

Ao chegarem ao centro do cemitério, encontraram Mor’Rein parado sob a sombra de uma árvore, observando a cena diante de si. Ele parecia perdido em pensamentos, mas logo percebeu a aproximação dos dois.

“Finalmente,” Mor’Rein disse com um suspiro. “Estava começando a achar que tinham se metido em mais problemas.”

“Quase,” respondeu Dahaka, arqueando uma sobrancelha. “Falando em problemas... O que há com o bufão?” Ele apontou para Ludus, que estava à frente, ao lado de uma jovem mulher e de uma raposa.

Impetor inclinou a cabeça, examinando a cena. “Quem é ela?”

Mor’Rein cruzou os braços e suspirou, como se estivesse tentando organizar os pensamentos. “Irene. Pelo que entendi, é alguém do passado de Ludus. Cresceram juntos... no circo Lefou.”

Dahaka franziu o cenho e questionou em voz alta. "E por que ela está aqui?"

O Elfo da lua respirou fundo antes de revelar mais informações. "Ludus é um bastardo Thernar... Arien é seu meio-irmão caçula."

Os três ficaram em silêncio por um momento, observando Ludus e Irene. Ela estava de pé ao lado dele, as mãos gentilmente apoiadas em seu ombro enquanto ele olhava para o caixão de Arien Thernar. A raposa sentava-se ao lado deles, a cauda ondulando suavemente.

Embora não pudessem ouvir o que era dito, os movimentos de Irene e Ludus contavam uma história. A forma como ela tocava o braço dele, como Ludus abaixava a cabeça, olhando para o caixão com uma expressão incomumente séria, era diferente do bufão irreverente que todos conheciam. Quando Irene finalmente o abraçou, os braços de Ludus hesitaram antes de devolverem o gesto, como se fosse algo novo e desconcertante para ele.

“Parece que alguém está passando por algo pesado... Que coicidência diabólica,” Dahaka comentou, mas sem o tom de sarcasmo habitual.

"Não existem coicidências... Apenas o destino." Diz Mor'Rein, misterioso como sempre.

Impetor permaneceu calado por um instante, observando Ludus com um olhar distante. “Perder um parente é... complicado,” ele disse, com a voz baixa. “Ainda mais quando você mal teve a chance de conhecê-lo.”

Mor’Rein olhou para o draconato, notando a seriedade em suas palavras. “Você está falando de Arien ou Miro’San?”

Impetor assentiu. “Às vezes, não é a perda em si... é o que poderia ter sido. O que você nunca vai saber.” Ele respirou fundo e balançou a cabeça, afastando os pensamentos. “Mas Ludus é forte. Ele vai lidar com isso do jeito dele.”

O grupo permaneceu em silêncio, cada um absorvendo a cena diante deles de sua própria maneira, enquanto Ludus e Irene, ainda abraçados, pareciam presos em um momento que não exigia palavras.

O casarão estava em silêncio, exceto pelo som baixo e ritmado da chuva que começava a bater contra as janelas. No salão principal, o Barão Afanaz, imponente e sorridente, estava de pé diante de Asher Greymane. Sua expressão era uma mistura desconcertante de cordialidade e algo mais sombrio, como um predador que pressente a vulnerabilidade de sua presa.

“Então,” o Barão começou, sua voz tão suave quanto a de um anfitrião que oferece um brinde em um jantar, mas com um peso que parecia perfurar o ar entre eles. “A sua fama o precede. Um caçador de monstros... mas não é apenas isso, certo? Um homem de habilidades muito específicas. Habilidades que poderiam ser de grande utilidade, se direcionadas da forma certa.”

Asher permaneceu imóvel, os olhos fixos em algum ponto indeterminado no chão. Dentro de si, uma sensação amarga começou a borbulhar. Ele não ouvia mais as palavras do Barão com clareza. Elas se mesclavam com memórias de meses atrás, quando estava preso àquele mesmo ciclo. Contratado por algum nobre para guardar portões, ameaçar desafetos e garantir sua segurança enquanto era tratado como um cão de guarda bem pago. Ele se lembrava do olhar vazio no espelho, da vergonha que o consumia a cada ordem cumprida.

Aquilo não era vida. E ele não era mais aquela pessoa.

“Rapaz?” a voz do Barão cortou o silêncio.

Asher ergueu o olhar, mas não disse nada. Um nó se formou em sua garganta, sufocando qualquer resposta que pudesse dar. Então, ele apenas virou as costas para o homem e começou a se afastar.

“Greymane!” o Barão chamou, agora com uma nota de autoridade em sua voz.

Asher continuou andando, sem olhar para trás, mas parou quando ouviu o tom repentinamente mudar.

“Senhoras e senhores!” O Barão chamou a atenção do salão, sua voz agora projetada com maestria para ser ouvida pelos nobres espalhados ali. Ele ergueu uma mão, como quem chama o público para um espetáculo. “Permitam-me apresentar-lhes meu bom amigo, Asher Greymane. Um homem de talento singular, cuja reputação o precede. Um verdadeiro caçador de monstros, um herói para os tempos difíceis que enfrentamos.”

Os olhos de Asher estreitaram, e ele se virou, apenas para ver que o Barão estava se aproximando dele. Antes que pudesse reagir, sentiu a mão firme do homem segurar seu braço, não com força suficiente para ser uma ameaça, mas o suficiente para prender sua atenção.

Os nobres começaram a se aproximar, murmurando entre si, curiosos sobre o homem que o Barão proclamava com tanto entusiasmo. Os olhos de Asher se cruzaram com os deles – olhares curiosos, analíticos, alguns até de interesse genuíno, mas todos incômodos.

“Não sejam tímidos,” o Barão continuou, com um sorriso que parecia uma máscara de cordialidade. “Greymane é um homem que já enfrentou horrores que vocês nem imaginam. Talvez, se forem educados, ele compartilhe algumas de suas histórias.”

O salão se fechava ao redor de Asher, os olhares, os murmúrios, e o toque do Barão em seu braço. Ele respirou fundo, contendo a crescente sensação de desconforto, enquanto observava os nobres se aproximando como uma matilha cercando um lobo solitário.


O quarto da estalagem estava repleto de sons abafados pela chuva que caía lá fora, escorrendo pelas janelas em um ritmo constante. Os quatro heróis haviam acabado de retornar, suas roupas encharcadas espalhando pequenos poços d’água pelo chão de madeira. Irene Lefou estava sentada sobre uma das camas, seus dedos deslizando distraidamente pelo pelo macio de Fieran, sua raposa. Ela conversava animadamente com Ludus, enquanto os outros três companheiros os observavam de diferentes pontos do quarto.

Ludus parecia não ter sido afetado pelo turbilhão de emoções do dia. Ele ria alto, fazendo gestos teatrais ao contar uma de suas aventuras da infância.

“Ah, vocês deveriam ter visto a cena,” ele dizia, sua voz cheia de entusiasmo. “Eu juro, aquelas frutas pareciam amoras! Só depois que já estava comendo meu quinto punhado, Irene apareceu gritando, ‘Ludus, seu imbecil! Essas coisas são venenosas!’” Ele lançou um olhar dramático para Irene, que balançou a cabeça com um sorriso.

“E eu tive que arrastar você pelo braço até o acampamento antes que desmaiasse,” ela acrescentou, rindo.

“Detalhes, detalhes,” Ludus replicou com um aceno desdenhoso. “O importante é que estou vivo, e essa história continua rendendo ótimas risadas.”

Seus amigos riram junto, mas o tom leve da conversa parecia destoar do peso da revelação recente. Ludus, no entanto, não demonstrava qualquer sinal de abatimento. Ele era a imagem de descontração, os ombros relaxados e o sorriso constante em seu rosto. Apenas Impetor, que o observava com olhos atentos, percebeu o que estava acontecendo de verdade.

Enquanto Ludus continuava suas histórias, o draconato cruzou os braços, seus olhos estreitando-se com a percepção. Ele conhecia o suficiente de dor e perda para saber como elas se manifestavam, mesmo quando mascaradas por um sorriso.

“Ludus,” ele chamou, com sua voz grave cortando a conversa.

“Sim, meu querido gladiador favorito?” Ludus respondeu, arqueando uma sobrancelha, ainda no tom brincalhão de sempre.

“Preciso de uma palavra com você. Agora.”

O clima no quarto mudou. Irene e os outros pararam de falar, lançando olhares curiosos enquanto Ludus, relutante, seguia Impetor até um canto mais isolado do quarto.

Impetor virou-se para Ludus, sua expressão firme e séria. Ele parecia estar escolhendo as palavras cuidadosamente, mas seu tom era incisivo.

“Você pode enganar os outros com suas piadas, mas não a mim,” ele começou. “Essa sua atitude... fazer graça de tudo, especialmente depois do que descobriu hoje... Você realmente acha que isso honra seu irmão?”

O sorriso de Ludus se apagou por um momento, mas ele o recuperou rapidamente, erguendo as mãos em defesa. “Ah, pronto. O cavaleiro de armadura brilhante vem me ensinar lições sobre moralidade.” Ele deu uma risada seca. “Impetor, eu sequer sabia que tinha um irmão até hoje. Como eu deveria honrar alguém que era praticamente um estranho?”

“Isso não importa,” Impetor insistiu, seus olhos brilhando de indignação. “Ele era seu sangue, e você o está reduzindo a uma piada.”

“Uma piada, é? Bem, que conveniente para você, Impetor,” Ludus retrucou, sua voz subindo de tom. “Você teve um breve momento com seu pai e herdou uma bela quantidade de ouro pra amenizar a dor. Eu? Tudo o que tenho é um sobrenome e pensando melhor... Nem isso, pois se não percebeu: Eu sou um bastarod! E quer saber? Nem todo mundo projeta uma vida não vivida com parentes mortos! Então agradeço suas considerações, mas você pode as guardar pra você!”

Impetor avançou um passo, sua presença intimidadora fazendo Ludus recuar levemente, mas o bufão não desviou o olhar. “Não projete sua raiva em mim, Ludus,” o draconato disparou, sua voz ressoando como um trovão no pequeno espaço. “Você está fugindo da dor. Eu vejo isso porque já fiz o mesmo. Mas acredite, continuar correndo só vai te destruir.”

Ludus ficou em silêncio por um momento, os dentes cerrados enquanto seu olhar oscilava entre desafio e algo mais profundo. Então, ele soltou um suspiro exasperado, passando a mão pelo cabelo molhado.

“Se for para me destruir, pelo menos será do meu jeito,” ele murmurou, antes de dar as costas a Impetor e retornar para o centro do quarto, onde Irene o aguardava.

Impetor ficou parado por um instante, suas garras cerrando-se em punhos, mas não disse mais nada. Em vez disso, ele apenas observou Ludus voltar à sua persona brincalhona, embora agora soubesse o quanto dela era uma fachada.

A noite havia chegado como um manto pesado, cobrindo o céu de nuvens escuras que competiam com os raros vislumbres da lua. Esta, cinco dias após sua plenitude, parecia uma moeda prateada imperfeita, quase inteira, mas com sua borda ligeiramente desgastada, como se um toque houvesse tentado apagá-la. A chuva caía fina, mas constante, batendo contra as janelas altas do casarão, enquanto relâmpagos distantes iluminavam o horizonte. Lá dentro, o ambiente era sufocante, cheio de risos exagerados, taças de cristal tilintando e palavras banhadas de veneno, disfarçadas como conversa cortês.

Asher estava encostado em uma das pilastras, observando os nobres em seu teatro. Cada gesto parecia coreografado, cada sorriso uma máscara. Ele mal ouvia as perguntas que lhe eram dirigidas, mas as palavras perfuravam mesmo assim, como farpas.

“Os Greymane eram...?” começou uma mulher de vestido bordado com pérolas.

“Cães de caça, não?” interrompeu o Barão Afanaz, com sua voz oleosa. “Sempre prontos para farejar o que os lordes desejassem. Era essa a função deles, se bem me lembro.”

Uma onda de risadas discretas percorreu o salão. Asher sentiu os olhos em si, como lâminas tentando abrir suas feridas. Ele respondeu algo curto e vago, sua voz vacilando, e virou o olhar para a lua. Por algum motivo, ela parecia mais próxima, mais brilhante. Sentiu o calor crescendo em sua pele, algo febril. O sangue rugia em suas veias como um rio indomável.

O Barão, percebendo sua hesitação, avançou com mais um comentário carregado de falsa admiração. “Ah, os Greymane... Sempre tão leais. Tão prestativos. Imagino que crescer entre eles deve ter sido uma experiência formativa. Diga-nos, Greymane, como foi carregar esse nome?”

Asher olhou de relance para o homem, tentando ignorar o nó que se formava em sua garganta. Respondeu com um murmúrio indistinto, mas o nervosismo estava claro em suas mãos, que apertavam o chicote enrolado em sua cintura. A lua chamava sua atenção novamente. Cada vez que seus olhos a encontravam, algo em seu interior rugia, primitivo e incontrolável.

“Um brinde, então!” anunciou Afanaz, erguendo sua taça com um sorriso que não alcançava os olhos. “Aos Greymane, aqueles que caçam até o fim. Que o destino deles sirva de lição... Ou inspiração.”

A taça brilhou com a luz dos candelabros, mas Asher não via mais o vinho nela. As palavras do Barão dançavam em sua mente como chamas, incendiando algo que ele havia tentado apagar. "Caçam até o fim." Ele sabia o subtexto. Era um golpe baixo, cruel, uma alusão à maldição que havia destruído sua família e agora o consumia.

Antes que pudesse se conter, o chicote estava em sua mão. Um estalo cortou o ar, e o dedo que segurava a taça do Barão voou pelo salão, acompanhado de um grito agudo de dor. O vinho escorreu pelo chão, misturando-se ao sangue. O silêncio foi imediato, exceto pelo som do chicote retornando à cintura de Asher, que agora respirava pesadamente.

Os olhares voltaram-se para ele. Os olhos de Asher brilhavam amarelos como os de um lobo, e pelos cinzentos surgiam em suas costeletas. Suas garras brilhavam sob a luz fraca, e presas afiadas reluziam quando ele cerrou os dentes. O ar ao redor parecia pulsar, carregado com a tensão de algo prestes a explodir.

O Barão Afanaz, mesmo segurando a mão ferida, forçou um sorriso para os nobres ao seu redor. “Então é verdade...” disse ele, teatralmente. “Realmente há uma maldição?”

O sussurro que percorreu o salão foi como um vento frio. Os olhares antes curiosos tornaram-se temerosos, e a sala parecia recuar de Asher. Ele era agora mais do que um homem entre nobres; era uma fera, uma ameaça. Exatamente como o Barão queria que ele fosse visto.

O silêncio que se seguiu foi denso, quebrado apenas pelos suspiros apreensivos e pelo som do vinho derramado no chão. À medida que os nobres recuavam de Asher, a luz da lua que entrava pelas grandes janelas atrás dele parecia abraçá-lo. Sua figura estava iluminada de forma surreal, como se ele fosse mais uma sombra da própria noite. Cada movimento que fazia, cada respiração, parecia em desacordo com o ambiente luxuoso ao seu redor, mais animalesco e primitivo, como um espectro nascido das profundezas de uma lenda esquecida. Eles recuavam em pânico, alguns com as mãos tremendo, outros simplesmente paralisados, mas nenhum conseguia desviar o olhar. Eles estavam hipnotizados, ainda que aterrorizados, pela criatura diante deles.

Alguns dos nobres abraçavam suas esposas, outras mulheres se afastavam para os cantos, mas seus olhos ainda estavam fixos em Asher, como se não conseguissem se libertar daquela visão. O Barão Afanaz estava agora com os lábios apertados em uma linha fina de raiva, seus olhos verdes ardendo como se o erro cometido por Asher fosse um ultraje intolerável.

“Guardas!” O Barão gritou, sua voz aguda cortando a tensão. “Abatam essa criatura!”

Sem hesitar, os soldados, que até então estavam em silêncio, avançaram para Asher com suas lâminas em punho. O som do metal sendo desembainhado ecoou pela sala, e Asher, de pé no centro da luz, parecia como um monstro forjado pelas próprias trevas, sua forma de licantropo já apresentando sinais, o ar pesado e carregado com o poder da transformação que se aproximava.

Ele puxou sua espada com um movimento rápido, o aço cortando o ar com precisão.

“Matem esse vira-lata amaldiçoado!” berrou o Barão, sua face contorcida em desprezo, tentando manter o controle, mas a cada palavra sua raiva transbordava mais.

Asher ficou em silêncio por um momento, sua respiração profunda e pesada. O calor no seu peito aumentava, a dor do fardo da maldição pesava cada vez mais. Olhou para o céu escuro, viu a lua quase cheia, e algo dentro de si se quebrou. Ele podia sentir sua alma se erguendo, sua força de vontade resistindo à fera que queria dominar seu ser.

“Não serei mais um prisioneiro dessa maldição!” Asher gritou, sua voz cheia de dor e clareza. "Esta noite, não sou mais o que vocês querem que eu seja. Não sou mais um cão, não sou mais um monstro!" Ele olhou para a lua, seu reflexo distorcido no vidro da janela, e então, com os olhos fechados, se entregou a um silêncio profundo. Quando ele abriu os olhos novamente, a ferocidade em seu olhar era diferente. Era uma chama, não uma chama consumidora, mas uma que ele agora controlava.

“Selune,” ele murmurou, uma oração abafada. “Me aceite como um dos seus. Me permite entrar no seu altar de prata. Não mais como uma besta selvagem, mas como um guerreiro sob seu comando. Eu não busco mais dor... Busco controle. Eu me entrego à sua luz, para que minha transformação seja a de um caçador, não de uma presa. Que minha fera seja minha aliada e não minha condenação.”

Os cabelos de Asher se ergueram, seus olhos brilharam com um tom dourado intenso. O ar se agitava ao seu redor enquanto ele começava a se transformar. Seus ossos estalaram, sua pele se esticou e, com um rugido primal, Asher se reergueu. Sua forma humana desapareceu, substituída por um lobisomem de proporções assustadoras. A fera que estava aprisionada dentro dele agora estava completamente livre, mas ele a dominava, usava sua força e seus sentidos a seu favor.

Com um rosnado feroz, Asher avançou contra os guardas. Sua espada cortou o ar com a agilidade de uma besta em movimento, e as lâminas dos soldados falharam em sua direção. Ele se movia com precisão e ferocidade, sua agilidade de lobisomem superior à velocidade humana dos guardas. Cada golpe, cada movimento, parecia orquestrado pela própria lua que brilhava no céu.

Mas mais guardas chegavam, mais espadas sendo desembainhadas. O número estava se tornando excessivo, e Asher sabia que não poderia manter a luta por muito tempo. Sentiu o peso do corpo se arrastando, a necessidade de escapar se tornando mais urgente. O som das lâminas cortando o ar, os gritos de dor, tudo isso se mesclava com os gritos de seu próprio sangue, pulsando nas veias.

Com um último olhar para os nobres e o Barão, Asher saltou pela janela, a força de sua transformação fazendo a estrutura do casarão tremer. Ele caiu na escuridão da noite, seus pés tocando o solo com a suavidade de um predador. O som da luta e da confusão ficou para trás enquanto ele fugia para a cidade, seu corpo moldado para a fuga. Ele estava livre da sala de tortura de nobres, mas a liberdade que agora sentia era complexa e cheia de dor. Porém, ele sabia que a partir de agora ele escolheria o que fazer com a maldição, não a maldição com ele.

O clima dentro da estalagem estava pesado, tenso. O eco da discussão recente ainda pairava no ar, como um manto que cobria os heróis, dificultando qualquer tentativa de retomada de normalidade. Os olhares ainda eram cautelosos, as palavras se tornando mais raras à medida que o desconforto se instalava no ambiente. O som do fogo crepitando na lareira parecia agudo demais, pontuando o silêncio pesado que caíra sobre todos.

Dahaka, que estava sentado em um canto, observando o ambiente, parecia incomodado, mas havia algo mais que se passava por trás de seus olhos — uma estratégia, talvez, uma necessidade de fuga. Ele olhou para os outros, tentando quebrar a tensão.

"Vocês notaram como Asher está demorando?" comentou, em um tom descontraído, ainda que forçado. "Acho que vou sair para investigar. Não quero ficar aqui sem saber o que está acontecendo lá fora."

Mas logo após suas palavras, o ambiente ficou mais tenso ainda. O som de batidas fortes e rápidas na janela cortou o ar. As batidas eram pesadas, como se algo grande estivesse ali fora. Impetor, que estava com os braços cruzados e os olhos fixos em Ludus, foi o primeiro a se mover. Seu corpo se esticou em um reflexo imediato, e ele puxou sua maça, os músculos tensos.

As batidas continuaram, mais fortes, mais rápidas, como um aviso crescente. Impetor se aproximou da janela, e os outros se entreolharam, conscientes do que poderia estar prestes a acontecer.

Com um movimento brusco, Impetor abriu a janela, e todos tomaram um susto. A figura que se revelou à sua frente era uma massa de músculos e pelos cinzentos, seus olhos amarelados brilhando sob a luz da lua que iluminava o lado de fora. O lobo de Selune, em toda a sua forma de licantropo, estava ali, de pé, em toda a sua grandeza, respirando com dificuldade, mas com uma aura de controle que não havia antes.

Ludus, como um reflexo de sua natureza, gritou alto, sua voz aguda e feminina em sua surpresa, e imediatamente se escondeu atrás de Irene. “Não, denovo! NÃO!” O medo em sua voz era inconfundível, e sua expressão era a de quem se via em um pesadelo repetido.

Asher, no entanto, com um esforço visível, olhou para os amigos com uma calma recém-adquirida, sua voz ainda grave, mas agora mais controlada. "Eu tenho controle sobre isso agora", disse ele, suas palavras vazando a tensão que o cercava. “Agora sou um lobo de Selune.”

Mor'Rein, sempre mais contido, deu um sorriso discreto, mas orgulhoso. Seu olhar para Asher era de aprovação silenciosa, um gesto de quem sabia o peso da transformação que seu amigo havia suportado e, agora, superado. Ele assentiu lentamente, o sorriso se ampliando enquanto observava Asher com uma confiança que estava apenas começando a ser reconhecida.

Asher respirou fundo antes de adicionar: “Fomos descobertos. Precisamos sair de Suzail agora, antes que eles cheguem.”

Impetor foi o primeiro a mover-se, já pronto para reagir à situação, mas não foi preciso. O grupo se preparou rapidamente. O tempo de discussões havia acabado. Os planos precisavam ser feitos com urgência, pois a ameaça estava se aproximando.

Ludus, ao ouvir a urgência de Asher, não hesitou. Ele foi até Irene e a chamou suavemente. “Irene, vem comigo. Vai ser como nos velhos tempos.”

Ela olhou para ele, uma expressão distante no rosto. "Eu preciso voltar para os Lefou. Meu lugar é lá," disse ela, com uma suavidade que contrastava com a tensão do momento. Ela olhou para o fundo de seu saco e tirou algo, um pacote pequeno, mas de grande valor. Era um baralho de cartas, com diversas imagens intrincadas desenhadas em suas faces.

“É um baralho mágico,” ela explicou, colocando-o nas mãos de Ludus. “Ele pode criar ilusões... talvez isso ajude em sua fuga.”

Ela se aproximou dele e, antes que Ludus pudesse reagir, plantou um beijo suave em sua bochecha. “Lembre-se sempre,” ela murmurou com um sorriso enigmático. “Na estrada, não se corre atrás da sombra do passado. O que vale é o caminho que se escolhe a cada passo.”

Ludus, tocado pela simples sabedoria da frase, completou o provérbio, mais como um lembrete para si mesmo do que uma resposta a Irene. “E quem escolher a estrada, deve ser o dono de seu próprio destino.”

A tensão, agora mais amena, ficou marcada pelo gesto silencioso entre eles. Com um último olhar para os amigos, Ludus colocou o baralho no bolso e se preparou para partir. O caminho à frente estava incerto, mas, pelo menos agora, eles estavam juntos.

A lua brilhava, intensa e cheia, como um símbolo silencioso do que os aguardava na jornada.

EPISÓDIO 16 - Banimento.

Data: 5 de Nightal, 1372 CV - 22h
Local: Proximidades de Suzail, Cormyr

A luz do fim da tarde se estendia sobre o rio tranquilo, refletindo o dourado do céu como se o mundo estivesse guardado em um espelho líquido. Ludus, com seus cabelos ruivos desordenados e um sorriso malicioso, equilibrava-se sobre uma pedra próxima à margem. Seus sapatos estavam jogados em algum lugar na grama, e ele chapinhava os pés na água fria enquanto imitava um velho comerciante que tinham visto no mercado.

"Estou lhe avisando... Se você não comprar essas belas sedas hoje, vai se arrepender amanhã! Olha só, 'promoção especial para cartomantes'!" Ele fazia uma voz caricata e gesticulava dramaticamente.

Irene, sentada em um tronco caído, revirou os olhos com um leve sorriso. O livro que ela mantinha nos joelhos estava fechado, e sua atenção agora recaía sobre Ludus, embora tentasse manter uma expressão séria. Ela era alta para sua idade, com cabelos negros bem trançados e uma presença calma que contrastava completamente com a energia caótica de Ludus.

"Se você vai me provocar, Ludus Lefou, pelo menos me deixe terminar de ler sua mão primeiro."

Ele se aproximou a passos largos, fingindo relutância, estendendo a mão em direção a Irene com exagero teatral.

"Tudo bem, tudo bem! Mas nada de prever tragédias ou mortes horríveis, hein? Só me diga que vou ficar rico e irresistível!"

Ela ignorou o comentário e segurou sua mão com firmeza, examinando as linhas como se fossem mapas de mundos distantes. O silêncio que caiu entre eles era confortável, mas carregado de algo que Ludus não conseguia nomear.

"O que foi? Algum dragão vai me morder amanhã?"

Irene ergueu os olhos para ele, sérios agora, como se estivesse enxergando além do garoto despreocupado diante dela.

"Você tem um futuro difícil, Ludus."

O sorriso no rosto dele hesitou. Ele tentou disfarçar com outro gracejo, mas a intensidade do olhar de Irene o calou.

"Você vai duvidar de muitas coisas. Vai se sentir como... uma ilha. Isolado. Sozinho."

Ludus puxou a mão, brincando com as palavras para mascarar o desconforto.

"Você está lendo minha mão ou tentando escrever um poema triste? Porque, olha, se for isso, tá ficando meio clichê."

Ela sorriu com um toque de tristeza.

"Você não é uma ilha, Ludus. Você é uma ponte."

Ele não respondeu. O silêncio ao redor do rio cresceu enquanto ele desviava os olhos para a água, subitamente inquieto. Irene abriu o livro novamente, mas não voltou a ler, apenas observando Ludus com ternura e preocupação.

A cena desapareceu como uma pintura sendo lavada pela chuva.

Agora, em 5 de Nightal, Ludus olhava pela janela da carruagem harpista, o balanço das rodas na estrada quebrando o silêncio da noite. O baralho de Irene estava em suas mãos, as cartas dançando entre seus dedos habilidosos. Ele as embaralhava, mas não com a energia usual de alguém pronto para mais uma de suas artimanhas. Havia um peso em seus movimentos, uma gravidade que ele raramente demonstrava.

As estrelas começavam a surgir no céu chuvoso, pontuando a escuridão crescente enquanto Suzail desaparecia ao longe. Seus amigos estavam próximos, cada um perdido em seus próprios pensamentos. O destino deles agora era a base harpista, mas, por um momento, Ludus parecia estar em outro lugar. Talvez próximo a um rio, muitos anos atrás, ouvindo uma voz que ainda ecoava em sua memória.

Ele olhou para as cartas novamente e sussurrou baixinho, para si mesmo:

"Uma ponte, hein?"

A carruagem continuou sua jornada pela estrada molhada, levando-os para o local aonde tinham mais próximo de refúgio agora.

Sob a luz trêmula das tochas da base Harpista, os heróis finalmente encontraram um refúgio para descansar. A chuva persistente tamborilava no telhado e fazia os Cavaleiros de Grifos, que patrulhavam o céu, parecerem fantasmas perdidos na tempestade. Lá dentro, o calor dos banhos e o aroma amadeirado do lugar acolhiam o grupo, aliviando as tensões acumuladas nos últimos dias em Suzail.

Dahaka permaneceu por mais tempo que o necessário sob a água quente do banho, o vapor preenchendo a sala ao seu redor enquanto ele olhava fixamente para o teto, como se quisesse enxergar através dele. As lembranças de Hamura, sua mãe, surgiam em sua mente como sussurros teimosos, acompanhadas pela visão dos Akmenos e a certeza de que estavam mais próximos do que ele gostaria. Ele sabia que Hamura não era do tipo que perderia a chance de se aproveitar da situação caótica em Suzail, e a ideia de reencontrá-la o fazia sentir um peso no peito que não conseguia ignorar. "Será que ela está por aqui? Jogando algum jogo enquanto eu caminho às cegas?" murmurou para si mesmo. A água escorria pelo rosto enquanto ele tentava organizar seus pensamentos, mas a confusão permanecia. Por fim, suspirou, pegou a toalha e saiu do banho, sua mente ainda girando com possibilidades que ele preferia não enfrentar.

No quarto ao lado, Impetor mexia mecanicamente em sua maça, girando-a entre os dedos enquanto estava sentado à beira da cama. As palavras de Ludus ecoavam em sua mente como marteladas incessantes, cada uma desafiando seu orgulho de gladiador. A discussão ainda o incomodava profundamente, e ele se pegava repetindo os argumentos na cabeça, tentando convencer a si mesmo de que não havia errado. Ludus não entendia o que significava carregar o peso de um legado. "Ele fala como se fosse tão fácil...", murmurou, mas mesmo suas palavras soavam ocas. Frustrado, ele se deitou, tentando deixar o cansaço vencê-lo, mas a verdade que Ludus jogara em seu rosto continuava a queimá-lo.

No salão principal, Mor’Rein se afastava em silêncio, encontrando uma janela aberta para olhar a chuva que caía lá fora. O som das gotas batendo no vidro parecia criar uma melodia que o acalmava, um contraste com os sussurros constantes do seu patrono, que finalmente pareciam ter desaparecido. Pela primeira vez em meses, ele sentia sua mente mais clara, mais conectada ao mundo ao seu redor. Mesmo assim, a sensação de vazio era palpável, como se algo ou alguém estivesse faltando. Ele passou a mão no vidro, traçando formas aleatórias que remetiam a tentáculos enquanto sua mente se voltava para uma pergunta que parecia cada vez mais urgente: "Onde está você?" Sua voz quase não passava de um sussurro, mas carregava toda a melancolia que ele sentia. Ficou ali por mais algum tempo, apenas observando a noite, antes de voltar lentamente para seus aposentos.

Ludus, por sua vez, estava diante de uma pequena penteadeira, o reflexo no espelho devolvendo-lhe um olhar que não parecia tão vibrante quanto o usual. Ele tinha o baralho de Irene em mãos e, conforme as cartas deslizavam entre seus dedos, as memórias de Maokada começaram a invadir sua mente como sombras insistentes. O rosto do meio-irmão morto, o som da adaga sendo cravada e, principalmente, o vazio deixado por sua perda faziam o bardo apertar os lábios, como se tentasse sufocar essas lembranças. Ele respirou fundo e sorriu para o espelho, embora fosse um sorriso forçado. "Antes ele do que eu." Com um gesto decidido, começou a aplicar sua maquiagem, cada pincelada parecendo trazer de volta a persona confiante que todos conheciam. Quando terminou, o sorriso agora era convincente, e ele balançou a cabeça, murmurando para si mesmo: "Uma ponte..."

Enquanto isso, no quarto mais afastado, Asher se posicionava diante de um espelho, observando seu reflexo com uma mistura de orgulho e alívio. Mesmo na forma humana, ele sentia a presença da maldição em si, mas dessa vez, não como uma prisão. Ele abriu a janela, deixando que o ar fresco e úmido da chuva preenchesse o ambiente, enquanto seus olhos se voltavam para a lua que surgia por entre as nuvens. "Selune...", começou, sua voz carregada de gratidão, "obrigado por isso." Ele sentiu uma leve brisa tocar sua testa, quase como se fosse um beijo da deusa, e sorriu. Pela primeira vez em muito tempo, ele não se sentia um monstro, mas alguém capaz de moldar seu próprio destino.

A base Harpista, apesar de modesta, parecia um pequeno santuário para almas cansadas. A noite avançava, e a chuva persistente embalava os heróis em um raro momento de introspecção e descanso. Mas, mesmo ali, cada um carregava suas próprias tempestades internas, preparando-se para o que estava por vir.

O amanhecer trouxe consigo uma névoa fina que pairava sobre a base Harpista, como se o próprio mundo hesitasse em começar o dia. As luzes suaves das tochas ainda ardiam nas paredes de pedra, lançando sombras dançantes nos corredores. Na sala redonda, os heróis esperavam Horsuk, que os convocara para discutir o próximo passo. O clima no interior do cômodo era tão denso quanto o ar úmido lá fora, e a tensão entre Ludus e Impetor era palpável.

Os dois evitavam o contato visual como se um simples olhar pudesse acender outra discussão. Ludus, aparentemente indiferente, mexia em seu novo baralho de cartas, embaralhando-as com precisão automática, mas sem o brilho característico de suas brincadeiras. Impetor, por sua vez, estava sentado rigidamente em uma cadeira de madeira, sua maça descansando sobre os joelhos. Ele mantinha os olhos fixos em um ponto indefinido da parede, sua mandíbula travada como se estivesse contendo uma tempestade.

Mais afastados, Mor’Rein, Asher e Dahaka observavam a situação com expressões que variavam entre diversão e cansaço. Mor’Rein, encostado em uma das janelas, traçava formas na condensação do vidro com um dedo, enquanto Asher mantinha um sorriso discreto, claramente achando graça do desconforto. Dahaka, de braços cruzados, bufava de tempos em tempos, impaciente com o clima pesado.

"Engraçado," começou Mor’Rein, quebrando o silêncio com sua voz calma e melodiosa, "parece que Ludus está lidando com o luto de Arien Thernar de um jeito que o Impetor definitivamente não aprova." Ele lançou um olhar significativo para Asher, que arqueou uma sobrancelha.

"Seja como for," respondeu Asher, em tom ponderado, "Impetor acabou de perder o pai também. Talvez ele só não tenha paciência para as... Anedotas de Ludus."

Mor’Rein inclinou a cabeça, como se considerasse a ideia. "Isso, e talvez a pequena cena na caverna de Miro’San ainda pese. Não sei, fabricar a ilusão de um espírito paternal talvez não seja o melhor jeito de dar o pêsames para alguém." Sua voz estava carregada de ironia, mas havia uma ponta de verdade ali.

Dahaka revirou os olhos dramaticamente e soltou um longo suspiro. "Sério, vocês estão fazendo uma tempestade num copo d’água. Quando meu irmão morreu, eu não fiz metade dessa cena, e ninguém ficou de beicinho por isso."

Asher virou-se para ele, um sorriso quase provocador nos lábios. "Isso foi antes ou depois de ele te torturar na infância, Dahaka? Só para termos um contexto melhor."

Mor’Rein riu suavemente e completou, com um toque de malícia: "Sem falar que, pelo que me lembro, foi você mesmo que matou o seu irmão, não foi?"

Dahaka bufou novamente, jogando as mãos para o alto. "Vocês adoram trazer isso à tona, não é? Como se fosse uma terapia de família ou algo assim." Ele cruzou os braços mais apertados e balançou a cabeça. "Tá bom, tá bom, maçãs e peras, certo? Ainda assim, não consigo entender essa frescura toda."

A tensão diminuiu um pouco com as provocações, mas os ecos das emoções não resolvidas entre Ludus e Impetor ainda pairavam no ar, prometendo complicações futuras. O som de passos pesados ecoou pelo corredor, anunciando a chegada de Horsuk, e todos endireitaram as posturas, prontos para o próximo movimento.

O som de passos leves e rápidos ecoou pelo corredor antes que Horsuk aparecesse na porta. Pequeno em estatura, mas carregando uma presença notável, o gnomo entrou na sala redonda. Sua túnica azul-escura parecia ainda mais pesada do que o habitual, como se refletisse o peso das informações que ele carregava. Apesar de magricela, havia algo nos olhos astutos de Horsuk que fazia até os mais durões endireitarem a postura.

"Bem," ele começou, com a voz aguda, mas firme, enquanto puxava uma cadeira para si. "Imagino que tenham sobrevivido por uma boa razão, não? Vamos direto ao ponto. O que descobriram?"

Os heróis trocaram olhares antes que Asher desse um passo à frente.

"Haroldo Benthor não é apenas oportunista," começou Asher, sua voz cheia de seriedade. "Ele está usando a praga necromântica para fortalecer sua posição. Os nobres que poderiam questionar seus movimentos? Eles estão morrendo – e não de causas naturais."

Dahaka, que até então permanecera encostado na parede com uma expressão casual, interrompeu: "Não só isso. A praga está sendo... redirecionada. Manipulada. Se não for pelo próprio Benthor, é por alguém que está trabalhando com ele. E adivinha quem surge no meio de tudo isso? O Clã Akmenos."

Horsuk estreitou os olhos e gesticulou para que ele continuasse.

"Mais especificamente, Hamura," disse Dahaka, inclinando-se para frente com um sorriso forçado. "Agente dupla, talvez até tripla. Está metida com Benthor, com os Zentharim e, possivelmente, agindo por conta própria. Ainda não sabemos o quanto ela está jogando em benefício próprio, mas posso garantir uma coisa: ela é boa no que faz."

A menção de Hamura trouxe um silêncio momentâneo à sala. Horsuk pousou as mãos entrelaçadas sobre a mesa, pensativo.

"Se Hamura está mesmo jogando de todos os lados," disse ele calmamente, "ela representa um perigo maior do que imaginávamos. Ela conhece os métodos dos Zentharim e sabe como manipular informações, talvez até entre os poderosos de Cormyr. Dahaka, seu nome pode abrir portas nessa investigação, mas também colocá-lo na mira. Tome cuidado. Vocês todos, na verdade."

Dahaka sorriu com um toque de ironia, mas a seriedade no subtexto do gnomo não passou despercebida.

"Quanto à praga necromântica," continuou Horsuk, voltando-se para o grupo, "não se enganem. Este mal é real e profundo. Se Benthor a está usando como cortina de fumaça ou arma, precisamos entender como ele está se beneficiando dela. Isso significa descobrir as conexões entre os necromantes por trás dessa calamidade e o conselho que ele lidera."

Ludus finalmente quebrou seu silêncio, embaralhando distraidamente as cartas em suas mãos. "Então, o que fazemos agora? Apenas investigar mais, como sempre? Porque se Benthor é tão perigoso quanto dizem, talvez precisemos agir antes que ele acabe com o que resta de Cormyr."

Horsuk inclinou-se levemente para frente, sua expressão ficando ainda mais séria. "Agir sem informação é o mesmo que andar em areia movediça. Vocês já fizeram avanços importantes, mas precisamos de mais certezas antes de movermos nossas peças finais. O próximo passo deve ser estratégico. Concentrem-se em Hamura. Descubram onde ela está e o que pretende. E mais importante: se for necessário, neutralizem-na antes que ela faça mais estragos."

Ele olhou para cada um dos heróis, seu olhar penetrante transmitindo a gravidade da situação.

"Se Benthor conseguir consolidar seu poder, Suzail não terá chance contra essa praga. Vocês são os únicos que podem impedir isso. Sejam cuidadosos. Confiem uns nos outros."

Horusk coça sua longa barba branca. Ele respira fundo antes de retomar o assunto:
"Apesar da reputação do clã Akmenos como mestres da dissimulação, todos cometem deslizes. O truque é saber onde procurar. Podemos rastreá-los interrogando os últimos com quem eles se aliaram: os Zhentarim."

Ele olha para os heróis com seriedade, pausando por um momento para medir suas reações.
"Graças ao nosso velho amigo Guldaim, temos uma pista. Yizk, o assassino Zhentarim que emboscou vocês na Floresta de Hullack, está em Cormyr. Ele está encerrando negócios antes de retornar ao Forte Realm. Temos que detê-lo. Ele pode nos dar mais informações sobre os laços entre os Akmenos e os Zhentarim."

Horusk então se endireitou na cadeira e continou. "Guldaim também me informou que Yizk está renegando seus serviços a Ercals e fazendo uma anistia a Pareghost."

Ludus, com uma expressão de confusão, gesticula teatralmente. "Pare... quem?"

Dahaka esboça um sorriso irônico, aproveitando a oportunidade de compartilhar seu conhecimento. Ele se inclina para frente, a luz do fogo refletindo em seus olhos enquanto fala:
"Pareghost. Esse nome soa como um sussurro vindo das sombras mais profundas de Faêrun. Ele é uma figura de poder entre os Zhentarim, um paladino com uma ambição que vai além do comum. Após a queda de Zhentil Keep e o enfraquecimento da influência direta de Manshoon, Pareghost emergiu como um líder entre os sobreviventes do caos. Mas ele não é como os outros. Ele não está apenas consolidando poder, ele está reformulando os Zhentarim."

Dahaka faz uma pausa, o ambiente ficando ainda mais carregado. "Ele tem bases como o Forte Realm e Darkhold, locais estratégicos para o que parece ser uma nova era de domínio. Para muitos, ele é apenas um mito. Mas para aqueles que cruzaram seu caminho, ele é muito real. Se Yizk agora presta lealdade a Pareghost, isso significa que algo grande está em movimento, algo que os Akmenos podem estar explorando."

O silêncio paira sobre o grupo, quebrado apenas pelo som do crepitar do fogo. Horusk, com a expressão pensativa, acrescenta:
"Se quisermos entender o que Hamura e os Akmenos estão tramando, não podemos permitir que Yizk escape. Este é o nosso próximo passo."

Os heróis trocam olhares, a gravidade da situação clara em seus rostos. O peso da próxima missão já se fazia sentir, como a névoa do lado de fora da base.

Impetor se recosta na cadeira, cruzando os braços enquanto encara Horusk. "E como exatamente vamos encontrar esse tal de Yizk?"

Horusk, sempre calmo, levanta-se e faz um gesto largo em direção à porta. "Ah, jovem gladiador, por isso vocês têm a mim. Venham comigo." Ele abre a porta e segue pelo corredor, guiando os heróis.

Adanarag.
A chuva, ainda caindo suavemente, cria poças no pátio onde eles são conduzidos. Sob a luz difusa do céu nublado, três figuras os aguardam. A primeira é um meio-orc corpulento, usando um turbante surrado e óculos de proteção contra tempestades, claramente desgastados pelo tempo e pela areia. Ele está de pé com uma postura ereta, carregando um livro encadernado de couro.

Ao lado dele, um elfo de cabelos loiros, trajando roupas tribais e uma bandana verde enrolada na cabeça, acaricia a cabeça de uma criatura peculiar. A pele dela é branca como a neve, com garras longas e uma postura predatória, mas com olhos brilhantes de inteligência curiosa. Seu rabo balança levemente enquanto observa o grupo.

Horusk para a poucos metros deles, virando-se para os heróis. "Permitam-me apresentá-los. Esses são Adanarag e Althus. Eles têm um histórico pessoal com Yizk. A terceira integrante da equipe deles... foi assassinada por ele."

Althus Maihell e 
Salochin.
O gnomo abaixa a cabeça por um momento em respeito, antes de se recompor. "Adanarag é um clérigo de Gruumsh, mas não se deixem enganar pelas aparências. Apesar de suas raízes entre os bedines e orcs, ele é um estudioso com uma mente tão afiada quanto suas preas. Althus, por outro lado..." Ele faz um gesto para o elfo. "... é de Chult. Especialista em rastreamento e natureza. O que o torna único, no entanto, é seu companheiro animal. Ele chama essa beleza de Salochin."

Althus sorri com autossuficiência, cruzando os braços. "Ela tem mais cérebro que muitos aventureiros por aí, digo isso com certeza."

Impetor olha para Adanarag, sentindo a necessidade de impressionar. Ele se aproxima, inflando o peito. "Saudações, guerreiro. Convivi com orcs no Coliseu Ragrinof, então..." Ele começa a falar algumas palavras em dialeto orc, com uma pronúncia hesitante, mas entendível.

Antes que Adanarag possa responder, Mor'Rein intervém. Ele faz uma reverência com fluidez e também saúda o clérigo em orc, suas palavras saindo com surpreendente naturalidade.

Impétor vira-se, incrédulo. "Por que diabos VOCÊ fala orc?!"

Mor'Rein dá de ombros, um sorriso misterioso brincando em seus lábios. "Segredos , Impetor."

Althus solta uma risada enquanto Adanarag apenas ajusta seus óculos com calma, observando o grupo. Horusk tosse, tentando retomar a seriedade. "Agora que as apresentações estão feitas, vamos ao que importa. Tempo é essencial, meus amigos."

A chuva continuava a cair no pátio, uma melodia suave contra a tensão que pairava no ar. Horusk observou o grupo por um instante, com o olhar grave, antes de dizer:

"Vou deixá-los por um tempo. Precisam se preparar. Planejem com cuidado." Ele virou-se e partiu em passos rápidos, desaparecendo na direção do quartel.

Os heróis se entreolharam por um momento, ainda tentando compreender a dinâmica dos dois estranhos à sua frente. Adanarag quebrou o silêncio ajustando os óculos e falando com uma voz profunda e refinada.

"Imagino que tenham perguntas. Vamos poupá-los de suposições." Ele apontou para Althus. "Este é Althus, um guia excepcional e um aliado... peculiar."

"Você quis dizer 'insubstituível'," corrigiu Althus com um sorriso irônico, recostando-se contra uma coluna de pedra e cruzando os braços. Salochin, ao lado dele, rosnou baixinho, como se ecoasse a confiança de seu dono.

Ludus foi o primeiro a falar, os olhos curiosos saltando entre a fera e o elfo. "Por que sinto que há uma história interessante por trás desse... er... 'companheiro'?"

Althus riu, um som curto e confiante. "Ah, Salochin? Ela é a última ligação que tenho com minha terra natal, Chult. Já ouviram falar de uma ilha sufocada por selvas, onde até as árvores querem devorá-lo vivo? Pois é. Eu cresci lá."

"Chult?" Dahaka ergueu uma sobrancelha. "O que diabos trouxe você para este lugar desolado?"

O sorriso de Althus diminuiu levemente, e ele olhou para o chão por um instante. "Ganância humana. Minha vila foi dizimada por caçadores de escravos, vocês os conhecem como a Rede Negra ou Zentharim, eles precisavam de trabalhadores para as minas de ouro. Eu fugi, mas não sem perdas." Ele acariciou a cabeça de Salochin. "Acabei em um navio que me trouxe até Cormyr, perdido, mas determinado a nunca mais ser preso a ninguém."

"O destino é cruel, mas às vezes concede aliados inesperados." Adanarag interveio, seus olhos fixos em um ponto distante. "Minha história não é tão diferente. Os mantos negros sempre foram um problema para o meu povo, os Bedine, mas tudo piorou quando tivemos que lutar simultaneamente contra os mortos-vivos, eles eram implacáveis. A praga dizimou minha tribo. Quando não havia mais ninguém, os orcs do meu pai me encontraram. Entre eles, tornei-me um escolhido da tempestade através de um ritual sagrado."

"As vezes me esqueço do alcance dessa praga." Mor'Rein inclinou a cabeça, sua expressão indecifrável. "Como vocês dois se uniram?"

"Ah, isso é uma história," disse Althus, endireitando-se. "Ambos tinhamos nossas diferenças com os Zentharim. Eu rastreei o desgraçado até uma fortaleza no deserto, onde cruzei com Adanarag e sua... parceira."

O rosto de Adanarag endureceu, e ele respirou fundo. "Era Samira, uma guerreira implacável. Lutamos juntos em diversas batalhas, mas Yizk a tirou de nós. Foi ele quem liderou o ataque final contra nossa equipe. Desde então, juramos vingança."

"Então, vocês se juntaram a Horusk por causa disso?" Asher perguntou, os braços cruzados.

Adanarag assentiu. "Horusk viu potencial em nossa habilidade de trabalhar em conjunto. E a necessidade de justiça contra Yizk nos uniu ainda mais."

"Justiça, ou vingança?" Dahaka perguntou, o olhar afiado.

"Às vezes, são a mesma coisa," disse Althus com um sorriso curioso se formando nos lábios.

Asher bateu palmas, tentando quebrar a tensão crescente. "Muito bem, temos dois aliados formidáveis e uma missão perigosa. Sugiro que comecemos a planejar como vamos pegar esse maldito Yizk."

Adanarag sorriu levemente. "Concordo. Que a tempestade nos guie."

Os heróis se acomodaram ao redor da mesa improvisada no centro do pátio, ainda sob o som da chuva ao longe. As tochas tremulavam com a brisa, enquanto o grupo se concentrava nas palavras de Althus, que revelava detalhes sobre o encalço de Yizk.

"Nosso último passo para rastreá-lo nos levou ao conhecido amigo anão de vocês: Guldaim," explicou Althus, com a voz calma e controlada. "Ele possuí uma rede de contatos impressionante em Cormyr. Ele confirmou que Yizk está em uma nova missão... e com um novo alvo."

"Azerd Hawthorn," completou Adanarag, sua voz ressoando firme. "Um sacerdote de Cyric. Ele atua como um falso profeta, espalhando a palavra do Príncipe das Mentiras e fortalecendo os laços com Dhamir Ercals."

"Yizk tem um motivo claro," continuou Althus. "Para provar sua devoção a Pareghost, ele deve eliminar Azerd. Sabemos disso porque investigamos uma pista fornecida por Guldaim... enquanto vocês estavam em Suzail, tivemos essa confirmação."

Um silêncio pesado caiu sobre o grupo, quebrado apenas pela respiração compassada de Asher. Ele inclinou-se para frente, os olhos brilhando com determinação. "Se sabemos o alvo, temos uma vantagem. Precisamos localizá-lo e interceptar Yizk antes que ele complete a missão. Aqui está o que faremos."

Ele apontou para Althus. "Você pode tentar falar com Guldaim e os contatos dele. Use-os para descobrir os locais que Azerd frequenta ou onde ele pode estar escondido. Se possível, descubra seus horários e rotas."

Virando-se para Dahaka, Asher continuou: "Você vai se infiltrar na rede de seguidores de Cyric. Se ele é um sacerdote ativo, terá cultistas ou fiéis ao redor. Descubra o que puder sobre as operações e relacione qualquer nome a Azerd."

"Entendido." Dahaka sorriu, seus olhos cintilando com malícia. "Adoro esse tipo de trabalho."

"Asher," interveio Ludus, erguendo uma mão teatral. "E onde eu entro? Alguma tarefa de alto risco, talvez?"

"Com certeza," respondeu Asher, com um meio sorriso. "Você e Mor'Rein serão responsáveis por criar uma distração no local quando o encontrarmos. Algo que chame atenção suficiente para cobrir nossos movimentos, mas não exponha nossa posição."

"Eu nasci para isso!" exclamou Ludus, enquanto Mor'Rein assentia silenciosamente.

"Adanarag," continuou Asher, virando-se para o homem alto. "Você e eu seremos a força principal. Quando Yizk aparecer, precisaremos enfrentá-lo de frente... se isso for parte do plano."

Adanarag assentiu. "O peso da tempestade estará com você, Paladino."

"E eu?" perguntou Impetor, cruzando os braços. "Vai me deixar de fora da briga?"

"De forma alguma," disse Asher. "Você estará conosco mas não na linha de frente. Sua força será crucial, nosso trunfo, especialmente se Yizk trouxer reforços."

"Agora estou gostando mais desse plano." Impetor sorriu, já empolgado pela ideia do combate.

"Finalmente," concluiu Asher, olhando para todos. "Nosso objetivo é simples: interceptar Yizk antes que ele mate Azerd. Se possível, capturamos Yizk vivo para obter informações sobre os planos de Pareghost e a possível queda de Dhamir Ercals. Se não for viável, então acabamos com ele. Alguma pergunta?"

O grupo trocou olhares, com expressões de determinação e entusiasmo. Era evidente que estavam prontos para o desafio. Althus, com um sorriso confiante, murmurou: "Se for tão fácil quanto você faz parecer, talvez eu finalmente consiga descansar."

Adanarag cruzou os braços, mas um lampejo de humor dançou em seus olhos. "Horusk não exagerou em suas palavras ao elogiar suas capacidades."

A chuva, já distante, era apenas um sussurro no horizonte enquanto os heróis se dispersavam após a reunião. O plano de Asher era claro como a lâmina de uma espada recém-forjada, mas o tempo não era seu aliado. Cada segundo contava. Sem descanso, eles se lançaram em diferentes direções, movidos por um propósito comum: interceptar Yizk antes que ele deixasse outro rastro de sangue em sua trilha de devoção.

Althus foi o primeiro a agir, movendo-se com passos determinados pela estrada enlamaçada que conduzia ao vilarejo próximo à base dos Harpistas. O pequeno assentamento parecia ainda despertar sob o manto matinal, com exceção de uma única taverna, de onde escapavam risadas, vozes animadas e o som abafado de canecas de cerveja tilintando. O anão que ele procurava, Guldaim, com certeza estava lá.

O interior da taverna era abafado, impregnado pelo cheiro forte de cerveja e fumaça de tabaco. Guldaim estava sentado no canto, o capuz jogado para trás revelando o rosto marcado de cicatrizes e uma barba loira, entrelaçada com miçangas de prata. Seus olhos atentos varriam o ambiente, uma mão apoiada na caneca, enquanto a outra descansava próxima ao punho de uma adaga discreta, mas letal.

“Guldaim,” disse Althus em voz baixa, inclinando-se sobre a mesa. “Preciso de mais informações.”

O anão levantou os olhos, um brilho cauteloso no olhar. “Se está aqui, Althus, é porque a situação é mais feia do que parece.” Ele fez um gesto para que o cavaleiro se sentasse. “Fale.”

Althus resumiu rapidamente a situação. "Os seus amigos que lhe ajudaram com Calobri retornaram, estão prontos para partir atrás de Yizk na cerimônia de Azerd". As palavras de Althus fizeram o semblante de Guldaim endurecer.

“Azerd... aquele rato imundo de Cyric,” murmurou Guldaim, esfregando a barba. “Não é segredo que ele está se fortalecendo por essas bandas, atraindo os desesperados e os corrompidos. Mas se Yizk está atrás dele...” Ele pausou, tomando um gole da cerveja, e então fixou os olhos em Althus. “Vocês têm noção do que estão enfrentando?”

“Sabemos que Yizk é um assassino formidável e ardiloso. Mas com você do nosso lado, talvez possamos mudar as probabilidades,” disse Althus, mantendo a voz firme.

Guldaim soltou uma risada seca. “Formidável é uma palavra leve para aquele maldito. Eu o vi em ação mais de uma vez, Althus. Ele não apenas mata; ele desmonta, desmantela o inimigo, física e psicologicamente. Yizk não é um assassino comum. Ele é uma mente fria e calculista, cada movimento dele é uma jogada de xadrez. Enquanto você pensa em atacá-lo, ele já está três passos à sua frente.”

“Então, ajude-nos a alcançá-lo antes que seja tarde demais,” insistiu Althus.

Guldaim respirou fundo, os dedos tamborilando na mesa. “Azerd opera em um antigo distrito mercantil, algumas milhas ao sul daqui. Ele usa um templo em ruínas como fachada para seus rituais. Fiquei sabendo disso por um contato há poucas semanas. Se Yizk estiver atrás dele, ele vai esperar o momento certo: o ápice de um ritual, quando a atenção de Azerd estará completamente desviada. Eu diria que vocês têm até a meia-noite para chegar lá.”

“E o que mais sabemos sobre o local?” Althus perguntou.

“Cultistas. Muitos deles. Azerd raramente está sozinho, e esses seguidores são fanaticamente leais. Mas,” Guldaim inclinou-se, a voz baixa e sombria, “não se preocupem apenas com os cultistas. Yizk adora usar o caos a seu favor. Ele já deve estar preparando armadilhas para qualquer um que tente interferir.”

Althus assentiu, absorvendo cada palavra. “Obrigado, Guldaim. Sua ajuda é inestimável.”

“Não me agradeça ainda,” respondeu o anão, cruzando os braços. “Se vocês falharem, não será apenas Azerd que perecerá. Yizk não deixa testemunhas vivas. Se ele souber que estão no caminho, virá por vocês.” Ele fez uma pausa antes de completar, com um meio sorriso: “Mas se alguém pode lidar com ele, são vocês. Prove que estou certo, Althus.”

O elfo ergueu-se, inclinando a cabeça em sinal de respeito. “Nós não falharemos.”

Enquanto deixava a taverna, Althus sentia o peso das palavras de Guldaim ecoarem em sua mente. O relógio corria, e agora mais do que nunca, o sucesso dependia de cada passo ser calculado à perfeição.

No quartel dos Harpistas, o ambiente era carregado com a atmosfera de urgência típica de tempos de crise. O salão principal, com suas estantes abarrotadas de pergaminhos e mapas antigos, ecoava com o som abafado de passos e sussurros estratégicos. Althus estava de pé ao lado de uma mesa coberta de anotações desordenadas, enquanto Dahaka, encostado em uma sombra próxima, ouvia com atenção.

"Guldaim confirmou," começou Althus, a voz baixa, mas firme. Ele apontou para um mapa desgastado sobre a mesa, onde uma pequena marcação indicava a localização do ritual. "Azerd Hawthorn está se escondendo em um templo em ruínas, algumas milhas ao sul. Ele pretende realizar um ritual à meia-noite. Yizk não é só ardiloso, ele sabe escolher seus momentos. Esse será o cenário ideal para o golpe dele."

Dahaka inclinou-se para frente, os olhos brilhando com curiosidade e uma pitada de desconfiança. "Eu andei pensando..." Ele cruzou os braços, o semblante pensativo. "Conheço os seguidores de Cyric. Há um culto pequeno em Arabel. Não são grandes em número, mas a devoção deles é... inquietante. Aposto que eles já estão cientes do ritual. Se Azerd lidera isso, eles com certeza estarão envolvidos."

Althus franziu a testa. "Você tem certeza? Um culto em Arabel pode não parecer grande coisa, mas qualquer ajuda a Azerd nesse momento pode complicar nosso plano."

Dahaka deu um meio sorriso, inclinando a cabeça como se considerasse o comentário. "Tenho certeza. Essas coisas não acontecem no vácuo, Elfo. Cultos assim não existem isolados; são teias de aranha. E esse... está perto demais para ser ignorado."

Por um momento, o salão ficou em silêncio, exceto pelo farfalhar distante de papéis manuseados por Harpistas. Finalmente, Dahaka endireitou-se, afastando-se da parede com a graça fluida de um predador. "Se vamos fazer algo sobre isso, eu posso investigar. Não preciso de muito tempo para descobrir o que estão tramando em Arabel."

Althus assentiu lentamente, avaliando a determinação nos olhos de Dahaka. "Mas cuidado. Os Harpistas já são alvos, e Yizk tem olhos em todos os lugares. Precisamos de informações, não de outro problema."

Dahaka riu, um som baixo e quase divertido. "Problemas são minha especialidade. Mas vou tentar me comportar... desta vez."

Ele ajustou o capuz, apagando suas feições na penumbra do salão, e desapareceu na noite como uma sombra. O destino agora o levaria até Arabel, onde esperava não apenas confirmar suas suspeitas, mas também encontrar os primeiros fios da teia que Yizk tecia ao redor do ritual.

Enquanto o grifo descia com um movimento fluido, suas asas cortando o ar noturno com um zumbido baixo, Dahaka preparava-se para desembarcar. A criatura aterrissou silenciosamente nos arredores de Arabel, e o Tiefling saltou, flexionando as pernas para suavizar o impacto. Ele lançou um olhar ao redor, absorvendo o cenário emoldurado por edifícios desgastados e ruas estreitas iluminadas apenas pelo brilho tênue das lanternas. O As de Horusk, um homem calado que conduzia o grifo, ergueu a mão em despedida antes de desaparecer na escuridão, deixando Dahaka por sua conta.

Avançando para a cidade, Dahaka ajustou o capuz sobre a cabeça, escondendo seus chifres curvados e olhos brilhantes. Ele era um caçador em território hostil, onde as autoridades ainda vasculhavam a cidade em busca dele e de seus companheiros, rotulados como dissidentes. A tensão era palpável no ar. Movendo-se como uma sombra, ele passou por becos apertados e cruzou ruas apenas quando tinha certeza de que estavam vazias. Quando um grupo da vigilia da cidade armados surgiu à distância, o Tiefling pressionou-se contra a parede de uma taverna, controlando a respiração até que os homens se dispersassem.

“Mais atentos do que o normal,” murmurou para si mesmo, antes de seguir adiante.

Momentos depois, Dahaka alcançou os portões de uma área decadente da cidade. O distrito estava quase morto, com apenas algumas figuras vagando aqui e ali, seus rostos obscurecidos por capuzes. Ele deslizou pelas sombras, os olhos atentos a qualquer sinal do que procurava. Quando finalmente localizou um grupo de indivíduos reunidos em torno de uma pequena entrada de pedra – ornamentada com símbolos que ele reconheceu imediatamente como pertencentes ao culto de Cyric –, Dahaka manteve-se à distância, observando.

Após alguns minutos, um dos devotos afastou-se do grupo, caminhando por uma viela estreita. Dahaka seguiu-o, os passos tão leves que nem a brisa noturna denunciava sua presença. Quando o homem parou para verificar os arredores, Dahaka agiu. Em um movimento rápido e mortal, sua adaga brilhou à luz da lua, e o culto de Cyric perdeu um de seus membros. O Tiefling arrastou o corpo para as sombras e vestiu a túnica cerimonial ensanguentada, ajustando o capuz de forma a esconder seu rosto.

Ao retornar ao grupo, Dahaka manteve-se em silêncio, a cabeça baixa, misturando-se aos devotos que sussurravam orações fervorosas. Suas orelhas captaram cada palavra murmurada, cada fragmento de informação. Quando um dos líderes mencionou o nome de Azerd Hawthorn e o ritual planejado para aquela noite, um sorriso frio formou-se em seus lábios sob o capuz.

As horas avançavam como um rio furioso, até que finalmente todos se reuniram perto da capela abandonada. A estrutura era um monólito de tempos esquecidos, suas paredes corroídas pelo tempo e vitrais partidos, projetando luzes púrpuras e inquietantes sobre o chão de pedra. 

No quartel dos Harpistas, o ambiente pulsava com uma mistura de tensão e propósito. Cada canto do salão principal estava ocupado com alguma atividade vital. Ludus Lefou trabalhava com destreza sobre uma mesa improvisada, onde seu baralho de ilusões era cuidadosamente disposto. As cartas dançavam entre seus dedos, como se tivessem vida própria, projetando formas momentâneas de luz e sombra no ar à sua frente. Ele estava no auge da concentração, um artista à beira de uma performance.

“Pensei em algo mais dramático desta vez,” murmurou Ludus, sem desviar os olhos das cartas que se embaralhavam magicamente em suas mãos. “Um espetáculo de verdade. Talvez um dragão flamejante, ou um exército espectral. Algo que faça todos correrem na direção errada.”

Ao seu lado, Mor’Rein inclinou-se ligeiramente, os olhos brilhando com a luz suave das lâmpadas a óleo que iluminavam o salão. O elfo da lua parecia alheio ao caos ao redor, como se todo o movimento fosse apenas uma melodia distante que ele apreciava enquanto planejava. Sua voz era tranquila, quase como o sussurro de uma brisa. “Dragão, talvez, mas... um exército de sombras? Posso amplificar isso. Transformá-los em algo tangível, assustador. Eles devem sentir a presença de cada guerreiro.”

Ludus deu um sorriso de canto. “Você é um visionário, Mor. Eu sabia que podia contar com você.”

Enquanto isso, Asher comandava os preparativos de combate no centro do salão. Ao lado de uma mesa repleta de mapas e relatórios, Impetor ajustava as presilhas de suas ombreiras com movimentos firmes, a expressão de pedra de um guerreiro pronto para a batalha. Ele era uma muralha prateada, e seus olhos brilhavam com a determinação de quem já enfrentara cem combates e sobrevivera.

“Quando o espetáculo começar,” instruiu Althus, apontando para uma marca no mapa, “vocês dois – Impetor e Adanarag – vão isolar a área. Não podemos deixar que ninguém fuja. Cada cúmplice de Azerd Hawthorn deve ser capturado ou eliminado.”

Adanarag passou os dedos com reverência pelo símbolo sagrado de Gruumsh entalhado em seu escudo, os olhos brilhando com uma combinação de fervor e reflexão. Um sorriso pensativo curvou seus lábios enquanto ele murmurava, quase para si mesmo: “A cegueira dos homens é sempre fascinante. Vamos mostrar a eles o poder de uma fé inabalável e a força de uma mente afiada. Que Gruumsh guie nossas ações com propósito.”

Do outro lado da sala, Althus testava a tensão de sua corda de arco. Sua presença era quase etérea, um caçador envolto em sombras. Ele não disse uma palavra, mas o brilho determinado em seus olhos era suficiente. Sua tarefa estava clara: eliminar qualquer ameaça antes que ela tivesse a chance de se manifestar.

Asher deu um passo para trás, observando o grupo. “Precisamos ser precisos. Dahaka está se infiltrando no culto neste exato momento. Ele nos dará as informações que precisamos, mas não podemos falhar no momento em que a distração começar. O ritual deve ser interrompido antes que Yizk consiga o que quer.”

Uma tensão momentânea tomou o salão, enquanto cada membro da equipe processava suas palavras. Ludus, sem tirar os olhos de seu trabalho, finalmente quebrou o silêncio com seu tom característico de irreverência. “Bem, parece que estamos todos prontos para o grande show. Só espero que os espectadores saibam aplaudir antes que sejam destruídos.”

Mor’Rein sorriu suavemente, e Althus deu uma risada seca. Asher permaneceu em silêncio, mas a inclinação de sua cabeça indicava um sorriso discreto. Mesmo Impetor, com sua habitual seriedade, permitiu-se um grunhido divertido. O peso da responsabilidade era grande, mas eles eram uma equipe que já enfrentara o impossível antes.

Quando o relógio se aproximava do momento decisivo, Asher lançou um último olhar ao grupo. “Tudo depende da coordenação. Se Dahaka nos der algum sinal, entraremos como uma onda e esmagaremos Yizk antes que ele perceba o que aconteceu. Agora, preparem-se. Esta noite, mudamos o curso dessa guerra.”

As sombras da noite engoliam o mundo enquanto Dahaka caminhava em silêncio pelo camiho escuros, aproximando-se do templo negro de Cyric. A estrutura, com suas torres retorcidas e abóbadas decrépitas, parecia uma ferida aberta na paisagem. O som abafado de cânticos crescia a cada passo, reverberando como um eco de loucura nas pedras úmidas ao redor. Dahaka ajustou o capuz sobre sua cabeça, garantindo que seu disfarce não revelasse a verdade sob as sombras.

Nas ruínas ao redor do templo, os heróis estavam em posição. Cada um oculto em meio à escuridão e escombros, observando a procissão dos cultistas. O ar estava carregado de tensão, o tipo que antecede uma tempestade. Asher observava com olhos que brilhavam com um leve tom dourado, sua respiração pesada enquanto controlava o instinto que fervia em seu sangue lupino. Ele fechou os olhos por um momento, buscando equilíbrio, antes de comandar em um sussurro firme:
“Todos nas posições. Sem movimentos bruscos até meu sinal.”

Impetor, com sua imponente figura prateada, posicionou-se atrás de uma coluna destruída, a massa repousando ao seu lado, parcialmente escondida por sua armadura natural reluzente. Mor'Rein, como uma sombra líquida, deslizou para um nicho entre as pedras, seus olhos alvos atentos a cada movimento. Althus já havia desaparecido junto a Salochin, como espectros fundidos às sombras. Adanarag, com sua couraça escura marcada pela guerra, tomou posição em uma elevação próxima, segurando firmemente sua maça, pronto para o combate iminente. Enquanto isso, Ludus, sempre teatral, manteve-se em um canto estrategicamente escolhido, baralho em mãos, aguardando a oportunidade para sua entrada dramática.

A lua subia devagar, uma centelha prateada no céu sombrio. Meia-noite estava próxima, e Dahaka agora se infiltrava entre os cultistas que caminhavam em direção ao templo. Ele ajustou o ritmo de seus passos para corresponder ao deles, o capuz baixo escondendo o sorriso disfarçado enquanto se movia com naturalidade. No centro da procissão, Azerd Hawthorn surgiu.

Azerd Hawthorn.
O velho cultista tinha uma aparência impressionante e sinistra: seus cabelos brancos eram como fios de prata contra a escuridão de suas vestes. Os olhos, tingidos com uma tinta púrpura profunda, brilhavam com intensidade, destacando-se como faróis de insanidade. Seus robes negros, bordados com o símbolo de Cyric — uma caveira sem mandíbula sobreposta a uma estrela roxa —, flutuavam ao vento enquanto ele se dirigia à entrada do templo.

Azerd ergueu as mãos para o céu estrelado que espiava pelas janelas partidas do templo, e sua voz reverberou pelas paredes negras.

"Ó, Senhor das Mentiras! Deus das Sombras e da Decepção! A Ti oferecemos este sacrifício, para que nosso pacto seja renovado. Que o véu entre a verdade e a ilusão seja rompido pela Tua vontade!"

O silêncio carregado que se seguiu foi interrompido por passos suaves e despretensiosos, acompanhados de palmas. Yizk adentrou o santuário como se fosse um convidado tardio em um jantar informal. Suas roupas simples, porém cuidadosamente ajustadas, destacavam sua postura descontraída. O contraste com a tensão do momento era tão evidente quanto intencional.

Azerd virou-se, os olhos roxos fixos no recém-chegado. Por um instante, sua expressão parecia de irritação comum, mas logo se transformou em desconfiança.

“Interromper um ritual de Cyric...” começou Azerd com um tom de desdém controlado, cruzando as mãos atrás das costas. “Isso não é apenas uma imprudência. É uma afronta ao próprio Deus das Sombras.”

Yizk ergueu uma sobrancelha, um sorriso preguiçoso formando-se em seus lábios. “Afronta? Ora, Azerd, o próprio Cyric apreciaria minha ousadia.”

Azerd estreitou os olhos, tentando decifrar o tom enigmático de Yizk. Ele permaneceu imóvel, mas seu olhar percorreu o salão como se procurasse algo.

Enquanto isso, Dahaka, oculto nas sombras, avançava sorrateiramente para as escadarias laterais que levavam ao topo das vigas do templo. Com passos controlados, ele subiu, seus dedos escorregando por superfícies frias e úmidas. Assim que alcançou uma posição elevada, ele fechou os olhos e tentou estabelecer conexão telepática com Mor'Rein. Um brilho prateado surgiu em sua mente como uma janela aberta para o elfo da lua.

“Ele está aqui!” Dahaka transmitiu, sua mente repleta de urgência.

Do lado de fora, Mor'Rein assentiu imperceptivelmente, devolvendo uma resposta calma. “Entendido. Vamos nos preparar.”

Dahaka voltou sua atenção para o salão abaixo. Agora, nas vigas acima do templo, ele tinha uma visão privilegiada da interação entre os dois líderes. A tensão entre eles continuava a crescer como um elástico prestes a estourar.

“Pareghost não está feliz com sua aliança com Dhamir Ercals,” declarou Yizk, finalmente deixando transparecer um tom mais sério. “Ele prefere resolver as coisas de forma direta. Sem... discursos desnecessários.”

Azerd avançou um passo, os dedos crispados ao lado do corpo. “E ainda assim, você se dá ao luxo de vir até aqui sozinho. Se isso não é arrogância, eu não sei o que é.”

“Arrogância?” Yizk replicou com uma risada curta, espalhando os braços em um gesto teatral. “Eu diria que é pragmatismo. Afinal, quem disse que eu estou sozinho?”

Por um breve instante, a frase pairou no ar como uma ameaça implícita. Então, um estalo cortou o ambiente. Cultistas ao redor começaram a retirar máscaras e capas, revelando adagas brilhantes e olhares mortais. Eles avançaram com precisão letal, transformando o santuário em uma zona de carnificina.

Das vigas acima, Dahaka observava com os olhos arregalados. Ele apertou os punhos e murmurou entre dentes: “Desgraçado... Teve o mesmo plano que eu!”

O grupo, cada um em sua posição, preparou-se para agir. Os baralhos de Ludus começaram a brilhar, enquanto Asher cerrava os punhos, a fúria lupina contida por um fio. O confronto estava prestes a começar, e a linha entre aliados e inimigos era tão tênue quanto as sombras que os cercavam.

O santuário de Cyric, antes um local de rituais sombrios e reverência ao Deus das Mentiras, logo se tornou um campo de batalha sangrento. Com precisão mortal, os assassinos de Yizk atacaram os poucos cultistas ainda  fiéis a Azerd. O som de lâminas cortando carne e os gritos de terror e desespero encheram o ar, enquanto o sangue jorrava e formava poças no chão de pedra. Poucos conseguiram reagir antes de serem derrubados, caindo de maneira quase ritualística, como se fizessem parte de um sacrifício. O altar de Cyric, antes dedicado ao culto sombrio, agora estava manchado com o sangue de seus próprios servos.

Vazrick Cambaleon.
Dahaka observava tudo com olhos penetrantes. De sua posição nas vigas superiores, ele percebeu uma figura que destoava do caos. Um jovem mago, com uma aparência nervosa e claramente deslocada no meio da matança. Ele estava tentando conjurar feitiços de proteção, suas mãos tremendo enquanto lançava magias de abjuração para se manter seguro. Sua túnica parecia suja e mal ajustada, o rosto coberto de espinhas e com uma barba por fazer, a despeito da seriedade do momento. O mago estava claramente fora de seu elemento, mas isso não o tornava inofensivo. “Um conjurador… inexperiente, mas ainda assim um conjurador,” pensou Dahaka, seus olhos calculando a melhor forma de lidar com ele mais tarde, se necessário.

No centro do templo, a tensão aumentava. Yizk, com sua postura reptiliana, avançou até Azerd, que estava agora cercado e em um estado de desespero. O culto estava desmoronando ao seu redor, e a realidade da situação finalmente se impôs. Azerd, com sua voz trêmula, tentou ganhar tempo, levantando as mãos em sinal de rendição.

“Yizk, espere! Isto pode ser resolvido. Eu posso ajudar você! O que você quer é o poder de Cyric, eu sei disso! Pareghost não precisa disso... Eu posso negociar…” Ele falava rapidamente, sua voz apressada, tentando articular uma fuga, qualquer coisa para salvar a própria vida.

Yizk parou diante dele, observando-o por um momento que pareceu uma eternidade. Sua língua bífida deslizou rapidamente, e ele encarou Azerd com olhos gélidos. Sua voz saiu calma, sem pressa, mas carregada com a firmeza de quem sabe que a conversa não tem mais sentido: “Você ainda não entendeu, Azerd. Não é pessoal. São apenas negócios.”

Antes que Azerd pudesse articular mais palavras, Yizk atacou. Em um movimento fulminante, ele se lançou sobre o cultista e, com a precisão de um predador, cravou seus dentes em seu rosto. Azerd, em um último ato de desesperada tentativa, tentou gritar, mas o som foi abafado pela dor e pela brutalidade do golpe. Yizk arrancou o rosto de Azerd com uma mordida sóbria e definitiva, deixando o corpo sem vida cair, inerte, no chão manchado de sangue.

Dahaka, observando do alto, sentiu uma leve tensão na mandíbula. Seus olhos se estreitaram, e ele balançou a cabeça, algo profundamente desconfortável se formando em sua mente. Não era surpresa que Yizk fosse eficiente, mas o fato de ele ter optado por um ataque tão decisivo e sem hesitação, eliminando a liderança com tanta rapidez, fez Dahaka perceber que o jogo estava mais adiantado do que ele imaginava.

Sua mão apertou a borda da viga com força, a preocupação se infiltrando em seus pensamentos. Os outros precisavam agir e rápido.

Do lado de fora, o plano dos heróis estava em andamento. Ludus, empolgado com a ideia de testar suas novas aquisições mágicas, arrancou uma carta de seu baralho de ilusões, com um sorriso de satisfação. Ele estendeu a carta, esperando criar um grande espetáculo, quem sabe um exército ou até um dragão para ajudar na distração. Mas, quando ele proferiu as palavras mágicas, um estalo ecoou e, diante de todos, apareceu uma figura grotesca e minúscula, uma relez goblin, com o corpo torto, uma barba espessa e uma expressão de desgosto. Ele olhou ao redor, claramente desconcertado com sua súbita materialização, antes de erguer a mão em um gesto de frustração.

"É isso?" Mor'Rein rosnou, os olhos se estreitando enquanto encarava Ludus. "Sério? Um goblin? Onde está o exército? O dragão?"

Ludus, com uma expressão perplexa, tentou se justificar. "Não é culpa minha, as cartas são aleatórias! Eu só... puxei ela! " Ludus deu de ombros, como se fosse um simples mal-entendido. A ilusão goblin, por sua vez, estava agora sentado no chão, coçando a cabeça como se estivesse esperando um comando.

Mor'Rein, com um suspiro exasperado, fez um gesto em direção ao goblin. "O que vamos fazer com isso agora?"

"Eu posso fazer ele dançar pra vocês..." Ludus disse, ainda tentando manter o otimismo. Mas foi claro que o plano não ia muito bem.

Impetor, observando a cena com uma expressão divertida, olhou para Asher e, com um sorriso impetuoso, disse, já prevendo o desastre: "Plano B?"

Asher, que estava observando o goblin com um misto de irritação e incredulidade, suspirou e disse, “Okay… Plano B.”

Com o plano original já por água abaixo, o grupo rapidamente se alinhou. Impetor, com sua postura de gladiador, puxou sua espada com determinação, os músculos tensos e os olhos brilhando com a antecipação da batalha. Mor'Rein, com um olhar calculista, começou a se concentrar, preparando-se para entrar em ação. Ludus, ainda tentando disfarçar a confusão causada pela carta maluca, se posicionou, claramente frustrado, mas sem perder sua energia exuberante. Asher, embora relutante, já estava focado no objetivo: a igreja diante deles precisava ser tomada, e qualquer distração, por menor que fosse, não os impediria de cumprir sua missão.

Com uma última troca de olhares rápidos, os heróis começaram a avançar para a igreja. O som dos seus passos pesados ecoava nas ruas vazias, misturando-se com os ecos da violência que ainda acontecia dentro. Eles estavam prontos para o combate, sem mais distrações, e com um objetivo claro: não poderiam falhar. A batalha na igreja estava prestes a começar.

A entrada dos heróis na igreja de Cyric foi marcada por uma explosão de ação e violência, um espetáculo de poder e determinação que ceifou as vidas dos assassinos sem piedade.

Mor'Rein foi o primeiro a agir. Com um gesto rápido, ele estendeu as mãos e convocou um raio verde de pura energia necromântica. O feixe iluminou o salão, cortando a escuridão e atingindo um grupo de assassinos logo à sua frente. Eles foram desintegrados instantaneamente, seus corpos se desfezendo em cinzas enquanto o raio passava por eles com uma força avassaladora. O eco da explosão mágica reverberou pelas paredes da igreja, e o salão foi imediatamente reduzido a um campo de destruição.

Logo atrás de Mor'Rein, Adanarag avançou com seu escudo em mãos, empurrando os assassinos que estavam ao seu redor. Ele os esmagou contra as colunas da igreja com um sorriso de pura fúria em seu rosto. "Sintam o poder da tempestade!" ele gritou enquanto golpeava com o escudo, espalhando os corpos dos inimigos como folhas ao vento. Sua força física era avassaladora, e os assassinos, incapazes de resistir, caíam ao chão como bonecos de pano.

Althus, com precisão mortal, disparava flechas de sua posição estratégica, cortando os inimigos à distância. Cada flecha era lançada com uma calma letal, atingindo os cultistas com facilidade. Ao seu lado, Salochin corria de um lado para o outro, atacando qualquer um que tentasse escapar da linha de fogo de Althus. Juntos, formavam uma dupla imbatível, os ataques de Althus coordenados com a velocidade imensa do velociraptor, que se movia como um borrão, afastando os assassinos restantes.

Ludus, por sua vez, puxou sua adaga sentiente, Debast, com um sorriso travesso no rosto. "Hora de acordar, Bestie!" ele gritou, enquanto a lâmina se iluminava com uma luz vermelha sinistra. A adaga, com a alma do cultista que ela havia armazenado, resmungou, reclamando da interrupção. “Você novamente? Como ousas me-” Ela gemeu em sua lâmina, mas, antes de concluir a frase, se perguntou: “Essa é uma igreja de Cyric?” No momento seguinte, Ludus lançou a adaga, e ela disparou em direção a um assassino, atravessando seu peito com uma força sobrenatural. A lâmina, com um brilho vermelho, se teletransportou de volta para a mão de Ludus instantaneamente, pronta para o próximo ataque.

Impetor, em sua fúria, avançou com sua maça dos Caídos, esmagando os assassinos que ousaram se aproximar dele. Ele desferiu um golpe certeiro em um dos assassinos, fazendo-o voar para trás com a força do impacto. Um dos assassinos tentou fugir, mas Impetor não permitiu. Com um movimento rápido, ele avançou, bloqueando a saída do homem com sua maça. “Não vai escapar,” rosnou, enquanto esmagava a cabeça do inimigo contra o chão com um estrondo brutal.

Asher, por fim, desembainhou sua espada com um movimento fluido, os gritos das almas ecoaram pelos salões, sua expressão séria. Ele avançou pelo campo de batalha, lidando com cada assassino com a precisão de um mestre. Suas lâminas cortavam o ar com rapidez, derrubando os inimigos que se aproximavam. A batalha estava em seus termos agora, e ele sabia que não poderia falhar.

Lá no púlpito, Yizk observava a carnificina com um sorriso satisfeito. “Vejam só… heróis,” ele disse, sua voz gotejando com um tom sarcástico. “Estava perguntando quando nossos caminhos se cruzariam novamente!”

Mas antes que ele pudesse continuar, Dahaka saltou das vigas superiores, sua forma movendo-se como uma sombra. Em um movimento letal e furtivo, ele desceu sobre Yizk, atacando-o com a precisão de um predador. Sua lâmina cortou o ombro de Yizk, fazendo-o gritar de dor. O lizardfolk tentou se virar, mas a velocidade do ataque o pegou completamente de surpresa. Dahaka, com um sorriso de satisfação, se afastou, deixando Yizk ferido e surpreso, mas ainda de pé.

"Essa vai ser a última vez que vai nos ver em vida Yizk," murmurou Dahaka, observando a batalha se intensificar ao redor.

A batalha se intensificava a cada momento, a sinfonia de aço e magia tocando uma melodia mortal enquanto os heróis avançavam sem hesitar. Eles lutavam como um só, sincronizados, respondendo aos movimentos uns dos outros com a precisão de um mecanismo.

Adanarag, no centro do caos, invocou sua magia. Com um grito de comando, ele ergueu o escudo para o alto, e do chão ao seu redor surgiram figuras espectrais — os Espíritos Guardiões. Esses espíritos, com suas formas etéreas e radiantes, começaram a girar em torno dele, atacando qualquer um que se aproximasse. Espadas espirituais cortavam o ar, e as lâminas fantasmagóricas atravessavam os assassinos com uma fúria sobrenatural. Adanarag manteve sua postura imponente, avançando com os espíritos em seu encalço, derrubando adversários como se fossem folhas ao vento.

Ludus, por sua vez, demonstrava sua habilidade acrobática e astúcia. Ele saltava, rodopiava e dava cambalhotas pelos cantos do salão, sua adaga Debast sempre à mão. Ele lançava a lâmina em cada movimento, e a cada retorno, a adaga se teleportava de volta para suas mãos, como uma extensão de sua vontade. Ele riu, desafiando o caos, enquanto cortava os inimigos que se aproximavam, em perfeita sintonia com os ataques do grupo. Cada movimento dele parecia orquestrado com precisão, uma dança mortal.

Asher, com sua mente analítica e calma, coordenava o ataque de todos. Ele gritava comandos, fazendo com que Ludus flanqueasse os inimigos, Adanarag avançasse com seus espíritos guardiões, e Mor'Rein disparasse rajadas místicas enquanto Impetor usava sua força brutal para abrir caminho. “À esquerda! Althus, preciso de cobertura!”, Asher ordenou, e sua voz era um farol de direção em meio ao caos.

Althus, movendo-se com uma precisão letal, estava tomando posição, atirando sem parar. Mas, no momento mais inesperado, um assassino se aproximou dele com velocidade, uma lâmina afiada em mãos. Althus não teve tempo de reagir, mas Salochin, o velociraptor, foi mais rápido. Ele pulou, aterrissando sobre o assassino com um rugido feroz. O homem foi lançado ao chão, e Salochin cravou suas garras no pescoço da vítima, neutralizando a ameaça instantaneamente. "Bom menino..." Althus agradeceu com um olhar rápido, voltando a disparar suas flechas com precisão.

Dahaka, em sua fúria, se moveu pelas sombras. Ele havia visto Yizk, o líder dos cultistas, mas, ao atacar, errara seus dois golpes. O homem lagarto se esquivou com agilidade, mas os danos estavam começando a mostrar suas falhas. Dahaka, respirando com dificuldade, tentou ajustar sua estratégia, mas o líder estava em fuga, se reposicionando nas sombras.

Mor'Rein, focado em seu alvo, disparava rajadas místicas, cada uma mais poderosa que a anterior. Ele avançou sobre o mago conjurador que tentava proteger Yizk com escudos de energia. O jovem mago, desesperado, gritou para Yizk: “Não havia nada disso na descrição do emprego!” Tentava desesperadamente manter as barreiras, mas Mor'Rein não ia parar. As rajadas de energia cortavam os escudos do mago como faca quente na manteiga, deixando o homem vulnerável. Ele tentou conjurar outro feitiço, mas foi interrompido pela pressão implacável de Mor'Rein.

Então, quando tudo parecia se alinhar para a vitória iminente dos heróis, uma sombra se moveu por trás de Ludus. Yizk, com uma lâmina reluzente, estava pronto para cravar o golpe final. Ludus, alheio à sua aproximação, estava em plena ação, mas sentiu um arrepio nas costas no último momento. Ele se virou e viu a lâmina de Yizk se aproximando perigosamente. O golpe foi preciso, mas Ludus, em um movimento ágil, se esquivou por milímetros, a lâmina passando a centímetros de sua garganta. O perigo estava ali, mas ele conseguiu escapar, o susto o fazendo saltar para trás.

Foi nesse momento que Impetor entrou em cena. Vendo Ludus em perigo, o draconato avançou com fúria, sua maça dos Caídos em punho. Com um rosnado, ele desferiu três golpes poderosos na cabeça de Yizk. O primeiro fez o líder cambalear, o segundo esmagou seu rosto, e o terceiro, com um grito ensurdecedor, transformou a face de Yizk em uma massa de carne verde e irreconhecível. O corpo do líder colidiu contra o chão com um estrondo final, e os poucos assassinos que restaram se congelaram ao ver a queda de seu comandante. O mago abjurador tremia, e os últimos cultistas, com a morte de Yizk, perderam toda a força para continuar a luta.

A batalha estava quase no fim. As últimas ameaças, sem liderança, começaram a vacilar. Os heróis estavam triunfantes, seus ataques coordenados e ferozes, limpando os últimos vestígios de resistência.

Mas a tensão no ar era palpável. Eles sabiam que enquanto restassem inimigos, a vitória ainda não estava garantida. O mago abjurador recuava, suando frio, os olhos aterrorizados ao ver a queda de Yizk. Os assassinos restantes olhavam uns para os outros, cientes de que não havia mais escapatória.

O silêncio pesado caiu sobre a igreja após a queda de Yizk. O som das lâminas e feitiços se acalmou, deixando apenas os estalos dos corpos caindo ao chão. Os assassinos restantes, ensanguentados e tremendo, olharam uns para os outros, as mãos instintivamente se afastando das armas. Um por um, eles largaram suas lâminas, suas adagas e seus machados, as ferramentas de seu ofício, e começaram a recuar com passos apressados e desordenados. O medo estava estampado em seus rostos. Sabiam que não podiam mais enfrentar os heróis. A derrota era certa. Com os olhos baixos, eles desapareceram pela porta, saindo em retirada desesperada.

Impetor, ainda enfurecido pela batalha, virou-se para encarar a fuga dos assassinos. No entanto, algo mais chamou sua atenção: o mago abjurador, agora encurralado. O jovem mago, com as mãos suando e tremendo, estava se afastando lentamente até colidir com a parede da igreja, seu pânico crescendo a cada passo. "Sai, sai...!" ele gritava, os olhos arregalados, tentando desesperadamente encontrar uma saída. Em um último esforço, ele puxou um punhado de areia vermelha de sua bolsa e jogou ao ar, murmurando palavras ancestrais com a voz trêmula. Impetor tentou avançar, mas foi impedido por uma força invisível.

A magia de Banimento se desdobrou no ar, e as veias negras que antes haviam desaparecido de Impetor começaram a ressurgir, pulsando com uma energia profana. Antes que pudesse fazer qualquer movimento, o corpo do draconato foi envolto em uma nuvem de enxofre, e ele caiu de joelhos, como se fosse sugado por um buraco invisível. Com um último grito de raiva e frustração, Impetor desapareceu, deixando apenas um rastro de fumaça negra e um leve cheiro de enxofre no ar. O mago, aproveitando o caos, não perdeu tempo. Ele correu em direção à janela, saltando para o lado de fora e desaparecendo no tumulto das ruas, com os cultistas restantes fugindo atrás dele.

Mor'Rein observou a cena com olhos atentos. Ele sentiu o peso do momento. “Isso foi… uma magia de banimento. Ele vai voltar a qualquer momento.” Ele disse, o tom amenizador vacilante em sua voz.

O tempo passou lentamente. Os heróis permaneceram na igreja, seus corpos ainda tensos, seus sentidos alertas. O cheiro de enxofre ainda pairava no ar, mas Impetor não retornava. Os segundos se transformaram em minutos, mas o draconato não apareceu. Os assassinos, sem seus líderes, se dispersaram, deixando os heróis em um mar de incertezas.

Adanarag foi o primeiro a falar, seu tom grave cortando o silêncio. Ele inalou profundamente, seu semblante sério. "Eu percebi o cheiro de enxofre", ele disse, olhando para os companheiros, como se tentasse entender o que havia acontecido. "Esse tipo de magia, retorna seres extra-planares para seu plano de origem. Seu amigo… Impetor, tem alguma conexão com os planos inferiores?"

O silêncio que seguiu foi pesado, como se as palavras de Adanarag ecoassem nas mentes de todos. Os Heróis se lembravam das aventuras no forte Zentharim, e na contaminação que Impetor sofrerá com as veias negras.

Foi então que Adanarag, de um modo estranho e desconfortável, falou. "Eu acho que seu amigo não irá retornar..." Sua voz estava baixa, mas a tensão na sala era palpável. Ele parecia convencido, e as palavras do clérigo, como um aviso sombrio, pesaram sobre todos.

A cena se congelou naquele momento. A tensão estava no ar, e os heróis estavam agora em um limbo, aguardando o retorno de Impetor… ou o silêncio definitivo que ele havia deixado para trás. O destino do draconato, e o mistério que envolvia sua conexão com os planos infernais, continuaria a assombrar os corações de seus amigos.


EPISÓDIO 17 - Descida a Avernus.

Data: 7 de Nightal, 1372 CV - 02h
Local: Proximidades de Suzail, Cormyr

A noite seguia silenciosa, pesada como chumbo, enquanto o grupo, abalado e ensanguentado, retornava à base de Horusk. Os corredores estavam desertos, exceto pelos poucos agentes que patrulhavam em meio à neblina gelada da madrugada. As chamas das tochas dançavam contra a escuridão, lançando sombras longas e inquietantes no caminho.

Ao entrarem, Ludus foi o primeiro a romper o silêncio, com sua voz carregada de preocupação:
"Horusk, problemas. É Impetor! Ele foi... Ele foi banido! Não sei para onde, mas não vamos abandonar nosso amigo. Nem pensar."

Mor'Rein cruzou os braços, assentindo. "Ludus está certo. Não podemos avançar sem ele. Suspeitamos que ele foi enviado para os infernos, e nós o traremos de volta."

Horusk franziu o cenho, interrompendo-o com um gesto. "Esperem. Banido? Como isso aconteceu? Comecem do início. Relatem tudo. Quero entender exatamente o que enfrentaram."

Mor'Rein foi o primeiro a responder, mantendo o tom calmo e controlado. "Yizk está morto. Conseguimos neutralizá-lo no santuário. Mas o mago, um jovem abjurador que o acompanhava, usou magia de banimento contra Impetor enquanto estávamos distraídos com os assassinos."

Dahaka, com um sorriso cínico, completou:"E não foi exatamente fácil chegar até ele. Primeiro tive que me infiltrar entre os cultistas. Depois, descobri que o sacana teve a mesma ideia que eu. Impetor abriu caminho, como sempre. Mas no fim, enquanto limpávamos o restante, o mago escapou."

Horusk cerrou os punhos. "Escapou? Yizk era o alvo primário, mas não subestimem as consequências de deixar aliados dele a solta. Este mago pode trazer problemas maiores no futuro."

Asher interveio."O mago estava claramente desesperado. Não era um guerreiro experiente. Usou a magia como último recurso, quase como se nem ele soubesse o que estava fazendo. Ainda assim, ele conseguiu escapar por uma janela enquanto o caos tomava conta da igreja."

Horusk estreitou os olhos, fitando cada um deles. "Entendido. E quanto a Yizk? Vocês têm certeza de que ele foi neutralizado? Preciso de provas."

Mor'Rein retirou de sua bolsa um medalhão ornamentado, manchado de sangue seco, e o colocou sobre a mesa de Horusk. "Este era dele. Yizk não vai voltar. Você tem minha palavra."

Adanarag adicionou com sua voz grave: "O corpo dele foi purificado pela fúria do meio-dragão. Não há dúvidas. Yizk foi eliminado para sempre."

Horusk estudou o medalhão, pensativo, antes de soltar um suspiro longo. "Muito bem. Yizk foi neutralizado, mas isso não muda o fato de que perdemos Impetor. Vocês entendem o que estão pedindo? Estão dispostos a arriscar suas vidas e atrasar a missão por alguém que, até dias atrás, parecia ser apenas mais um aliado circunstancial?"

Ludus deu um passo à frente, encarando o velho estrategista. "Você não entende, Horusk. Impetor é mais do que um aliado. Ele é nosso amigo. Nenhum de nós deixará um companheiro para trás."

A tensão no ar era palpável. Horusk esfregou a têmpora e suspirou. "Muito bem. Se vocês estão decididos... Eu farei o que puder. Mas saibam que o preço será alto, e o tempo perdido poderá custar vidas."

Ele pegou um pergaminho antigo e desenrolou, revelando um mapa com camadas intrincadas e símbolos arcanos. "Posso abrir um portal para Avernus, a primeira camada dos Nove Infernos de Baator. O Inferno é um lugar de tormento eterno, governado por arquidiabos e suas legiões. É um plano de corrupção e desespero, onde as almas condenadas sofrem pelos seus pecados."

Horusk continuou, apontando para o mapa: "Avernus é o portão de entrada para esse lugar infernal. É governado por Zariel, uma arcanja caída que se tornou senhora dos infernos. Seus exércitos patrulham sem descanso, e tudo lá é hostil à vida mortal."

Mor'Rein arqueou uma sobrancelha. "Você está dizendo que vamos andar direto para a boca do leão?"

"Sim. E isso significa que devem se preparar para o pior." Horusk retirou um pequeno amuleto de prata de sua bolsa. "Isto é um Orbe da Comunicação. Ele permitirá que vocês falem comigo diretamente, mas apenas uma vez. Usá-lo no Inferno chamará atenção indesejada, então escolham o momento com sabedoria. Lembrem-se: precisarei de ao menos oito horas para reabrir o portal e trazê-los de volta."

Antes que pudessem responder, Althus e Adanarag se aproximaram. O meio-orc, com sua expressão severa, pousou uma mão no ombro de Ludus. "Nosso caminho se separa aqui, amigo. Yizk foi derrotado, e meu juramento terminou. Mas desejo a vocês sorte nessa jornada. A descida ao Inferno é algo para o qual nenhuma alma está preparada."

Adanarag complementou com um tom grave. "Vocês têm minha bênção e minha admiração. Se alguém pode sobreviver a isso, são vocês."

Os dois guerreiros se despediram e partiram, deixando o restante do grupo em um silêncio sombrio. Horusk começou os preparativos para o ritual, reunindo componentes e desenhando símbolos no chão. Enquanto o trabalho avançava, o peso da decisão tomava conta de todos.

Horusk, enquanto traçava os últimos símbolos no chão, fez uma pausa e franziu o cenho, fitando o grupo com olhos inquisitivos. "Há algo que não está claro para mim... Magia de banimento geralmente envia alguém de volta ao seu plano de origem. Impetor, até onde eu tenho conhecimento, não é um corruptor infernal. Por que, então, ele foi mandado ao Inferno? Vocês sabem de algo mais que possa explicar isso?"

Mor'Rein se adiantou, cruzando os braços, a expressão sombria. "Houve algo, sim. No forte Zentharim, encontramos veias de sangue negro escorrendo pelas paredes. Era uma substância maligna, quase viva. Impetor se expôs diretamente a ela enquanto tentava abrir um túnel pela parede para nos dar passagem. Foi rápido, mas ele entrou em contato direto."

Horusk levantou as sobrancelhas, seus olhos fixos em Mor'Rein. "Veias de sangue negro, você disse? E ele tocou nisso?" Ele ficou em silêncio por um momento, a mente trabalhando rapidamente. "Isso faz sentido...  Essa substância pode se tratar de um parasita, algo que se infiltra na alma e se prende ao hospedeiro. Se isso ocorreu, Impetor já estava, mesmo que de forma inconsciente, sob a influência das energias infernais. A magia de banimento apenas acelerou um processo que, inevitavelmente, o consumiria — primeiro espiritualmente, depois fisicamente."

Ludus engoliu seco, a preocupação evidente em seus olhos. "Isso significa que ele estava condenado desde aquele momento?"

Horusk balançou a cabeça, a voz firme. "Não necessariamente. Se a substância não o dominou completamente, há uma chance de reverter isso. Mas vocês precisarão estudar mais sobre o assunto. Não basta ir ao Inferno e arrancá-lo de lá; precisam entender contra o que estão lutando."

Mor'Rein assentiu, mas questionou com um tom prático: "O senhor tem algum material que possamos usar para isso?"

Horusk sorriu, um pouco melancólico. "Eu, não. Mas esta fortaleza que estamos usando... ouvi dizer que contém redutos de saber escondidos. Há rumores de que aqui se guardam pergaminhos antigos e tratados sobre monstros, maldições e entidades."

Ele lançou um olhar significativo para Asher, cuja expressão permaneceu séria, mas que não pôde evitar um leve erguer de sobrancelha ao perceber que sua descoberta não passara despercebida.
"Espero que não se importe com poeira e ácaros," disse Asher, apoiando a mão no ombro de Mor'Rein.

Mor'Rein deu um leve sorriso, os olhos brilhando com determinação. "Na verdade, eu até prefiro assim."

Horusk assentiu, satisfeito com o foco renovado do grupo. "Muito bem. Preparem-se. Pesquisem o que puderem antes de partir. E lembrem-se: se não forem cuidadosos, essa jornada pode ser o fim de vocês."

As chamas ao redor tremulavam com intensidade crescente enquanto o ritual de abertura do portal começava a tomar forma, e o grupo se preparava para encarar o primeiro passo em direção ao Inferno.

Os heróis caminhavam pelos corredores da fortaleza, prontos para a partida. A tensão da missão que os aguardava pairava no ar, mas foi Ludus quem quebrou o silêncio ao perceber Dahaka analisando com cuidado duas luvas de couro negro.

"Ah, ainda arranjou tempo para ir às compras, Dahaka?" Ludus brincou, tentando aliviar o clima pesado.

O tiefling levantou os olhos, esboçando um sorriso enviesado. "Não exatamente." Ele ergueu as luvas, exibindo as intrincadas costuras e padrões de símbolos nelas presentes. "Arranquei isso do corpo de um dos assassinos Zentharim. Pelo acabamento e os símbolos, diria que têm alguma capacidade única."

Ele deslizou as mãos para dentro das luvas, que imediatamente desapareceram de vista, tornando-se invisíveis. Dahaka observou suas mãos vazias, satisfeito. "Uma ajuda significativa para furto... Não acha, bufão?"

Ludus soltou uma gargalhada, cruzando os braços. "Você nunca para, não é, Dahaka? Sempre um olho na missão e outro no bolso alheio."

Dahaka sorriu de canto, ajeitando os punhos das luvas invisíveis.

Mas logo Ludus mudou o tom, os ombros caindo levemente com a preocupação. "Brincadeiras à parte... precisamos focar. Temos um bárbaro para salvar."

Todos assentiram em silêncio, compartilhando do mesmo peso em seus corações. Enquanto o portal conjurado por Horusk começava a se formar com um brilho vermelho ameaçador, o grupo se alinhou, determinado a enfrentar os horrores de Avernus para resgatar seu amigo.

Impetor despertou em meio à escuridão sufocante, cada músculo de seu corpo queimando como se tivesse atravessado uma fornalha viva. A dor era paralisante, e ele mal conseguia se mover. Seu olhar turvo captou o brilho vermelho e sombrio do ambiente ao redor: os corredores negros de um castelo deformado, com paredes pulsantes como se fossem feitas de carne viva, exalando calor e desespero.

Diabo das Correntes.
Ele tentou erguer o braço, mas percebeu que estava sendo arrastado por dois seres grotescos, cada um com aproximadamente 1,8 metros de altura. Suas "vestes" eram feitas de correntes vivas que se enrolavam firmemente ao redor de seus corpos, chacoalhando como se sussurrassem ameaças. Não havia rosto — apenas bocas sorridentes e, ocasionalmente, um único olho brilhante piscando por entre as brechas metálicas. O som metálico das correntes ecoava pelos corredores, se misturando aos gemidos distantes que preenchiam o ambiente.

As algemas que prendiam seus pulsos eram cravadas com farpas, e cada movimento enviava ondas de dor que faziam Impetor cerrar os dentes. Ele tentou lutar, mas seu corpo se recusava a obedecer. Sentia-se como um fantoche cujas cordas haviam sido cortadas.

Entre gemidos de dor, Impetor balbuciou: "Me... Soltem.... Agora!"

As figuras não responderam. Apenas arrastaram-no em direção a um salão central iluminado por uma luz avermelhada e opressora. Ao erguer a cabeça, Impetor viu o destino para onde era levado: um trono farpado e retorcido, feito de metal negro e ossos que pareciam vivos, pulsando como se respirassem.

Nyxalithra.
No trono, uma figura imponente e deslumbrante sentava-se com uma aura ao mesmo tempo majestosa e aterrorizante. Ela era alta e esbelta, com uma beleza que poderia enganar mortais desavisados, lembrando um celestial caído. Seus olhos brilhavam como rubis em chamas, e suas asas, emplumadas de vermelho e negro, eram imponentes e sinistras. Na cabeça, um elmo negro adornado por chifres elegantes, e em suas mãos, um chicote que parecia vibrar com energia maligna.

Impetor tentou falar novamente, mas suas palavras morreram na garganta quando os olhos ardentes da figura se voltaram para ele. O sorriso que ela abriu era tanto sedutor quanto letal.

"Bem-vindo, guerreiro," ela disse, com uma voz que soava como mil sussurros entrelaçados. "Vejo que o sangue que corre em suas veias já começou a ouvir o chamado de Baator. Não tema, pois logo será um de nós."

A sala inteira pareceu vibrar com sua presença, e as correntes das figuras que o seguravam apertaram-se ainda mais, arrancando um gemido de dor de Impetor. Ele percebeu, então, que a verdadeira batalha pela sua alma estava apenas começando.

O brilho âmbar das velas dançava sobre as prateleiras empoeiradas e paredes de pedra irregular da biblioteca subterrânea. O espaço exalava um cheiro ancestral, uma mistura de pergaminho antigo, cera de vela e algo indefinível que parecia ser o próprio tempo. Para Mor'Rein, era um paraíso. Seus olhos cintilavam como os de uma criança em sua primeira visita a uma loja de brinquedos, enquanto ele se movia de uma estante a outra, pegando livros, abrindo volumes e murmurando palavras em um idioma que nem mesmo Asher reconhecia.

"Por que você nunca mostrou isso antes?" a voz de Mor'Rein ecoou pelo recinto, carregada de uma incredulidade quase infantil. Ele segurava um tomo grosso e desgastado, os dedos acariciando a capa de couro gravada com runas apagadas. "Você sabe o que tem aqui? Séculos de conhecimento, talvez milênios! Isso é inacreditável, Asher! Um verdadeiro tesouro enterrado."

Asher, que observava o entusiasmo do elfo com um misto de divertimento e desconforto, respondeu calmamente, embora houvesse um tom defensivo em sua voz. "Eu não poderia simplesmente trazer qualquer um para cá. Antes de aproveitar os conhecimentos dos Greymane, precisei entender o que significa ser um deles. Isso não é apenas uma biblioteca, Mor'Rein. É um legado, uma responsabilidade."

Mor'Rein apenas balançou a cabeça, absorto em mais um volume que puxava de uma prateleira. Ele murmurava algo sobre "reflexões perdidas de almas condenadas" quando, de repente, um baque abafado veio de um canto próximo. Ambos se viraram, olhos arregalados, enquanto uma figura se erguia de dentro de um caixote abarrotado de pergaminhos e livros. Era Ludus.

"Ah, que maravilha!" exclamou ele, erguendo um pergaminho desbotado. "Tudo aqui é tão mórbido! 'Sombras na Escuridão - Um Estudo sobre Ravenloft'... isso soa inspirador! Ou que tal este?" Ele balançou um livro pequeno, mas pesado. "'As Formas Mais Eficientes de Dissecar uma Mantícora – Volume 3'! Sério, precisavam de três volumes para isso?"

Mor'Rein, agora com os braços cruzados, e Asher, com uma expressão de exasperação, compartilharam um olhar cúmplice antes de avançarem juntos, praticamente expulsando Ludus dali. "Fora, bufão", rosnou Asher, empurrando o bardo em direção à saída. Ludus foi embora reclamando.

Quando finalmente ficaram sozinhos, Mor'Rein e Asher mergulharam na pesquisa com renovada concentração. Pergaminhos eram desenrolados, páginas viradas e murmúrios encheram o ar enquanto eles liam trechos escritos em línguas esquecidas. As horas passaram, marcadas apenas pelo som suave das chamas crepitando nos candelabros.

"Asher," chamou Mor'Rein, sem tirar os olhos de um pergaminho desbotado que parecia prestes a se desintegrar em suas mãos. "Aqui. Leia isto." Ele empurrou o documento para o paladino, que começou a decifrar os caracteres.

"'Nos dias mais sombrios, Bathos Greymane desceu às profundezas das Camadas Infernais...'", Asher leu em voz baixa, sua voz carregada de uma mistura de admiração e orgulho. "'...onde travou embates que até mesmo os mortais mais ousados temeriam.'"

Ele parou, a mandíbula tensa. "Bathos esteve lá. Ele enfrentou o inferno em pessoa.."

Mas foi Mor'Rein quem encontrou a pista crucial. Seus olhos percorreram freneticamente uma série de anotações em um idioma arcaico antes de parar em um nome que fez sua respiração acelerar. Ele murmurou, mais para si mesmo do que para Asher: "As veias negras... estão conectadas a Erínias."

Asher se aproximou, seus olhos semicerrados. "Erínias? As Fúrias dos Nove Infernos?"

"Sim. Elas usam essas veias como canais, conectando o plano material ao Inferno. São portais, alimentados por magia acumulada ou sacrifícios. E isso não é tudo. Olhe aqui." Ele apontou para outro trecho. "Há menção de uma entidade... um demônio chamado Gugdronath. Um Balgura. Ele foi um dos primeiros a serem invocados usando essas veias, foi expulso para o inferno novamente graças a Bathos."

O nome ecoou na mente de ambos, carregado de um peso sinistro. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som das velas tremulando, como se o próprio ar tivesse se tornado mais denso com a revelação.

"Se essas veias estão conectadas a algo assim," murmurou Asher, "então Impetor não está apenas em perigo. Ele pode ser a chave para trazer essa coisa para cá."

"E se já estiverem usando ele?" completou Mor'Rein, sua voz tão sombria quanto o ambiente ao seu redor.

Na vastidão da biblioteca subterrânea de Bathos Greymane, Mor'Rein e Asher continuavam imersos nos registros antigos, empilhando tomos e pergaminhos sobre uma longa mesa de leitura. O paladino, tomado por um fascínio crescente, folheava cuidadosamente um livro de capa desgastada que exalava o cheiro típico de pergaminho envelhecido. Ao seu lado, Asher mantinha a expressão taciturna, lendo com a intensidade de alguém tentando conectar peças de um quebra-cabeça ancestral.

Após alguns minutos de silêncio, Asher ergueu os olhos de um texto que estudava e comentou sobre uma passagem intrigante que acabara de encontrar. "O Rio Estige", ele leu em voz alta, enquanto deslizava o dedo pelas palavras escritas à mão. "É descrito aqui como a artéria do Inferno, conectando suas camadas com um fluxo interminável de sofrimento e esquecimento. Suas águas não apenas envenenam a mente, mas corroem a própria alma. Aqueles que ousam se aventurar em suas margens devem estar preparados para enfrentar horrores indescritíveis." Ele fez uma pausa antes de continuar. "Há barqueiros que navegavam essas águas, figuras sombrias que tanto atuam como guias quanto como mercenários. Eles podem ser contratados, mas sempre cobram... um preço."

Mor'Rein, absorto em outro texto, desviou os olhos do registro que estudava. "Se quisermos resgatar Impetor, parece que precisaremos encontrar um desses barqueiros", murmurou o paladino, sua voz carregada de preocupação.

Enquanto Asher assentia em silêncio, Mor'Rein voltou a mergulhar em sua pesquisa e, poucos minutos depois, soltou um som de descoberta. Ele estava com um livro decorado com símbolos arcanos e, com um brilho no olhar, começou a narrar suas descobertas. "Aqui está algo sobre uma Erínia chamada Nyxalithra. Parece que ela governava um castelo em Avernus e esteve profundamente envolvida em convocações infernais durante a época de Bathos Greymane. Diz que suas ações foram essenciais para estabelecer portais que traziam diabos e demônios ao plano material. Ela era uma manipuladora hábil, agindo sob ordens de forças ocultas que buscavam minar os reinos mortais."

A expressão de Mor'Rein ficou mais grave enquanto ele continuava a descrever o que lera. Ele levantou os olhos e encontrou os de Asher, que até então mantinha seu semblante habitualmente reservado, mas que agora exibia uma preocupação evidente.

"Se ela ainda governa aquele castelo em Avernus", acrescentou Mor'Rein, "é bem provável que Impetor tenha sido levado até lá."

Asher cruzou os braços, refletindo sobre o que ouviu, antes de responder com determinação. "Se Bathos precisou enfrentar essa entidade no passado, deve haver algo nos registros que indique como ele lidou com ela. Continuemos procurando. Não podemos deixar Impetor enfrentar esse destino sozinho."

Ambos retornaram à leitura, redobrando seus esforços. A cada página virada, a sensação de urgência aumentava. A biblioteca parecia guardar segredos terríveis, mas também a esperança de que respostas cruciais poderiam estar ao alcance deles.

O ambiente estava tenso, mas determinado. Na sala de Horusk, com as sombras projetando formas incompletas nas paredes de pedra, os heróis se reuniam ao redor do ritual do portal, pronto para levá-los ao Avernus. O som baixo do murmúrio mágico preenchia a sala, enquanto Horusk, com a mão firme sobre um cristal mágico que começava a brilhar com uma energia azulada, olhava para os heróis.

Mor'Rein, sempre atento ao cenário, observava o local com seus olhos penetrantes, absorvendo cada detalhe enquanto os outros se preparavam para a viagem. Horusk, com um sorriso nostálgico, virou-se para ele.

"Antes de irem, tenho algo para você", disse Horusk, com um tom quase paternal. Ele retirou de um canto sombreado da sala uma vassoura voadora, que parecia em perfeito estado. O cabo negro era adornado com detalhes em prata, refletindo a luz suave que preenchia a sala. "Já usei essa belezura por muitos anos, explorando os céus ao lado dos Cavaleiros de Grifos, mas esses tempos ficaram para trás. Agora, acredito que ela seria mais útil em suas mãos, Mor'Rein."

Mor'Rein aceitou a vassoura, o peso leve da madeira em contraste com a grandiosidade do presente. Seus dedos passaram pelo cabo com reverência. Ele sabia que aquilo não era apenas uma ferramenta, mas um símbolo da confiança de Horusk. A vassoura não era apenas para viagens, era para voos rumo ao desconhecido. Ele agradeceu em silêncio, seu olhar se fixando no ponto onde o portal começava a tomar forma.

Horusk, sem perder tempo, posicionou o cristal mágico diante do portal, e um som profundo e reverberante preencheu a sala enquanto a energia se concentrava e o espaço diante deles começava a ondular. O ar ficou mais denso, e uma luz avermelhada irrompeu, projetando sombras distorcidas nas paredes da sala.

"O caminho para o Avernus está aberto", disse Horusk com uma solenidade que reverberava em suas palavras. Ele se afastou do cristal, que agora brilhava com a intensidade de um sol distante.

Um a um, os heróis começaram a avançar para o portal. Primeiro foi Ludus Lefou, sem qualquer hesitação. O bufão, com um sorriso de pura excitação, deu um salto para a frente, seu riso ecoando pelo salão enquanto ele se jogava para o desconhecido, como se o caos fosse seu lar. Sua energia era contagiante, e ele parecia mais uma criança brincando com fogo do que um herói em uma missão épica.

Em seguida, foi a vez de Asher. O caçador amaldiçoado, com sua natureza contida, apenas olhou para o portal por um momento antes de se mover. Ele não era do tipo que dava saltos alegres para o desconhecido, mas seu olhar determinado não precisava de palavras. Com a leveza de um predador se preparando para a caça, ele avançou com passos firmes, como se soubesse exatamente o que esperava além.

Dahaka Akmenos deu um passo à frente, sua postura ágil e calculista refletindo a necessidade de agir com precisão. Seus olhos, sempre alertas, examinaram o portal, antes de ele simplesmente avançar, saltando com a rapidez de um predador que não hesita.

Por fim, foi a vez de Mor'Rein. O bruxo, com sua nova vassoura voadora, olhou para o portal, para os rostos de Horusk e então, com a confiança de um conhecedor das artes ocultas, ele subiu na vassoura e disparou para o portal, sua capa ondulando atrás dele como se ele mesmo fosse parte do vento. Seus olhos brilham com um propósito inabalável, e enquanto atravessava o portal, ele soube que nenhum caminho, nem mesmo o mais perigoso, seria capaz de desviá-lo do seu destino.

E assim, um a um, os heróis saltaram para o desconhecido, o portal os engolindo enquanto a sala de Horusk se fechava atrás deles. O Avernus os aguardava.

Impetor Ragrinof acordou em um pesadelo de ferro e dor. Suas correntes, afiadas como lâminas, estavam presas em seus pulsos, tornozelos e pescoço, cada movimento resultando em uma tortura aguda. O som metálico das correntes ecoava pelas paredes da masmorra, e ele lutava contra o peso que as algemas impunham a seu corpo, mas não havia força suficiente em seus músculos ou vontade para quebrar aquele confinamento. O castelo da Erínia, Nyxalithra, parecia viver e respirar ao seu redor, uma presença tão opressiva quanto as sombras que se arrastavam pelas paredes frias e úmidas. O ar estava pesado, saturado com o fedor de decomposição, e a única luz vinha de uma chama distante, dançando como se zombasse de sua impotência.

O silêncio, quebrado apenas pelo som das correntes, era um lembrete cruel de sua captura. Impetor, com sua força de gladiador e resistência sobre-humana, jamais havia se sentido tão vulnerável. Ele sentia a energia de seu espírito destemido se esvaindo lentamente, a cada momento que passava naquele castelo. Ele estava ciente de que estava em um lugar que não compreendia totalmente, um lugar onde as leis da natureza e da batalha não se aplicavam, onde a verdadeira força não era apenas física. Ele olhou para as paredes de pedra, buscando alguma pista, algum meio de escapar, mas a única coisa que encontrou foi a promessa de mais sofrimento.

O cenário de Avernus é árido e implacável. À medida que os heróis chegam, as margens do Rio Estige se estendem à frente deles, um rio de águas escuras e sinuosas que serpenteia pelo deserto rochoso. O céu está tingido de um vermelho sombrio e ameaçador, como se a própria luz estivesse corroendo. O solo, coberto de obsidianas afiadas e fragmentos de quartzo, reflete o brilho vermelho que permeia o ambiente, tornando cada passo uma luta constante contra os perigos do terreno. As montanhas e colinas rochosas são imponentes e traiçoeiras, criando uma paisagem de beleza cruel e sinistra. O ar está pesado, um caldo de enxofre e ozônio que aperta os pulmões, e de tempos em tempos, bolas de fogo caem do céu, iluminando o horizonte com explosões súbitas.

A atmosfera de Avernus é a de um inferno à parte, com pouco em termos de vida além de formas retorcidas de plantas e fungos escuros, adaptados à tortura do ambiente. O cheiro de ferro derretido e queimado paira no ar. O solo, onde a obsidiana se mistura com o cascalho, é quase infértil, e os rios de sangue que cortam a terra parecem mais um testemunho dos horrores do plano do que uma verdadeira fonte de vida. De longe, podem ser vistas ruínas de antigas construções, cidades que um dia foram portais para outros mundos, agora corroídas pelo domínio demoníaco. A sensação que permeia a terra é de desolação, e embora Avernus seja o ponto de entrada para os Nove Infernos, cada pedaço de seu solo ressoa com um mal inquestionável, uma força que faz até mesmo os ventos pararem de soprar, como se aguardassem algo ainda mais aterrador no horizonte.

Enquanto os heróis observam o deserto escarlate à frente deles, Ludus, sempre com seu sorriso irônico, não consegue deixar de soltar uma piada:

"Bem, parece que o cartão de visita do Inferno inclui uma oferta de sol o dia todo e um horizonte eterno com mar de lava como bônus... perfeito para umas férias relaxantes, não acham?" Ele olha para o horizonte, onde o céu parece derreter e o terreno é cortado por rios de sangue. "Aposto que não tem um resort por perto. Nenhuma piscina de margarita também... Mas pelo menos tem uma bela vista da eterna danação."

Asher, com a expressão séria e olhos atentos, rapidamente alerta o grupo. "Mantenham-se focados. O terreno aqui é traiçoeiro, e esses rios... são mais do que apenas água suja. Não sabemos o que isso pode fazer com a gente." Ele parece sentir uma tensão no ar, o instinto de sobrevivente puxando-o para um estado de alerta constante, como se uma ameaça invisível estivesse esperando para se revelar.

Dahaka, com seu sangue infernal pulsando sob a camada de pele, não perde tempo. Ele começa a puxar suas adagas, a lâmina tocando a superfície de sua pele com um som metálico. Seu olhar está fixo nas distantes montanhas e nas sombras que parecem espreitar nas colinas. Ele sente a vibração das energias malignas, a sensação da ferocidade infernal aflorando mais forte dentro de si, como se o próprio Inferno estivesse chamando pelo seu nome.

Mor'Rein, em cima da sua vassoura, sobe ao céu para ter uma visão mais clara da região. Seu olhar elfo se estende por quilômetros e, ao longe, ele vê o Rio de Sangue serpenteando pela terra, uma linha escura e viscosa cortando o deserto de Avernus. Ele desce suavemente até os outros, apontando o caminho. "Sigam para o oeste. O Rio de Sangue está à frente."

Com as instruções de Mor'Rein, o grupo começa a jornada pela paisagem desolada. O terreno é difícil de atravessar, com as obsidianas afiadas cortando os sapatos e as botas, tornando cada passo um desafio. A cada movimento, o silêncio é interrompido apenas pelo som das botas batendo no cascalho e o vento seco que sopra partículas de pó infernal. A tensão no ar é palpável, e a paisagem parece se estender sem fim, como se o mundo tivesse sido engolido pela vastidão de Avernus. A presença dos demônios, sempre sutil e ameaçadora, pesa sobre eles, e a cada passo, eles sabem que estão sendo observados, aguardados... mas não podem mais voltar atrás. O Rio de Sangue se torna um marco distante, mas visível, e o grupo se dirige para ele, enfrentando as ameaças e perigos do Inferno com a determinação de quem sabe que a jornada, apesar de infernal, é a única opção.

Os heróis chegam ao Rio de Sangue, cujas águas escuras e viscosas serpenteiam lentamente pela paisagem infernal de Avernus. O rio é largo, com mais de cem pés de largura, e sua superfície está pontilhada de manchas de sangue coagulado, como se as almas perdidas do inferno tivessem derramado suas essências nele. O fluxo das águas é preguiçoso e quase estagnado, com uma cor vermelha profunda que reflete a luz vermelha e constante do céu acima. Ao redor do rio, várias criaturas vagam, almas penadas e demônios de diferentes formas e tamanhos. A maioria delas parece estar em um estado de conformidade ou resignação, acostumadas ao sofrimento e à dor que permeiam Avernus. Elas não atacam os heróis, mas seus olhares vazios e distantes sugerem que há algo profundamente perturbador e eterno nesse lugar. Esses seres parecem ter encontrado algum tipo de paz no sofrimento, como se a presença das almas mortais não fosse mais uma ameaça, mas uma parte inevitável do ciclo infernal.

Asher, com sua postura cautelosa, murmura sobre a necessidade de encontrar um barqueiro que saiba a localização de Nyxalithra e seus domínios, e logo os heróis começam sua busca pelos barqueiros. Alguns, diabos de vários tipos e formas, oferecem serviços sombrios, mas os heróis sabem que precisam ser seletivos. 

Ludus avançava entre as multidões de almas penadas e demônios menores como um espectro errante, seus passos cautelosos mascarados pelo caos de Avernus. Gritos distantes se mesclavam ao uivo do vento sulfuroso. Cada criatura ao redor parecia absorta em sua própria agonia ou missão infernal. Ele mantinha a cabeça baixa, a mão no punho da adaga, a mente em alerta.

Mas então, algo mudou.Um arrepio percorreu sua espinha. Um cheiro. Não um odor qualquer, mas algo que atravessava o véu do presente e rasgava a memória. Enxofre... podre... e um toque metálico — como sangue fresco evaporando sobre ferro quente.

Ludus ergueu os olhos, disfarçadamente. A névoa carmesim se abria adiante como uma cortina pesada, e por um instante, ele viu: uma figura magra, alta, recortada em espinhos e placas ósseas. Seus pés não tocavam o chão; pairavam levemente, como se a gravidade o temesse. Os chifres arqueados, o semblante ossudo e sem olhos, e aquele gancho cruel ao fim do braço. Diabo do Osso, o mesmo que o empalou nas Stormhorns. O mesmo que riu enquanto ele sangrava no frio mármore do forte Zhentarim. Um carrasco com memória.

O mundo ao redor pareceu congelar. Os sons abafados, como se Ludus tivesse mergulhado em óleo quente. O Diabo virou a cabeça lentamente em sua direção. Ele não olhava. Ele farejava.

Ludus conteve a respiração. Um passo atrás. Outro. A criatura ergueu o crânio e aspirou o ar como um cão de caça. Mas não avançou. Algo nele... hesitou.

Como se não soubesse. Como se sentisse algo familiar, mas diferente.
Um eco de Ludus, mas filtrado por Avernus.

Num lampejo, Ludus sussurrou um encantamento, e sua silhueta esmaeceu, dissipando-se entre sombras e corpos condenados. Invisível, ele deslizou para dentro da multidão, o coração disparado como tambores de guerra.

O Diabo do Osso continuou ali, imóvel por alguns segundos. Depois, virou-se com lentidão ritualística e prosseguiu seu caminho, puxando atrás de si uma corrente que arrastava uma dúzia de almas acorrentadas, cada uma chorando em silêncio.

Ludus, escondido entre um grupo de almas deformadas, ofegava baixinho. Um lembrete brutal: no Plano Material, aqueles demônios eram predadores. Aqui, eram pastores do sofrimento.A função era outra, mas os olhos ainda buscavam sangue.

É Dahaka quem, ao seguir uma alma perdida que se aproxima dele, descobre a melhor oportunidade. A alma, um espectro pálido, murmura: “Ouvi dizer que estão atrás da erínia que atende pelo nome de Nyxalithra... Eu sei quem pode levá-los até lá.” Ela os guia até uma Nau Negra, uma embarcação que parece ter sido construída de um material negro e corroído, que reflete a luz vermelha do céu de Avernus. A nau é macabra e fantasmagórica, com velas que parecem feitas de escuridão pura. As almas penadas, transparentes e distorcidas, vagueiam pelo convés da embarcação. Alguns estão apenas observando em silêncio, outros em lamentos. O ar ao redor da nau é pesado com o som de gritos abafados e murmúrios ininteligíveis. 

Capitão James.
Os heróis são conduzidos pela alma espectral até a cabine do Capitão da Nau Negra. A porta se abre com um rangido baixo, revelando um ambiente abafado e sombrio. Dentro, o Capitão os espera, de pé, atrás de uma mesa coberta por papéis antigos e sujos. Ele é uma figura imponente, com o rosto de uma caveira, seus olhos vazios iluminados por uma chama tênue que parece vir de dentro. Seus longos cabelos negros caem em ondas, contrastando com a natureza ossuda de seu semblante. Ele veste um manto escuro, que remete a um velho cão do mar, com franjas e bordados desgastados, lembrando uma época de glórias perdidas.

O ar na cabine é pesado, quase sufocante, com o som do vento cortante e o murmúrio distante das almas que voam por fora da nau. O Capitão James observa os heróis com uma calma de quem já enfrentou incontáveis tormentas. Ele levanta uma mão esquelética e aponta para os assentos dispostos ao redor de uma mesa redonda, indicando que se sentem.

Ludus, curioso, decide perguntar: "Como funciona essa negociação, então?"

James sorri com um som baixo, quase como um sussurro de vento, e responde: "Sou um penitente. As almas dos mortais geralmente chegam a este plano, com seus pecados e arrependimentos pesando sobre elas. Aqui, os vejo cair do céu, ou serem depositadas no Lago do Desânimo, como lembretes de suas falhas. Eu, pessoalmente, faço um trabalho um pouco diferente. Levo aqueles que buscam atravessar Avernus... para um preço, é claro."

Ludus, ainda desconfiado, continua: "E qual é esse preço?"

James se aproxima lentamente, as correntes de seu manto arrastando pelo chão com um estalo suave. "Cem peças de ouro por passageiro. O preço da travessia, do que já perdi e da dor que ainda sinto."

Os heróis trocam olhares, e, como que de forma combinada, seus olhos se voltam lentamente para Dahaka, o ladino do grupo. Ele sente a pressão e levanta uma sobrancelha com uma risada irônica. "Ah, claro..."

Dahaka suspira, tirando as mãos dos bolsos e começando a esvaziá-los na mesa, uma por uma, com um gesto que parece mais resignado do que de fato irritado. Pequenas gemas e pedaços de tesouro, recolhidos de uma pilha de riquezas não tão recentemente adquiridas, caem pesadamente sobre a superfície, refletindo as luzes fracas da cabine.

Com um sorriso de escárnio, ele observa o conteúdo que acabou de expor, depois olha para os outros com ironia: "Aqui estamos. O herói sem honra, o audaz ladino com todas essas relíquias...Pagando com o que roubei de Impetor para salvar o próprio." Ele dá uma pequena gargalhada, seus olhos cintilando de maneira astuta. "Ironia poética, não?"

Ele conta as peças com cuidado e cobrando o valor apropriado. James observa a transação em silêncio, aceitando o pagamento como se fosse uma rotina. "A travessia começará em breve", ele diz com uma calma macabra, como se a travessia entre os planos fosse uma mera formalidade para ele.

O vento começa a uivar lá fora, e a nau negra começa a se mover lentamente nas águas vermelhas do rio, rumo ao destino desconhecido de Nyxalithra, enquanto o Capitão James observa a navegação com uma concentração sombria e os heróis se acomodam para o que está por vir.

A jornada pelo Rio de Sangue se desenrola em uma paisagem que parece existir além do tempo e da razão. O rio, largo e turvo, serpenteia lentamente sob o céu vermelho de Avernus, suas águas brilhando com um brilho metálico, refletindo o caos que parece estar congelado ali. Ao redor, a terra é uma massa de desolação—montanhas distantes se erguem como monumentos estagnados de carne e pedra, enquanto o som constante do vento arrasta ecos de gritos perdidos e almas que flutuam no ar, suas formas difusas e distorcidas. O cenário parece efêmero, como se estivesse à beira de se desfazer a qualquer momento.

As sombras das almas errantes e dos demônios se arrastam pela paisagem, mas de alguma forma, os heróis se sentem ignorados, como se estivessem sendo observados à distância por olhos invisíveis. O silêncio entre eles é tenso, preenchido apenas pelo som da nave quebrando a superfície densa do rio.

A paisagem começa a se tornar mais opressiva e surreal à medida que avançam. As árvores que crescem nas margens do rio parecem feitas de ossos retorcidos e carne podre, suas folhas se movendo com um movimento que não tem vento para justificar. E então, sem aviso, a atmosfera muda.

Sombras Vivas.
O som do rio parece desvanecer, substituído por um suspiro sombrio. As sombras à margem começam a se mover, em um ritmo desconcertante, como se ganhassem vida própria. Antes que os heróis possam reagir, elas se estendem sobre a água, como garras escuras buscando seus alvos. O céu se apaga em um instante, e uma onda de escuridão pura se lança sobre a embarcação.

Dahaka, o mais próximo da borda, sente algo gelado envolver seus tornozelos. Ele tenta se mover, mas a sombra o puxa com força, como se tivesse mãos. Ele grita, mas suas palavras se perdem no ar, engolidas pela escuridão. As sombras se agarram, apertando-o, enquanto ele tenta com esforço desespero usar suas lâminas para cortar o que o envolve, mas os ataques parecem inúteis.

Mor'Rein, flutuando acima da nau em sua vassoura, sente uma tensão crescente no ar. Seus olhos se arregalam ao perceber a ameaça das sombras que surgem, e com um gesto frenético, ele invoca os poderes dos antigos anciões com quem pactuou. Uma energia antiga e esotérica explode de seus dedos, lançando um feixe escuro e distorcido que rasga a escuridão à sua volta. O impacto é brutal, mas as sombras não cedem tão facilmente. Elas se fragmentam momentaneamente, apenas para se reconstituírem em formas ainda mais caóticas, mais densas, desafiando o controle de suas magias ancestrais e tornando a luta ainda mais imprevisível.

Ludus, sem perder tempo, solta um grito exagerado e dramático, com um sorriso de quem adora um bom show: “Vamos lá, pessoal, não deixem essas sombras ficarem com a melhor parte! Lutem como se estivessem brigando pelo último pedaço de carne de um banquete!” Ele balança os braços com teatralidade, fazendo gestos amplos, enquanto seus companheiros ficam meio confusos, mas com um leve sorriso, animados pela energia... ou talvez apenas pela piada. Sua "inspiração" é menos sobre motivação divina e mais sobre o impulso de manter o grupo alerta, ainda que com uma boa dose de sarcasmo e humor.

Asher, com sua lâmina de destruição divina brilhando intensamente, não perde tempo. Ele invoca um feixe de luz sagrada que explode contra as sombras, incendiando suas formas nebulosas à medida que corta através da escuridão. Cada golpe que ele desferia expurgava uma alma corrompida, e a luz divina emanava de sua espada com uma força purificadora, mas as sombras, longe de recuarem, apenas se reformam, mais agressivas do que antes. Ao ver Dahaka sendo sufocado pelo abraço sombrio, Asher grita em desespero: "James! Precisamos de sua ajuda aqui!" No entanto, o capitão apenas ri de forma macabra e imperturbável, observando o caos de longe. Determinado, Asher avança para cortar as sombras ao redor de Dahaka, sua lâmina reluzindo com uma luz celestial enquanto as sombras tentam resistir à força divina.

Após o confronto, os heróis estão exaustos, mas a ameaça das sombras desaparece, dissolvendo-se nas águas do rio. As últimas sombras se evaporam, deixando para trás o eco das almas perdidas, que desaparecem na neblina.

Ainda respirando pesadamente, Asher se vira para o Capitão James, gritando sobre a emboscada que acabaram de enfrentar. "Você poderia ao menos ter nos dado uma ajuda?"

O Capitão apenas sorri com um sorriso frio e insano, os olhos vazios fixos nos heróis. Ele faz um gesto indiferenente com a mão e, com um tom de voz que reflete a natureza de seu ser, responde: "Não enche."

Asher, agora visivelmente irritado, encara o Capitão. "Você deveria ter nos avisado sobre esse tipo de coisa!"

James apenas ri de maneira sombria, o som reverberando pelo convés da nau. "Não me culpe por sua inocência, mortal... Como eu disse, apenas concordei em transportá-los, vivos ou não... E como pode ver, cumpri com minha parte do acordo." Ele faz um gesto vago com a cabeça, apontando para a linha do horizonte onde se ergue o grande castelo de Nyxalithra. A jornada ainda não acabou, mas o destino está à vista, ainda que a um preço amargo.

O episódio termina com a nau seguindo sua direção, e os heróis, agora com um sentimento misto de frustração e alívio, se preparam para o que ainda está por vir, enquanto o som das águas continua a marcar o ritmo de sua travessia.


EPISÓDIO 18 - O INFERNO TAMBÉM SANGRA.

Data: ??? (Teoricamente: 7 de Nightal, 1372 CV - 22h)
Local: Castelo de Nyxalithra, Avernus.

A Nau Negra aproximou-se lentamente do afloramento rochoso, rangendo como se ela mesma sofresse com o peso das almas que carregava. A margem do Rio Estige não oferecia ancoradouro, apenas uma escadaria de pedra carcomida que serpenteava por entre penhascos negros, levando a um caminho estreito em direção ao castelo que se erguia no horizonte feito um dente cravado na carne do mundo.

James, o espectral capitão, girou lentamente o timão com dedos longos demais, suas unhas raspando a madeira como garras de um corvo. Com precisão quase sobrenatural, ele fez a embarcação tocar as rochas sem um único tranco. Então, sem uma palavra final, sem uma saudação, ergueu o que restava de sua caveira num gesto zombeteiro e começou a se desfazer.

Uma risada baixa e insidiosa escapou de sua garganta e reverberou pelas águas do Estige como se ecoasse nos ossos dos próprios heróis. A tripulação espectral, um a um, se dissipou com a névoa sulfúrica que subia do rio — formas borradas, contorcidas, virando fumaça diante dos olhos dos mortais.

Dahaka apertou os punhos, cerrando os dentes. "Maldito carcereiro de risadas ocas, poderiamos ter morrido... Espero que a eternidade pese nos teus ombros..."

Ludus, como sempre, não resistiu ao impulso da piada: "Ah, deixe pra lá, Dahaka. Ele já parece estar eternamente punido..".

O grupo desceu da nau sem cerimônia. Os pés tocaram o solo infernal com um estrondo abafado — o silêncio do rio se tornava, pouco a pouco, um zumbido opressivo. Asher observou a escadaria de pedra que se estendia até onde a visão permitia. O castelo de Nyxalithra era apenas uma silhueta no horizonte carmesim, mas sua presença era como um farol escuro no fim da tormenta.

"Agora estamos por conta própria." murmurou Asher, com a mão pousada no punho da espada.  "E o ar daqui não cheira à salvação."

Começaram a subida em silêncio. Cada degrau estalava sob os pés, coberto de poeira vulcânica e fragmentos de osso. As correntes do castelo emitiam um som ritmado, metálico, como respiração mecânica. Dahaka avançava à frente, os olhos semicerrados, os sentidos aguçados como os de um animal em território hostil.

Ele se movia entre as sombras como se elas o reconhecessem. Passou despercebido por dois guardas, grandes criaturas infernais cobertas de escamas espessas e armadas com lanças negras. Eles estavam de guarda, imóveis como estátuas grotescas, e sequer pareceram notar a presença do tiefling.

Foi Dahaka quem primeiro pisou nos Jardins de Almas.

A vegetação era um horror em si — árvores feitas de vértebras e galhos que se torciam como membros quebrados, arbustos espinhosos cujas flores eram bocas costuradas e frutos oculares que pulsavam ao ritmo de batimentos cardíacos inexistentes. O solo era mole como carne podre. A cada passo, visões antigas brotavam nas bordas da visão: risos distantes, gritos abafados, memórias roubadas.

Mas Dahaka... ele parecia calmo. Seus olhos carmesins cintilaram com uma estranha familiaridade. A atmosfera, o ar denso e saturado de poder infernal, não o repeliam — o abraçavam. Seu sangue meio-diabólico pulsava com mais força, como se os corredores tortuosos do Inferno reconhecessem sua ascendência.

Ele virou o rosto por sobre o ombro e sussurrou ao grupo, que se aproximava devagar pela trilha:
"Cuidado. Aqui, até as raízes têm olhos."

E, sem esperar resposta, prosseguiu, como se estivesse retornando a um lar que jamais esteve... mas que, de certo modo, sempre o aguardou.

As câmaras internas do castelo eram envoltas por uma penumbra viva. As chamas nas tochas ardiam com uma luz escarlate, e sombras dançavam nas paredes como se tivessem vontade própria. No centro de uma sala octogonal decorada com tapeçarias feitas de pele esticada e símbolos profanos gravados em metal negro, encontrava-se Nyxalithra, a erínia.

Sentada em um trono entalhado em ossos e adornado com lâminas antigas, ela mantinha a postura de uma rainha em meio ao sofrimento. As grandes asas rubro-negras estavam parcialmente abertas, envolvendo o trono como um manto. Diante de si, um orbe de vigilância flutuava — uma esfera de cristal escuro com fragmentos de espelho girando em seu interior, que emitiam sussurros de almas torturadas.

Dentro do orbe, a imagem de Dahaka Akmenos se movia furtivamente pelos jardins retorcidos. Nyxalithra inclinou a cabeça, um sorriso afilado e debochado surgindo em seus lábios. Seus olhos vermelhos brilhavam com malícia — não de raiva, mas de um prazer antigo.
"Oh... pequenos ratos curiosos." murmurou com uma voz sedosa como veneno em mel. "Pensam que podem cruzar o limiar do meu reino sem deixar rastros? Tão encantadores em sua ignorância..."

Ela girou levemente a mão, fazendo a imagem oscilar por um momento, e então se voltou para a figura nas sombras atrás do trono.

Ali, quase fundido com a escuridão da parede, permanecia um ser alto e encoberto por um manto de correntes e véus escuros. Nada em sua aparência era inteiramente revelado — apenas o som de engrenagens rangendo e o tilintar ocasional de elos metálicos sugeriam sua presença física. A própria sombra parecia evitar tocá-lo diretamente.

"Leve o prisioneiro até o Salão Principal" ordenou Nyxalithra, sem nem olhar para ele. "Que ele esteja acordado, de pé... e com as correntes bem ajustadas. Meus convidados estão prestes a chegar, e quero que a recepção seja... inesquecível."

O som das correntes se arrastando respondeu como um aceno obediente. O ser se moveu, mas seu caminhar não fazia ruído no chão infernal. Apenas a escuridão se agitava em seu rastro, como se o próprio castelo tremesse com sua passagem.

Nyxalithra então voltou seus olhos para o orbe e sussurrou com um brilho felino no olhar:

"Venham, pequenos heróis. Venham salvar o seu campeão..."

Mor’Rein foi o primeiro a romper o silêncio. Seus olhos percorriam os arcos do teto e os símbolos gravados em pedra como se pudessem falar."Este lugar... é um santuário para o mal. A corrupção está impregnada em cada centímetro desses corredores. Sinto como se algo estivesse me observando o tempo todo."

Asher apertou o cabo de sua espada. Seus olhos estavam alertas, mas sombrios. "O Inferno não esconde o que é. Aqui, o mal não precisa se disfarçar."

Dahaka bufou, passando a mão na testa coberta de suor escuro.
"Isso aqui é um maldito labirinto. Se eu desse mais dois passos na direção errada, teria saído pela mesma porta de onde entrei."

Ludus, claro, não deixou passar a oportunidade: "Esperava o quê? Um tour guiado? 'À esquerda, o salão de tortura. À direita, o banheiro. Cuidado com o papel higienico — não são de folha dupla!' " — ele sacudiu os braços teatralmente.

O Salão Principal do castelo de Nyxalithra se abria como a boca de uma criatura ancestral — vasto, escuro e opressivo. Colunas de obsidiana negra se erguiam como lanças em direção ao teto oculto por névoa escarlate. As paredes, vivas com inscrições pulsantes, emitiam um brilho sanguíneo que pulsava como um batimento cardíaco profano. Estátuas de figuras corrompidas se espalhavam pelas laterais, e em seu centro, acorrentado e de joelhos, estava Impetor Ragrinof.

Ao vê-lo, os heróis se detiveram por um momento. A presença do companheiro, mesmo naquela condição, reacendeu algo em seus corações — uma mistura de alívio e indignação. Ele estava vivo, mas ferido, exausto, e ainda mais assustador: marcado pelas veias negras que agora serpenteavam visíveis sob sua pele como tatuagens de trevas vivas.

Impetor ergueu os olhos lentamente ao vê-los. Apesar da dor evidente, um brilho de reconhecimento ainda queimava em sua expressão. Um a um, os heróis se aproximaram, cercando seu amigo. Dahaka se ajoelhou ao lado do meio-dragão, verificando os pulsos acorrentados.
"Estamos aqui, grandalhão. Não vamos deixar você assim."

Mas antes que pudessem libertá-lo, as chamas que ardiam nas colunas explodiram em um clarão rubro. Das alturas do salão, Nyxalithra surgiu. Ela desceu em espiral, suas asas rubro-negras se abrindo com uma imponência angelical e macabra. Sua beleza era tão devastadora quanto a malícia que ela exalava — olhos vermelhos como rubis queimando com diversão cruel, e um sorriso onde o prazer e o escárnio se misturavam como veneno no vinho.

"Que tocante" ela disse, a voz como mel gotejando em uma lâmina."Vieram buscar seu campeão. Que nobreza... que comovente."

Ludus ergueu a cabeça, tentando manter a pose. "Viemos por ele, e vamos sair com ele."

Ela riu, um som musical e profano. "Oh, mas eu não sou uma anfitriã cruel. Vocês podem levá-lo. Se forem... dignos."

No mesmo instante, as sombras atrás do trono se agitaram. Duas figuras surgiram das trevasKytons, envoltos em correntes vivas, com ganchos e lâminas serpenteando pelos corpos. Seus olhos brilhavam como brasas sem alma. Nenhuma palavra foi dita, mas a intenção era clara. A única maneira de libertar Impetor era passando por eles.

Asher se virou, gritando: "E o que você ganha com isso, demônio?"

Nyxalithra pairou no ar, como uma estrela sangrenta no firmamento infernal. "O entretenimento de ver heróis em sua dança tola contra o impossível. Ah... não é esse sempre o enredo favorito dos mortais?"

Dahaka rosnou, os olhos faiscando. "Diabos não se arriscam à toa. Isso é papo furado!"

Mor’Rein cruzou os braços, seus olhos mergulhados em concentração. "Não é risco... é estratégia. Impetor carrega as veias negras. Ele é um portal daqui pra lá — tanto para o Inferno quanto no plano material. Um troféu. Uma arma. Uma acesso."

"Mas isso não vai impedir o arrrojado resgate de vocês, não é?" Nyxalithra abriu um sorriso maior, exibindo dentes perfeitos, brancos como marfim de ossos de anjos. " Ah... Isso é o que eu amo no heroísmo. Sempre tão... previsível."

O som das correntes dos Kytons começou a ecoar, afiando o ar como lâminas. Os heróis se entreolharam, firmando os pés no chão de pedra negra. O combate inevitável estava prestes a começar.

E o Inferno... esperava para assistir.

A batalha começou como um trovão partindo o mundo em dois. No instante em que os Kytons avançaram, o ar se encheu de um som cortante e metálico — as correntes vivas que os envolviam ganhavam vida própria, chicoteando como serpentes famintas.

Mor'Rein, planando acima do salão com sua vassoura negra de prata, girou no ar e estendeu a mão, liberando uma rajada mística com estalos de energia verde e azulada. A explosão atingiu o primeiro Kyton no peito, lançando brasas espectrais pelo salão. Mas o diabo não recuou — sua corrente saltou como uma língua faminta e enrolou-se no tornozelo do bruxo. Com um puxão brutal, ele foi arrastado do céu.

"Agh!" gritou Mor'Rein, despencando e rolando pelo chão de pedra, sua vassoura deslizando ao longe como uma flecha caída.

Dahaka avançava de lado, buscando uma abertura. Ele saltou por cima de uma pilastra quebrada, as adagas em punho, mas mal aterrissou, uma corrente zumbiu rente ao seu rosto. Ele girou no ar e caiu com um joelho ao chão, o rabo se movendo instintivamente para desviar um segundo ataque.

Ludus, percebendo a urgência da situação, correu até Impetor, ainda preso nas correntes infernais. As mãos do bufão tremiam de ansiedade enquanto ele puxava cada elo mágico com força inútil.

"Vamos, vamos... você já estourou portões de aço com o ombro, quebra essas correntes também!" sussurrou Ludus, seus dedos tentando soltar os ganchos. "Qual é, lagartixa, precisamos de você!"

No centro do salão, Asher avançou com passos firmes. A espada sagrada de Bathos Greymane em sua mão brilhou como a aurora. Com um urro de fé, ele golpeou o Kyton que derrubara Mor'Rein. A lâmina, banhada em destruição divina, cruzou o ombro do demônio em um arco diagonal, arrancando faíscas negras e um jorro de névoa espessa.

O segundo Kyton, percebendo Ludus ocupado com Impetor, girou o corpo e lançou sua corrente como uma catapulta viva. O ataque estalou no ar — mas Ludus pulou para o lado no último segundo, o impacto esmagando uma pilastra próxima com um estrondo. O bardo, com olhos arregalados, olhou para os escombros e teve uma ideia súbita.

"...Aha! Obrigado pela força, cara-de-ferro" murmurou ele.

O Kyton preparava o segundo golpe, e Ludus, com um salto desesperado, se colocou de volta ao alcance. A corrente veio — ele se abaixou no momento exato, e a lâmina do demônio acertou em cheio um dos elos da corrente de Impetor. Um estalo mágico ressoou, e um dos braços do dragão se soltou.

O braço livre de Impetor subiu como um trovão. Seus dedos cerraram ao redor do pescoço do Kyton.

"RAAARGH!"

Num movimento selvagem, o meio-dragão girou o corpo e arremessou o demônio contra a parede. O impacto foi tão brutal que rachaduras se espalharam pelas pedras negras.

Dahaka aproveitou a abertura. Enquanto o Kyton se recomponia da queda, o tiefling correu pelas sombras, saltando sobre a corrente caída, e cravou suas duas adagas no flanco exposto da criatura. Ele girou as lâminas em movimentos contrários, rasgando o aço como carne viva. O Kyton gritou, um som abafado e retorcido, e girou o braço com força — arremessando Dahaka longe.

Mor'Rein, agora de pé, esfregava o ombro dolorido. Sua vassoura retornava a ele, flutuando como uma serpente obediente. O bruxo subiu nela com um salto ágil, os olhos ardendo com fúria arcana.

"Queime, condenado..."

Ele fez um gesto em espiral no ar, e um feixe de energia ancestral irrompeu da ponta de sua mão, enquanto seu familiar abnormal flanqueava a criatura. A magia dos pactos antigos colidiu com o Kyton ainda preso à parede, consumindo-o em chamas negras que serpenteavam como tentáculos famintos.

Asher, sangrando de um corte no braço, se virou para o segundo Kyton. Ele ergueu a espada, murmurando uma prece silenciosa. "Pela luz que resta em meio ao inferno!"

Com um salto, ele desceu a lâmina sobre o ombro do monstro, rachando sua armadura viva. O Kyton girou, atingindo Asher com a corrente no torso e lançando-o para trás, mas a armadura do paladino absorveu parte do impacto.

Ludus, vendo Impetor com um braço livre, começou a trabalhar nas outras algemas. "Se você puder me ajudar... ficarei devendo uma cerveja. E um braço, talvez."

Impetor grunhiu.

"Eu quero um barril. Inteiro."

"Negócio fechado!" Com novo ataque do Kyton, a corrente zuniu outra vez. Ludus se moveu para o lado, e o golpe acertou a base da última corrente. Outra explosão de runas. Impetor rugiu e se libertou.

Com os dois braços livres e os olhos repletos de ódio, Impetor avançou sobre o Kyton restante. Ele ergueu o inimigo do chão e esmagou-o contra o solo, uma, duas, três vezes. A criatura grunhiu com cada impacto até se desfazer em poeira negra e correntes quebradas.

O outro Kyton, cambaleando, ergueu a mão em um gesto de defesa, mas foi interrompido pela rajada mágica de Mor'Rein, que atravessou seu crânio. Em seguida, Asher saltou por cima dos escombros e decapitou a criatura, encerrando o combate com a luz sagrada cortando o ar.

Silêncio.

Somente o som das correntes estalando em eco ao longe... e os heróis, ofegantes, suados, com olhos ainda alerta.

Ludus caiu sentado ao lado de Impetor, limpando a testa com um lenço vermelho.

"Ufa... alguém anota aí: Kytons — péssimos anfitriões."

Impetor, ainda arfando, lançou um olhar sério em direção aos seus salvadores. Ludus sentiu um frio na barriga — um nervosismo súbito ao se lembrar de que não haviam se separado nos melhores termos. O meio-dragão deu alguns passos firmes em sua direção. Ludus cogitou recuar, talvez desaparecer entre as sombras... mas não houve tempo. Antes que pudesse reagir, Impetor o alcançou — e, para sua surpresa, puxou-o para um abraço apertado.

"Você vieram..." Disse Impetor se afastando do abraço e com um sorrisso genuíno no rosto.

"Não deixariamos um companheiro para trás..." Disse Asher.

"Sim ainda mais um que acabou de herdar uma baita fortu-" Tentou brincar Ludus antes de ser interrompido por uma leve cotovelada de Mor'Rein.

E no alto do salão, nas sombras do trono... Nyxalithra observava.
Silenciosa.
Intrigada.
Divertida.

A fumaça da batalha ainda pairava densa sobre o salão de pedra. As correntes jaziam partidas, os corpos dos kytons agora meros montes de ferro retorcido e carne esbranquiçada. No alto, entre colunas de ossos e tapeçarias feitas de pele curtida, Nyxalithra desceu lentamente dos céus do salão, suas asas se dobrando com elegância demoníaca enquanto os pés tocavam o mármore escuro. Seu olhar rubro dançava entre os heróis, e o sorriso em seus lábios parecia quase... desapontado.

"Conseguiram seu resgate... Agora partam dos meus domínios, antes que minha generosidade se esvaia... e minha fome desperte."

Ludus, arfando, com o rosto coberto de fuligem, colocou as mãos nos quadris e olhou para a erínia com um arqueio de sobrancelha. "Generosidade é um termo ousado pra alguém que quase nos empacota como lembrancinha de Avernus. Vai mandar um cartão também?"

Nyxalithra apenas estreitou os olhos. Por um segundo, uma de suas unhas cintilou com energia corruptora. Mas ela nada disse.

"Tá bom, tá bom, já entendi... sem cartão" murmurou o bufão, dando meia-volta e puxando Impetor pelo braço. "Vamos embora antes que a anfitriã resolva cobrar couvert artístico."

Os heróis deixaram o castelo em silêncio, suas silhuetas projetadas pelo brilho do inferno atrás deles. No alto da colina infernal, os portões se fecharam com um rugido surdo, e a travessia de volta ao Estige foi feita em meio a um ar carregado de tensão e alívio.

Ao chegarem às margens rubras do rio, ainda banhadas pela luz constante do céu avermelhado, Impetor finalmente se sentou sobre uma pedra coberta de limo negro. O meio-dragão estava ferido, os músculos cansados, mas os olhos brilhavam com gratidão e surpresa."Pensei que aquele seria meu fim."

Asher se aproximou, retirando a capa de pelos cinza. "Ninguém da nossa companhia fica para trás. Mas você pode agradecer diretamente ao Horusk."

Mor’Rein, girando sua vassoura nos dedos como um bastão ritualístico, assentiu com um leve sorriso.  "O Velho gnomo foi fundamental. Nos deu acessso até as entranhas infernais. Se não fosse por isso, nem teríamos chegado até você."

Impetor arqueou uma sobrancelha, mas riu. Foi um som rouco, ainda dolorido, mas cheio de vida. "Então, como voltamos?"

Mor’Rein retirou de dentro do manto um pequeno orbe prateado, preso a uma corrente de prata fina. Era o Amuleto de Comunicaçãoque Horusk havia lhes dado. "Hora de ver se o mago ainda está dispostos a nos ajudar."

Ele segurou o orbe nas mãos, sussurrando as palavras rúnicas ensinadas por Horusk. A superfície do cristal brilhou em tons de cinza e azul, começando a vibrar com energia mágica.

Todos os heróis se aproximaram em silêncio, observando com atenção. O céu de Avernus, sempre imóvel, parecia em suspenso por um instante — como se o próprio plano esperasse a resposta.

A luz do orbe cresceu. E então...

A luz do orbe pulsava com intensidade crescente, até que, em vez da imagem serena de Horusk, os heróis foram confrontados por uma visão de caos e destruição. Chamas lambiam as paredes de pedra do Castelo Greymane, a base dos harpistas, enquanto gritos de dor e o som de aço contra aço ecoavam através da conexão mágica. Silhuetas indistintas moviam-se entre a fumaça e os escombros, empunhando armas com intenções mortais.

De repente, a imagem estabilizou-se, revelando um pequeno halfling de cabelos desgrenhados e rosto sujo de fuligem. Ele segurava o orbe com mãos trêmulas, escondido atrás de uma pilastra parcialmente destruída.

"Heróis! A base foi comprometida," disse ele, ofegante. 

"Pelos Deuses!" Gritou Asher, se aproximando da imagem. "Por quem? Aonde está Horusk?"

"Horusk está ocupado tentando proteger o santuário. Não há tempo para explicações, Horusk me designou para lhes fornecer as instruções para que possam voltar pra casa. Vocês precisam encontrar um antigo portal em Avernus que os levará as proximidade de Cormyr. Sigam o caminho das cinzas até a Montanha das Lamentações. Lá, entre no coração da Caverna, encontrarão o portal. Mas cuidado, as fronteiras do Inferno são traiçoeiras."

Antes que pudessem responder, uma explosão sacudiu o local, e o halfling desapareceu da visão, deixando apenas estática e o som distante de batalha. O orbe escureceu, encerrando a comunicação abruptamente.

Mor'Rein, com o semblante grave, quebrou o silêncio. "Lembro-me de ter lido sobre os portal na biblioteca de Bathos. É um dos portais fixos de Avernus, antigos e perigosos. Eles são instáveis e geralmente sempre ativos. Além disso, são guardados por criaturas que não toleram intrusos"

Os heróis trocaram olhares determinados. Sabiam que o caminho à frente seria árduo, mas a necessidade de retornar ao plano material e ajudar seus aliados era maior do que qualquer medo. Com passos firmes, começaram sua jornada rumo à Colina das Lamentações, prontos para enfrentar os desafios que o Inferno lhes reservava.

O caminho até a Montanhadas Lamentações era mais do que uma simples travessia — era uma peregrinação pelos nervos expostos do Inferno. A paisagem se transformava lentamente, de planícies de obsidiana para relevos mais elevados, onde o solo arfava como se respirasse dor. Cada passo estalava sob os pés com estilhaços de quartzo negro, e os vapores sulfúricos se tornavam mais densos quanto mais ao norte o grupo se dirigia.

Com Impetor ao lado, a formação finalmente parecia completa novamente. O meio-dragão, mesmo ferido, caminhava à frente com seus passos pesados e seguros, como um farol de força silenciosa. O grupo, mesmo exausto, sentia-se mais coeso, como se a simples presença dele costurasse de volta as linhas tênues da esperança que haviam sido rasgadas durante a missão.

O Rio Estige, sempre à margem, serpenteava com sua corrente espessa e rubra, um lembrete vivo de que a travessia até ali fora apenas o começo. Eles contornavam as margens do rio com cautela, pois avistaram, em mais de uma ocasião, frotas de diabos — bestas aladas e carruagens flamejantes — cortando os céus em formação militar. O som metálico de suas armaduras e o aroma de enxofre que os antecedia faziam a pele dos heróis se arrepiar.

O calor era cruel. Não aquele calor vivo de um sol escaldante, mas um calor imóvel, eterno e sufocante, que não oferecia alívio. O ar pesava como uma punição, e o próprio céu vermelho-sangue parecia pressionar os ombros de cada um deles, exigindo deles não apenas força física, mas também força de espírito. O cansaço era tão grande quanto o medo, e por vezes eles caminhavam em silêncio, cada um imerso em sua própria ilha de lembranças.

Dahaka, com a respiração controlada, pensava em uma taverna perdida nos becos de Arabel, onde os copos eram sempre cheios e as jogadas de dados eram limpas — ou quase isso. Ele se imaginava de volta ali, rindo com os cotovelos sobre a mesa, longe de pactos e labirintos.

Asher, por outro lado, via mentalmente as muralhas do templo dos Selune, seu lar. Imaginava-se novamente em prece, o som dos sinos ressoando sobre a cidade ao entardecer. Sonhava em voltar a ser apenas um paladino, e não um guerreiro na fronteira dos infernos.

Mor'Rein, sempre um passo atrás dos outros, se acalmava lembrando-se de bibliotecas. Do cheiro dos pergaminhos, do brilho das runas, da solidão tranquila de uma sala de pesquisa. Ele pensava no silêncio das estrelas — não o silêncio opressivo de Avernus, mas o silêncio cheio de possibilidades do cosmos.

Ludus, por mais irreverente que fosse, deixava escapar um sorriso cansado ao pensar no palco. Em aplausos, em máscaras de comédia e tragédia, em plateias vivas que respiravam com ele. O Inferno era o oposto de tudo aquilo: sem riso, sem plateia, apenas dor.

E Impetor... ele não pensava em descanso. Pensava em voltar ao campo de batalha, onde seus desafios o esperavam. Pensava em batalha, em novas cicatrizes. Ele não tinha saudade de casa — ele ansiava pela batalha. E isso doía.

Mas todos esses pensamentos, por mais vívidos que fossem, pareciam um véu — uma ilusão gentil. Pois quanto mais eles avançavam, mais o Inferno lhes lembrava que a Terra para a qual desejavam retornar já não era mais a mesma. A base estava em ruínas, Horusk sitiado, e o mundo que deixaram não era mais um lugar de paz. O lar que buscavam talvez nem existisse mais. Ainda assim, era para lá que seguiam. Porque heróis não voltam por conforto... mas porque é lá que ainda há algo a proteger.

No sopé retorcido da Montanha da Lamentação, os cinco heróis finalmente avistaram o que haviam buscado em meio ao inferno e às ruínas: um antigo portal, adormecido e envolto em espirais de pedra negra. A encosta era inclinada e coberta por uma camada fina de cinzas, como se o próprio monte estivesse chorando há eras. Arranhões antigos marcavam a rocha, inscrições há muito apagadas pelos ventos corrosivos de Avernus, e estalagmites negras despontavam do chão como garras tentando deter o avanço de qualquer visitante.

Acima deles, o céu continuava imóvel e sangrento, mas aqui, no coração da montanha, o ar parecia ainda mais rarefeito, impregnado de um zumbido surdo que ressoava nos ossos. O calor dava lugar a uma frieza metálica, o tipo de frio que não refresca, apenas anestesia. Dava-se a sensação de estar no limiar de algo que não pertencia nem ao Inferno, nem a qualquer plano conhecido.

Mor’Rein parou à frente dos demais, a vassoura agora repousando contra o ombro, os olhos fixos nas runas apagadas do arco de pedra. Tocou um dos símbolos com a ponta dos dedos, e por um momento o vestígio de um brilho azulado percorreu o contorno da estrutura.

“É aqui,” murmurou ele, com voz baixa e reverente, como quem encontrava uma porta sagrada.

Dahaka cruzou os braços, resmungando. “Espero que seja uma saída... e não mais uma entrada pro fundo do poço.”

Asher se aproximou, olhando ao redor. “Então... é assim que voltamos. Se ainda houver algo lá pra voltar.”

Ludus deu um passo à frente, limpando a poeira da bota com a bainha do manto. “Alguém mais com um leve medo de que esse portal leve direto pro guarda-roupa do Haroldo  Benthor? Porque eu tô sentindo que hoje é o dia pra esse tipo de coisa acontecer.”

Impetor olhou fixamente para o arco. Em sua mente, não havia lugar para piadas. Apenas determinação.

E assim, com os olhos voltados para a antiga estrutura, os cinco sabiam que aquele não era apenas um portal. Era um limiar. Um ponto de virada. Entre mundos. Entre derrotas e possibilidades. Entre quem foram… e quem ainda precisariam ser.

Um rugido irrompeu como um trovão do além, gutural, primevo, carregado de ecos que não pertenciam apenas ao mundo físico. Começou baixo, como uma rocha rachando, e então cresceu até se tornar um bramido que reverberou nas entranhas da Montanha da Lamentação, sacudindo o chão de cinzas sob os pés dos heróis e arrepiando até a alma.

Cerberus
Do fundo de uma das grutas negras, onde nem mesmo a luz infernal de Avernus ousava penetrar, dois olhos incandescentes surgiram, como brasas acesas por uma vontade cruel. Em seguida, mais dois pares se revelaram nas sombras — seis olhos ao todo, queimando com um laranja vivo e faminto, como se cada globo ocular quisesse devorar a alma dos Heróis

O que emergiu foi um monstro de proporções colossais, de corpo bestial coberto por uma pelagem escura e espessa como a fuligem do Estige. Em sua espinha, cristas flamejantes crepitavam, como se a criatura tivesse sido forjada nas fornalhas mais profundas do inferno. Três cabeças se erguiam de um pescoço largo e musculoso, cada uma com presas do tamanho de espadas curtas. A cabeça central possuía uma cicatriz em forma de gancho sobre o olho esquerda— um lembrete de alguma antiga batalha.

O chão estremeceu com suas patas titânicas. Do fundo de sua garganta brotava o som de rochas sendo moídas, de chamas sendo alimentadas. Era a encarnação do instinto selvagem, da vigilância implacável e da punição eterna.

Dahaka deu dois passos para trás, os olhos arregalados. “Mas é claro... Não podiamos simplesmente passar pelo portal não é... Por que não enfrentar mais uma besta do inferno, belo dia.”

Ludus balançou o dedo para a criatura como quem fala com um cachorro travesso. “Ah, não, três cabeças? Já tivemos o Diabo das Correntes? Isso é trapaça, totalmente injusto. Quem foi que decidiu o número de chefes nesse episódio?”

Asher firmou a espada no chão, os olhos fixos na criatura. “Guardião do portal. Naturalmente. Como se não bastasse sobreviver à própria montanha.”

Mor’Rein suspirou, já segurando a vassoura. “Não é uma história infernal sem um último desafio...”

Impetor apenas estalou os punhos, a sombra da criatura refletida em seus olhos azuis. “Ótimo. Já estava com saudade de bater em algo.”

O monstro parou.

Seus três focinhos retorceram-se em uníssono, como se inspirassem ao mesmo tempo o mesmo cheiro antigo — e então a cabeça central, a da cicatriz costurada acima do olho direito, inclinou-se para frente, focando em Asher.

Não em Asher em si, mas na espada em sua mão.

A lâmina brilhava com sua usual luz pálida e prateada, mas algo ali despertava mais do que instinto: despertava rancor. As chamas das cristas do monstro aumentaram, e por um instante, o mundo pareceu mergulhar em silêncio — como se a própria montanha prendesse a respiração.

Um rosnado se formou no fundo de suas gargantas. Da central, o som era diferente. Não apenas raiva. Memória.

Asher sentiu a tensão no ar antes mesmo do impacto. Ele segurou o punho da espada com mais força, sem saber ao certo por quê, mas sentindo que havia uma história entre aquela criatura e a lâmina que empunhava. Uma cicatriz malcurada no mundo.

O infernal avançou.

A primeira cabeça rugiu, cuspindo uma onda de fogo pútrido, que se espalhou pelo chão feito uma língua viva. Mor’Rein alçou voo, desviando por cima da torrente infernal, lançando estilhaços de energia arcana com um gesto rápido do braço. Os feixes atingiram o dorso da besta, arrancando fagulhas da pelagem espessa como couro queimado, mas pareciam apenas irritá-la ainda mais.

Dahaka já corria em arco pela lateral, suas adagas em mãos, buscando um ponto cego entre as cabeças. A cauda da criatura — grossa como um tronco de árvore e coberta de espinhos de obsidiana — chicoteou para trás, tentando antecipar sua movimentação. Dahaka rolou por baixo, uma manobra ágil e arriscada, mas o golpe passou a um fio de rasgar sua túnica.

Ludus, no meio da cena caótica, usou um pedaço de rocha para subir em um plano mais elevado e bradou com sua voz teatral: “Atenção, sai três cabeças de alcatra flamejante, pra viajem!”

A criatura não se distraiu. Nenhuma das cabeças parecia interessada no humor do mundo mortal.

Asher avançou com um salto, mirando a cabeça da cicatriz — algo em sua mente sussurrava que aquele era o alvo certo. A espada cortou o ar como um trovão de prata, e por um instante, os olhos do monstro se arregalaram em uma expressão que não era medo... mas reconhecimento.

A lâmina colidiu com o crânio da besta, mas desta vez, ela se moveu rápido demais. O golpe raspou as escamas e cravou-se em uma das presas da lateral. A criatura urrou, lançando Asher contra uma parede rochosa com um bafo incandescente.

“Asher!” gritou Mor’Rein, disparando feitiços em forma de lanças negras e translúcidas.

Impetor, que até então observava, finalmente se moveu com seu jeito característico — o passo pesado e certo de quem sabe que a batalha já começou antes do primeiro golpe. Ele correu direto, os músculos tensionados, o grito preso na garganta.

E a cabeça lateral virou-se para ele com o rugido ancestral.

O chão estremeceu sob os pés de Impetor quando ele lançou o peso de seu corpo contra o monstro. A clave negra cortou o ar como uma sombra sólida, acertando com um estrondo o pé dianteiro da criatura — os ossos rangendo com o impacto. Antes mesmo que o rugido ecoasse por completo, Impetor girou o corpo com precisão treinada, subindo a arma numa curva ascendente que atingiu o queixo da cabeça esquerda com uma violência brutal. O golpe fez o crânio girar para trás e um rosnado preso sair pela garganta torta. A fera recuou um passo, estremecida, mas longe de vencida.

A cabeça central respondeu com fúria ancestral. Avançou, as presas abertas para engolir Impetor de uma só vez — mas o meio-dragão estava pronto. Com um grunhido rouco, ele cravou os calcanhares no chão escaldante e segurou a mandíbula da criatura com ambos os braços. Os músculos de seu corpo tensionaram, veios negros pulsando com o esforço. O maxilar estalava tentando fechar, mas Impetor resistia como um pilar vivo.

“É DISSO QUE EU ESTAVA FALANDO!” gritou ele, o hálito da fera lambendo seu rosto com fogo e podridão.

Nas sombras à direita, Dahaka já havia sumido de vista. Sua silhueta era quase imperceptível, fundindo-se aos recantos da caverna como fumaça em penumbra. Agachado atrás de uma formação rochosa, ele ajeitou sua besta de mão com destreza, mirando entre a escuridão e o caos. Um estalo seco — e o virote voou em linha reta, cortando o ar rumo à cabeça esquerda da criatura, buscando atingir o ponto que Impetor acabara de expor.

As duas cabeças restantes, sem alvos fixos, voltaram-se para o céu. Mor’Rein pairava acima, lançando feixes de magia ancestral que deixavam rastros de trevas líquidas. Os olhos do bruxo ardiam com a sabedoria dos pactos que jamais deveriam ter sido assinados, sua boca murmurava palavras de outro tempo. Mas mesmo em voo, ele sabia que não poderia manter aquele ritmo para sempre.

No solo, Ludus desceu correndo até o corpo estendido de Asher. Seus dedos faiscavam com energia dourada quando tocou o ombro do paladino. “Tá na hora de parar de fingir de morto, bonitão,” disse com um tom leve, e logo emendou um feitiço de cura, as palavras rimadas escorrendo de sua boca com graça quase teatral. A magia penetrou os ferimentos de Asher, selando ossos, tecendo músculos, expulsando a dor com calor restaurador.

Os olhos do paladino se abriram, e um brilho prateado os envolveu.

“Hora de mostrar quem é o cão alfa...” murmurou ele, levantando-se em um só movimento.

Sua espada brilhou ainda mais forte, como se a própria luz da lua houvesse se condensado na lâmina. O símbolo de Selûne pulsou sobre seu peito, e seus músculos começaram a expandir, os ossos se rearranjando, a pele esticando e se tornando pêlo prateado. A mandíbula se alongou, garras brotaram das mãos, e diante dos companheiros — e do inimigo — Asher se transformou, mais uma vez, no Licantropo Sagrado da Deusa da Lua.

Com um uivo que pareceu cortar o próprio véu de Avernus, ele se lançou ao combate com ferocidade celestial.

Ludus arregalou os olhos, limpando a poeira do rosto. “Essa comitiva não aprova rinha de animais... a menos que isso tire vocês do inferno!”

As três cabeças se viraram quase ao mesmo tempo para encarar o novo predador. 

O combate havia atingido um ritmo brutal, e mesmo os heróis mais experientes começavam a sentir o peso de enfrentar uma criatura moldada pelos terrores primordiais do Inferno.

Mor’Rein, em seu voo sincronizado, costurava os céus da caverna com trilhas de energia arcanas, mas num breve deslize — um instante a mais perto do inimigo — foi tudo o que o monstro precisou. A cabeça direita, até então focada em derrubar projéteis mágicos, virou-se num estalo predatório. Os olhos flamejantes se estreitaram e os dentes afiados se fecharam sobre o calcanhar do bruxo com força brutal. O impacto lançou Mor’Rein em espiral, gritando em dor, até colidir contra a parede de pedra com um baque seco, a vassoura caindo danificada ao chão, tombando junto ao corpo desacordado.

“Não!” rosnou Impetor, os olhos arregalados pela queda do aliado.

Num impulso de pura raiva, ele cravou os pés no solo e, com um rugido ancestral, liberou de suas entranhas uma rajada de gelo. O bafo azulado saiu como um bafo gélido, cortando o ar com fúria. A criatura uivou quando o frio tocou seu focinho e a pele entre as escamas trincou sob o impacto — as chamas de suas cristas tremularam. Mas se o monstro sentiu dor, sentiu também fúria.

Em resposta, a cabeça central abriu as mandíbulas, e um jato de fogo denso e escaldante explodiu direto contra o meio-dragão. Impetor tentou resistir, plantando os pés, forçando os braços para manter a mandíbula da criatura aberta. Mas o calor era monstruoso. A pele começava a queimar, o ar a vibrar ao redor. Por fim, o guerreiro foi lançado como uma flecha contra a parede, atravessando uma formação rochosa com violência e desabando, gemendo, entre pedras partidas.

Enquanto isso, Dahaka, ainda oculto nas sombras da lateral da caverna, tentava mudar de posição. Deslizou como uma sombra viva, atravessando por entre pilares e formações — até que uma das cabeças, a esquerda, o viu. Não o suficiente para abocanhá-lo, mas o bastante para girar uma das patas traseiras e aplicar um coice lateral. A força do golpe desmoronou parte de uma coluna. Os escombros caíram sobre o ladino antes que ele pudesse escapar. Um gemido abafado ecoou debaixo das pedras.

“Dahaka!” gritou Ludus, cambaleando. Seus olhos varreram o cenário: Mor’Rein caído, Impetor machucado, Dahaka soterrado. A criatura ainda bramava, as cristas mais ardentes do que nunca. O bufão correu, os guizos tremulando atrás de si, e deslizou até Impetor, ajoelhando ao seu lado. Com um gesto rápido, conjurou mais uma vez sua magia de suporte, palavras cortando o ar como notas de uma flauta desafinada: “Vamos, escamoso, você não vai dormir agora, a orquestra ainda precisa de percussão!”

Impetor tossiu sangue, mas a luz mágica fechava lentamente parte das feridas. Um grunhido mais de fúria que dor escapou de seus dentes cerrados. Ludus sorriu — o gigante ainda estava com eles.

Enquanto isso, Asher — já em sua forma bestial — tomava a linha de frente. O lobo sagrado da Lua, com pelos acinzentados faiscando luz celestial, avançou sozinho contra o monstro. Os olhos das três cabeças se voltaram para ele. Era uma desvantagem numérica injusta. Mas Asher não recuou.

Ele uivou.

As cabeças atacaram juntas. Mordidas de tempos diferentes, angulações impensáveis. Mas o lobo sagrado era ágil. Desviava com giros de corpo, com saltos e esquivas, suas patas afiadas como garras riscavam o solo ígneo da Montanha. Um bafo cruzou seu caminho — ele rolou por baixo. Uma mordida veio de cima — saltou sobre uma pedra e correu pelo lombo da criatura.

E então, com força selvagem, cravou as presas no pescoço grosso da besta infernal. Um rasgo se abriu entre a couraça, e o sangue denso e quente jorrou como óleo. A criatura urrou, sacudindo o corpo, tentando se livrar da mordida. Mas Asher mantinha-se preso, rosnando, cavando com as garras, como um espírito da vingança agarrado à sua presa.

Do alto da montanha, o inferno assistia. E a luta continuava.

A caverna estremecia. O calor do fogo, o cheiro de sangue e o peso da derrota se acumulavam no ar como fumaça sufocante. A fera de três crânios, a sentinela do inferno, agitava-se em fúria, sua cabeça central — marcada pela cicatriz — finalmente cravando as presas no flanco de Asher.

O paladino uivou.

Não como fera.

Mas como homem.

Seu corpo, ainda em forma lupina, foi sacudido como um boneco nas mandíbulas da criatura. O sangue pingava em torrentes, respingando pelas pedras negras da caverna. Asher foi lançado como um estilhaço contra uma formação de rocha, sua armadura partida, sua forma de lobo desfeita com a violência do impacto. Silêncio.

Dahaka, soterrado sob as pedras, empurrou com o que restava de força. Suas unhas arranharam o solo, as pedras lhe cortavam os braços, mas ele ainda respirava. Com um esforço hercúleo, emergiu da pilha, o corpo tremendo de dor, e rastejou até Mor’Rein.

“Levanta, bruxo... precisamos ir...” sussurrou ele, tocando o ombro do companheiro inconsciente.

Ludus chegou logo atrás, o rosto enegrecido de fuligem e suor. “Tô sem nada! Nem truque, nem bênção, nem coragem pra inventar uma mentira nova!” gritou, olhando ao redor. “A gente precisa levar ele até o portal... antes que esse cão nos transforme em adubo!”

Dahaka assentiu, exausto, e os dois começaram a arrastar Mor’Rein enquanto a criatura ainda se banhava no sangue de Asher, impiedosa, invicta.

Foi então que Impetor se ergueu.

Cambaleante. Ferido. Mas de pé.

Seu corpo ardia, os músculos tremiam, a pele escamosa ainda marcada pelas chamas do inferno. Mas seus olhos estavam abertos — e sua alma também. E foi nesse instante que o mundo perdeu a cor.

Tudo escureceu.

O som, o fogo, até mesmo o cheiro de enxofre se calaram, como se o plano tivesse sido apagado por um pincel divino. E Impetor sentiu uma presença. Não apenas poderosa. Mas primitiva. Antiga como a primeira noite. E maior do que qualquer rei ou deus que ousara pisar em Avernus.

Uma silhueta tomou forma na escuridão. Primeiro uma cabeça. Depois duas. Depois cinco. Cada uma com olhos de um tom distinto, escamas cintilantes, cristas como coroas e línguas que exalavam fumaça viva.

Tiamat.

Monarca dos Dragões Cromáticos. A Deusa Aprisionada. A Rainha de Avernus. E o Predador Apex daquele lugar.

"Impetor." falou a voz, grave e múltipla, cada cabeça ecoando com um tom diferente, como se um coral infernal entoasse dentro de sua mente. "Tens o sangue do metal, a arrogância dos justos, a pureza tola dos que se julgam incorruptíveis... e, ainda assim, aqui estás. Aos meus pés. No meu domínio."

Impetor cerrou os punhos. “Não sou seu servo. Nem seu filho.”

Um riso lento ressoou.

"Oh, mas é exatamente por isso que te escolhi. Porque, diferente dos outros, tu és leal. Forte. Teu instinto é de proteção, não dominação. Eu te ofereço uma dádiva, meio-dragão de prata... Um rugido meu, entoado através de ti, será o bastante para afastar o cão guardião. Ele reconhecerá a voz da Rainha. Ele se curvará. Você e seus companheiros atravessarão vivos o portal."

Impetor rangeu os dentes. “E o que você quer em troca?”

As cinco bocas sorriram, dentes como adagas. "Nada que não seja natural... Um tributo. Um gesto em teu mundo. Uma memória para minha imagem. Não em ouro, não em sangue — mas em ação. Um monumento. Um nome. Uma lembrança da Deusa que habita o fim de todas as eras."

Impetor hesitou. Cada batida do coração era como uma martelada em sua honra. Um dragão metálico... prestando tributo à deusa que guiava os cromáticos?

Ele quase disse “não”.

Mas então pensou em Asher, caído.

Dahaka, com sangue escorrendo da testa.

Mor’Rein, inconsciente.

Ludus, com as mãos tremendo.

Eles vieram por ele. Enfrentaram um inferno inteiro por ele.

Ele ergueu os olhos.

“Se isso garantir a vida deles... Eu aceito.”

As cinco cabeças inclinaram-se, satisfeitas.

"Então ruge, Impetor. E deixa que o mundo ouça minha voz."

O mundo voltou. O som, o calor, o caos.

Impetor abriu a boca, e um rugido ensurdecedor rasgou o ar — um rugido que não era só seu. Era dela.

As chamas nas cristas do monstro se apagaram como velas ao vento.

O guardião parou.

Suas cabeças viraram, uma a uma, como se reconhecessem algo que nenhuma palavra poderia nomear. E então, com a cauda arrastando poeira e o orgulho ferido, a besta recuou. Silenciosa. Humilhada.

Impetor tombou de joelhos.

Mas o caminho estava aberto.

O portal tremeluzia, à espera.

O portal os sugava como um redemoinho de luz e sombras, cada passo exigindo mais do que seus corpos podiam dar. Era como caminhar contra o peso do próprio destino — e eles quase não tinham mais forças para sustentar nem o próprio orgulho.

Impetor foi o primeiro a atravessar, curvado, mas firme. Ele carregava Asher nos braços como um guerreiro leva um irmão caído — com reverência. A espada de prata de Bathos, a lâmina marcada por sangue e glória, pendia em sua outra mão, gotejando com o que parecia ser a última gota da batalha.

Logo atrás, Ludus e Dahaka arrastavam o corpo inconsciente de Mor’Rein, os dois bufando e tropeçando entre si.

Do outro lado do portal, a mudança foi imediata. O ar era mais fresco, quase cortante, e a gruta onde surgiram parecia feita de pedra úmida e azulada. Estalactites pingavam lentamente do teto, e uma névoa gélida pairava a poucos centímetros do chão. Era um mundo longe do calor de Avernus — mais calmo, mais quieto. Um alívio que queimava as narinas como se fosse liberdade líquida.

Impetor pousou o corpo de Asher com cuidado sobre um manto improvisado de musgo. Seus olhos azuis examinaram o rosto do companheiro ferido com a gravidade de quem ainda carregava o peso do pacto feito.

Ludus então se virou para ele, arqueando uma sobrancelha, ofegante.

“Então… grandão… de onde foi que você tirou aquele rugido? Aquilo não tava no repertório padrão dos gladiadores!”

Dahaka completou: “Não sei não Ludus... Tenho certeza que já ouvi um som bem parecido saindo do estômago dele.”

Os dois riram. Riram como quem precisava desesperadamente sentir-se vivo. Impetor se juntou ao momento com uma risada cansada mas verdadeira.

E foi quando uma quarta risada se somou à deles — uma risada feminina. Elegante. Irônica. Familiar.

Dahaka congelou.

Virou-se lentamente para a origem do som, o corpo todo em alerta, o olhar arregalado pela incredulidade. Sua voz saiu baixa. Quase como um sussurro de criança chamando por algo esquecido.

“…Mãe?”

Das sombras profundas da gruta, surgiu uma silhueta envolta em véus, um manto escuro que parecia absorver a própria luz. Os cabelos, longos e tão escuros quanto as trevas que deixaram para trás, fluíam como vapor em noite fria. Os olhos — vermelhos, intensos, marcados com o fardo de um passado difícil de esquecer — eram inconfundíveis.

Hamura Akmenos. A bruxa que o mundo esqueceu. A mãe de Dahaka.

E naquele instante, nenhuma palavra foi dita.

Mas o passado acabara de alcançar o presente.

Na penumbra da caverna fria, Hamura deu mais um passo à frente, sua presença parecendo diminuir a temperatura do ambiente. O manto dela ondulava sem vento, como se fosse movido por vontades ocultas. Os olhos vermelhos escarlates pousaram sobre os três companheiros acordados com uma mistura de curiosidade e julgamento — uma mãe observando filhos que haviam se metido onde não deviam.

“Dahaka,” disse ela, como quem saboreia uma lembrança. “O que está fazendo aqui, metido com um bando de heróis de segunda categoria e um bárbaro perdido do plano material?”

A voz era lírica, quase divertida, mas cada palavra pingava veneno com um tom doce.

Dahaka cerrou os olhos, engolindo em seco. “Eu vim salvar um amigo. E você... o que está fazendo aqui?”

Hamura sorriu, girando nos calcanhares com uma elegância ensaiada. “Tenho minhas fontes. Nem todo mundo precisa atravessar um mar de sangue para saber o que acontece no Inferno. Digamos que... mantive o olho na sua pequena desventura.” Ela lançou um olhar fugaz a Impetor. “Você anda se envolvendo com figuras curiosas, meu filho.”

Ludus pigarreou. “Senhora... a gente pode te ouvir, tá?”

Hamura riu, e o som ecoou com um leve tremor de poder. “Oh, eu sei, bufão. E devo dizer... vocês provaram mais valor do que eu esperava. Eu vim com uma proposta. A guerra se aproxima, e os tolos brigam por lados como se isso significasse alguma coisa. Mas vocês...” — ela olhou para os três — “vocês ainda podem vir para o lado vencedor.”

Impetor, que já se erguia com dificuldade, os músculos ainda tensos da batalha, respondeu com a voz firme e gutural: “E quem disse que os Zentharim estão vencendo alguma coisa?”

Hamura arqueou uma sobrancelha, os olhos faiscando com malícia. “Zentharim?” Ela bufou, quase rindo. “Vocês acham que eu estava falando deles? Não, meus queridos... o ‘lado vencedor’ sou eu.”

O silêncio caiu sobre a caverna como uma adaga. Os ecos de água pingando do teto pareciam mais altos.

“Zentharim, Harpistas, Aliança dos Lordes, Conclave Esmeralda...” — ela foi contando nos dedos — “todos jogam, todos mentem, todos traem. Mas a diferença é que eu movo as peças. Eu alimento os cultos, instigo o medo, manipulo as palavras dos profetas dos deuses esquecidos... e quando o mundo perceber, já será tarde demais. Cada facção está onde eu quero que esteja.”

Dahaka apertou os punhos. “Você sempre foi uma serpente... mas agora você tá cuspindo veneno demais até pra você.”

Ela não recuou. “Você matou Eslovak... seu irmão. Meu primogênito. Eu o treinei para me servir, e ele falhou. A vaga está aberta. Você não domina a magia... mas é mais esperto, mais perigoso do que ele jamais foi. Você pode ser útil.”

“Não sou como vocês,” respondeu Dahaka, a voz baixa, mas carregada de fúria contida.

Hamura ignorou, continuando: “Aliem-se a mim... e eu pouparei os Harpistas sobreviventes daquele ataquezinho infeliz. Alguns deles já estão sob meus cuidados. Com seu apoio, poderiam se tornar mais... produtivos. Quem sabe até influentes em meus novos planos.”

“E quantos já morreram por seus planos, mãe?” retrucou Dahaka, os olhos faiscando.

Hamura os olhou com frieza. Por um instante, a expressão se fechou como uma máscara. Então, seus lábios se curvaram em um meio sorriso sutil e cruel.

“Quantos mais morrerão por vocês se não aceitarem?”

Ludus virou-se para ela, balançando a cabeça. “Vai se danar, madame abismo.”

“E leva seu ‘lado vencedor’ contigo,” completou Impetor, em posição de combate.

Dahaka simplesmente cuspiu no chão da caverna. “Some da minha frente.”

Hamura soltou um suspiro dramático, como uma atriz que encerra seu monólogo final. “Uma pena. Mas previsível.”

E então ela desapareceu. Não em explosão, nem em sombra. Apenas se esvaiu como fumaça entre fendas de realidade, deixando para trás apenas o eco da própria voz.

O silêncio que se seguiu era absoluto.

Os heróis estavam sozinhos novamente — e o mundo que deixaram para trás os aguardava com novos mistérios... e velhos inimigos.


EPISÓDIO 19 - EMERGINDO DO  LODO.

Data:  9 de Nightal, 1372 CV - 08h
Local: Borda Oeste do Vasto Pântano, Colinas próximas ao Caminho da Manticora.

O mundo parecia ter sido esquecido pelo céu.

Havia algo na textura do ar que os fazia respirar com esforço, como se a própria atmosfera estivesse saturada de podridão e segredos velhos demais para terem nome. O solo afundava sob suas botas com um chof abafado, turfa negra sugando-lhes os passos como se implorasse que ficassem. Ao redor, uma floresta de galhos retorcidos e musgos encharcados rangia ao menor sopro daquele vento quente e pegajoso. A névoa lambia os tornozelos dos heróis com dedos invisíveis, movendo-se por entre as árvores como um espírito sem descanso — às vezes subindo até os joelhos, outras vezes erguendo-se até o peito, ocultando perigos e confundindo os sentidos.

"Isso aqui é sacanagem dos Deuses... A gente mal saiu do Inferno, e agora tá atolado até o tornozelo em... Espero que seja só lodo". murmurou Ludus, abanando a mão e espantando um enxame de mosquitos do tamanho de moedas. "Francamente, começo a achar que o pessoal lá de cima tem um fetiche por ver a gente fedendo."

A chuva não cessava — fina, persistente, quase zombeteira. Aquela manhã de Nightal fazia o ar pesar com um clima úmido e sufocante, enquanto a água suja gotejava das folhas grossas, moldando uma trilha lamacenta entre raízes erguidas como ossos. Os insetos zumbiam em uma sinfonia enlouquecedora, e a cada três passos, uma cobra escorria em silêncio pelas sombras ou um sapo grotesco coaxava sua presença no breu.

Era o início de uma nova etapa.
Mas cada um deles carregava o peso da anterior como se fosse um cadáver atado às costas.

Asher Greymane seguia à frente, sempre vigilante, mas silencioso. Suas vestes já não eram as mesmas da entrada triunfal em Suzail. A armadura manchada de sangue e lodo parecia um reflexo da alma — ele, um nobre caído, agora coberto não apenas de barro, mas de um cansaço que doía até nos ossos. Seus olhos buscavam constantemente as copas fechadas e as sombras do chão, como se esperasse que o próprio pântano engolisse o grupo. 

Ludus, em contraste, falava. Sempre falava. Não para aliviar os companheiros, mas a si mesmo. Era o tipo de tolo que ri diante do abismo, e agora enfrentava um abismo sem fundo. Sua máscara de bravata estava trincada, no entanto, e entre as piadas e provocações havia hesitação. O pântano fazia com que sua leveza parecesse deslocada, como uma pena molhada tentando flutuar em um poço de óleo.

Dahaka avançava com passos pesados, mas regulares, como se o próprio pântano lhe oferecesse menos resistência do que ao restante do grupo. Sua pele rubra e oleosa se destacava com os tons do lugar — cinzas, verdes escuros, ocre e morte. Ele não falava. Não precisava. A selva úmida e hostil era quase um reflexo de sua alma marcada por batalhas e exílio. O fedor podre o envolvia como um velho manto. 

Impetor, por sua vez, caminhava como um animal ferido, mas não vencido. Cada galho quebrado sob seus pés lembrava-lhe que ainda estava ali — e por algum motivo. Seu semblante endurecido era o de quem encarou deuses e demônios e descobriu que o pior deles morava dentro de si. Ele não confiava no solo, na névoa, nem nas memórias que o pântano despertava — especialmente aquelas que vinham nos sonhos, envoltas em cheiro de mofo e lodo. Mas ele mantinha a sua clava firme, os olhos semicerrados, como se desafiasse o próprio pântano a tentar levá-lo. Porque, no fundo, Impetor não tinha mais nada a perder. E isso o tornava perigoso.

Mor'Rein vinha por último, os passos deliberadamente lentos. Como um espectro, parecia flutuar sobre a lama, suas vestes negras absorvendo a luz escassa e devolvendo apenas silhuetas fragmentadas. Os outros não notavam — ou talvez não comentassem — como ele mantinha distância. Seus olhos — olhos de quem já vira o mundo por ângulos que ninguém deveria — estavam mais escuros do que o costume. O pântano o chamava. Não com palavras, mas com uma familiaridade perturbadora. Ele conhecia esta terra. Conhecia sua origem. E o que se movia sob suas águas escuras.

A travessia era mais do que física.
Era uma tradução viva do que cada um deles carregava por dentro.

A vegetação parecia se fechar ainda mais à medida que avançavam. Árvores com cascas cobertas de limo se enroscavam umas nas outras como cadáveres apaixonados. O cheiro era espesso — uma mistura de enxofre, carne antiga e algo doce e podre, como frutas deixadas para morrer.

"Argh, que cheiro é esse?" disse Ludus, parando por um momento e respirando fundo. "Tá bom quem tá comendo sardinhas escondido?"

Asher franziu o cenho e olhou para o companheiro com um meio sorriso cansado.

"Esa terra... Nunca foi terra de reis ou de bandeiras. Nem Cormyr, nem Sembia jamais a reivindicaram... Isso aqui... é terra de ninguém. De ninguém em sã consciência, ao menos."

Mor'Rein não respondeu. Apenas caminhou em silêncio, os olhos fixos no véu de névoa à frente. Dentro de si, o nome de Minauros reverberava como uma lembrança antiga demais para ser completamente real.
Ele sabia por que estas terras eram amaldiçoadas.
Sabia que um portal havia sido aberto aqui, séculos atrás.
Sabia da lama infernal que escorrera para o mundo mortal.

Sabia demais.

E por enquanto, bastava que ele fosse o único a carregar esse saber.
O pântano ainda os testaria.
E os segredos não se revelam aos que perguntam, mas aos que sobrevivem.

"Por todos os nove infernos..." rosnou Impetor, chutando uma raiz submersa com força suficiente para estalar o tornozelo.  "Alguém pode me lembrar por que caralhos estamos atravessando esse pântano maldito? Musgo até os rins, cheiro de morte no ar e..." ele fez uma pausa, erguendo o rosto para a névoa espessa "...coisas nos observando. Eu sinto."

"Porque esta é a rota mais rápida até o Caminho da Mantícora" respondeu Dahaka, sem parar de andar. Sua voz baixa e grave parecia brotar do próprio brejo. "E também a menos patrulhada. Se quisermos chegar até a base dos Harpistas, não temos outra escolha."

Ludus riu alto, o som deslocado naquela umidade espessa como um sino soando dentro de um túmulo.

"Base? Que base, meu amigo?" disse ele, limpando um mosquito do rosto com a manga encharcada. "A mesma base que virou fogueira pros mercenários? Aquela que explodiu enquanto a gente fugia de um inferno literal."

Asher parou por um segundo e olhou para trás, a expressão firme, mas não sem cansaço.

"Horusk é um mago poderoso" disse ele, com convicção. "Eu ficaria surpreso se ele não tivesse preparado a base com proteções arcanas. Não podemos presumir o pior. E além disso... aquele é o único lugar que ainda podemos chamar de 'lar'."

Ele olhou diretamente para Ludus.

"Prefere voltar pra Suzail, Ludus? Acha que o Capitólio vai nos receber com flores? Somos foragidos. A cabeça de cada um aqui vale ouro em cada mural da cidade. Benthor nos quer mortos, os Nobres da Aliança dos Lordes nos querem mortos... Os Harpistas são nossa única esperança."

Por um momento, o som do pântano preencheu o silêncio entre eles. Um sapo coaxou perto demais. Alguma coisa enorme se mexeu sob a água escura, mas ninguém quis investigar.

Continuaram.

As horas se arrastaram como vermes gordos sobre a pele. O sol, se ainda existia, estava escondido além da névoa eterna. O tempo parecia dobrado, e a umidade transformava cada minuto em uma eternidade pegajosa.

Passaram por carcaças de árvores antigas, tão grossas que dois homens não dariam conta de abraçá-las. Em um ponto, cruzaram um tronco caído que formava uma ponte natural sobre um braço do pântano onde a água borbulhava sem motivo. Mais adiante, viram o que parecia ser uma antiga torre de vigia, desmoronada e coberta de trepadeiras, apenas a ponta de uma janela ainda visível entre a vegetação. Algas pendiam de suas pedras como cabelos de um cadáver afogado.

Duas horas depois, Dahaka ergueu a mão em silêncio e todos pararam. Mais à frente, através de uma clareira enevoada, silhuetas moviam-se entre os arbustos. Eram humanoides, mas não humanos. Criaturas de pele cinzenta, cobertas de ossos e penas, portando lanças rústicas e máscaras esculpidas em madeira escura. Um grupo de quatro, talvez cinco. Marchavam em silêncio, mas com propósito. Guerreiros tribais. Vigilantes de alguma fé esquecida.

O grupo se abaixou, silencioso, ocultando-se atrás de samambaias e raízes expostas. As criaturas desapareceram como surgiram: emergindo do lodo, e para ele retornando. Apenas os olhos de Mor’Rein os acompanharam até sumirem por completo, sua mente ecoando antigos nomes... Eles ainda vigiavam as bordas do pântano. Ainda esperavam.

Depois disso, seguiram com ainda mais cautela. Evitaram áreas abertas. Cortaram caminho por trilhas sufocantes, onde o pântano se estreitava, obrigando-os a andar com as armas sempre em mãos. A fome apertava, mas ninguém reclamava. 

Porque algo — algo profundo e velho — se movia sob aquele chão. E não importava o quanto fingissem não perceber, aquilo os observava também.

E o pântano, como um livro fechado há milênios, só começava a virar sua primeira página.

A água já batia nos joelhos quando os heróis vislumbraram, pela primeira vez em horas — que se arrastavam como dias — o limite do pântano.

Uma abertura no breu. O céu começava a clarear em tons de cinza-prata, e ao longe era possível distinguir as primeiras colinas cobertas de vegetação seca. A borda leste do Vasto Pântano se erguia como uma promessa — a promessa de que o inferno pantanoso tinha fim.

Mas promessas, ali, eram como reflexos na água turva. Traiçoeiras.

Foi Mor’Rein quem primeiro viu a forma semi-submersa. Uma massa curva, escura e distorcida, entre raízes e vegetação alagada. Ele ergueu a mão.

"O Brasão da Rede Negra?" Se questionou.

Era. Estampado em um estandarte, preso em uma estrutura retorcida, enferrujada, do tamanho de uma carroça, presa entre raízes e lama como uma carcaça esquecida. Talvez parte de alguma antiga construção — um caldeirão arcano, um dispositivo de engenharia anão, ou mesmo algo trazido por forças extraplanares. Ninguém soube identificar de imediato. Mas parecia ter engrenagens, placas sobrepostas de aço negro e um cilindro oco no centro, com chamas adormecidas em brasas frias. Morto. Até então.

Foi quando a água tremeu.

Não um tremor natural, mas um estremecimento nas profundezas. Como se algo tivesse acabado de acordar.

E então ela ergueu-se.

Hydra Negra.
Cinco cabeças serpenteantes emergiram do brejo, seus olhos brilhando como carvões ardentes. A pele negra, reluzente, parecia feita de couro escuro e placas de ossos escamosos. As bocas escancaradas revelavam línguas fendidas e presas longas como punhais. Um rugido gutural explodiu entre as árvores, fazendo bandos de aves lamacentas alçarem voo em pânico.

Impetor foi o primeiro a avançar, girando a clave com força bruta. Acertou uma das cabeças, que guinchou, mas as outras quatro o cercaram num instante, mordendo com selvageria. Ele gritou, cambaleando para trás, sangue escorrendo do ombro.

Dahaka tentou se esgueirar pelo flanco Hydra,  mas uma das cabeças o percebeu e com uma agilidade antinatural, mordendo seu braço com violência. Ele resistiu, mas caiu de joelhos na água.

Mor’Rein ergueu as mãos, um raio de energia negra saindo de seus dedos e atingindo o flanco da criatura — sem grande efeito. A criatura rugiu, girando o corpo como um touro aquático e derrubando Ludus com a cauda.

Asher tentou se posicionar na retaguarda, golpeando com sua lâmina. Um dos golpes entrou, fundo, decapitando uma das cabeças — mas ele mal teve tempo de comemorar.

Do pescoço sangrento onde Asher havia decapitado uma cabeça, dois brotos pulsantes começaram a inchar. Veias negras serpenteavam sob a pele úmida até que, com um estalo nauseante, duas novas cabeças explodiram para fora da carne, gritando como bebês demoníacos famintos.

Ludus arregalou os olhos.

"Ótimo, Asher! Que tal cortar outra? Talvez a gente consiga uma dúzia pra levar pra casa!"

Ludus tentou se erguer, mancando, e conjurou uma ilusão dele mesmo, para distrair duas cabeças. Funcionou — por um momento. Mas ao vê-las ignorando a miragem, murmurou:

"Bichinha esperta."

Impetor, coberto de sangue — próprio e alheio — avançou com um rugido que parecia vir de eras enterradas. Cravou a clava no pescoço grosso da criatura mais uma vez, cortando não uma, mas duas cabeças de uma só vez, o impacto ressoando como trovão no brejo.

Mas no instante seguinte, outras duas nasceram, grotescas, viscosas, urrando como trombetas do abismo.

Dahaka gritou, olhos arregalados:
"O lagartão! PARE DE CORTAR! Isso só vai trazer mais cabeças!"

Mas Impetor não ouvia. Não podia ouvir.

Seus olhos estavam arregalados, injetados, perdidos em uma visão que não pertencia àquele lugar. Diante dele, a hidra já não era apenas uma fera pantanosa. Era Tiamat.
A rainha dracônica dos cinco cromas, das muitas bocas, das infinitas blasfêmias. Cada cabeça uma afronta. Cada pescoço, uma acusação.

E ele, um guerreiro sozinho, desafiando uma deusa. Preso em seu próprio Frenesi.

Sua Clave tremia em suas mãos, não por medo, mas por fúria acumulada — por Suzail, por Benthor, por cada amigo caído. Por si mesmo. Como se, ao cortar todas as cabeças, pudesse provar... que ainda era o bastante.

Que ainda valia alguma coisa.

"ARRRRGH"  bradou, girando a clave com um golpe largo, pronto para mais.

Mas a cada cabeça que tombava, duas outras vinham no lugar. E o inferno só começava.

Mor’Rein foi arremessado contra o tronco de uma árvore podre, que estalou sob o impacto. Asher caiu de costas ao desviar por pouco de uma das mordidas, afundando na lama. Dahaka mantinha-se afastado do centro do combate, tentando encontrar um ponto estratégico para se esconder, mas o terreno não colaborava — a água turva batia até os joelhos, e cada passo era um esforço contra a resistência do lodo. Na verdade, aquele pântano era hostil a todos eles.

"Não dá..." murmurou Asher, arfando. "A cada cabeça cortada... outras nascem..."

Foi então que seus olhos se voltaram, desesperados, para a estrutura de metal semi-submersa. Engrenagens. Câmaras ocas. Resquícios de brasas nos canais...

A lembrança veio como um raio.

“Uma cabeça de hidra tombará se ferida em excesso — dizem que golpes brutais e certeiros, quando somados, podem fazê-la ceder. No entanto, cuidado: se o sangue esfriar e nenhuma chama queime a carne, duas novas cabeças brotarão no lugar da caída, como se a própria besta zombasse da morte. Só o fogo, ancestral e purificador, impede tal regeneração profana.”

Ele gritou:

"LUDUS!" rolou para o lado, desviando de uma mordida. "Você ainda sabe conjurar aquele feitiço... aquele... que aquece metal?"

Ludus, ainda de joelhos, piscou, zonzo. " 'Aquencer metal'? Até onde eu sei não criaram nenhuma armadura tamanho mamute para caber nessa...."

Asher apenas aponta para estrutura de Metal. E Ludus pareceu compreender o plano de seu companheiro.

Dahaka e Asher correram em direção à estrutura. Asher enfiou os braços sob o casco de metal, rangendo os dentes, sua forma lupina sutilmente se fazendo presente.

"Um, dois... AGORA!"

Com um esforço hercúleo, os dois tombaram a estrutura de lado. Ela caiu com um estrondo, presa entre raízes e lama, e ficou posicionada como uma armadilha aberta, os aros expostos para prender o corpo da criatura.

 Mor’Rein entendeu o plano num relance. O elfo tomou folêgo correu direto na direção das cabeças. Cinco delas o perseguiram. Impetor mantinha-se em fúria gritando e esmagando o máximo de cabeças possíveis.

Com um rugido uníssono, a Hidra avançou.

"AGORA, LUDUS!" gritou Asher.

Ludus estendeu os braços, a mão tremendo.

"Uma Flambada de Hidra no capricho..." murmurou.

E a estrutura brilhou em brasa.

O calor se espalhou rápido, e a Hidra, envolta nas chapas metálicas incandescentes, urrou como uma centena de almas condenadas. A carne escura começou a chamuscar, borbulhar, crepitar. As cabeças se debatiam com violência, tentando escapar da armadilha improvisada. Mas Impetor cravou a clave para manter a criatura presa. Asher golpeou uma das cabeças restantes com um corte preciso.

Dessa vez, nenhuma cabeça regenerou.

Mais uma cabeça foi arrancada.

Mais uma tombou em chamas.

Com um último rugido, a criatura caiu, metade do corpo fundida ao metal em brasa. O cheiro de carne queimada e lodo fervido preencheu o ar. Água negra espirrou para todos os lados. Silêncio.

Silêncio, enfim.

Os heróis caíram, um a um, exaustos, ofegantes, cobertos de lama, sangue e fuligem.

"O que... foi aquilo?" disse Ludus, ofegante.

"Uma Hidra" respondeu Asher, deitado no lodo.

A água ainda borbulhava onde o corpo imenso da Hidra afundara, espalhando um vapor acre que misturava sangue, bile e ferro derretido.

Dahaka se ergueu primeiro. Ofegante. Cambaleando. Seus olhos ainda fitavam o ponto onde Impetor estivera momentos antes — olhos de um caçador que viu mais do que gostaria.

O meio-dragão caminhou até ele, devagar, pisando firme entre a lama, desviando de restos fumegantes de carne queimada.

"Você perdeu o controle," disse Dahaka, a voz rouca, sem acusação. Era uma constatação. Quase um sussurro. "E não era só fúria. Era como... como se você estivesse provando algo. Ou respondendo a algo."

Impetor estava de costas, lavando as mãos na água escura, o rosto oculto pela sombra de um cipó pendente. Por um instante, não respondeu.

"Eu vi o que vi," insistiu Dahaka. "E aquilo não era só você."

Impetor fechou os olhos. Os nós dos dedos ainda tremiam, mesmo agora. A clave tremia também, mesmo fincada no chão.

A imagem das cabeças ainda dançava em sua mente. Não da Hidra, não mais. Mas da Deusa dos Dragões — a Senhora dos Múltiplos Rostos. Tiamat. Ela o fitava. Julgava. Sorria.

Ele respirou fundo.

"Eu estou bem."

Virou-se então, o rosto firme, embora os olhos ainda ardessem.

"Você se esquece, que a gente acabou de sair do Inferno pra salvar a sua bunda escamada. Eu só... não quero ver você voltando pra lá. Nunca mais."

"Eu estou bem." Respondeu como se esperasse encerrar o assunto.

Dahaka cruzou os braços, avaliando o companheiro com olhos de réptil antigo.

"Você não me convence, Impetor."

"Não preciso te convencer."

A resposta foi curta. Ríspida. Mas não houve raiva — apenas cansaço.

Dahaka assentiu, depois de um longo silêncio. “Como desejar.”

Impetor passou por ele, indo em direção aos outros. Mas por dentro, o pacto pesava como ferro quente em suas entranhas. Ele sabia o nome da entidade que agora espreitava seu espírito. Sabia o preço que ainda pagaria.

Mas sabia também que ninguém precisava carregar isso por ele.

Ninguém mais precisava arder.

O pântano estava atrás deles agora. Mas a verdadeira travessia... só havia começado.

E assim os dias passaram — lentos, cruéis, como lâminas embotadas raspando carne viva.

Deixaram o Vasto Pântano para trás no nono dia de Nightal, mas o lodo parecia seguir preso às botas, às memórias, aos ossos. A cada noite, era como se ainda ouvissem o coaxar abafado dos sapos demoníacos e o chiado das cabeças da hidra fervendo na armadilha metálica.

O Caminho da Mantícora — outrora uma rota comercial entre as nações ocidentais e o coração de Cormyr — agora era um corredor espectral. A trilha, coberta de neve recente e lama congelada, serpenteava por colinas cinzentas e vales onde a vida parecia ter sido drenada.

Cada manhã era anunciada não pela luz do sol, mas por um céu de chumbo e um frio cortante que feria como lâmina fina. O mês de Nightal avançava e com ele o vento se tornava mais cruel, mais inquisidor, como se sussurrasse dúvidas e segredos aos ouvidos dos caminhantes cansados.

Eles marcharam.

Dormiram em cavernas, ruínas e ocas abandonadas de camponeses desaparecidos. O fogo era aceso com esforço e mantido com fé. O frio entrava pelas armaduras, pelo couro molhado, pelas frestas do espírito.

Passaram por vilarejos tombados. Casas queimadas, celeiros despedaçados, igrejas profanadas. As estacas de proteção já não seguravam o mal. E os mortos... os mortos estavam por toda parte.

Não como monstros. Não mais.

Agora eram parte da paisagem.

Corpos congelados presos nas cercas. Ossadas enegrecidas nas margens dos riachos. Famílias abraçadas sob mantos de neve, como se dormissem em paz. Em alguns pontos, os mortos se moviam ainda — vagarosos, tropeçando entre as árvores, olhos brancos, pés descalços arrastando rastros sem rumo. Alguns paravam, como se sentissem os vivos se aproximarem. Mas não atacavam. Apenas... observavam.

Na sétima noite, Mor’Rein se ergueu no meio de seu transe, tomado por visões de cidades afundando em sangue e deuses velhos chorando dentro de espelhos. Não falou nada. Apenas ficou desperto até o amanhecer.

Ludus quase perdeu dois dedos para a geada, rindo de nervoso enquanto aquecia as mãos com o feitiço mais básico que conhecia, tremendo como um cão molhado.

Dahaka, cada vez mais introspectivo, parecia ler os ventos. Sentia o tempo mudar com o faro, e o pressentimento o fazia espreitar sombras que ninguém mais notava.

Asher, silencioso, fazia as vigílias mais longas. Não dormia bem. Não sonhava. Apenas fitava o horizonte com olhos de alguém que sabia que o fim da estrada era tão perigoso quanto a estrada em si.

Impetor não falava sobre Tiamat. Mas em duas ocasiões, foi visto orando. Talvez não a deuses. Mas a algo a mais. Ou alguém. A raiva agora era mais controlada — mas não menos intensa. Ele afiava a clave como se ela fosse uma extensão de sua vontade. Uma promessa.

Na oitava noite, acamparam próximo a um campo onde dezenas de cruzes negras estavam fincadas na terra. Um antigo campo de quarentena. Os mortos ali não se erguiam — mas o frio fazia os ossos rangerem à noite, como se sussurrassem histórias de pestes e desesperos.

Na manhã do décimo sétimo dia de Nightal, ao longe, a trilha revelou a silhueta quebrada de uma antiga ponte de pedra. Mais além, escondida entre penhascos e rochedos cobertos de neve e névoa, podiam vislumbrar as estruturas reforçadas do que antes era um posto avançado — agora silencioso, envolto por um ar de expectativa.

O Refúgio Harpista.

Ou o que restava dele.

Mas fosse o que fosse... era o fim da marcha.

E o começo de outro inferno.

A silhueta da fortificação surgia entre as colinas nevadas como um fantasma de pedra — altiva, mesmo dilapidada. As muralhas do Refúgio Harpista estavam cobertas por uma crosta fina de gelo, que refletia a luz pálida do sol invernal. Algumas torres pareciam partidas, outras intactas. Sinais de batalha à distância, mas nenhum fumo no ar.

"Ali está..." murmurou Asher, parando ao topo do aclive. O vento gelado bagunçava-lhe os cabelos, e sua voz saiu com uma nota de reverência. “O lar... ou o que restou dele.”

Dahaka, de braços cruzados, observava a estrutura com olhos afiados.

“As marcas são recentes. Houve realmente um conflito.” Disse em tom neutro. Seu olhar, no entanto, desviou por um instante para Asher. Ele notou o jeito como os olhos do guerreiro fixavam aquela ruína — como se visse mais do que pedra. Como se visse lembranças.

“Nós conseguimos antes do solstício,” comentou Mor’Rein, quebrando o silêncio. A voz baixa, quase um pensamento em voz alta. “Mais dois ou três dias, e estaríamos presos sob as garras do inverno.”

Ele tirou algo do manto — o cabo partido de sua vassoura arcana, rachada de cima a baixo. Passou os dedos longos pela madeira como quem acaricia uma ferida antiga.

“Se Horusk ainda estiver vivo,” continuou, sombrio, “ele saberá como reparar isso. E talvez... outras coisas.”

Impetor, mais atrás, respirava forte, esfregando os braços.

“Eu só quero uma fogueira, carne assada e... um barril de cerveja,” disse, dando uma cotovelada em Ludus. “Lembra? Me prometeu um barril de cerveja quando me tirou daquele lugar fedorento.”

Ludus, com as mãos nos joelhos e a respiração em nuvens, riu entre dentes.

“Estava jurando que já tinha se esquecido,” respondeu. “Mas sim, um Barril de cerveja no capricho para nosso destemido Impetor, arrastado do inferno e renascido do Lodo. Eu enfrentei o inferno e o pântano, e quase virei purê de cães infernais e hidras negras — mas não aguento mais a porra desse frio.”

Impetor assentiu, batendo a mão no ombro dele.

“Depois do que passamos, esse barril vai ser nosso tributo aos mortos... e aos vivos também.”

Mais adiante, Dahaka ainda encarava os muros gretados.

“Não abaixem a guarda,” murmurou. “Não sabemos se esse forte continua sobre domínio Harpista.”

Mor’Rein não respondeu. Apenas fitou o céu encoberto. Estava escurecendo cedo, como era comum em Nightal. A longa noite do inverno se aproximava. E com ela, sombras ainda maiores que o frio.

Asher manteve os olhos fixos nas janelas quebradas do antigo salão da torre leste. Seus dedos fecharam-se em punho.

"Vamos," disse por fim. "O Refúgio nos espera. E o destino não costuma ser paciente."

O portão leste do Refúgio Harpista erguia-se diante deles como um cão ferido — ainda de pé, mas coberto de cicatrizes. As muralhas carregavam sinais do conflito recente: manchas de sangue secas, flechas cravadas entre as pedras, estandartes rasgados pendendo como línguas mortas ao vento.

Ao atravessarem a antiga ponte de madeira, viram os vestígios da batalha: corpos empilhados com neve até a cintura, alguns meio enterrados, outros apenas carcomidos cobertos de gelo. Cinzas onde antes havia acampamentos. Um grifo morto jazia à direita da trilha, a plumagem chamuscada, os olhos arregalados em uma expressão de terror eterno. Templos improvisados de pedra para os caídos haviam sido erguidos com pressa. Nenhuma canção ecoava. Apenas o lamento do vento entre as torres.

Dahaka parou, os olhos varrendo o chão com precisão quase cirúrgica.

“Eles foram cercados,” murmurou, ajoelhando-se. “Flechas vieram de dois flancos. Rastros de pegadas... depois arrastadas. Saques. Pilhagem. Mas... algo mais.”

Seus dedos escavaram um pedaço de couro marcado com selos harpistas e um pingente dourado partido ao meio. Guardou ambos sem alarde, lançando um último olhar para o entorno — sempre em busca de algo que os olhos comuns não veriam. Ou deixariam passar.

No alto da torre de vigia, uma voz cortou o vento:

“Alto lá! Quem se aproxima?”

Asher deu um passo à frente, a capa tremulando contra as correntes frias do vindouro inverno.

Asher Greymane! A mando de Horusk, retornamos ao Refúgio!”

O silêncio que se seguiu foi gelado como a neve. O som de mecanismos girando, o arrastar de correntes, e por fim o portão se abriu com um ranger cansado.

Descendo a escadaria de pedra, Aeliryn surgiu.

Seu andar era lento, apoiado em uma bengala improvisada de metal trançado. Os cabelos alvos ainda caíam em cascata, mas a beleza etérea do elfo agora era dilacerada por uma cicatriz que cobria toda a metade esquerda do rosto — marcas negras e vermelhas, como uma lembrança do fogo que o atingira. A perna esquerda arrastava-se com dificuldade, rígida como madeira. Ainda assim, sua presença era altiva, o porte de um comandante ferido, mas não vencido.

Ele fitou o grupo — especialmente Ludus — e sua expressão foi dura como gelo.

Aonde estavam vocês?” disparou, sem saudação. “Enquanto esse lugar queimava, enquanto meus companheiros morriam nas muralhas, enquanto os grifos tombavam no céu como estrelas sem nome... onde estavam? Onde estavam os ‘Heróis Exilados de Suzail’?”

Silêncio.

Aeliryn apertou os punhos.

“Não espero resposta. Porque não há nenhuma que traga os mortos de volta. Mas havia promessas. Havia alianças. E vocês...”

Mas antes que mais pudesse ser dito, uma nova voz emergiu da entrada do forte, calma como uma maré controlada:

Resgatando uma vida. Às vezes, Aeliryn, os Destino não é uma questão de sorte... Mas sim de escolhas.”

Horusk apareceu, vestindo suas túnicas azuladas, o capuz jogado para trás, olhos brilhando como pedras antigas. O mago parecia mais velho do que antes — ou talvez apenas mais cansado — mas havia uma paz calculada em sua fala, como se pesasse cada palavra na balança do tempo.

“E você sabe bem,” ele continuou, “que há gestos que não se fazem por estratégia... mas por amor. Por honra. Por dedicação.”

Aeliryn olhou para ele por um longo instante... e abaixou a cabeça. Não disse mais nada. Apenas virou-se, mancando, desaparecendo pelas escadas internas.

Ludus observou-o desaparecer, olhos semi-cerrados.

“Pois é...” murmurou com um meio sorriso torto. “Nove noites de suor e gritos, uma promessa de reencontro, e tudo o que eu recebo é um olhar atravessado e um sermão...”

Fez um gesto com a mão, teatral.

“Tá bom, Aeliryn. A gente se vê no próximo apocalipse... se você ainda estiver afim.”

A lareira crepitava suavemente no canto, mas o calor parecia não alcançar as sombras que se arrastavam pelos cantos da sala. Pilhas de pergaminhos e tomos antigos tomavam cada superfície livre. Frascos, componentes arcanos e outros instrumentos cuidadosamente organizados em nichos de pedra. No centro, sobre uma mesa de mármore rachado, jaziam os restos partidos da vassoura de Mor’Rein, como os ossos de uma criatura mística.

Horusk, de cabeça baixa, movia os dedos com precisão cirúrgica. Cada gesto traçava uma runa luminosa no ar, que se projetava sobre os fragmentos do artefato. A madeira rangia. Estava viva. Reagindo à presença de seu criador — ou à força maior que o manipulava.

Asher observava em silêncio, mas seus olhos não disfarçavam a impaciência.

“Comece a falar, Horusk. Quem atacou? E por quê?”

O mago não ergueu o olhar. Respondeu como quem recita uma crônica:

Mozorov. Uma família de Águas Profundas. Não são nobres. Mais velhos que a própria Guilda dos Comerciantes. Subiram com sangue e pavor. Aliaram-se aos Zhentarim nos últimos anos, aproveitando o caos político de Cormyr.”

Dahaka, encostado na parede com os braços cruzados, ergueu uma sobrancelha.

“Os Mozorov? Já ouvi rumores. Dizem que eles guardam segredos dos elfos negros das cidadelas subterrâneas. Que criam escravos com garras e tatuagens vivas. Que um deles consegue...”

Horusk soltou um som baixo, quase um riso — mas sem humor.

“Rumores, geralmente, exageram. Mas no caso dos Mozorov, subestimam.”

Com um gesto, uniu dois dos fragmentos da vassoura. A madeira fundiu-se com um brilho dourado, sussurrando em élfico arcaico. Mor’Rein observava em silêncio absoluto.

Horusk continuou:

“O líder se chama Igor Mozorov. Um homem tão cruel quanto paciente. O tipo que planta uma traição e espera vinte anos para colher. Seu irmão mais novo, Yvan, é o cérebro tático. Ardiloso. Mas... instável.”

“Mas havia outro no dia do ataque,” acrescentou, agora olhando diretamente para Asher e Dahaka. “Uma arma secreta. Não participou do combate. Mas... eu o senti. Era um Psiônico.”

Mor’Rein congelou.

“Um... o quê?” perguntou Ludus, inclinando-se na cadeira. “Isso é tipo um demônio? Um Mago? Uma droga de quê?”

Horusk encarou-o, os olhos cintilando. 

“Não está exatamente errado em suas colocações, bufão.. Mas um psiônico é muito mais que isso.

Mor’Rein estremeceu, sua mão trêmula pousando sobre a mesa de pedra.

“Então... Ele é poderoso? Magia poderosa é isso?”

Horusk ensaiou uma explicação, mas Mor’Rein, pela primeira vez em muito tempo, o interrompeu. Sua voz era baixa, mas carregava o peso de um túmulo fechado há séculos.

Não. Não é magia. Não como a nossa. Os psiônicos não puxam poder da Trama. Eles são a sua própria Trama. Não há contramágica. Não há anulação. Eles não precisam de palavras, gestos, componentes. Apenas pensam... e o mundo obedece.”

Ludus engoliu em seco.

“Parece ótimo. Quando é que a gente aprende isso?”

Mor’Rein virou o rosto lentamente, e pela primeira vez Ludus viu pavor nos olhos do elfo da lua.

“Você não quer aprender isso.”

Horusk assentiu, voltando-se para a vassoura. Mais uma peça foi soldada por energia azul. Faíscas correram pela superfície como relâmpagos contidos.

“Psiônicos são raros. Poderosos. Quase nunca humanos. Mas este... era treinado. Disciplinado. Quando o senti, foi como se alguém tivesse aberto meu crânio e sussurrado dentro da minha mente. Um chamado gelado.”

Asher, inquieto, estreitou os olhos.

“Você o viu?”

Horusk balançou a cabeça.

“Não. Mas ele me viu. E então fugiram. Roubando de nós mais que vidas. Levaram documentos dos Harpistas... registros que implicam nos esquemas Haroldo Benthor.”

Dahaka franziu a testa.

“Oque eles querem com esse Filha da puta duas-caras?”

Horusk não respondeu. Apenas entregou a Mor’Rein a vassoura restaurada. O artefato parecia respirar em suas mãos.

“Benthor está a um passo de coroar-se Rei de Cormyr. A Regente de Aço, Alusair, está desaparecida. E os arquivos roubados continham provas... provas do envolvimento de Benthor com a Cura, com os Zhentarim, e com o assassinato de aventureiros que o enfrentaram.”

A sala ficou em silêncio. Só o crepitar da lenha. E os pensamentos, ruidosos como um exército.

Asher passou a mão pelos cabelos.

“Eles vão voltar para Águas Profundas?”

Horusk negou.

“Não com facilidade. Estão feridos. Mal saíram vivos. Patrulhas harpistas controlam as principais rotas. Mas os rastros os levaram até uma vila ao norte. Uma aldeia esquecida, usada agora como quartel. Lá se escondem. Lá estão... esperando.”

Ele fitou cada um dos heróis, um a um.

“Se queremos impedir uma coroação falsa, e talvez algo ainda maior... teremos que confrontar os Mozorov. E seria bom fazer antes que o Solstício chegue.”

“Temos muito a discutir, então... Mas por agora, vamos descansar. Só os deuses sabem o que enfrentamos hoje.” — diz Asher, com o olhar exausto de um líder que carrega mais do que gostaria. — “Nos encontramos na sala de reuniões ao anoitecer.”

E assim, os heróis se dispersam, cada um seguindo para seus afazeres pessoais. Um banho quente, uma boa ceia, um raro momento para respirar — tudo isso é, ao mesmo tempo, restaurador e sufocante.

A culpa pelo breve luxo do descanso logo os alcança. Afinal, os inimigos não estão à espera.

Não demora até que se vistam novamente e sigam, em silêncio determinado, para a sala de reuniões.

As paredes estavam frias, mas a conversa era quente.

Sentados ao redor da mesa de madeira, ainda com as botas úmidas da travessia e os mantos cobertos de poeira da estrada, os heróis discutiam. No centro, sobre um mapa de Cormyr marcado por anotações de tinta vermelha, estava a coroa.

Horusk, como um velho mestre, apontava com a vara arcana para os pontos marcados.

“Com Alusair sobrecarregada e depois desaparecida, Benthor assumiu os comandos logísticos e diplomáticos do reino com a precisão de um general. Fez alianças com nobres menores, garantiu reforços para Suzail, coordenou o controle de refugiados. Aos olhos do povo... ele salvou o reino.”

Asher, com os punhos cerrados sobre a mesa, cerrou os olhos.

“E tudo isso com apoio da Aliança dos Lordes, não foi? Sei bem como funcionam esses jogos. Lá em Águas Profundas, basta a sugestão de ‘ordem’ e os poderosos se curvam... mesmo que isso signifique entregar o trono a um lobo vestido de cordeiro.”

“Os Lordes não se curvam,” rebateu Horusk com calma, “mas fazem acordos. E Benthor soube oferecer o que eles queriam: estabilidade de Cormyr, uma rota segura no coração do continente enquanto o resto apodrece sob necromantes.”

Ludus, sentado despojado na cadeira, ria entre dentes.

“Ah, claro. Estabilidade. É sempre essa a desculpa, não é? Como se enfiar uma faca nas costas de um reino fosse uma massagem diplomática.”

Ele virou-se para Asher com um sorriso amargo:

“Lá embaixo, nos salões dos criados, a gente sempre ouve as histórias dos reis. Mas nunca das crianças bastardas que desapareceram no véu da noite enquanto a corte discutia onde plantar a próxima estátua.”

Impetor balançava a cabeça, entediado, mastigando um pedaço de carne seca.

“Vocês falam demais. Se o cara virou rei, a gente vai lá e tira ele. Simples.”

Dahaka, apoiado contra a parede, encarou-o.

“Não é o homem. É o sistema. Tira um rei, outro aparece. Tira o rosto, a coroa continua. O problema é a estrutura que permite alguém como Benthor escalar... e esmagar os que estão embaixo no caminho.

Mor’Rein, que até então observava em silêncio, falou baixinho:

“Benthor é só mais um fantoche dentro do jogo dos Zentharim e dos Cultistas que encontramos em Stormhorns”

Horusk assentiu.

“Certamente, mas isso não faz dele um obstáculo menos perigoso. Ele usou o medo como cimento. Uniu os mercadores, os senhores da guerra, e até clérigos oportunistas. Enquanto o povo via a Regente de Aço como distante, Benthor se mostrava presente. Visitas públicas. Distribuição de recursos. Proteção.”

Asher rangeu os dentes.

“Proteção patrocinada pelos Zhentarim. Financiada por criminosos, que lucram com pragas e guerras.”

Horusk assentiu com pesar.

“Sim. E agora, com os documentos roubados, ele não apenas silencia os Harpistas — mas reescreve a história. E se for coroado antes do Solstício de Inverno, sua legitimidade será ratificada pelos próprios Lordes.”

“E os mortos ficarão sem justiça,” murmurou Ludus.

Dahaka cruzou os braços.

“E os vivos seguirão morrendo.”

Silêncio. A sala parecia encolher com o peso das palavras.

Até que Impetor, levantando-se, quebrou a tensão com um grunhido:

“Então vamos quebrar a coroa dele. Com as mãos. Ou Melhor... Com a minha clave.”

Asher se ergueu também, o olhar firme.

“Não... com provas. Com verdade. Exposta diante do reino. Se a verdade ainda tiver valor nesse mundo...”

Horusk caminhou até a janela, o crepúsculo pintando as montanhas com tons de cinza e gelo.

“O solstício está próximo. E se querem impedir essa coroação... terão que agir agora.”

Horusk estendeu a vareta sobre o mapa. Seu dedo fino e nodoso apontava para uma região ao sul de Tilverton, uma pequena marca apagada pelo tempo.

Honeyhill. Uma vila apicultora, abandonada desde os primeiros surtos da praga necromântica. Meus informantes dizem que os Mozorov levantaram um posto improvisado na antiga Casa de Mel, a construção mais robusta dali.”

Ludus, recostado em sua cadeira de pernas para o alto, soltou um sorriso torto:

“Bom que vai ser melzinho na chupeta, então.”

Silêncio absoluto.

Nenhum olhar. Nenhum riso. Apenas o crepitar da lareira.

Ludus suspirou, girando os olhos.

“Tá bom, tá bom... pega leve, galera. Não tô nos meus melhores dias.”

Horusk ignorou o comentário e continuou:

“Se estiverem prontos, partem ao amanhecer. A rota é perigosa, mas consegui uma carruagem discreta que os deixará próximo de Honeyhill. Os grifos que restaram do ataque patrulham os céus ao redor do castelo — não podemos arriscar chamar atenção de batedores Mozorov.”

Impetor, em seus aposentos, veste a ombreira simples de couro grosso. Com as escamas pratas à mostra e as veias latejando sob a pele, ele passa a mão devagar sobre a clave negra, encostando a testa na arma. Um murmúrio rouco escapa: “Mais um dia na arena.”

Mor'Rein está em um pátio aberto do refúgio. A vassoura recém-consertada flutua à sua frente, ainda com runas quentes na madeira. Ele monta com a leveza de um espírito, e a capa escura esvoaça. Seus olhos percorrem os céus, sussurrando palavras de proteção que só as estrelas entenderiam.

Dahaka, na torre de vigia, examina virotes, conferindo pontas, equilíbrio e carga. Uma lamparina fraca ilumina a adaga em sua bainha. Ele prende a besta às costas, testa a lâmina oculta. O olhar é fixo, silencioso, como se houvesse mais inimigos em sua mente do que no caminho.

Ludus, em frente ao espelho rachado do salão dos harpistas, passa maquiagem escura sob os olhos, puxando traços que acentuam o cansaço. O semblante, porém, permanece debochado. Ele ajeita o chapéu puído e ensaia um sorriso no espelho.

Asher permanece de pé na sacada do forte, observando a luz da lua refletida nas montanhas nevadas. A armadura já está presa ao corpo, e a espada repousa embainhada ao lado. Ele observa em silêncio... o vento passando, como memórias em movimento.

Então, Horusk se aproxima.

“Asher,” diz ele, a voz calma de um homem que já viu mais do que gostaria. “A carruagem estará pronta em algumas horas. Ela os deixará nas trilhas antigas a leste. Discretamente. Sem alarde.”

Asher apenas assentiu. Seus olhos ainda fixos no luar.

Horusk, percebendo a tensão no jovem guerreiro, hesitou... mas falou:

“Aceita um conselho?”

Asher olhou para ele, finalmente.

“Sempre.”

O velho mago sorriu — não de escárnio, mas de experiência.

Comandar é dar ordens e esperar obediência. Liderar... é caminhar ao lado dos seus, mesmo quando está quebrado por dentro. O primeiro move soldados. O segundo... inspira heróis.”

Asher segurou firme o cabo da espada. E, por um instante, a lua pareceu brilhar mais forte em seus olhos.

“Obrigado, Horusk.”

O velho assentiu, dando as costas.

“As próximas horas... podem decidir o destino de Cormyr. E talvez, o que restará de vocês.”

A neve começava a cair novamente.

O caminho até Honeyhill... havia começado.

O sino da torre bateu oito vezes no Refúgio Harpista quando os heróis deixaram o pátio pelas portas laterais, embarcando numa carruagem escura, de madeira envernizada e rodas envoltas em tecido para abafar o som. Nenhuma insígnia. Nenhum brasão. 

O cocheiro era mudo e encapuzado — talvez por escolha, talvez por necessidade. Nem mesmo os cavalos relinchavam: treinados para silêncio e resistência.

A estrada que serpenteava para leste estava congelada, coberta de uma crosta de gelo estaladiça que refletia a luz pálida da lua de Nightal. A vegetação que os ladeava sussurrava com galhos secos, e o vento uivava como uma criatura ferida à distância.

Todos no interior da carruagem estavam calados. Impetor cochilava com a clave entre os braços. Ludus afiava piadas na mente, mas não encontrava plateia. Dahaka fitava a escuridão, atento aos vultos. Asher estava imóvel, os olhos semicerrados, como se a escuridão carregasse respostas.

E acima deles, deslizando entre as nuvens tênues e as estrelas, estava Mor’Rein — montado em sua vassoura negra como uma silhueta quebrada contra o céu.

As nuvens abriam-se como véus e o véu revelava olhos. Não estrelas. Olhos. Olhos que o fitavam de lugares sem nome, além das constelações.

Ele sentiu a presença dele.

A realidade esticou.

Como um fio de seda sendo puxado do interior da alma.

Então O Grande Antigo falou.

Não com voz. Mas com impacto.

"𝘈𝘩... 𝘧𝘪𝘰 𝘥𝘰 𝘦𝘶... 𝘢𝘳𝘢𝘯𝘩𝘢 𝘥𝘦 𝘴𝘢𝘯𝘨𝘶𝘦... 𝘰𝘶𝘷𝘦 𝘢 𝘛𝘢𝘮𝘢𝘯𝘩𝘰𝘯𝘦 𝘩𝘰𝘳𝘢 𝘥𝘢 𝘧𝘰𝘳𝘬𝘢."

Mor’Rein sentiu os olhos sangrarem por dentro. Visões inundaram sua mente como enxame de abelhas mortas.

"𝘈𝘴 𝘱𝘦ç𝘢𝘴 𝘥𝘢 𝘙𝘦𝘥𝘦 𝘕𝘦𝘨𝘳𝘢 𝘧𝘰𝘳𝘢𝘮 𝘭𝘢𝘯ç𝘢𝘥𝘢𝘴.
𝘖𝘴 𝘥𝘳𝘢𝘨𝘰̃𝘦𝘴 𝘮𝘦𝘵𝘢́𝘭𝘪𝘤𝘰𝘴 𝘵𝘰𝘮𝘣𝘢𝘮. 𝘌 𝘴𝘢̃𝘰 𝘤𝘰𝘯𝘴𝘶𝘮𝘪𝘥𝘰𝘴.
𝘈𝘲𝘶𝘦𝘭𝘦𝘴 𝘲𝘶𝘦 𝘤𝘢𝘮𝘪𝘯𝘩𝘢𝘷𝘢𝘮 𝘤𝘰𝘮𝘰 𝘶𝘮... 𝘢𝘨𝘰𝘳𝘢 𝘴𝘢̃𝘰 𝘥𝘰𝘪𝘴..."

"𝘔𝘢𝘴 𝘴𝘢𝘣𝘦𝘴, 𝘮𝘦𝘶 𝘍𝘪𝘰... 𝘯𝘦𝘮 𝘵𝘢𝘯𝘵𝘰 𝘰 𝘵𝘢𝘮𝘢𝘯𝘩𝘰 𝘥𝘰 𝘯𝘰𝘪𝘷𝘰 𝘵𝘦𝘳𝘳𝘪𝘧𝘪𝘤𝘢... 𝘮𝘢𝘴 𝘢 𝘧𝘰𝘮𝘦 𝘥𝘰 𝘷𝘦𝘶..."

E então sumiu.

Como se nunca tivesse estado ali.

Mor’Rein tremeu na vassoura, ofegando, limpando discretamente um traço de sangue do nariz. As estrelas pareciam mais distantes agora. Mais frias.

Ele desceu suavemente, pousando sobre a carruagem em movimento. Seus olhos ainda ardiam.

E lá adiante, Honeyhill, finalmente, surgiu.

Ao longe, sob o luar difuso, a vila parecia adormecida e sem vida, como uma pintura antiga deixada para apodrecer.

Colmeias abandonadas de madeira apodrecida se espalhavam pelos campos. Antigos cercados de flores agora estavam cobertos de neve acinzentada. Os postes de mel — torres que serviam para defumar e armazenar a produção da vila — estavam queimados, com fagulhas ainda congeladas nas bordas como se o fogo tivesse sido extinto pelo próprio frio.

Um odor doce e podre permeava o ar. Como se o mel tivesse fermentado dentro das ruínas.

A Casa de Mel, maior construção da vila, era visível na encosta sul — uma mansão rústica com telhados inclinados, chaminés silenciosas e janelas escuras. A colmeia principal, que servia de símbolo e depósito, ainda estava erguida, embora marcada por brasões riscados e estandartes estranhos — círculos negros com costuras vermelhas, o símbolo atual dos Mozorov.

Pelas ruas congeladas, nenhuma alma viva caminhava. Mas nas sombras... havia movimento.

A missão tinha começado. E o mel... agora era isca.

As rodas da carruagem finalmente estalaram pela última vez sobre o gelo congelado. Um rangido discreto e os cavalos silenciaram como se compartilhassem do medo do lugar.

Os heróis desceram um a um, o bafo quente escapando pelas bocas como névoa entre os galhos mortos.

Mor’Rein pousou graciosamente ao lado da estrada, sua vassoura rangendo sob o frio. O elfo passou a mão sobre os cabelos soltos, sem dizer palavra, os olhos fixos na construção adormecida à frente.

A Casa de Mel surgia como uma colmeia macabra à distância: grande, de madeira gasta e bordas queimadas — seus antigos adornos dourados agora manchados pela fuligem e pelo abandono.

Asher puxou o capuz sobre os olhos e olhou para o caminho de entrada. Dois homens faziam guarda sob uma tocha trêmula:

Um deles, gordo e ruivo, com a barba dividida em três tranças amarradas com lacres metálicos, bufava com frio e puxava o gorro sobre as orelhas.
O outro, um meio-orc de aspecto doente, fungava alto com o nariz escorrendo e balançava os ombros como quem tivesse febre.

Dahaka deu um passo adiante, o olhar atento como lâmina desembainhada.

Irei procurar alguma entrada alternativa.” disse em tom baixo, e com um movimento preciso se esgueirou para o matagal ao lado da estrada, envolto pelas sombras da noite.

Asher olhou para os dois guardas novamente e murmurou:

Precisamos de uma distração.

Mor’Rein, sem dizer nada, retirou um objeto de sua bolsa de couro negro — um livro. A capa era de couro fino, decorada com símbolos em relevo. Asher o reconheceu imediatamente.

“...Esse tomo... do arquivo de Bathos?”

Mor’Rein assentiu, folheando as páginas com reverência e um leve sorrisinho quase imperceptível.

Espero que não se zangue. Mas seria uma pena que alguns desses livros ficassem trancados em prateleiras mofadas, esquecidos. Especialmente esses... com nomes tão úteis.

Nomes?” Impetor ergueu uma sobrancelha escamosa. “No que um nome pode nos ajudar, magrelo?

Mor’Rein sorriu de canto, sem erguer os olhos.

Palavras têm poder, meu caro amigo prateado.

Virou algumas páginas, seus dedos dançando como teias de aranha entre glifos arcanos até parar em uma entrada sublinhada com tinta azul escura.

E o nome que estou buscando... já causou estragos antes. Vamos ver se ainda ecoa no mundo.

Dahaka rastejava como uma sombra feita carne, contornando as colmeias mortas da vila. Passou por um tonel quebrado onde abelhas petrificadas jaziam como pedras preciosas, mortas de frio.

Foi então que viu: uma grade metálica, grande o suficiente para alguém magro passar. O antigo duto de ventilação da casa de produção de mel, usado no verão para resfriar os tonéis.

Sorriu.

Examinou o entorno. Nenhum alarme visível. Nenhuma armadilha, ao menos nas redondezas.

Perfeito.” murmurou, e desapareceu de volta entre as árvores para reportar.

Quando Dahaka retornou, os olhos estreitaram ao ver Mor’Rein já desenhando símbolos complexos na neve e na pedra congelada, seus dedos impregnando runas com um brilho azul pálido.

Um círculo. Preciso. Antigo.

Dahaka o conhecia. Sua mãe estudara tais padrões. Seu irmão os rabiscava à noite quando pensava que ninguém via.

Um círculo de invocação.

“...O que ele está fazendo?” Dahaka murmurou, sem tirar os olhos do elfo.

Ludus, ao lado dele, terminava de prender a última fivela de seu colete teatral. Olhou o círculo, depois para Mor’Rein, e por fim para Dahaka, como se fosse óbvio:

Ah, isso? Ritual antigo. Um clássico! Tá invocando um velho amigo de família que provavelmente come cérebros e sussurra poesia invertida no ouvido de bebês.

Dahaka ficou em silêncio, apenas franziu o cenho.

“...É sério?

Ludus deu de ombros.

Provavelmente. Ou vai sair um coelho com espada da fumaça. Nunca dá pra saber com o Mor’Rein.”
Lembra da última coisa que ele invocou?” 

Ludus aponta para o familiar aberrante de Mor'Rein.

E ali estava ele. Parado, imóvel como um presságio que se recusa a ser lido, o familiar de Mor’Rein observava.

À primeira vista, poderia ser confundido com uma mancha de escuridão — um borrão onde a lógica falha e a realidade hesita. Mas, ao encará-lo por tempo demais, a mente traía o olhar: seus mil olhos amorfos se deslocavam com lentidão faminta pela superfície do corpo, escorregando de um lado para o outro como bolhas presas sob a pele de um pesadelo. Não havia simetria. Não havia direção. Apenas um caos consciente que fitava tudo.

Tentáculos negros e leitosos saíam de seu centro, ondulando no ar com uma leveza grotesca, como se movessem contra a vontade da gravidade — ou pior, contra a vontade dos deuses. Cada movimento era quebrado, como um quadro de pintura refeito a cada segundo por mãos trêmulas e estrangeiras. Um deles tocava suavemente o ombro de Mor’Rein, em gesto que só poderia ser descrito como... afeto.

Apesar de sua presença abominável, o familiar sempre estivera ali. Durante as batalhas, durante os descansos ao redor da fogueira, nas incursões por vilarejos arruinados e fortalezas corrompidas. Como uma sombra que não segue a luz, mas o pensamento. Nunca falava. Raramente se movia. Às vezes, um dos heróis sentia algo o observando, apenas para virar o rosto e ver aquele amontoado de escuridão imóvel, em silêncio absoluto.

Era fácil esquecê-lo. Talvez por autopreservação. Talvez por uma falha inconsciente da mente tentando proteger a sanidade. Mas ele sempre estivera lá. Sempre.

Mor’Rein jamais esqueceu.

Dahaka passou a mão pelo rosto. “Vocês todos são loucos.

Questione os métodos, mas não os resultados.” Ludus sorriu como se fosse elogio.

Asher aproximou-se de Dahaka, seus passos cautelosos na neve, o manto ainda úmido do frio da estrada.

“E então?”

Dahaka não tirou os olhos da tubulação próxima à base da construção, ainda visível à meia-luz da noite.

“Encontrei uma entrada lateral. Uma antiga grade de ventilação, meio encoberta por mofo e raízes. Eu consigo entrar, mas não consegui ver muito lá dentro. As janelas estão todas vedadas, nenhuma fresta, nada.” Ele olhou para Asher. “Se há algo lá dentro... está muito bem escondido.”

Asher assentiu, o olhar firme.

“Certo. Mor’Rein irá conjurar uma distração. Algo que vá chamar toda a atenção possível. Impetor, eu e ele ficamos do lado de fora, preparados. Se algo sair do controle, contemos. Ludus vai usar um de seus truques e te deixar invisível.” Ele olhou de relance para o bardo, que já estava estalando os dedos e sorrindo. “Você entra pela tubulação, reconhece o terreno, vê o tamanho da encrenca e se puder... faz barulho lá dentro. Isso nos dá uma abertura.”

Dahaka assentiu, já puxando sua besta compacta e verificando os virotes.

Do outro lado da clareira coberta por neve, Mor’Rein ajoelhava-se no centro do círculo.

O sangue, escuro e espesso, já formava as runas do Selo do Abismo, pingando em pequenas trilhas sobre a neve gelada. O familiar, sempre à sombra de seu mestre, se contorcia em silêncio ao redor das bordas do círculo — seus olhos mil girando em sentidos diferentes, como se lessem realidades paralelas.

Mor’Rein estendeu a mão e proferiu palavras que não pareciam caber na língua comum: sílabas zumbindo como insetos, os sons se enrolando como serpentes em volta da garganta. Seu corpo vibrava levemente com a energia distorcida da magia.

Do tomo escurecido de Bathos Greymane, ele recitou o nome escrito nas margens com tinta esverdeada e cheiro de ferrugem: “Gugdronath.”

O chão tremeu. As chamas da tocha de Impetor vacilaram.

Gugdronath.
Das fendas do círculo recém-traçado por Mor’Rein, a realidade pareceu rasgar como couro ressecado. Um calor pútrido subiu da terra, acompanhado de um fedor azedo de enxofre e carne queimada. O mundo gemeu em protesto — não em som, mas em pressão, como se o próprio ar tentasse escapar.

E então, ele surgiu.

Gugdronath.

Primeiro, vieram as garras — seis dedos longos e em espiral, cada um com unhas curvas e negras como obsidiana, arranhando o limite do círculo com fome insaciável. Depois os membros, longos como os de um orangotango deformado, cobertos de pelos emaranhados, manchados de sangue seco, e pulsando com uma força bruta animalesca. Seu corpo parecia esmagado e forjado ao mesmo tempo, com ombros largos demais para qualquer criatura do mundo natural, e pernas curtas, arqueadas como de um predador curvado à espreita.

A pele onde os pelos rareavam era cinza-azulada, marcada por veias roxas que brilhavam com energia abissal — viva, mas errada.

Seu rosto, quando emergiu completamente, era o retrato da ruína de um símio: mandíbula baixa, bochechas pendentes, olhos vermelhos, lacrimejantes e furiosos, e presas tortas que atravessavam a carne das próprias bochechas. Quando rugiu, as presas reluziam com saliva, e seu hálito exalava um vapor esverdeado que fazia a neve próxima derreter como cera ao fogo.

Cambaleava em quatro patas, como se as leis da física o irritassem, mas a cada batida contra o chão, o solo tremia. Quando seus olhos — dois orbes incandescentes de puro ódio — encontraram os guardas à frente, algo quase primitivo e cruel acendeu em sua expressão: alegria.

Como um predador que lembra do gosto da caça.

A criatura soltou um rugido cavernoso, que fez os todos tremerem.

Mor’Rein não hesitou.

Gugdronath! Vá até os guardas. Ataque. Rasgue. Faça barulho.

O barlgura avançou com um pulo desumano, os pelos já escurecendo para um tom avermelhado, reflexo de sua fúria. A criatura vibrava no ar como um raio encarnado, e seu peso de quase trezentos quilos caiu sobre um dos homens com o som de ossos partindo e carne cedendo.

A neve se tingiu de vermelho. E o silêncio da noite morreu naquele instante.

Mor’Rein, flutuando acima do círculo em sua vassoura, observava com os olhos cerrados, os dedos ainda estendidos em direção ao abismo.

Impetor girou sua clave negra, tomando posição ao lado de Asher.

Ludus estalou os dedos no ombro de Dahaka.

“Agora é contigo chifrudo.”

Dahaka sumiu como fumaça.

O plano estava em movimento.

E o caos começou.

O Balgura rugiu. Uma tempestade de carne, fúria e dentes.

O primeiro guarda — o meio-orc doente — mal teve tempo de erguer a clava antes que Gugdronath o despedaçasse com um único golpe, lançando seu corpo contra uma colmeia fossilizada, que explodiu em uma chuva de mel ressecado e ferrões secos. O segundo, com barba ruiva, tentou fugir, mas o demônio o agarrou pelas costas, erguendo-o do chão como um brinquedo de pano, e o partiu no meio com as mãos nuas. O som era molhado, e o fedor pior.

Do galpão improvisado, mais guardas surgiram, armados com bestas, espadas e uma urgência desesperada. Alguns ainda enfaixavam feridas, cambaleando com má postura e olhos fundos de febre — vítimas sobreviventes da incursão no Forte Harpista, ainda tentando recuperar forças.

Do alto, Mor’Rein girava lentamente sobre sua vassoura, mantendo o braço estendido, recitando sílabas guturais e distorcidas. Seu corpo inteiro pulsava com energia mística, a runa do círculo brilhando intensamente como se estivesse viva.

“Fique sob o selo. Mantenha o selo. Guie a fome. Não seja engolido por ela...” — ele sussurrava para si mesmo, os olhos fixos na criatura.

Abaixo, Impetor girava sua clave negra com um silvo baixo no ar, lançando olhares alternados entre o demônio e os inimigos.

“Isso aí tá do nosso lado... né?” ele perguntou, sem desviar os olhos.

“Tecnicamente... sim,” respondeu Asher, já com a espada desembainhada. 

Dentro da mansão, Dahaka movia-se como um sussurro invisível, graças ao feitiço de Ludus. Seus passos eram leves, olhos treinados captando cada ângulo de ataque, cada corredor.

Ali, os Mozorov eram em maior número do que imaginavam: quinze homens armados. Alguns sentados, outros cuidando de ferimentos. Um homem vomitava em um balde escuro ao fundo. Outros afiavam espadas ou recarregavam bestas. Não estavam prontos para um combate real... mas não estavam incapacitados.

Um combate frontal seria suicídio.

Dahaka se esgueirou por trás de uma velha máquina de centrifugação de mel, coberta de poeira e folhas. A estrutura da antiga casa de mel ainda mantinha seus elementos: prateleiras com tonéis de barro, galões de cerâmica rachada, potes cristalizados de mel ressecado.

Foi então que viu algo que chamou sua atenção.

Um barril grande, isolado num canto. Pintado com um símbolo esmaecido — um gole de vinho e uma chama, o brasão de óleo de apiário fermentado: um composto feito da fervura de cera de abelha e resina alcoólica das plantas de favo, usado em lanternas industriais e bombas de fumaça apicultoras. Extremamente inflamável.

Dahaka sorriu.

Com um movimento silencioso, puxou a pequena caixa de fósforos de seu compartimento de couro, protegida do frio pela dobra interna de sua roupa. Observou os soldados de longe, respirando fundo, avaliando vento, distância, e saída.

Se tivesse sorte, isso causaria a distração necessária para que os outros invadissem.

Ou causaria um inferno.

E, naquele momento, ele não via muita diferença entre as duas coisas.

Lá fora, Gugdronath rugia e arrancava uma porta do galpão, lançando-a por sobre a cabeaça como se fosse papel. A estrutura da velha casa de mel tremia com os impactos do combate.

Ludus, encolhido perto da carruagem, ajustava a maquiagem do lado esquerdo do rosto, cochichando:

“Se isso aqui acabar com todos virando geleia... pelo menos morro estiloso.”

Asher olhava para a entrada do galpão, esperando o sinal de Dahaka.

Mor’Rein, agora com a respiração irregular, gritava entre palavras abissais:

“Gugdronath, destrua os invasores. Mas não ultrapasse os portões!”

E o demônio ria. Um som gutural, terrível, ancestral. Como se zombasse da ideia de limites.

As brasas da caixa de fósforos tilintavam entre os dedos de Dahaka.

O momento estava chegando.

E a Colmeia logo queimaria.

Dahaka riscou o fósforo.

A brisa da noite lutou contra a chama, mas ele soube protegê-la com a palma em concha. Com um movimento seco empurrou o barril, jogou o pequeno bastão incandescente na trilha de óleo feita pelo tonel rachado.

O óleo fermentado de apiário pegou fogo de imediato. E o barril rolou de maneira vagarosa até os pés dos homens afiando suas armas.

As chamas correram como serpentes famintas pelas tramas da antiga madeira da colmeia central. O calor explodiu em um bafo repentino, abafado, e então—

KRAAAAACH!

Uma explosão abafada reverberou pelas colinas cobertas de neve. O telhado da mansão apicultora se ergueu por um breve segundo antes de se despedaçar, enviando estilhaços de barro, mel endurecido e madeira queimada em todas as direções. Luz e fogo dançavam atrás das janelas antes opacas.

Do lado de fora, Asher e Impetor trocaram um olhar.

“Acho que esse é o sinal,” disse Impetor, girando sua clave em punho.

“É o mais próximo de sutileza que esse grupo vai conseguir,” respondeu Asher com um leve tom de entusiasmo, e avançaram.

Lá dentro: o caos.

A explosão havia derrubado vigas e colunas, abrindo buracos no teto e espalhando chamas pelos cantos. A casa de mel tremia sob o peso do próprio colapso. Guardas cambaleavam, tossindo entre a fumaça, alguns com o corpo parcialmente em chamas, tentando alcançar armas jogadas no chão. A maioria estava ensanguentada, desorientada, fraturada.

E no centro disso tudo… Gugdronath.

O barlgura rugia de puro prazer, erguendo dois soldados pelos tornozelos e os colidindo um contra o outro com força suficiente para esmagar seus crânios em uma explosão rubra de osso e massa cinzenta. Ele ria com um som que parecia metal dobrando sob a pressão de um pesadelo. Seu corpo escurecia e pulsava com ódio.

Dahaka surgia das sombras, a adaga já ensanguentada na mão. Cada inimigo distraído era abatido com eficiência brutal — golpes silenciosos, certeiros, atrás do joelho, na base do crânio, sob a clavícula. Ele se movia como a própria sombra da vingança.

E então — Ludus atravessou a porta com uma cambalhota barulhenta, gritando algo como “Entrada triunfal!” antes de lançar sua adaga ritualística em um arco teatral.

A lâmina girou com precisão, cravando-se bem no centro da testa de um agente dos Mozorov desatento. O guarda deu um passo, dois, e caiu como uma marionete com as cordas cortadas.

O sangue escorreu. A lâmina brilhou. E a voz de Sebastian Debast ecoou:

Novamente desperto e saciado por sangue, quem alimentou esse humilde servo das trev—

A lâmina, envolta em um brilho vermelho, desapareceu em um feixe de energia e reapareceu na mão de Ludus.

Houve uma pausa. Um silêncio gélido.

“...Oh não. Ainda é você.”

“Fala, Bestie!” Ludus disse com um sorriso debochado. “Desculpa não te alimentar com mais frequência. Temos papo pra botar em dia, né? Você não vai acreditar o inferno que eu passei!”

Preferiria retornar ao vazio, mas cá estou, novamente preso à comédia trágica de tua existência...” suspirou Sebastian, cheio de lirismo, frustração e resignação arcana.

Mor’Rein entrou logo atrás, ainda flutuando na vassoura. Seus olhos estavam brilhando de concentração, a mão estendida, a voz abafada pela fumaça enquanto mantinha o selo ativo. Cada batida do coração do elfo parecia ecoar com energia planar, como se a própria realidade estivesse sendo costurada por suas palavras.

Asher combatia com precisão marcial, abrindo caminho entre os sobreviventes desorganizados, coordenando os aliados com um gesto, um grito, uma postura.

Impetor, por outro lado, era o trovão. Sua clave negra girava como a lâmina de um moinho, partindo ossos e esmagando escudos. Um Mozorov tentou levantar uma lança — e foi arremessado contra a parede com um golpe tão violento que rachou os tijolos.

A batalha durou apenas segundos. Mas foram longos, sangrentos e definitivos.

Quando o último guarda tombou, arfando com olhos vidrados, Mor’Rein baixou lentamente até o chão. Ele estalou os dedos, liberando a concentração com um sopro exausto.

Gugdronath parou. Por um segundo, pareceu querer resistir. Olhou para o círculo, para Mor’Rein, para os corpos ao redor. Um chiado gutural escapou de sua garganta.

E então, colapsou.

Seu corpo derreteu como se fosse feito de carne não-curada, escorrendo em lodo vermelho escuro, fervente, que sibilava contra o chão de pedra.

Em segundos, não restava nada, a não ser o cheiro de enxofre, e a sensação persistente de que algo horrível havia estado ali... e talvez ainda observasse.

Silêncio.

O interior da mansão estava destruído. As colmeias apodrecidas derretiam, os barris explodidos ferviam lentamente. O fogo ainda rugia em algumas vigas do teto, mas parecia controlável.

E os heróis… estavam de pé.

Cobertos de sangue, suor e mel.

Mas de pé.

A primeira vitória da noite.

E os segredos dos Mozorov… estavam perto de serem descobertos.

O silêncio pós-combate tinha um gosto metálico.

Com os corpos ainda mornos espalhados pelo salão devastado da antiga mansão apicultora, Dahaka já estava em movimento. Nenhuma palavra foi dita — apenas a precisão fria de um profissional. Ele arrastava corpos para os cantos, verificando pulsos, recolhendo anéis, armas de qualidade, qualquer coisa que pudesse ser útil ou comprometedora.

Seu capuz agora estava encharcado de sangue, mas os olhos seguiam atentos. Sem pressa, mas sem desperdício.

No centro da sala, o chão ainda fumegava onde Gugdronath havia se desfeito.

Do lado de fora, Mor’Rein cambaleava.

Seu estômago se revirava. O ar parecia errado, como se os ventos noturnos tivessem sussurrado palavras que seus ouvidos não estavam preparados para ouvir.

O familiar — aquela aberração espreitante com seus mil olhos líquidos e tentáculos trêmulos — se agitava em círculos, em torno do elfo, como se tentasse empurrá-lo para longe de algo invisível.

Mor’Rein caiu de joelhos na neve, e vomitou. Mas não era bile. Era negro. Espesso. Borbulhante.

O líquido fervilhava no chão, formando bolhas que estouravam sibilando, liberando sussurros desconexos, como línguas sobrepostas, como um coral de mentes esquizofrênicas:

“A Dourada caiu… Cercados por sua própria arrogância... Cegos pelo orgulho... O silêncio das escamas…”

Mor’Rein arregalou os olhos. Tentou focar os sentidos, mas as palavras escorriam como tinta pela mente.

Foi então que uma mão firme pousou em seu ombro.

“Está tudo bem?”  era Asher, com o semblante preocupado, mas com o cuidado típico de quem já viu coisas demais para julgar com rapidez.

Mor’Rein limpou a boca, forçando um sorriso tênue, breve demais para ser crível.

“Só… magia residual. A invocação cobra um preço.”

“Entendo.”  Asher assentiu, mesmo sem entender. “Vamos. Ainda temos coisas a descobrir.”

Mor’Rein lançou um último olhar ao líquido negro que já congelava na neve, como se tentasse decifrar as formas em sua superfície. Mas deu meia-volta, e entrou na casa.

Em outro canto da mansão, Ludus estava sentado sobre o balcão semi-destruído, com a adaga em mãos, girando-a entre os dedos.

“...e aí eu caio direto no pescoço da besta, com a Hidra babando lava atrás de mim, e grito: ‘ALGUÉM PEDIU PETISCO?’”  ele dá um tapa na perna, rindo.

Sebastian Debast, preso à lâmina, soltou um lamento arcano carregado de pesar:

Pelo amor dos nove infernos… suplico-te, palhaço maldito, silencia tua língua infame! Os condenados e pecadores descansam melhor que meus ouvidos em tua companhia…

Ludus sorriu, girando a adaga de volta à bainha com um floreio:

“Ah, ah, presta atenção, Bestie. Você não vai querer perder o final da piada… Tem uma reviravolta.”

Sebastian suspirou como uma tumba abrindo.

Impetor, encostado em uma parede meio destruída, olhava fixamente para uma janela estilhaçada.

O que viu, ninguém mais viu.

Lá fora, além da linha da neve e do céu escuro... um brilho rubro surgiu nas nuvens. As cinco sombras se formaram — as cabeças da deusa — cada uma encarando-o com olhos ardentes de julgamento.

A voz veio como um trovão dentro do crânio:

"O Sangue foi derramado. Mas não o suficiente."
"Promessa feita, promessa cobrada."
"As chamas do tributo não podem se apagar."

Impetor piscou. A visão se foi.

E nesse momento, viu Mor’Rein e Asher retornando. O elfo ainda parecia pálido.

“Ei, orelhudo,” chamou Impetor, gesticulando para que Mor’Rein o acompanhasse num canto mais escuro.

Mor’Rein o seguiu, desconfiado.

“Você entende sobre essas... forças aí. De outro mundo. Não é?”

“Eu… posso dizer que tenho certa experiência teórica.”  respondeu com olhos semicerrados.

“E como se presta homenagem a elas? Tipo… tem um jeito? Um símbolo? Um templo? Estátua? Sei lá... um ritual?”

Mor’Rein hesitou. Seus dedos tensionaram ao redor da vassoura.

“Está… tentando fazer contato com o um ser extraplanar?”

Impetor bufou.

“Não.  Só to curioso. Se alguém tivesse tentando... pagar uma dívida. Com alguém muito maior. Alguém... poderoso.”

O silêncio entre os dois durou apenas um segundo, mas foi denso como chumbo.

Mor’Rein assentiu devagar.

“Divindades... gostam de símbolos. Estátuas, joias, sacrifícios. Itens com significado, sabe? Ou lugares. Onde o poder flui. Um altar, mesmo que improvisado. Quanto mais intenção, mais força.”
— “Às vezes, um ato feito em nome deles já é suficiente para... manter o vínculo. Temporariamente.”

Impetor cruzou os braços, processando.

 “Entendi.”

“Só... cuidado com o que você promete,” completou Mor’Rein. “Porque elas sempre cobram.”

No andar acima, Dahaka finalmente encontrou o que procurava.

Atrás de uma tapeçaria antiga — uma com abelhas bordadas em dourado — havia um pequeno compartimento. Um baú trancado, simples, mas de madeira boa.

Ele sorriu.

A fechadura cedeu com dois toques hábeis de suas ferramentas.

Lá dentro: Uma algibeira de couro repleta de ouro e prata, bastante para manter um pequeno exército por algumas semanas. Cartas. Bem cuidadas. Seladas com o símbolo negro dos Zentharim: uma serpente enrolada em uma adaga. 

Dahaka arregalou os olhos e soltou um assovio curto.

“Bingo.”  murmurou para si.

E então, chamou os outros.

O fogo crepitava nas vigas ainda fumegantes da antiga casa de mel, lançando sombras trêmulas pelas paredes estilhaçadas. O cheiro de enxofre ainda pairava no ar como um eco do horror que Gugdronath deixara atrás de si. Em meio ao calor residual e aos corpos estirados no chão, os heróis se reuniram.

Dahaka, os olhos atentos e mãos hábeis, puxou as cartas do baú recém-aberto. Ainda havia cinzas em seus ombros, e o suor misturado à fuligem riscava sua pele com trilhas escuras. Com um gesto prático, alisou o primeiro pergaminho e o ergueu à luz morna da tocha de Asher.

"Vamos ver o que temos aqui…" murmurou, antes de começar a ler em voz alta.

“Yvan Mozorov escreve: Parte do destacamento está retornando para o acampamento central em Águas Profundas com os documentos dos Harpistas. Próximo ao Distrito das docas. Quando a poeira baixar, vocês devem retornar.”

Impetor, que até então apoiava o corpo massivo contra o que restava de uma parede interna, socou os tijolos com o punho cerrado, fazendo cair uma pequena chuva de poeira e fragmentos.

"Chegamos tarde. Essa carta é de uma cavalgada atrás. Eles estão a dez dias de viagem à nossa frente" rosnou, com um tom de frustração contida.

"Tem outra aqui" continuou Dahaka, já abrindo o segundo pergaminho. — "Mais recente, datada de dois dias atrás. Fala sobre um encontro marcado nas planícies de Goldenfields, para daqui a uma cavalgada. Algo sobre um 'rio de aranhas' e…"

Ele parou. Os olhos percorreram a carta uma vez. Depois outra. Suas sobrancelhas se franziram, os lábios se apertaram. Era como se algo que não devia estar ali estivesse tentando se esconder entre as linhas.

"Espera… isso está codificado. Gíria de ladino. Preciso reler para ter certeza."

Ludus, empoleirado sobre um barril semi-destruído, balançava as pernas e girava a adaga entre os dedos. Olhou para o companheiro com um sorriso insinuante.

"O que foi, Dahaka? Parece que viu um fantasma."

"Não qualquer fantasma" respondeu o tiefling, com a voz mais baixa e carregada. "Se minha tradução estiver correta, esta parte contém instruções do próprio Pereghost."

Asher, que observava as janelas partidas e mantinha uma postura vigilante, virou-se para ele, intrigado.

"E quem é Pereghost?"

Dahaka dobrou a carta devagar, como quem segura uma peça de porcelana antiga.

"Uma figura lendária dentro dos Zhentarim. Um comandante enigmático que surgiu do nada faz alguma décadas, oferecendo seus serviços à Rede Negra. Nunca revelou seu nome verdadeiro e sempre usou uma armadura branca que o fazia parecer um morto-vivo. Em poucos anos, assumiu o comando do exército de Darkhold, promovendo soldados por mérito, não por intrigas. Agora que eles estão em época de crise, e os Zhentarim enfrentaram grandes desafios, Pereghost emergiu como líder, transformando a organização de uma força conquistadora em um exército mercenário disciplinado."

Impetor estreitou os olhos.

"E o que ele quer em Goldenfields?"

"Ele está instruindo os Mozorov a assegurarem um terreno recém-adquirido em Goldenfields"  respondeu Dahaka, a voz agora marcada por um tom mais grave "garantindo a segurança do local."

Mor’Rein, ainda calado, pairava próximo a uma das colunas quebradas, os olhos fixos nas próprias mãos, onde vestígios da invocação anterior ainda vibravam em ecos invisíveis.

"Mais alguma coisa nessas cartas?" perguntou o elfo, sem tirar os olhos das runas que teimavam em piscar sob sua pele.

Dahaka assentiu e pegou a última folha do conjunto. Era diferente — papel mais fino, bordas rasgadas, caligrafia mais desleixada, como se escrita às pressas.

"Sim… uma última" murmurou, e começou a ler em voz alta, palavra por palavra, a cada linha com mais lentidão, como se tivesse receio do que ia encontrar no fim.

“A garota… apresenta sinais claros… de contaminação.
Os sintomas… são instáveis. E crescentes.
Ainda não sabemos… até que ponto… ela contraiu isso.”

“Não compreendo… o interesse persistente… de Darsha nesse caso.
Ela sempre esteve… próxima demais de Benthor.
Uma espécie de… 'fada madrinha'… distorcida.”

Ele fez uma pausa. O papel tremia levemente em sua mão.

“Mas o que ela ganhava com isso…?
A ligação… entre elas… não é natural.”

Dahaka passou o polegar pelo final da carta, e balançou a cabeça.

"Não há remetente… nem destinatário. E termina aqui. Como se alguém tivesse parado de escrever no meio da frase."

O silêncio que se seguiu era espesso como breu. Cada palavra lida pendia no ar como um presságio não decifrado.

O silêncio que caiu entre eles era denso como a fumaça que ainda serpentava pelo ar.

Asher cruzou os braços. Seu olhar era sério, mas calmo — uma pedra moldada pela água do tempo.

"Isso complica as coisas. Precisamos retornar a Horusk e deliberar sobre nossos próximos passos."

Ninguém discordou. Cada um sabia que o jogo agora mudara. Os dados estavam lançados, mas o tabuleiro… ainda guardava peças ocultas.

Eles partiram em silêncio, com o calor das brasas às costas — e o frio das revelações à frente.

O retorno à base dos Harpistas foi mais rápido que a ida. A noite parecia abrir caminho para os Heróis, e mesmo os ventos das Stormhorns sopravam de forma mais branda — como se o próprio destino, inquieto com os desdobramentos, urgisse por pressa. Na carruagem silenciosa, ainda marcada pelas cinzas do combate, os companheiros deliberavam os eventos recentes.

"Um acampamento em Águas Profundas..." murmurou Asher, os olhos fixos na estrada escura à frente. "Distantes e com documentos dos Harpistas nas mãos deles."

"E instruções do próprio Pereghost." acrescentou Dahaka, braços cruzados, a mente ainda repassando as cifras da carta. "Isso muda o jogo."

Ludus estalava os dedos sobre a adaga, que resmungava com frases abafadas. "É clima de reviravolta… falta só a trilha sonora."

Impetor resmungou baixo. "Ainda não confio em carta nenhuma. Se quiserem respostas, devíamos ir atrás de Benthor. Ou pelo menos arrancar umas verdades de quem serve a ele."

Mor’Rein permanecia calado, o olhar perdido além da janela, como se ainda ouvisse ecos de vozes que ninguém mais podia escutar.

Na sala de reuniões, o calor da lareira contrastava com o vento gelado que soprava pelas frestas das janelas fechadas. O velho mapa de Cormyr continuava sobre a mesa, agora marcado com mais sangue seco, novas anotações e memórias recentes.

Horusk, já sentado sobre a almofada de seu assento elevado, ajustava os óculos sobre o nariz e ouvia em silêncio, absorvendo cada detalhe do relato. Quando os Heróis terminaram, o velho gnomo soltou um longo suspiro e cruzou os dedos sobre o queixo.

"Vocês superaram minhas expectativas." disse ele, enfim. "As informações que reuniram são valiosas... mais do que imaginam. Se for verdade que o próprio Pereghost está envolvido, e se os Mozorov já estão a caminho com os documentos... então não temos muito tempo."

"Precisamos chegar em Águas Profundas antes deles."  afirmou Asher, direto. "Um portal novamente? Eu conheço alguns locaias na cidade..."

Horusk franziu o cenho.

"Um portal pode ser eficaz, sim. Mas agora... perigoso. A Rede Negra está monitorando cada pulsação de magia planar em Faerûn. Se um grupo como vocês cruzar um portal em pleno coração de Cormyr, os Zhentarim saberão. E antes que ponham os pés nas muralhas das docas de Águas Profundas, estarão cercados."

"E qual é a alternativa, gnomo?" perguntou Impetor, impaciente. "Vamos correr até lá?"

Horusk sorriu com um brilho enigmático nos olhos.

"Eu já vinha sondando um transporte... alternativo. Um velho contato meu. Pela manhã, vocês devem ir até as planícies ao norte das Stormhorns. Lá encontrarão um aliado de confiança. Um meio-goblin chamado Trikin."

Dahaka arqueou uma sobrancelha.

"E como saberemos que é ele?"

Horusk ajustou os óculos mais uma vez, sem conter um sorriso.

"Acreditem em mim... vocês vão saber quando o virem. E de qualquer modo ele já espera por vocês..."

Ludus murmurou algo como “isso soa ameaçador”, mas foi ignorado.

"E quanto a você, Horusk?" perguntou Mor’Rein, finalmente se manifestando. "Vai nos encontrar em Águas Profundas?"

O gnomo assentiu, já se levantando com dificuldade da poltrona.

"Sim. Preciso remanejar os sobreviventes para o Distrito Harpista. Está base foi comprometida, e se os documentos forem usados contra nós... bem, tenho que avisar os outros líderes da cédula. Vocês me encontrarão no bairro dos Jardins Dourados, na sede. Procurem pela casa de lanternas brancas. Eu estarei lá."

Os Heróis assentiram, e por um breve momento, um silêncio respeitoso caiu sobre o grupo.

Uma nova viagem os aguardava.

E a corrida contra a Rede Negra havia começado.

Naquela noite, o sono chegou aos poucos — como se o próprio mundo hesitasse em permitir descanso aos que carregavam o peso dos segredos recém-descobertos. Mas mesmo os vigilantes caem, e um por um, os Heróis foram se recolhendo aos quartos improvisados da antiga Casa Greymane.

No silêncio que sucedeu a última lareira se apagando, a mansão retornou à sua velhice solene. As pedras nas paredes contavam histórias em sua quietude, e os quadros, iluminados apenas pela luz fria da lua, observavam os corredores vazios com olhos pintados por eras que Asher conhecia de cor.

Ele caminhou sozinho pelo salão ancestral, os passos leves ecoando sobre o mármore. Passou diante do retrato de Ithilien Greymane, o pacificador de Arabel. Depois, o de Sor Amman Greymane, cavaleiro de outrora. Rostos altivos, solenemente eternos. E, por fim, o do dono daquela fortaleza, Bathos Greymane, esmaecido pela umidade do tempo, mas ainda com aquele olhar — severo, orgulhoso, que parecia pesar sobre seus ombros mais do que qualquer armadura.

Asher parou, por um instante apenas. Assentiu.

Então se virou. E partiu.

Ao raiar do dia, o velho gnomo já havia partido, voando ao longe com os últimos cavaleiros de grifo. O brasão dos Harpistas agora era apenas um estandarte solitário balançando ao vento, pendendo da sacada da mansão em silêncio — como se saudasse, pela última vez, os que ali tinham se abrigado.

Os Heróis prepararam a carruagem. Não havia mais cocheiro, nem cavaleiros à frente. Dessa vez, guiavam por si mesmos.

O caminho até as colinas ao norte das Stormhorns era coberto por geada, e o ar que entrava pelas frestas do carro se tornava mais cortante a cada milha. Mas eles resistiam. O frio agora parecia parte da paisagem de suas vidas — inevitável, persistente, mas não invencível.

Chegaram ao ponto indicado por Horusk perto do meio-dia, quando o sol apenas dourava as nuvens baixas, e a neblina bailava preguiçosa sobre as colinas brancas. Procuraram entre os montes cobertos por relva seca, até que algo no horizonte os fez parar.

"É... aquilo é uma casa?" murmurou Ludus, franzindo os olhos.

"Uma bem... peculiar." respondeu Impetor, já ajustando a empunhadura da arma.

Mas à medida que se aproximavam, o que parecia ser uma casa revelou algo além da compreensão de qualquer um deles.

No alto de uma colina, aninhado entre cabos de ferro e estruturas metálicas retorcidas, repousava um colosso de madeira reforçada, lona selada e grandes cúpulas esféricas presas ao teto por arames grossos — balões de couro envelhecido, costurados com primor, que se agitavam mesmo sem vento.

Era como um navio dos céus que tivesse se apaixonado pela terra e se deitasse ali, exausto, em frente a um casebre de engenhocas fumegantes. Canos se entrelaçavam nas paredes. Rodas giravam sem serem tocadas. E uma pequena chaminé soprava vapor em assobios intermitentes.

Uma visão que contrastava ferozmente com a serenidade natural das Stormhorns.

Trebillon Trikin.
Lá em cima, sobre uma sacada de madeira pendente do casebre, um pequeno ser de pele esverdeada e olhos espertos observava-os com uma luneta giratória. Ele ajustou a lente, abaixou o instrumento e acenou com entusiasmo, como se esperasse um reencontro.

"Ei! São vocês, né?!" gritou, com uma voz arrastada, o meio-goblin.

"Acho que encontramos o Trikin..." comentou Mor’Rein, ainda de olhos arregalados.

Chegaram ao topo e foram recebidos pelo pequeno engenheiro, que desceu uma escada rangente com passos leves e uma expressão satisfeita. Seus poucos cabelos consistiam em uma confusão de fios grisalhos. As roupas, todas remendadas, carregavam o cheiro de graxa e pólvora suave.

"Bom dia!" disse ele, com um sorriso e um aceno lento. "Trikin, ao seu dispor. Não esperava que fossem tantos. Nem tão... altos. Mas tudo bem, posso recalibrar o balancete."

Asher foi o primeiro a falar:

"Prazer Senhor Trikin. Perdoe-me perguntar mas... O que exatamente é... isso?" apontando para o veículo colosso atrás da casa.

Trikin virou-se para olhar sua obra, como se a estivesse vendo pela primeira vez — e depois suspirou, apaixonado.

"Uma das maravilhas mecânicas patrocinadas pelos Lordes da Aliança. Bom... teoricamente patrocinado." fez um gesto com a mão. "Digamos que alguns recursos vieram de onde não deveriam estar... cofres de oligarcas, sabe? Mas não vamos nos deter nesses detalhes técnicos."

Mor’Rein inclinou a cabeça, curioso:

"E como se chama?"

Trikin sorriu. Abaixou o chapéu de soldador sobre os olhos, ergueu os braços e, como um pai apresentando seu primogênito ao mundo, respondeu:

"Eu chamo de... Suzie."

Os Heróis se entreolharam.

Houve um breve silêncio.

"Suzie? " repetiu Dahaka, com um arquejo contido.

"É." disse Trikin, saboreando cada sílaba. "Suuuu-zieee..."

Impetor coçou o queixo, como se esperasse que aquilo fosse algum acrônimo sinistro.

Ludus deu dois passos pra frente e cochichou:

"Só eu estava esperando algo como: “Dragão de Vapor do Apocalipse” ou “Nuvem Mecânica Matadora”? "

Mor’Rein apenas cruzou os braços, os olhos semicerrados. 

E diante daquela geringonça absurda, maravilhosa, incompreensível, os Heróis perceberam que a próxima etapa da jornada... seria, no mínimo, inesquecível.



EPISÓDIO 20 - ENCONTRO MARCADO

Data:  19 de Nightal, 1372 CV - 12:30
Local: Sobrevoando a Cordilheira Stormhorns.

O zepelim rangia como uma besta cansada enquanto cortava o céu cinzento sobre os últimos rochedos dos Stormhorns. Suzie, o balão e sua sombra mecânica, arfava contra o vento como se respirasse por conta própria. Lá embaixo, o mundo se desdobrava em mosaicos gelados — vales rígidos, colinas coroando a neve e prados pálidos que, nas sombras da névoa invernal, pareciam feridas abertas no tecido da terra.

Partiram ao meio-dia e meio. Em questão de horas, o frio já os mordia até os ossos. O ar tinha gosto metálico — um hálito de ferro que se infiltrava nas roupas, que secava os lábios e transformava cada respiração num ato de resistência. O inverno não se anunciava: ele se insinuava. Um punho gelado, lento, cerrando-se na garganta de quem ousava cruzar o céu.

A Suzie avançava como um navio sobre um mar invisível. As chamas dentro das caldeiras lançavam reflexos laranjas nas faces tensas dos heróis. A cada milha vencida, a temperatura caía um pouco mais; o ar rarefeito fazia os cabos gemerem, e as grandes bolsas de couro se contraíam como pulmões fatigados. A primeira hora foi de completo silêncio — apenas o som do metal rangendo e o assobio do vento cortando as velas. No convés, ninguém ousava dormir profundamente. Era uma viagem rápida, mas não havia pressa que afastasse o pressentimento de que algo, lá embaixo, os observava.

Quando a noite desceu, o céu se tornou uma chapa escura de ferro. O fogo das caldeiras tremeluzia como um coração prestes a parar. E foi então que começaram a ver.
Nos vales ao norte, entre as sombras da neve e as curvas dos rios congelados, moviam-se colunas. Fileiras inteiras — soldados de carne cinzenta, olhos como carvões frios, marchando em silêncio sob estandartes de ossos. Por entre eles, cavalgando em bestas pálidas, figuras em mantos longos — generais vampiros, com lanças negras e semblantes de marfim. Cada vila que passavam parecia marcada por cicatrizes: celeiros incendiados, poços profanados, as sombras de muros que já não existiam.

De tempos em tempos, um clarão distante se erguia do solo — o último lampejo de uma fogueira de resistência, uma batalha perdida, uma oração interrompida.

Ludus olhou para o horizonte e depois para o companheiro ao lado. O meio-dragão prateado, sempre tão imponente em terra firme, agora se agarrava ao corrimão do convés como um gato em meio à enchente. Seus olhos reptilianos tremiam levemente enquanto o zepelim balançava ao sabor das correntes de ar.

"Ei, Impetor…" disse Ludus, com um meio sorriso. "Tá tudo bem aí, grandão?"

O gigante virou o rosto devagar, tentando manter a dignidade.
"Eu apenas... estou de guarda." A voz dele saiu grave, mas vacilante. "Observando o horizonte… para assegurar que nenhum inimigo se aproxime."

Ludus encostou o cotovelo no parapeito, estudando o guerreiro.
"Claro, claro. E esse “horizonte” que você tá observando… ele fica no chão da Suzie, é? Porque você não tira o olho de lá desde que subimos."

Impetor cerrou os dentes.
"Não fode! Eu nasci para o combate, não para..." o zepelim deu uma leve guinada, e ele travou as pernas "...essas engenhocas flutuantes amaldiçoadas."

"Ah, então é isso!" Ludus deu um passo à frente, rindo. "O grandioso Impetor, Terror das Arenas, Ragrinof… tem medo de altura!

Impetor inflou o peito, tentando mascarar o pânico com bravata.
"Medo? O único medo que conheço é o que meus inimigos sentem quando me veem!"Ele se apoiou ainda mais no corrimão, a cauda enrolando-se instintivamente no suporte. "Isto é apenas... prudência dracônica."

"Prudência dracônica..." Ludus repetiu, quase engasgando de tanto rir. "Certo, certo. Então me diga, ó prudente guerreiro, quantos dragões você já viu passando mal enquanto voam?"

Impetor o encarou com olhos faiscantes.
"Se você abrir essa boca mais uma vez, eu juro que vou te jogar daqui!"

"Ah, deixa disso e aproveita o show!" Ludus ergueu os braços, subindo sobre uma das caixas do convés. "O vento sopra, o céu treme, e o coração precisa de leveza!"

E antes que alguém pudesse impedi-lo, ele começou a cantar.

Verso 1
Mas que fantástico, Suzie nos leva,
Pelas nuvens, pro além do luar!
Se o vento ruge e o dragão se apequena,
É só sorrir, o medo vai voar!

Refrão
Somos heróis, pendurados no céu,
Com coragem feita de papel!
Ria, Impetor, segura esse fel,
O chão tá longe, mas o sonho é fiel!

Verso 2
Balão de fogo, chama de sorte,
Flutua o riso sobre a morte!
E se o frio gelar teu coração,
Canta comigo e segura o trovão!

Refrão final
Mas que fantástico, Suzie querida,
Nos leva ao fim, mas traz a vida!
Que o medo voe, que o riso invada,
Que o céu se curve à nossa risada!


O convés inteiro caiu em gargalhadas. Até Mor’Rein, sempre tão sereno, ergueu um canto de sobrancelha divertido.
Impetor, por sua vez, tentou não reagir, os músculos do maxilar tremendo entre raiva e vergonha. Mas ao fim do refrão, quando Ludus fez uma reverência exagerada, até ele não resistiu — soltou um grunhido que mais parecia um rugido disfarçado de riso.

O vento uivou. A Suzie avançava.
E, pela primeira vez em dias, o peso da guerra pareceu distante.

O segundo dia trouxe uma calmaria gélida. O vento diminuiu, e as nuvens começaram a abrir-se em retalhos. Debaixo deles, o mundo se estendia em tons de cinza e ferrugem: rios endurecidos pelo gelo, florestas despidas e vales que antes eram verdes, agora sepultados sob a neve.
Goldenfields começava a despontar no horizonte — um mosaico de fazendas e muralhas, outrora férteis, agora queimadas e tomadas por fumaça. O odor de feno e ferro queimado subia até o convés, misturando-se ao vapor das caldeiras.

O zepelim deslizava lentamente, como se hesitasse. Lá embaixo, grupos de mortos ainda marchavam entre os campos arruinados, e acampamentos da Rede Negra acendiam tochas que, vistas do alto, pareciam constelações invertidas — estrelas nascidas da terra, frias, ameaçadoras.

Quando o sol de fim de tarde rompeu as nuvens pela primeira vez, a tripulação silenciou. O mundo abaixo parecia uma cicatriz viva, latejando entre o branco da neve e o vermelho das chamas.
Dois dias apenas — mas pareciam semanas.

A Suzie desceu lentamente, envolta por véus de nuvem, até que o chão começou a se definir sob o casco de madeira: colinas manchadas de neve, bosques tortuosos e o rastro antigo de uma estrada coberta por gelo. O zepelim flutuou até tocar o solo com um gemido profundo.

Trikin — o meio-goblin de braços finos e olhos largos— saltou do convés com a leveza de quem carrega pressa demais para se despedir.
O vento bateu em seu sobretudo puído, fazendo o pequeno piloto parecer uma folha de pergaminho prestes a ser levada embora.

"É aqui", disse ele, com a voz rouca, olhando para o horizonte enevoado. "Uma hora a pé, seguindo o curso desse vale. Segundo ao que vocês me contaram, o acampamento deve ficar logo depois das ruínas do velho moinho."

Impetor farejou o ar, desconfiado.
"Cheiro de sangue velho e pólvora. Eles não estão brincando por aqui."

"Justamente por isso", continuou Trikin, coçando a nuca, "eu não vou ficar."
Ele apontou o polegar para a Suzie, já arfando impaciente atrás dele.
"Esse balão chama mais atenção que um anão bêbado num casamento de elfos. E, pra ser sincero, minha dívida com Horusk termina aqui. Levei vocês até o local combinado, como prometido. Agora, adeus e boa sorte."

Asher aproximou-se, o capote levantado contra o vento.
"Você fez mais do que devia, Trikin. A partir daqui, o resto é com a gente."

O meio-goblin assentiu, mas por um instante pareceu hesitar — seus olhos encontraram os de Asher com algo que misturava respeito e pena.
"Que a sorte ande ao lado de vocês."
E com um assobio curto, Trikin escalou de volta para o convés da Suzie.

O motor suspirou, as caldeiras despertaram, e o zepelim começou a subir novamente, sumindo aos poucos entre as nuvens frias do norte.
O silêncio que se seguiu pareceu mais pesado do que o som das hélices.

Asher observou até que o último ponto prateado desaparecesse no céu. Então se virou para os outros quatro.
"Estamos na Costa da Espada", disse, a voz baixa, mas firme. "Águas Profundas fica a algumas horas a oeste. As planícies de Goldenfields começam logo ali."

Mor’Rein estreitou os olhos para o horizonte enevoado.
"Então é aqui que tudo começou, não? O velho coração fértil do norte."

Asher assentiu lentamente. Um leve sopro de lembrança lhe cruzou o rosto.
Seu mentor, El-Khadim, o havia trazido até ali na infância. Recordava-se dos muros altos da abadia, do perfume doce dos pomares, e do som distante dos sinos que marcavam as colheitas.
Goldenfields — o Celeiro do Norte — era um milagre humano e divino. Uma abadia murada dedicada à deusa Chauntea, com casas compridas, celeiros, uma cervejaria lendária e campos que se estendiam além da vista.
Mas agora...
O que antes fora um oceano dourado de trigo e vinhas, tornara-se um campo de cinzas. O feno queimado, o odor ácido de sangue seco, e o canto distante de corvos substituíam o som dos sinos.

Asher respirou fundo.
"Meu mestre dizia que, em Goldenfields, cada semente guardava uma prece."
Ele passou a mão na neve, onde uma espiga chamuscada ainda emergia.
"Parece que ninguém mais está rezando por aqui."

Dahaka ajeitou a besta na cintura e quebrou o silêncio:
"E qual é o plano?"

O acampamento improvisado fora montado atrás de uma elevação de pedras — apenas o suficiente para esconder o brilho das tochas. Enquanto o vapor das respirações se misturava ao nevoeiro noturno, o grupo discutia o plano.

"As torres de vigia estão mais próximas do que eu lembrava", comentou Asher, ajoelhado sobre o mapa, traçando linhas no couro com uma adaga. "Se eles realmente tomaram essa área, não dá pra atacar sem saber o número exato de homens."

Impetor bufou, cruzando os braços. O ar gélido escapava de suas narinas como fumaça. "Ah, claro. Contar homens. Espionar. Ficar deitado na lama olhando esses guardas fazendo corpo morto. Que chatice, Asher. Me bota pra esmagar alguma coisa, e pronto."

Ludus, agachado próximo a uma pedra, deu uma risadinha curta.

Mor’Rein levantou o olhar. "Se a presença deles é mesmo forte aqui, entrar de cabeça é suicídio. Precisamos de olhos à frente."

Todos viraram-se para Dahaka, que observava o horizonte, imóvel, com os olhos brilhando sob a luz do luar. O Tiefling inspirou fundo, o vapor saindo de suas narinas em lufadas ritmadas. "Eu vou..."

Impetor bufou de novo.

Dahaka desapareceu entre as sombras do campo. O silêncio que se seguiu foi quase religioso. Só se ouvia o farfalhar do vento nas ervas secas e o estalar do fogo baixo. Passaram-se minutos longos, depois quase meia hora.

Yvan Mozorov.
Quando Dahaka finalmente se aproximou de uma pequena elevação, a visão que teve foi nítida e inquietante: dezenas de soldados mortos-vivos organizando trincheiras; estacas fincadas no solo congelado; e, no centro, um homem de armadura escura — viva, pulsante, como se feita de pelo e aço, seus cabelos loiros se emeranhavam com sua barba dorada e trançada. Dava ordens com gestos secos, e os soldados obedeciam sem hesitar. Ele falava com voz baixa, mas a autoridade era palpável.

Dahaka franziu o cenho. "Por que fortificar aqui?", pensou. "Um ponto morto, A costa da Espada já está completamente tomada pelos mortos."

Mas antes que pudesse se mover, um som metálico ecoou atrás dele. Um sussurro cortante. Quando se virou, viu o ar distorcendo-se — como uma miragem — e, do nada, uma forma humanoide das sombras, pulando de uma arvore. Não era um guarda comum: era alguém que sabia emboscar espiões. A Espada curta entrou no flanco do Tiefling.

Dahaka tentou recuar, mas a figura explodiu em movimento, cortando o ar com golpes precissos das lâminas. Ele bloqueou uma, girou, tentou contra-atacar — mas o chão traiu sua pisada; uma armadilha de urso prendeu seus dentes afiados em volta do tornozelo do Tiefling, um berro ecoou nas planíces.

Impetor ergueu a cabeça de repente. "Ouviram isso?"

Ludus levantou-se. "Um lobo talvez?"

"Não. Eu ouvi." O meio-dragão já estava pegando sua clava.

"Impetor, espera!", disse Asher, mas era inútil.

O gigante já corria. As pegadas afundavam na neve, o peso de suas pisadas rasgava o silêncio. O rugido dele ecoou como trovão — e nesse instante, as luzes se acenderam nas colinas. Archotes. Sinos. Ecos metálicos. A posição deles, exposta.

"Ah, ótimo", murmurou Ludus. "E lá se vai o elemento surpresa..."

Mor’Rein já se levantava, traçando runas no ar e montava em sua vassoura.

Do alto, o vento parecia rir — um coro seco e distante, carregando o eco das tochas que dançavam como olhos acesos. A missão de reconhecimento transformava-se, em poucos segundos, numa emboscada inevitável. E o chão das planícies, mais uma vez, voltava a arder.

O berro de Dahaka rasgou o silêncio das planícies como um trovão impaciente — uma súplica e um desafio misturados em uma só nota gutural.
Mas não foi apenas o vento que o carregou. O eco espalhou-se como um tambor de guerra, ricocheteando entre os rochedos e alcançando ouvidos indesejados.

Das colinas ao sul, homens se ergueram das sombras, encapuzados e cobertos com o brasão carmesim dos Mozorov. Eram mercenários endurecidos, acostumados a matar por moedas e silêncio. Em instantes, o campo morto de Goldenfields começou a fervilhar de movimento — como um enxame de formigas despertadas por fogo. A poeira se levantou em colunas grossas, e o som metálico de lanças batendo contra escudos se misturou aos gritos roucos dos capitães chamando formação.

Os heróis, posicionados no topo da encosta, perceberam antes que o pior acontecesse. Ludus foi o primeiro a ver o avanço inimigo.
“Eles ouviram…” murmurou, o sorriso desaparecendo de seu rosto.

Impetor rosnou, jogando a clava negra sobre a cabeça.
“Agora estamos conversando.”

Sem que soubessem Trikin observava de longe, enquanto as hélices do zepelim, agora um ponto distante no horizonte, se perdiam no nevoeiro. Estavam sozinhos, cercados e em território inimigo.

Enquanto isso, Dahaka lutava para respirar.
O Tiefling havia sido surpreendido quando o emboscador o puxou violentamente para o chão — um peso esmagador que o fez rolar entre pedras e lama.
Quando ergueu o rosto, a visão era uma massa de ferro e pele pálida: um homem envolto em armadura escura, os olhos rubros, e o símbolo dos Mozorov gravado no peito da armadura como uma cicatriz.

“Belos chifres, corruptor…” disse o inimigo, cuspindo sangue antes de erguer a espada. “Vão ficar ótimos pendurados na tenda principal.”

Dahaka respondeu com um deselegante chute entre as pernas do inimigo, o tipo de chute que só é aprendido por quem tem que se virar nas ruas.
O ladino lançou-se para frente, e o sacar das lâminas fez o ar estremecer. O tiefling atacava com precisssão cirúrgica— o par de adagas faiscando contra o aço, o hálito quente de fumaça e enxofre escapando de suas presas. Mas o inimigo era rápido demais.

Foi então que Dahaka percebeu o truque: o homem tinha o possicionado em um terreno enlamaçado, a lama já cobria completamente os calcanhares de Dahaka, que lutava pra se manter estável.

“Você achou mesmo que viria espiar os Mozorov e sair vivo?” zombou o inimigo, girando a espada curta como quem já previa o golpe final.

Dahaka tentou libertar-se,  mas a lama já estava quase alcançado sua canela. O chão em volta dele começou a se mover, era como se mãos mortas — dezenas delas — o puxassem para baixo, tentando agarrar-lhe os joelhos.

E foi nesse instante que o rugido de Impetor cortou o ar.
O Meio-Dragão vinha descendo a encosta com a fúria de um trovão, a clava pessada nas mãos, e o olhar voltado apenas para o companheiro caído.
“DAHAKA!”

O primeiro golpe do machado partiu o chão — e o segundo, o silêncio. Conforme o emboscador desviava dos avanços do Meio-Dragão de prata.

O combate estourou como pólvora acesa.

Do alto da encosta, os heróis remanescentes — Ludus, Asher e Mor’Rein — desceram em disparada, cada um à sua maneira.
Ludus avançava em cambalhotas largas, desviando de pedras, troncos congelados e crateras como se estivesse em um palco improvisado no fim do mundo.

Mor’Rein deslizava pelo ar em sua vassoura, o casaco esvoaçando como um manto de tempestade, os cabelos prateados cortando o vento.

E Asher…
Asher começou correndo em duas pernas, o manto abrindo atrás de si — mas lentamente o corpo mudou, ossos estalando, músculos se contorcendo. Em instantes, ele seguia quadrúpede, mais lobo do que homem, as belas cinzas de seu pelo se mesclando à fuligem e à neve. Seus passos deixavam marcas profundas e rápidas, como se o chão não ousasse segurá-lo.

Enquanto isso, ao sul, o destacamento Mozorov crescia como uma maré de ferro. Homens avançavam organizados, escudos erguidos, lanças alinhadas, gritando em coro.
À frente deles, o mesmo homem de cabelos loiros que antes fortificava as planícies agora brandia a lâmina e urrava ordens. Sua voz era um trovão, clara e terrível, e seus mercenários respondiam em perfeita disciplina.

A distância entre os grupos diminuía a cada batida de coração.

O emboscador foi o primeiro a se mover. Surgiu da névoa como se estivesse esculpido nela, um borrão silencioso que circulou Impetor antes que ele percebesse. A lâmina riscou as escamas prateadas com precisão quase cirúrgica, deixando um sulco quente que soltou fumaça quando o ar frio tocou o sangue. Impetor rugiu — não de dor, mas de fúria — enquanto o inimigo apenas sorria, certo de que controlava o ritmo do combate.

“IMPETOR! CARALHO, EU TÔ AFUNDANDO!” berrou Dahaka, a lama já devorando suas canelas como se fosse uma criatura faminta. As adagas cintilavam inutilmente enquanto ele tentava manter o corpo acima da superfície, cada movimento piorando a sucção.

“Já vou! Eu só preciso esmagar esse inseto aqui!” rosnou Impetor, girando a clava com força suficiente para quebrar um tronco. Mas o emboscador se esquivava com leveza irritante, um passo que parecia dança, outro que parecia uma mesura.

Do alto da elevação, Ludus corria como se estivesse numa peça, rindo como se a morte não estivesse à espreita. “Essa vai ficar pra hist-” Sua atenção foi interrompida conforme ele se voltava para Asher, que descia a ladeira como um míssil lupino em direção aos Mozorov. “Vai totó, pega! Pega!”

A piada veio na mesma cadência da magia — vibrou no ar, atravessando a batalha como uma nota perfeita através dos guizos de sua roupa. A inspiração bateu em Asher como um pequeno clarão no peito.

Foi o que ele precisava.
O lobo cinzento disparou.

Os mercenários surgiram entre os rochedos — primeiro dois, depois cinco, depois um corredor inteiro de lanças apontadas para ele. Os olhos deles brilharam ao reconhecer o alvo. Asher não hesitou: deslizou por baixo da primeira lança, subiu pelas costas do soldado com a fluidez de um animal treinado na selvageria, e com dois cortes das garras negras derrubou dois homens antes que qualquer um pudesse gritar.

Lama explodiu ao redor de Dahaka — não por causa de um ataque, mas pelo rasante violento de Mor’Rein, que mergulhou tão baixo que o vento arrancou barro do chão. “Segura!” gritou ele.

“SEGURAR O QUÊ, SEU—?! AAAAAAH!”

Dahaka foi puxado pela gola como um peixe sendo arrancado do rio, voando para cima com as pernas chacoalhando no ar. Mor’Rein tentava estabilizar a vassoura, mas o ladino balançava como um saco de batatas vivas. “Você é mais pesado do que aparenta!”

“Tenta carregar metade doque eu to carregando e continuar leve!" Disse Dahaka, se preocupando em checar os seus saques e roubos no compartimento interno de sua jaqueta. "Me deixa na primeira arvore , valeu pela carona”

Mor’Rein atendeu — ou simplesmente perdeu o controle — e soltou Dahaka três metros ao lado, onde ele caiu de cara, espirrando lama para todo lado. Humilhado, mas livre da armadilha.

O emboscador voltou a atacar Impetor. A lâmina refletira as chamas distantes, descrevendo arcos rápidos demais para olhos comuns. O Meio-Dragão ergueu a clava a tempo de bloquear um golpe, mas o segundo veio por baixo, raspando outra fileira de escamas. Ele rosnou, o peito inflando, o sangue quente gotejando nas pedras.

“PARA DE DANÇAR E VEM LUTAR COMO GENTE!” Impetor rugiu.

O emboscador inclinou a cabeça com calma assassina.

E atacou de novo. Avançou antes mesmo que o eco do seu último golpe morresse no ar. Ainda com o sorriso torto de predador, ele deslizou para a lateral de Impetor e, num movimento tão rápido que parecia cortar o próprio tempo, enterrou a lâmina curta na junção entre duas escamas do flanco. O golpe foi fundo o bastante para arrancar um jorro quente, mas raso o suficiente para mostrar que ele queria brincar — não matar.

Impetor ergueu a clava para esmagá-lo ali mesmo.

Mas nunca teve a chance.

Porque, à três metros dali, Dahaka se levantava cuspindo lama, correndo os dedos pelo rosto sujo com um ódio que parecia engordurado, viscoso, fermentado desde a primeira emboscada alguns momentos atrás.

“Eu… vou… MATAR… alguém,” murmurou ele, puxando a besta. “Filho da puta… sombra desgraçada…”

A corda estalou.

O virote voou.

E atravessou o crânio do emboscador com tanta força que o corpo dele deu um passo para frente — como se fosse terminar o ataque em Impetor — antes de tombar sem vida, ainda com o sorriso pretensioso estampado no rosto.

Impetor congelou, o braço ainda levantado, pronto para golpear.

Depois olhou para o cadáver.

Depois para Dahaka.

“Eu ia acertar ele AGORA.”

Dahaka deu de ombros, limpando um fiapo de lama da sobrancelha.
“Agora não vai mais.”

Impetor bufou… depois sorriu, mostrando a fileira de presas enquanto se virava para a maré de mercenários que descia a encosta.
“Não importa. Tem muito peixe no mar…”

Não longe dali, Ludus ergueu o pandeiro.

“Eu to querendo testar essa faz um tempo!”

Ele rodopiou o instrumento, os guizos vibrando num ritmo que não pertencia exatamente ao mundo físico — era rápido demais, lento demais, contraditório demais. As notas se chocavam umas contra as outras, formando uma cadência torta, quase doentia. Uma melodia impossível.

Um círculo de energia distorceu o ar à frente dele, ondulando como calor em deserto.

A Confusão tomou forma.

Os Mozorov que vinham correndo tropeçaram nos próprios pés. Um deles virou a lança contra o colega ao lado sem entender por quê. Outro começou a rir, um riso desesperado que virou choro. Dois simplesmente giraram em círculos, encarando o vazio. E um, mais azarado, tentou subir numa pedra que não existia.

O campo de batalha virou um manicômio ao ar livre.

E Asher aproveitou.

O lobo cinzento entrou na confusão como uma sombra viva, cortando carne e couro com fúria precisa. Ele saltou na garganta de um, rolou, puxou outro pelo calcanhar, arrastando-o para o chão antes de abrir o peito do terceiro. Seus olhos brilhavam com o clarão da inspiração de Ludus — e com a selvageria controlada de alguém que sabia matar muito bem.

Acima, Mor’Rein dançava no ar com a vassoura, usando a turbulência da magia como corrente ascendente. Disparou uma rajada mística atrás da outra, cada uma explodindo no peito de um mercenário desorientado. Os corpos caíam como marionetes com os fios cortados.

A maré Mozorov vacilava.

Até que uma voz rasgou o caos. "Foco Homens!"

Uma machadinha cortou o ar — rodando, cantando — antes de se cravar brutalmente no ombro de Impetor, fazendo o gladiador prateado dar um meio passo para trás.

Do alto da trilha, o líder dos Mozorov surgia.

O homem era largo como um tronco, tatuado até o pescoço, olhos de caçador que já vira mais campos de batalha do que amanheceres. Ele arrancou o segundo machado das costas, o de duas mãos — e o ergueu silenciosamente.

Impetor segurou a machadinha cravada no ombro… e empurrou, deixando-a ali, presa como um acessório.

Os dois se encararam.

Não precisavam falar.
Dois guerreiros experientes, duas vidas de combate, entendendo exatamente o que acontecia naquele olhar.

O líder dos Mozorov girou o machado de duas mãos, os músculos do braço tremendo sob a tinta.

Impetor ergueu a clava negra, sangue escorrendo pelo ombro e pingando nas pedras firas.

Eles avançaram ao mesmo tempo.

O choque inicial dos dois gigantes reverberou pelo campo como um trovão. A clava negra encontrou o machado de duas mãos no meio do caminho, cada arma empurrando a outra com força suficiente para vibrar as pedras aos pés deles. O impacto abriu um arco de lama e poeira ao redor dos combatentes, como se o próprio chão tivesse estremecido.

Yvan Mozorov sorriu primeiro.

Impetor rosnou de volta.

A luta começou.

Yvan recuou um passo, mas só para ganhar impulso. Avançou girando o machado num arco largo e pesado, um golpe que teria dividido um cavalo ao meio. Impetor ergueu a clava, recebendo o impacto de braços firmes, cada fibra do corpo tensionada. O som ecoou como se duas bigornas tivessem colidido.

Impetor respondeu rápido, girando a clava em um golpe curto, mas violento, mirando as costelas. Yvan desviou inclinando o tronco como um urso experiente que já vira esse tipo de golpe na guerra. Ainda assim, a ponta da arma raspou seu cinto, arrancando couro e sangue.

O líder dos Mozorov não pareceu sentir.

Ele atacou de novo — não com força cega, mas com precisão assassina. Um golpe baixo que obrigou Impetor a recuar; um golpe alto que quase leva um pedaço de escamas da cabeça; e um giro de quadril que colocou o machado descendo em diagonal, direto contra o ombro.

Impetor ergueu a arma no último instante.

O impacto fez sua mão formigar.

E ele sorriu.

“Você bate quase como eu.”

Yvan respondeu com um idioma quebrado, carregado de sotaque:
“Você fala demais.”

Em volta deles, a batalha era praticamente decidida sem esforço:

Asher atravessava mercenários com a eficiência metódica de um predador treinado, usando a confusão deles como abertura perfeita. Garras, dentes, velocidade — era como se estivesse abatendo gado, não guerreiros.

Dahaka disparava virotes com irritação pura, cada tiro um acerto limpo na testa, no olho, na garganta. “Tira esse do caminho… esse também… esse também…” murmurava ele, como se estivesse podando um jardim.

Mor’Rein continuava no ar, soltando rajadas místicas que explodiam inimigos sem o menor drama, como quem faz o dever de casa.

Ludus tocava o pandeiro como se estivesse em um festival.
“Isso, isso, gira mais, querido! Agora abraça o amiguinho — não, não era pra morder ele!”

Os Mozorov remanescentes não tinham chance.
Mas seus esforços — bagunçados, confusos, caóticos — ainda criavam poeira, barulho e distração.

E no centro do caos… os dois gigantes seguiam duelando.

Impetor avançou primeiro agora. Pisou forte, afundando o chão, e desferiu um golpe descendente com a clava que prometia afundar o crânio de qualquer homem vivo.

Yvan absorveu o golpe com o cabo do machado, mas o impacto fez seus joelhos dobrarem. Ele rangeu os dentes, empurrou Impetor pra trás e girou o tronco num golpe horizontal tão rápido que o draconato teve que saltar para trás.

O machado cortou o ar onde seu estômago estivera um segundo antes.

Impetor aterrissou pesado, os pés abrindo fendas na lama.

Os dois se mediram de novo.

Respiração pesada.

Armas erguidas.

Olhos analisando cada micro movimento.

Então Yvan avançou com um brado grave — um rugido de guerra ancestral — e Impetor respondeu com um urro gutural que parecia vir das profundezas de alguma arena subterrânea.

As armas se chocaram novamente.

Uma, duas, três vezes.

Cada impacto uma explosão.

Cada golpe parido com força suficiente para matar um homem comum.

Um quarto choque…
E as armas travaram.

Os dois ficaram ali, cara a cara, dentes cerrados, músculos saltando, sentindo o peso um do outro. Era uma disputa de força, mas também de espírito, de história, de décadas de combate marcando os ossos dos dois.

Yvan cuspiu sangue no chão.
Impetor cuspiu sangue no rosto de Yvan.

Eles se empurraram — e se separaram em explosão simultânea, tropeçando meio passo para trás cada um, recuperando o equilíbrio.

Mais um olhar.
Mais uma medição silenciosa.

Duas máquinas de guerra entendendo, respeitando e odiando a força do outro.

A luta ao redor caía, mas para eles, só existia aquilo:

Duas sombras enormes sob o céu cinzento.

Dois guerreiros que sabiam reconhecer:
o verdadeiro adversário tinha acabado de aparecer.

O vento mudou antes que qualquer som alcançasse Mor’Rein. Lá do alto, montado em sua vassoura, ele sentiu primeiro a oscilação — uma perturbação seca, brutal, nada parecida com os ecos extraplanares de seu Patrono. Aquilo era cru. Era frio. Um gelo que descia pela espinha como uma lâmina fina.

A mente treinada do elfo reconheceu o horror no mesmo instante em que o corpo começou a tremer. A vassoura oscilou sob ele, caindo dois palmos antes de se firmar. Seus lábios se moveram quase sozinhos.

“O Psiônico…”

A palavra saiu trincada. Ele respirou fundo, reuniu as forças mentais e retomou o controle do voo. A pressão dentro do crânio continuava pulsando, mas ele empurrou aquilo para o fundo da mente — pelo menos por alguns segundos.

Lá embaixo, Impetor investia contra Yvan mais uma vez, e dessa vez o Meio-Dragão estava pronto. O machado de Yvan desceu num arco poderoso, mas Impetor desviou com uma precisão quase arrogante. A clava preta interceptou o cabo da arma e o forçou para cima. O veterano perdeu o equilíbrio, e Impetor avançou.

Um golpe curto no estômago. O som de algo afundando por dentro. Yvan engasgou. Outro golpe nos rins o fez cambalear. E antes que o gigante pudesse reagir, Impetor caiu por cima dele, girando o corpo e travando o braço tatuado numa chave brutal.

O urro de dor explodiu nos campos, misturado ao barulho da lama se deslocando. Impetor puxou mais, e mais, pronto para quebrar o ombro do adversário como se fosse um galho seco.

Mor’Rein, agora mentalmente estável o bastante para olhar adiante, voltou-se para o horizonte — para a origem daquela perturbação mental — e seus olhos se arregalaram. Uma nova frota Mozorov avançava pelas Goldenfields, muito maior que a primeira. Fileiras, cavalos, banners, tambores.

E à frente, sobre um dorsel negro, uma figura pequena. Pequena demais para ser homem. Talvez uma criança. Talvez algo pior.
Mesmo a centenas de metros, a criatura parecia encará-lo. Não com olhos. Com a mente.

“Temos companhia!” gritou Mor’Rein de cima da vassoura. “E das grandes!”

Ludus e Dahaka olharam imediatamente para Asher. O licantropo se destransformava aos poucos, arfando pesado, músculos tremendo. Ele deixou cair o braço arrancado de um mercenário — ainda pingando sangue — e ergueu a cabeça.

“Retirada.”

A palavra saiu firme. Sem discussão.

Impetor, no entanto, não ouviu. Ou fingiu não ouvir. Continuava puxando o braço de Yvan com vontade de arrancá-lo do corpo.

“Asher!” gritou Ludus, apontando para Impetor, como se fosse uma criança denunciando o irmão para mãe.

Asher mancou até o Meio-Dragão, ainda respirando como uma locomotiva prestes a explodir.

“Impetor. Agora.”

“Eu tô quase!” rosnou o gigante, cuspindo. “Ele é meu!”

Asher apontou para o horizonte. “Se ficar, você morre. Todo mundo morre. A missão acabou. A gente precisa sair inteiro.”

Impetor travou o maxilar, encarou Yvan por um segundo… depois Asher… e um rugido frustrado subiu do peito dele.

“MERDA.”

Num gesto rápido, Impetor desferiu uma cabeçada tão forte no crânio de Yvan que o gigante desmaiou instantaneamente. O corpo desabou como um saco de areia.

“Pronto! Agora vamo!”

O grupo disparou para longe das planícies. Sangue, lama e exaustão marcavam cada passo. A batalha estava vencida, sim — mas a missão era um fracasso evidente. Não descobriram nada. Nada que importasse. Nada que justificasse a presença dos Mozorov naquela região, e quais eram suas intenções com os Zentharim.

E agora os Mozorov sabiam.
Sabiam que eles estavam ali.
Sabiam que o grupo tinha força o bastante para matar.
E já vinham com algo muito pior à frente.

Os tambores da nova frota ecoavam pelas Goldenfields enquanto a neblina fechava atrás dos aventureiros em fuga.

O inverno de Nightal mordia com dentes finos. Um frio seco, cortante, que parecia atravessar as camadas de couro, pele e osso como se buscasse o espírito lá dentro. O sol até tentava se manter no céu — eram talvez três da tarde — mas a luz era pálida, quase azulada, fraca demais para competir com os ventos que sopravam como lamentos dos mortos, vindos do norte.

O grupo avançara em silêncio por horas. O caminho até o Rio Dessarie os empurrava para longe das planícies abertas e para perto de ravinas, bosques dispersos e campos ressequidos pelo frio. Encontraram dois bandos de mortos-vivos pelo caminho — pequenos demais para desafiar de verdade o grupo, irritantes o bastante para lembra-los do fracasso. O cheiro doce e pútrido, tão característico dos necrófagos, já nem lhes torcia o estômago; tornara-se parte do ambiente, como fumaça ou poeira.

Agora se enfiavam numa pequena caverna aberta na encosta rasa de uma colina. Asher checou o lugar minuciosamente, testando marcas, farelos, pegadas — nada de ursos dormindo, nem lobos, nem algo pior. Apenas um abrigo temporário contra o vento. Acenderam uma fogueira. O crepitar da madeira úmida competia com o assobio constante do vento lá fora.

Foram as lamúrias que vieram primeiro.

Ludus esticou as pernas, bufou, girou um punhal entre os dedos e comentou, já com aquele sorriso torto que pedia confusão: "Missãozinha tranquila… quase deu pra aproveitar o turismo."

Mor’Rein sequer levantou o rosto da chama. Apenas disse "Cale-se, Bufão."

O palhaço teatralizou um suspiro, levando a mão ao peito. "Nossa… assim você parte o meu coração, Mor’Rein..."

"Cala. A. Boca." Protestou Mor'Rein, separando cada palavra com um espaçamento signficativo de silêncio.

Ludus ergueu as sobrancelhas, ofendido de mentirinha, fazendo Dahaka revirar os olhos.

Asher tirava lascas secas do couro dos dedos — o sangue seco do Mozorov ainda escurecia suas unhas. Ele estava quieto. Quieto demais. Impetor observava-o como um touro desconfiado.

"Desde que te tiramos do inferno" disse Asher por fim, quebrando o silêncio "você tem agido de forma impulsiva. Mais do que o normal."

Impetor levantou o rosto lentamente. E se aproximou. Era só um passo, mas que colocava sua sombra inteira por cima da fogueira.

"Tá insinuando o quê, Greymane?" a voz vibrava como um trovão contido. "Que a influência corruptora tomou conta de mim? Que essas porras dessas veias negras estão me transformando em outra coisa?"

Asher respirou fundo. Não recuou.

"O inferno…" começou, com a calma de quem sabe no que está mexendo "talvez não tenha colocado novos demônios em você, Impetor. Mas com certeza fez você reencontrar os antigos."

Ludus deu uma risadinha.

"Bonito. Poético. Meio deprimente, mas bonito."

Dahaka virou bruscamente para ele.

"Pelo amor de todos os deuses, cala a boca um pouco, Ludus. Tô cansado do tolo que mais atrapalha do que ajuda quando a coisa aperta."

Mor’Rein ergueu os olhos da fogueira.

"Pela minha compreensão, quem mais se atrapalhou hoje foi você, Dahaka. Se não tivesse sido pego pelo espião Mozorov, talvez tivéssemos algo útil agora."

Ludus deu um sorriso aberto. "Obrigado, Mor’Rein, isso significa muito pra mim."

O elfo nem piscou: "Não force a minha boa vontade."

A tensão escorria pela caverna. Não havia lado certo — apenas lados feridos.

Ludus resmungou mais alguma piada sobre o fracasso ser “coletivo e democrático”. Dahaka bufou algo sobre “encherem o saco”. Impetor xingava qualquer coisa que respirasse. Mor’Rein tentava racionalizar o desastre, mas cada frase saía sombria, como um presságio. O ambiente parecia diminuir, as paredes apertando, a fogueira ficando pequena demais para tantos egos feridos.

As acusações começaram a girar como lâminas, indo e voltando, até finalmente apontarem para o mesmo ponto: Asher. O líder calado, o líder que segurara a barra, o líder que agora parecia uma panela prestes a explodir.

Ele escutou tudo. Sem mover um músculo. Sem responder. O silêncio dele era mais inflamável que qualquer insulto.

Até que finalmente levantou.

"Basta."

A palavra ecoou. Categórica. Dura. Cortando as outras vozes como aço.

"Vocês me escolheram para liderar" disse, a voz mais firme que antes, mas trincada pelas horas, pela dor, pelo frio. "Mesmo que não com palavras. Quando esta missão terminar, se desejarem escolher um novo líder… se estivermos vivos e inteiros… terei prazer em renunciar." Ele olhou cada um nos olhos. Um por um. "Mas até lá… sou eu quem está no comando. Aqui."

O silêncio caiu feito neve pesada.

Ninguém ousou respondê-lo.

A fogueira estalou. O vento de Nightal uivou do lado de fora. E dentro da pequena caverna, cinco heróis cansados sentiram, ao mesmo tempo, o peso do mundo cair sobre os ombros.

Asher retomou o posto sem cerimônia. Não houve discussão, nem réplica — apenas um assentir silencioso, pesado, que deixava claro que agora o grupo obedecia menos por confiança e mais por cansaço… ou culpa. O ar entre eles era outro. Quase não se olhavam. Cada um parecia carregado de pensamentos que não ousariam dizer em voz alta de novo.

Asher apontou para o mapa amassado sobre a pedra, iluminado pela fogueira.

"Precisamos nos informar. Não podemos ir com as mãos completamente abanando para a base Harpista. Horusk conta conosco."

Mor’Rein inclinou-se, a sombra fina que seu rosto projetava dançando no fogo.
"O Rio Dessarie desemboca em Profundágua. Pelo que diz o mapa… há um pequeno assentamento nesse trecho do mapa. Provavelmente teremos informações."

Ludus assobiou baixo, balançando o tornozelo.
"Vila Sortilégio. Os Lefou ficaram por lá um tempo antes de chegarem em Águas Profundas. Lugar tranquilo... Bom, pelo menos era tranqulio antes da praga."

Dahaka cruzou os braços e grunhiu.
"Eu vou até lá. Ver o que encontro."

Asher respondeu apenas com um gesto firme de positivo sem levantar os olhos. Em seguida, afastou-se da fogueira e entrou na parte mais escura da caverna. Sua silhueta desaparecia aos poucos na penumbra, o peso do comando marcando cada passo.

Já quase engolido pela escuridão, disse sem virar o rosto:

"Aguardamos você aqui. Faça de tudo para voltar antes do cair do sol. Já viu quantas daquelas coisas vagam por aí à luz do dia… não quero nem imaginar quantas vagam sob o véu noturno."

Dahaka assentiu — curto, pragmático — e, sem mais palavras, ergueu o capuz e partiu.

A fogueira estalou.
O vento de Nightal soprou como um aviso.
E o grupo, fragmentado por dentro, assistiu o tiefling desaparecer na vastidão gelada.

O caminho até Vila Sortilégio era uma cicatriz clara no gelo. Dahaka avançava com passos certos, os chifres inclinados contra o vento, a respiração se tornando vapor diante dele. Nightal deixava tudo enevoado, como se o mundo inteiro estivesse preso entre um sonho e um funeral. A cada quilômetro o rio Dessarie crescia ao horizonte, largo, lento, silencioso — uma serpente cinzenta que cortava a paisagem fria.

A vila surgiu como um punhado de casas improvisadas apoiadas no leito do rio. Balsas e pequenos barcos ancoravam em tábuas mal pregadas, rangendo sob o vento. Havia fumaça saindo de algumas chaminés e um cheiro de peixe salgado misturado com ervas queimadas, comum em assentamentos que dependem do rio para sobreviver. Lanternas balançavam em cordas cruzadas entre os postes, e o brilho amarelado refletia no Dessarie como olhos flutuantes.

Dahaka entrou sem sorrisos, despertando olhares desconfiados. Tieflings não costumavam aparecer ali — e quando apareciam, raramente traziam boas notícias.

Asher, por sua vez, permaneceu na caverna. O silêncio ali dentro tinha um peso quase físico, repousando sobre ele como se fosse mais uma camada de armadura. Ele afastou-se da fogueira adormecida, respirou fundo e tirou as luvas. Suas mãos tremiam — do frio, da exaustão, ou talvez da responsabilidade que nunca pediu.

O ritual não era desconhecido. Mas fazia anos que ele não lia sobre.

No fundo de sua mochila, embrulhado em um tecido grosso, estava o símbolo: um anel de sinete metálico com runas élficas, desgastadas pelo tempo, que um dia pertencera a um de seus ancestrais. Era tudo que restara deles — homens e mulheres que confiaram em seu juramento, e morreram por isso.

Ele fechou os olhos.
E começou a murmurar as palavras.

O feitiço não era apenas conjuração — era um pacto. Uma chamada feita do fundo da alma, reconhecendo o próprio fardo antes de aceitar o auxílio. A magia pedia verdade. E Asher tinha verdades demais presas na garganta.

Na Vila Sortilégio, Dahaka caminhava rumo às palafitas mais afastadas. Sabia exatamente quem procurar: os tipos que evitavam luz, que sussurravam demais, que vendiam informações como se vende alimentos aos necessitados — caros, sujos e necessários.

A primeira cabana onde entrou cheirava a tabaco velho e couro encharcado. Um halfling de rosto marcado coçava o queixo enquanto limpava uma adaga.

"Cartel Mozorov?" perguntou Dahaka, direto.
O halfling congelou. Guardou a lâmina. Não respondeu.

Dahaka insistiu: "Preciso de informações."

O halfling levantou-se, foi até a porta… e a abriu, apontando para fora.

"Vai embora."

Ameaça silenciosa.
Dahaka saiu — e jurava ter visto medo. Medo genuíno.

Tentou outro contato — um humano corpulento que cheirava a peixe cru. Depois uma mulher alta com olhos de meia-noite e uma cicatriz no queixo. E cada vez que mencionava o nome Mozorov, a resposta era a mesma:

Silêncio.
Desdém.
Agressividade.

Como se a palavra fosse uma ferida aberta que ninguém ousava tocar.

A magia dentro da caverna ganhava forma. Asher pressionou o anel contra o peito e deixou que as palavras fluíssem como uma confissão.

"Eu não sei se consigo continuar guiando eles… mas se cair, não quero cair sozinho. Não de novo."

Quando a última sílaba escapou de seus lábios, o ar mudou.

A temperatura caiu.
A chama da fogueira diminuiu.
E algo surgiu do nada — primeiro como neblina prateada, depois como músculos, patas, pelo.

A loba atroz emergiu da conjuração como se estivesse rompendo a superfície de um lago espiritual. Pelos prateados, quase luminosos. Olhos cinzentos, calmos, mas atentos. A respiração dela parecia sincronizar com a de Asher, como se cada batida do coração de um ecoasse no outro.

Ela o observou.
E Asher entendeu, com um peso doloroso e reconfortante, que ela não fora criada pela magia — ela respondera ao chamado.

"Você veio", sussurrou ele, tocando sua cabeça.

A loba inclinou o focinho, roçando de leve a mão dele.
E naquele gesto havia uma promessa silenciosa:
Não carregará tudo sozinho.

Enquanto isso, no ponto mais movimentado da vila, Dahaka finalmente ouviu algo útil — não sobre os Mozorov, mas sobre o continente em guerra.

Dois pescadores discutiam perto de uma fogueira. Um deles, ao notar a presença do tiefling, caiu em silêncio. Mas o outro, já embriagado, continuou:

"O rei novo de Cormyr… Haroldo Benthor… tá juntando a Aliança dos Lordes. Dizem que Suzail tá pra ser tomada. Necromante por todo lado. Povo sumindo,  sei lá."

O bêbado riu, mas era um riso nervoso.

"E ele quer alguém da Costa da Espada pra ajudar. Um representante forte. Um dos grandes... É por isso que esse baile vai ser dos grandes, Vê se pode né? Nós congelando aqui fora e os desgraçados preparando um baile amanhã no Palácio Greenwall"

Dahaka arregalou os olhos, absorvendo aquilo.
Uma guerra de necromancia.
Uma convocação real.
E nenhum rastro dos Mozorov.

Quando ele perguntou mais uma vez pelo cartel, o pescador apenas empalideceu.

"Não fala esse nome, diabo. Aqui não."

Dahaka percebeu — não era segredo.
Era tabu.

E tabus significavam perigo.

Enquanto Dahaka deixava a vila, caminhando de volta na direção da caverna com a sombra de novas preocupações sobre os ombros…

Asher montava na loba recém-conjurada.
Ela respirava devagar, firme, como se tentasse sincronizar o caos que ele carregava por dentro.

E por um breve momento, em meio ao frio cortante e à culpa acumulada, Asher sentiu algo que não sentia havia dias:

Equilíbrio.

Dahaka retornou pouco antes do sol começar a morrer atrás do horizonte, o vento cortando contra seu manto rasgado. Ao entrar na gruta, puxou o capuz para trás, sacudindo o gelo acumulado nos chifres.

Impetor estava em pé no centro da caverna, golpeando o ar com a força de alguém que preferia quebrar alguma coisa a pensar demais. Cada movimento deixava um rastro de calor quase visível. Mor'Rein lia silenciosamente um tomo encapado de couro, seu familiar — aquele rasgo negro flutuante com tentáculos e incontáveis olhos— pairando ao lado dele como uma falha na própria realidade. Ludus estava sentado na entrada, pernas cruzadas, encarando o horizonte branco com expressão de tédio e melancolia.

Dahaka pigarreou.

"Não tive sorte com os Mozorov", disse ele. "Mas encontrei coisas que podem interessar vocês."

Antes que Impetor respondesse, uma sombra se movimentou ao fundo da caverna. Não era ameaça. Era presença.

Asher surgiu montado na loba prateada.

Ludus saltou para trás.

"Isso tava aqui antes?", perguntou, piscando rápido.  

Impetor bufou, cruzando os braços enormes. "Ele adestrou ela? Ou será que lobisomens podem multiplicar lobos?

"Acho que é preconceito perguntar isso." Ludus contastou.

Asher ignorou o espanto dos dois, deslizando a mão pelo pescoço da montaria. "Eu a convoquei. Seu nome é Mista. Ela será útil daqui pra frente."

Impetor deu uma risadinha, apontando para o familiar de Mor'Rein, que tremeluzia como se recusasse a seguir as leis da física. "Eu achava que quem era responsável por convocar coisas bizarras era o Mor'Rein. Sem ofensas." Ele se dirigiu à entidade amorfa, que respondeu apenas girando um olho maior que os outros, sem exprimir nada compreensível.

Mor'Rein virou a página do tomo sem comentar.

Dahaka avançou alguns passos, chamando a atenção do grupo. "Ouçam. Os Mozorov… ninguém lá fala sobre eles. Ninguém. É como um tabu. Mas consegui outras informações." Ele inspirou fundo. "Cormyr está em crise. Haroldo Benthor convocou a Aliança dos Lordes. Suzail está prestes a ser tomada pelos necromantes, teoricamente. E ele vai dar um baile no Palácio Greenwall. Está procurando alguém da Costa da Espada para ajudar no que ele chama de ‘defesa da nação’."

Silêncio.

Depois, como se alguém tivesse acendido um barril de pólvora, todos reagiram ao mesmo tempo.

Impetor rosnou. Ludus xingou tão rápido que tropeçou nas próprias palavras. Mor'Rein franziu o cenho de um jeito frio e profundo. A própria Mista ergueu as orelhas, como se percebesse a alteração no ar.

O nome Benthor os unia… mas não pelo bem.

Era ódio.
Ódio antigo.
Ódio merecido.

A lembrança veio como uma lâmina mal guardada: o grupo sendo enviado para morrer na mão de Darsha, as manipulações, as traições, a arrogância imperial do careca maldito. Eram laços que se formaram no pior tipo de fogo — aquele que não queima o corpo, mas cicatriza a alma.

Asher observou todos, e por um instante, o líder cansado desapareceu. Ele sorriu, acariciando o pescoço de Mista. "Castelo Greenwall, você disse? É nas Terras Exteriores de Águas Profundas. Fora das muralhas. Segurança mínima."

Dahaka assentiu.

Ludus abriu um sorriso malicioso. Impetor estalou os dedos, satisfeito. Mor'Rein fechou o tomo com calma — e o familiar vibrava em expectativa.

Por alguns segundos, ninguém falou nada. Mas cada olhar dizia a mesma coisa.

Era hora.

Asher respirou fundo.

"Vamos."

E a caverna, antes tomada por tensão e desconfiança, agora parecia pequena demais para conter o que renascia ali: propósito.

A Vila Sortilégio tinha cheiro de água fria, madeira úmida e fumaça doce vinda de fogueiras acesas ao longo do Rio Desarie. As balsas passavam lentas, carregando lenhadores, pescadores, comerciantes pobres e alguns poucos aventureiros cansados demais para se importar com quem chegava ou partia. Era um lugar simples, mas seguro o bastante para que o grupo se acomodasse por alguns dias, preparando a invasão à festa no Castelo Greenwall.

Asher pagou por dois quartos na estalagem principal. Mor'Rein e Ludus dividiram o de cima. Dahaka e Impetor ficaram no térreo. A madeira rangia, o vento assobiava pelas frestas, mas era melhor que dormir em cavernas geladas.

Ludus observava o grupo com um sorrisinho de canto de boca, encostado no corrimão da estalagem. Ele sentia. Ainda havia tensão. A discussão, as derrotas, a desconfiança. Nada disso desaparecia fácil.

Mas, como ele próprio dizia, nenhuma trupe funciona se cada artista quiser subir no palco sozinho.

Precisava unir a galera.
E para isso… precisava de verba.

Ele entrou na estalagem, caminhando até Impetor primeiro.

"As passagens de balsa para Profundaguas estão um roubo. O barqueiro quer cinco peças de prata por cabeça."

Impetor arregalou os olhos. "Cinco? Por um barquinho de madeira podre?"

"Eu tentei negociar, juro", disse Ludus, levantando as mãos. "Mas é isso ou nada."

Impetor bufou, mas entregou as moedas.

Ludus repetiu o processo com Mor'Rein — que nem olhou para ele, apenas estendeu a prata sem desviar os olhos do tomo — com Dahaka, que entregou o valor de forma desconfiada, e com Asher, que apenas assentiu, silencioso, e lhe deu as cinco peças.

Quando Ludus subiu para o quarto, bateu as moedas na palma da mão.

Vinte peças de prata.

Mais do que precisava.

Ele sorriu.

"O espetáculo recomeça."

A biblioteca da vila era minúscula — três prateleiras, um balcão que devia ter sido roubado de alguma mercearia velha e meia dúzia de velas lutando contra o frio. Mas Impetor entrou nela como se estivesse pisando em território inimigo.

Não sabia ler direito.
Nunca precisou.
Mas precisava estar ali.

Ele procurou, com movimentos imprecisos, por símbolos, desenhos, qualquer coisa que fizesse sentido. Era como estar procurando respostas num mar de tinta.

Tiamat.

A influência não diminuía.
Não calava.
Cada vez se aproximava mais, como um cheiro de enxofre que ele não conseguia lavar.

Ele tocou um livro sobre dragões cromáticos. Passou o dedo pela capa. O corpo tremia com uma mistura de raiva e medo.

"Eu não sou dela", murmurou.

Mas o estômago apertava como se fosse mentira.

E Impetor passou quase toda a tarde ali, enfiado entre livros que não compreendia… porque precisava tentar alguma coisa. Qualquer coisa. Mesmo que fosse inútil.

Do lado de fora, perto do rio, Asher treinava Mista. A loba prateada corria, rondava, obedecia com uma precisão instintiva. Ele a observava, orgulhoso… e simultaneamente pesado.

Quando ela parou para beber água, Asher acompanhou o movimento, olhando para o rio.

A superfície tremulava.
E, na onda que se distorceu, o passado o puxou como um soco no peito.

O cheiro de álcool veio primeiro.

Depois, a neve suja das vielas de Águas Profundas.

Asher — mais jovem, a barba rala, os olhos vermelhos e raivosos — tropeçava contra uma carroça, segurando uma garrafa pela metade.

Três homens apareceram na rua, rindo, carregando o brasão da Casa Schultz bordado nos mantos.

"Olha só o desgraçado que quer brigar", disse um deles.

Asher ergueu o punho. "Vocês… vocês deviam se ajoelhar. Devem respeito à Casa Greymane."

Os homens se olharam… e caíram na gargalhada.

"Greymane? Isso nem existe mais, seu bêbado. Todo mundo sabe que morreram queimados , malditos profanos."

Ele avançou — mas foi derrubado com um tapa.
Depois outro.
E outro.

No fim, estava na lama, e nenhum deles sequer o reconheceu como membro da sua própria casa. Era só mais um desgraçado puxando briga na rua.

O flash se quebrou quando Mista enroscou o focinho em sua mão.

Asher piscou forte.

"Eu sei", murmurou para ela.

E voltou a treiná-la, mas agora com o passado pesando sobre a nuca.

Dahaka ocupou uma mesa no canto da estalagem, espalhando papéis, tintas improvisadas, pedaços de tecido e documentos velhos que encontrou com um mercador local.

Era o primeiro dia.

A malandragem tinha despertado de forma clara naquela manhã. Como se sua mente tivesse destrancado algo — um instinto, um talento adormecido — e agora ele simplesmente soubesse como construir uma identidade perfeita.

Mas por que agora?

Porque estavam prestes a se infiltrar no baile de Greenwall.
Porque ele precisava se mover no submundo de Cormyr sem ser reconhecido.
Porque os Mozorov estavam estranhamente calados… e isso significava perigo.
E porque, pela primeira vez, Dahaka sentia que seu próprio nome poderia colocá-los em risco.

Assim começou o Dia 1.

Ele mergulhou a pena na tinta e escreveu:

Henrik Volarus — Comerciante das Terras Longevias.

Depois:

Histórico.
Profissão.
Cartas de recomendação.
Selos.

Quem o visse trabalhando diria que Dahaka parecia outro homem. Concentrado. Cirúrgico. Um artista da mentira.

No topo da colina atrás da vila, Mor'Rein estava sentado de pernas cruzadas, olhos fechados, mãos sobre o tomo que pulsava como um coração.

O familiar flutuava atrás dele, mas em silêncio absoluto.

Dentro de sua mente, a presença se abriu como uma rachadura no firmamento.

E Haddar falou.

"Pequeno véu que caminha… sombras famintas observam. O eco que toca metal não é metal, mas espelho, sim, espelho quebrado pelas mãos que não são mãos. O psiônico respira por três bocas. Não olhe a terceira."

Mor'Rein franziu levemente as sobrancelhas. "O psiônico. Você o sentiu. Ele nos observou."

Haddar gargalhou — um som afogado, molhado, como se viesse debaixo de um pântano.

"O que observa não observa. O que busca não busca. Ele comeu a asa de um pensamento e agora voa dentro da carne dos dias."

Mor'Rein abriu os olhos.

O céu estava laranja, distorcido como se algo se movesse atrás dele.

Ele respirou fundo.

"Eu entendo."

Talvez não entendesse.
Mas acreditava que sim.

Ludus contava as moedas no bolso enquanto caminhava entre as pequenas tendas de Sortilégio. O vento mexia nas lonas coloridas, trazendo cheiros de peixe fresco, pano úmido e especiarias baratas. Ele parou diante de uma barraquinha entulhada de quinquilharias brilhantes, e seus olhos se estreitaram como os de um gato.

Presentes.
Um para cada um.
Era o mínimo.

Pegou um pequeno ídolo de Selûne feito de prata barata para Asher; era kitsch, meio torto, mas brilhava sob a luz como uma estrela tímida — e Asher acreditava nas estrelas. Para Mor'Rein, escolheu uma pluma de cristal azul, esculpida para parecer uma pena arcana; elegante, fria ao toque, discreta como o próprio elfo. Para Impetor, ele riu ao ver um anel grosso de cobre com formato de garra — exagerado, chamativo e perfeito. Para Dahaka, escolheu uma pequena máscara de madeira esculpida com traços arcaicos; não sabia por quê, mas parecia… certa.

Já estava satisfeito, pronto para voltar para a estalagem, quando algo lhe arranhou a memória como unha velha em pintura descascada.

No canto da rua, onde antes ficara o acampamento mambembe de sua família… havia uma pequena tenda roxa. E uma placa desgastada, quase apagada pelo tempo:

Madame Morgana.

"Isso é novo..." Pensou Ludus.

O coração de Ludus deu uma girada no peito.

Ele não devia entrar.

Entrou.

A lona se fechou atrás dele, abafando os sons da vila.

A biblioteca estava silenciosa demais, silenciosa daquele jeito que incomoda até quem gosta de silêncio. Impetor folheava o livro enorme com mãos que pareciam grandes demais para aquelas páginas delicadas. Quando virou uma delas e deu de cara com uma ilustração imensa de Tiamat — cinco cabeças rugindo ao mesmo tempo — ele soltou um grunhido abafado e bateu a cadeira levemente para trás.

Darcia Fernoar
A bibliotecária levantou o rosto devagar, olhos semicerrados, expressão morta.

“Shhhhh.”

Impetor tentou recompor a postura, ajeitou o livro, respirou fundo. Um guerreiro, um sobrevivente do inferno, intimidado por uma velhinha de casaco rosa.

A voz apareceu às costas dele, grossa, amistosa, com humor na medida certa.

“Não podemos nos conter quando um livro resolve nos encarar, né?”

Impetor virou-se.
O meio-orc era enorme, presas grandes, pele marrom, ombros largos, cabelos negros. Tinha alguma coisa nele… uma calma estranha.

“Eu não… me assustei.” Impetor ajeitou o livro na mesa. “Só achei que...”

O meio-orc riu. Aquele tipo de riso que não zomba, só entende.

“Cromur Kroutch”, apresentou-se, estendendo a mão.

Impetor hesitou. Apertou a mão. “Impetor.”

Cromur Kroutch.
“Bom nome.” Cromur apontou para o tomo. “Impetor, sabia que você está com um dos exemplares mais completos de ‘A História dos Dragões’. Couro de wyvern, tinta de ouro, escamas de bronze na lombada. Escrito por um historiador genial que conversava com dragões como quem conversa com o padeiro.”

Impetor assentiu como se soubesse exatamente do que estava falando.

“Sim. Estava… estudando.”

Cromur deu um sorriso que dizia “sei que você não faz a menor ideia do que está olhando”. Mas não zombou.

“Se precisar de ajuda com alguma parte, já sabe meu nome.”

Ele seguiu para fora da bibloteca, recolheu seus papéis… mas antes de ir embora, passou ao lado da mesa de Impetor e pousou algo ali, como quem deixa sem querer.

“Até semana que vem, Darcia”, disse para a bibliotecária, que respondeu com um grunhido indiferente.

A porta fechou atrás dele.

Foi só alguns segundos depois que Impetor viu o livro sobre sua mesa.

A capa era macabra, parecia… viva.
Cartilaginosa, quente.
Pulsante.

Ele olhou para a porta. Cromur tinha desaparecido completamente.

“Esqueceu isso”, murmurou — mas por alguma razão, não correu atrás de imediato.

Quando finalmente tomou coragem e abriu a porta para procurá-lo, não havia ninguém na rua. Nada. Nem pegada na neve fina.

Ele voltou até o balcão.

“Ei. Aquele cara. Cromur. Ele vai voltar?”

Darcia piscou sem pressa.

“Espero que sim... Ele mora aqui.”

“Na vila?”

“Na biblioteca”, corrigiu, já voltando a escrever com uma caneta que parecia prestes a morrer. “É Dono dela.”

Impetor congelou.

Seu olhar retornou ao livro.

As páginas estavam completamente vazias.
Mas quando ele as manteve abertas por mais de alguns segundos, o branco começou a escorrer vermelho — gotas grossas, vivas, como sangue chorando da margem.

Ele recuou. As veias negras pulsaram com um solavanco doloroso, a cabeça latejou.

O sangue não manchava as páginas.
Mas parecia chamá-lo.

Impetor fechou o livro num estalo, respirando pesado.

Nada daquilo era um acidente.

Cromur o tinha escolhido.
Por quê… ele não fazia ideia.

Mas algo dentro dele — algo que ele negava admitir — sabia que esse livro tinha vindo para ele.

E o medo veio junto.

A tenda era escura por dentro, iluminada apenas por velas que ardiam em chamas azuladas, dançando como se sopradas por um vento que Ludus não sentia. Perfume de incenso, jasmim e fumaça quente. E no centro, sentada atrás de uma mesa coberta de tecidos roxos e dourados, estava ela.

Pele bronzeada, olhos escuros que brilhavam como brasas molhadas, cabelos encaracolados que caíam nos ombros com um volume selvagem. Braceletes tilintavam em seus pulsos, cada movimento calculado, ritmado, sedutor e inquietante.

Madame Morgana
“Bem-vindo, Ludus Lefou.”

Ele congelou.

Ela sorriu — aquele sorriso lento, perigoso, que antecede uma profecia ou um golpe certeiro.

“Eu estava esperando você.”

Antes mesmo que ele perguntasse como conhecia seu nome, ela começou a falar como quem lê uma peça já decorada.

“O palhaço que perdeu um irmão que nunca conhceu… O golpe tomado pelo Carontes alvos, rasgado diante de seus olhos. O menino que ainda carrega o riso no rosto, mas guarda uma lua minguante no peito.”

Ludus prendeu a respiração.

“É impressionante como você tropeça no destino com a mesma graça com que tropeça nos palcos.”

A frase o fisgou como anzol.

Ele se aproximou um passo.

Madame Morgana inclinou-se para frente, seus olhos refletindo as chamas azuladas. “Você está prestes a seguir um caminho perigoso, Ludus. Você e seus amigos buscam aquele que usurpou a coroa de Suzail. E não é uma estrada reta… mas uma estrada que retorna a antigos amores... e inimigos.”

Ludus tentou sorrir, tentando quebrar o peso da profecia.
“Olha… dona Morgana, né? Eu vim só dar uma olhada, não preciso—”

Ela levantou um colar.

Fino. Elegante. Corrente de prata viva, pingente escuro como obsidiana recém-lapidada. Havia algo nele… algo que parecia mudar de forma quando Ludus piscava.

“Todo ator precisa assumir faces, Ludus. E este colar… Pode ajudar nisso.”

Ele arqueou a sobrancelha.

“Moça, eu não tô interessado em bijuteria, não. E essa nem combina com meus olhos.”

Morgana riu, um som melodioso e perturbador.

“Não é qualquer bijuteria. É um colar de transfiguração verdadeira. Quase impossível de detectar até por olhos arcanos.”

Ludus se aproximou, o interesse já evidente.

“Como funciona?”

“Ele precisa conhecer a pessoa que você quer copiar.”
Ela ergueu o colar com elegância teatral. “Uma mecha de cabelo basta. Uma gota de sangue. Um fio de barba. Ou… um cuspe.”

Ludus fez uma careta imediata. Mas logo foi substituído por uma expressão de almejo.

O sorriso dela se abriu ainda mais.

Ele esticou a mão, prestes a tocar o colar—

Morgana o recolheu num puxão suave.

“Mas como você já deve suspeitar… nada nesta vida é de graça.”

Ludus cruzou os braços.

“Tá. Quanto custa?”

“Quero apenas… um pedacinho de você.”
Ela tocou a própria têmpora.
“Uma mecha de seu cabelo.”
E depois levantou quatro dedos.
“E uma mecha de cada um de seus quatro companheiros.”

Ludus respirou fundo, calculando como faria isso.

Morgana se inclinou, confidente.
“O meio-dragão… ele não tem muito, não é?”
Ela fez o gesto de uma cabeça calva com a mão, divertida.
“Uma escama serve.”

Ludus pegou os presentes que comprara mais cedo e saiu da tenda devagar, com o olhar distante. A neve fina começava a cair. Ele caminhava com a mente cheia de fios — alguns de cabelo, outros de destino.

O grupo se reencontrou próximo ao cais.

Asher terminava de recolher equipamentos depois do treino com a loba prateada, que agora o seguia fiel e silenciosa. Impetor ainda parecia perturbado, mas tentava esconder o fato. Dahaka trazia documentos meio amassados, mas importantes. Mor'Rein surgia como uma sombra, seus olhos ainda com o brilho psíquico da conversa com seu patrono.

Ludus sorriu para todos — um sorriso que tinha mais propósito do que alegria.

“Todos prontos? Partimos na próxima balsa.”

Antes de embarcarem, ele reuniu o grupo em círculo.

“Tô achando que… a gente precisa de um símbolo. Algo que lembre que estamos juntos nisso. Mesmo agora.” Ele tirou os pequenos pacotes embrulhados em tecido barato e entregou um a cada um. “Trouxe uma coisinha pra cada um de vocês.”

Asher abriu e encontrou o pequeno ídolo de Selûne. "Ludus você não preci-"

"Precissava, sim." No fim do dia aquela conversa na caverna mostrou que essa trupe tá se atropelando e perdendo o rumo."

Mor'Rein ergueu a pluma de cristal com uma sobrancelha levemente surpresa. "Se é que já tivemos um rumo."

Impetor riu do comentário e do seu anel exagerado.

Dahaka virou a máscara nas mãos, pensativo. Mas secretamente contente, nunca houverá ganhado um presente antes, jamais.

“Olha… não tem espetáculo sem público, não tem companhia sem confiança e não tem missão sem que a gente seja… um time. Então pensei numa coisa.”
Ele pôs a mão no coração.
“Vamos fazer um voto. Um simples. Um que se leva no corpo.”

Tirou do bolso uma pequena fita de couro.

“Cada um me dá uma mecha de cabelo. Só um fio. Eu amarro tudo junto. Um símbolo da gente.”

Eles estranharam — claro que estranharam — mas o clima recente deixava todos vulneráveis. Um gesto de união parecia necessário.
Um a um, entregaram.

Até Impetor. Que não tinha mecha, mas arrancou uma escama pequena do ombro com um estalo seco.

Ludus guardou tudo com cuidado. E os Heróis se olharam cumplíces, não precissavam mais de palavras, as que Ludus havia dada já foram os sufiiente. 

Partiram em direção a barca, com Ludus dando uma desculpa e ficando para trás.

Não muito tempo depois Ludus entrava novamente na cabana de mais cedo.

E lá está Morgana. O sorriso enigmático, o perfume suave de especiarias, a postura teatral.

Ela apenas inclina a cabeça, estende o colar entre dois dedos, como quem oferece uma jóia rara num leilão clandestino, e deixa que Ludus o tome.

Ludus agradece e empurra o tecido da tenda para sair.

A porta de contas chacoalha atrás dele.
O som apaga-se quando ele se afasta pela terra batida da vila, diminuindo entre o barulho das balsas e dos mercadores chamando clientes.

Só então, quando seu passo desaparece completamente…

…a luz dentro da tenda muda.
A chama das velas enverga para trás como se algo sugasse o ar.
O cheiro de especiarias se torna rançoso, podre.
A seda vermelha das paredes trêmula.

Morgana ergue o rosto — e ele rasga.
A pele bronzeada rui como uma máscara de pó.
O sorriso se estica até o peito.
Os olhos viram duas poças leitosas.
O cabelo se transforma num ninho de fios duros como raízes.

A Megera Noturna toma sua forma verdadeira, púrpura, ossuda, retorcida.

Os fios de cabelo agora em suas mãos, uma energia pulsa no escuro.

Ela observa a direção por onde Ludus partiu.

E então ri.

Um riso baixo, rouco, vindo não da garganta, mas do fundo de algo antigo e faminto demais para ter nome.

“Prendam-se bem uns aos outros… pequeninos.”
Sua voz é como metal arranhando pedra.
“Vocês vão precisar.”

A tenda apaga.
Do lado de fora, Ludus segue seu caminho, completamente alheio ao fato de que selou — não um pacto — mas uma dívida.

A tripulação chamou os passageiros.

Os cinco embarcaram na balsa, carregados pelo vento que descia o rio Dessarie. As águas refletiam o céu cinza de inverno, cortadas apenas pelo casco que os levava, pouco a pouco, para o próximo erro… ou para a próxima vitória.

O rio avançava.

E o destino avançava com eles.



EPISÓDIO 21 - A NOITE EM QUE NINGUÉM ERA NINGUÉM
Data:  19 de Nightal, 1372 CV - 20:30
Local: Rio Desarie, em direção a Profundáguas, Costa da Espada.

A última balsa do dia avançava preguiçosa pelo curso largo do Dessarie. A madeira velha rangia, embalada pelo ritmo lento das águas escuras. O rio parecia respirar — cada ondulação empurrando a embarcação como um suspiro cansado. O ar de Nightal cortava como lâminas finas, atravessando roupas, peles, músculos, até tocar os ossos dos cinco heróis. O frio não era apenas temperatura: era presença. Um lembrete constante de que o ano estava morrendo… e o mundo também.

Às margens, o cenário não oferecia consolo.
Onde antes haviam taludes verdes, congelados pela chegada do inverno, agora só existiam franjas de lama negra, rachadas e fumegantes em pequenos pontos. Áreas inteiras do rio pareciam… enfermas. Peixes mortos boiavam de barriga para cima, infectados por veias arroxeadas que marcavam seus corpos como raízes venenosas. Troncos retorcidos emergiam da água — árvores outrora vivas, agora ocadas pela Praga Necromântica, que apodrecia tudo o que tocava por dentro antes de matar por fora.

Alguns trechos do Dessarie simplesmente não se moviam.
A água, pesada como sangue coagulado, ficava estática por alguns segundos, antes de voltar a fluir com um estalo úmido, como carne sendo rasgada. Uma criatura — se é que ainda podia ser chamada assim — afundava ao longe, movendo-se por baixo da superfície com membros que não obedeciam mais às leis da vida. O rio inteiro era um lembrete de que o continente estava sufocando.

E então, entre a névoa, eles a viram.

ÁGUAS PROFUNDAS.

A Cidade dos Esplendores.
A Coroa do Norte.
Luz e grandeza em uma era que parecia perder seus deuses.

Primeiro veio o brilho dourado das torres.
Depois, o contorno dos muros.
E enfim o vasto anfiteatro urbano espalhado pela colina, como uma joia que recusava-se a ser apagada.

Ela permanecia soberana.
Mesmo cercada por invernos rigorosos, guerras intermináveis e agora essa praga maldita que consumia tudo na fronteira do mundo.
Mesmo assim, Waterdeep ainda brilhava.

As casas amontoadas, os becos labirínticos, os estandartes tremulando no vento — tudo ali era movimento, vida, comércio, intriga. Uma cidade que jamais dormia, e jamais esquecia. Era o coração do Norte. O elo mais forte da Aliança dos Lordes. O porto mais profundo e mais cobiçado de toda a Costa da Espada.

Mais de cem mil almas chamavam aquele lugar de lar.

Mas para Asher Greymane, aquilo não era lar.

Ele observava o horizonte por tempo demais.
Os dedos apertavam o corrimão da balsa, a madeira rangendo sob a força que ele tentava controlar.
Seu maxilar estava travado.
O vento frio batia em seu rosto, mas mesmo assim transpirava, mas o suor nas têmporas não vinha de algum calor.

Vinha da memória.

A cidade à frente era o berço da glória de seus antepassados — os lendários Greymane, caçadores de monstros que esculpiram seu nome nas eras.
E também era a tumba deles.
Foi ali que a linhagem foi expurgada, acusada de licantropia, traída por aqueles que um dia chamaram de aliados, e jogada ao fogo da suspeita e do medo.

Águas Profundas havia mastigado a família de Asher.
E cuspido apenas ele.

Combater corruptores, aberrações, criaturas da escuridão?
Isso nunca tirou o sono do último Greymane.
Mas os demônios políticos de Waterdeep… ah, esses eram os que remexiam seu estômago.
Os que sorriam enquanto escondiam facas.
Os que apertavam sua mão e, na mesma noite, vendiam sua cabeça.

Demônios como Haroldo Benthor.

A lembrança caiu sobre Asher como um peso.
E com ela, o propósito que trazia o grupo de volta àquela cidade traiçoeira.

Eles precisavam entrar clandestinamente no baile do castelo de Greenwall, uma fortaleza localizada fora dos muros externos da cidade — um local onde nobres exibiam suas máscaras e seus venenos em festas luxuosas.

E aquela festa, em particular…
Aquela era patrocinada por ele.
Haroldo Benthor.
O atual Rei de Cormyr.
Um homem cujo sorriso era uma sentença de morte.

E era por isso que estavam ali.
A balsa avançando lentamente.
O frio apertando seus ossos.
A cidade se aproximando como um predador antigo, abrindo seus portões como uma boca faminta.

E Asher, o último Greymane, voltava para o lugar que tentou enterrá-lo.

Era noite de Nightal.
E o destino estava ansioso para recebê-los.

A balsa finalmente tocou a doca improvisada — uma estrutura frágil, iluminada por dois lampiões tremeluzentes que lutavam contra o vento frio. Os heróis desceram, aliviando o peso que fizeram a madeira gemer por todo o trajeto. Mas eles não haviam viajado sozinhos.

Outros passageiros desembarcaram em seguida: três nobres, trajando capas pesadas forradas de peles, cujos botões brilhavam demais para serem práticos. Um deles limpava o sapato com nojo do chão úmido; os outros cochichavam, ansiosos — perfumes caros tentando se sobrepor ao cheiro pútrido do rio doente.

Foi Dahaka Akmenos quem percebeu primeiro.
Seu olhar, sempre avaliando, sempre calculando, se estreitou.

Convidados”, murmurou, quando o grupo se afastou. “O cheiro e toda pompa não negam. Vão para o baile.”

E ele estava certo. Era óbvio: ninguém com aquela postura nobre e joias ostensivas dividiria a última balsa da noite, a menos que tivessem pressa para alcançar Greenwall.

O baile começaria em meia hora.
Vinte e uma horas.
Trinta minutos para um plano.

O grupo subiu por um pequeno trecho de pedras irregulares, encontrando um rochedo com boa visão da colina adiante. Dali, erguia-se o Castelo de Greenwall — e o nome nunca parecera tão literal.

A construção não era imponente como as grandes fortalezas do Norte. Era mais… funcional. Parecia um forte pequeno, com paredes grossas, quadradas, e torres baixas. Seus blocos de pedra eram antigos, carregando eras de intempéries. Mas o detalhe que realmente chamava atenção era o que o nomeava:

Vinhas.
Incontáveis vinhas grossas, rastejantes, de um verde quase negro cobriam paredes inteiras.
Elas subiam como se procurassem escapar do solo. Outras se torciam como serpentes, dando ao castelo um aspecto vivo. As luzes internas, filtradas por entre os ramos, criavam sombras distorcidas de nobres caminhando em direção aos salões de festa.

Asher, sentado sobre uma pedra, observava o castelo com olhos que não escondiam o passado.

Greenwall sempre ficou fora dos muros,” ele começou, sua voz baixa, mas firme. “No começo era só um posto de vigia… depois virou casa de veraneio de um dos velhos lordes da cidade. Era mais fácil controlar quem entrava e saía daqui do que dentro de Waterdeep.”

Ele pousou a mão na terra fria ao seu lado.

“E essas vinhas… não são só decoração. Dizem que o primeiro senhor daqui tentou fazer crescer um jardim inteiro na pedra. O encanto deu errado. Agora elas nunca param de crescer.”

Asher contou sem olhar para ninguém. Não era palestrar — era lembrar, pesar.

A luz do castelo os chamava.
O tempo os pressionava.

Ludus estalou os dedos, animado e nervoso ao mesmo tempo, os olhos cintilando entre o castelo e o céu.

“Então vamos lá… recapitulando antes que a gente se enfie nessa fria.”
O tom dele era leve, mas a mão apertando o cabo do pandeiro traía tensão.

Dahaka cruzou os braços.
“Três objetivos. Não podemos errar nenhum.”

Impetor  bufou.

“Mais ladainha.”

“Ladainha que pode salvar nossos pescoços se bem organizada.”
Ludus deu um sorriso, mas seus olhos estavam calculando rotas, entradas, guardas.

Mor’Rein, apoiado em seu cajado, observava o castelo com a mesma expressão com que se observa uma tumba antiga que se sabe estar prestes a abrir.

“Concentrem-se,” ele disse, voz baixa, quase um sussurro místico. “Haroldo Benthor está lá dentro. E ele não organiza festas. Ele arma armadilhas com música e vinho.”

Asher respirou fundo. A cidade por trás deles, o castelo à frente. Uma vida inteira entre duas pontas de uma lança.

Ele falou devagar, o subtexto evidente: medo não de monstros — mas de homens.

“Objetivo um,” disse ele. “Descobrir o que Benthor está tramando aqui.”

Dahaka inclinou a cabeça.
“E objetivo dois: identificar quais lordes da Aliança estão servindo como representantes dele. Ele não botaria o pé em Waterdeep sem aliados fortes.”

Mor’Rein completou:
“E por último… descobrir qualquer ligação com os Mozorov.”

Impetor, inquieto, batia o pé.
“E tudo isso… sem chamar atenção. Claro. Porque nós somos conhecidos por sermos discretos.”
O sarcasmo escorreu pesado, mas por trás dele havia medo genuíno de falhar.

Ludus, por outro lado, abriu um sorriso de canto a canto.

“Meu amigo, nós somos artistas. Discrição é só uma atuação diferente.”

Os cinco olharam para o castelo ao longe.
Luzes, risos, carruagens chegando.
O baile já respirava.

A trilha era curta, mas sinuosa o suficiente para afastá-los de qualquer olhar curioso. Os heróis se enfiaram em outra das pequenas cavernas naturais que pontilhavam a encosta — um buraco úmido que cheirava a musgo, terra fria e solidão.

O som abafado da festa distante — carruagens chegando, música vazando do castelo — chegava como um eco distorcido.

Ali dentro, apenas eles, o frio, e a claridade vacilante da tocha de Asher iluminando seus cinco rostos tensos.

“Então,” começou Dahaka, ajeitando a postura como quem assume o comando. “Precisamos entrar naquela festa sem levantar suspeita. Vamos nos passar por convidados.”

Ele olhou para Ludus.

“Você ainda tem aquele Kit de Disfarces?”

Ludus abriu um sorriso que era a definição de confiança imprudente.

“Tenho sim… mas isso não será necessário!”

O bufão enfiou a mão dentro da mochila e puxou o colar.

Obsidiana negra. Brilhando de forma nada natural.
Quase pulsante.

Mor’Rein ergueu uma sobrancelha, desconfiado desde o primeiro segundo.

Asher franziu o cenho.
Impetor inclinou a cabeça, interessado.
Dahaka cruzou os braços, pronto para analisar.

Foi Dahaka quem perguntou o que todos pensavam:

“…e isso aí é o quê, exatamente?”

Ludus girou o pingente nos dedos — teatral, como sempre.

“Ah, isso é muito mais fácil de demonstrar do que explicar.”

E antes que alguém pudesse protestar, ele arrancou um fio de cabelo de Asher.

“AI! Mas você—!”

“Shhh. Atenção ao truque.”

Ele colocou o colar no pescoço.

O pingente brilhou.

Um sopro quente de ar percorreu a gruta — como se a caverna respirasse.
As sombras tremeram.

E então Ludus começou a mudar.

As bochechas afinaram.
As sobrancelhas engrossaram.
O nariz encurtou.
A barba rala cresceu num estalar de pele.
Os olhos ficaram do mesmo tom acinzentada de Asher.

Em segundos, Ludus virou Asher.

Quase.

A roupa continuava idêntica:
jaqueta colorida, lenço com sininhos, calças remendadas e o maldito pandeiro pendurado na cintura.

A forma era igual.
A estética? Absolutamente não.

Asher apertou os olhos, desconfortável:

“…Essa vai ser uma imagem difícil de sair da cabeça.”

Ludus-Asher sorriu com o mesmo sorriso torto do original:

“Relaxa, gatão. Te falta o charme.”

Mor’Rein se aproximou, lento, estudando o colar como se fosse um artefato proibido — e talvez fosse.

“Sua última aquisição tem cheiro de… barganha. Onde você conseguiu isso, Asher— digo… Ludus.”

O palhaço se enrolou.

“Ahn… err… um presente! É! Uma… antiga amiga! Uma… uh… mística da região!”

“Que tipo de mística?”

“Do tipo que usa perfume caro e fala baixo demais pra você entender o que ela diz. Coisa chique.”

Mor’Rein não acreditou.
Mas não continuou o interrogatório.
Por ora.

O Colar Passa de Mão em Mão. Dahaka pegou o colar, testando o peso. Asher analisou o efeito para pensar na infiltração. Mor’Rein mediu possíveis riscos arcanos.
Ludus explicava vantagens táticas, gesticulando com entusiasmo.

Ninguém percebeu o detalhe:

Impetor estava segurando-o agora.

O Meio-Dragão olhou para o colar com aquela expressão infantil de quem encontrou uma caixa de ferramentas proibida.

“Então se eu colocar isso no pescoço e—”

Ele arrancou um fio de cabelo de Mor’Rein.

PLOP.

A transformação foi instantânea.

Impetor virou uma versão magra, arqueada, sombria de Mor’Rein…
Vestindo a armadura de gladiador, comicamente folgada em sua nova forma.

“Muito magro”, Impetor analisou, desapontado.

“... E Impetor e vocês podem esperar aqui fora.”, falou Ludus.enquanto deliberavam o plano.

Mas Impetor não ouviu.

Ele já tinha arrancado cabelos de Dahaka.

E agora era Dahaka, mas com escamas aparecendo no rosto, olhos vermelhos pulsando maldade.

Os quatro discutiam o plano, de costas, sem notar nada.

Impetor, fascinado, segurava dois fios — um de Mor’Rein e um de Dahaka — e murmurava:

“O que acontece se eu… ?”

Asher terminou:

“…e interceptamos um nobre na estrada, certo? Então um de nós—”

PLOC.

VRRRRTTTTT.

POF!

Um clarão vermelho tomou a gruta.

Um cheiro de cabelo queimado — e escama torrada — invadiu o ar.

Todos se viraram.

Impetor estava coberto de carvão, olhos arregalados, segurando o colar em duas metades perfeitamente quebradas.

Silêncio.

Longo.

Pesado.

Ludus colocou as mãos na cabeça.
Respirou fundo.
E com a calma assassina de quem está prestes a cometer violência:

“Impetor…
…você é a pior coisa que já aconteceu ao conceito de magia.”

Mor’Rein apenas fechou os olhos, aceitando o destino.

Dahaka suspirou:
“O plano mudou.”

E ali, no frio da gruta, com o colar destruído em pedaços na mão do Meio-Dragão, a noite antes do baile de Greenwall começava… do jeito mais caótico possível.

A pequena gruta parecia ainda menor com três deles encostados na parede de pedra:
Asher, sério; Dahaka, calculando e escrevendo em papéis;Mor’Rein, mergulhado em algum abismo mental que ninguém ousava perturbar.

Ludus entende que mais uma vez o improviso seria inevitável.

O bufão jogou a mochila no chão e abriu o Kit de Disfarces como um cirurgião abrindo a caixa de ferramentas antes de uma operação urgente.

“Impetor, senta aqui.”

O Meio-Dragão bufou, cruzando os braços.

“Por que tem que ser eu? Eu odeio bailes! O Dahaka é uma escolha bem melhor e—”

“Fica quieto.” — cortou Ludus, já subindo numa pedra para alcançar o rosto do grandalhão.
“Vai ser você pelo simples fato de que foi você quem quebrou a porcaria do colar, e eu sinceramente acho que seu cérebro só aprende de forma prática que AÇÕES…”
Ele apertou o queixo de Impetor para estabilizar.
“…TÊM CONSEQUÊNCIAS.”

Impetor bufou de novo, mais alto.

“…e também porque vou usar um feitiço de invisibilidade para o Dahaka entrar por outro caminho.” completou Ludus, rápido, enquanto tentava pintar escamas com a precisão de alguém montando uma armadilha explosiva vendado.

Do outro lado, Mor’Rein passava a mão pelo familiar pousado no ombro, enquanto girava metade do colar partido entre os dedos.
Os olhos dele percorriam as inscrições rachadas… e, inevitavelmente, escorriam até Ludus com uma desconfiança silenciosa.

O bufão não notou.
Estava ocupado praguejando.

“Droga… o vermelho tá acabando.”
Ele analisou o pote quase seco, depois o rosto de Impetor já meio pintado.
Calculou: Começar do zero? Seria um tormento.

“Bah. Não tem problema.”
Misturou vermelho com branco sem hesitar.
“Vai dar certo. Eu espero.”

Dahaka se aproximou, entregando três pergaminhos enrolados.

“Terminei aqui.”
As pupilas escarlates piscavam, sérias.
“Lembrando: isso só serve em último caso. Eu copiei dos pergaminhos de linhagem do Asher… não são perfeitos. Mas quebram o galho.”

Ele apontou para Impetor.

“Você agora é Professor Doligmar, um membro respeitado da Academia. Sabe como vai entrar, Ludus?”

O bufão abriu um sorriso largo demais.

“Hmm… professor, né? Já sei. Serei Percival Stagfollower, um jovem erudito dedicado às teses do professor Doligmar, obcecado em ganhar prestígio, seus hobbies são—”

Dahaka levantou a mão, interrompendo antes que Ludus criasse uma biografia de três livros.

“Só o nome é suficiente.”

Ludus fez uma careta de inocência teatral.

Asher se aproximou, ajustando a armadura e olhando para o céu pela abertura da gruta.

“Estamos prontos. O baile já está enchendo.”

“Ai, Nossa Senhora da Alegria…” murmurou Ludus.
“É difícil trabalhar nessas condições. A luz dessa lanterna… Bom, só mais alguns toques e…”
Ele deu pinceladas rápidas, fazendo caretas de concentração.
FINITO.

Deu dois passos para trás, empurrando o peito empolado como um artista revelando sua obra-prima.

E Impetor virou…

Um draconato vermelho.

Ou quase.

O problema é que o vermelho tinha acabado — e a mistura com branco resultou num tom… rosado.
Muito rosado.

Asher e Dahaka se entreolharam.

Silêncio.

Um daqueles silêncios que doem.

Impetor piscou, inocente.

“…O que foi?”

A resposta veio em forma de gargalhada simultânea.
Alta. Sincera. Desesperada.

Impetor fechou a cara, resmungando enquanto vestia um enorme casaco de pele do Kit de Disfarces para esconder o resto das escamas prateadas.

“Vamos logo com isso.”

E Ludus sorriu, batendo palminhas.

“Perfeito, professor Doligmar. Perfeito.”

Ludus se aprontou como quem troca de pele.

Primeiro, limpou meticulosamente a maquiagem de bufão — cada traço colorido, cada borrão que lhe dava aquela identidade tão reconhecível quanto incômoda.

Depois, colocou lentes castanhas, escondendo o contraste hipnótico dos olhos heterocromados.

A peruca veio em seguida: castanha, presa num rabo de cavalo elegante, firme, quase aristocrático.

Vestiu a camisa de linho.

O colete marrom.

A jaqueta preta bem ajustada.

E, por fim, inclinou o pequeno espelho rachado do Kit de Disfarces para ver o próprio reflexo.

Nenhum traço do palhaço.

Nenhum traço do bufão.

Um estranho olhava de volta para ele.

Ludus sorriu — um sorriso discreto, contido, quase… maduro.

“Perfeito.”

E partiram.

Dahaka seguia ao lado deles, passos silenciosos, postura relaxada demais para alguém armado até os dentes.

Asher montava Mista e circulava a área como um lobo rondando o território inimigo — atento e inquieto.

Nos céus, Mor’Rein patrulhava como uma sombra alongada pelo luar, olhos cravados no baile que brilhava ao longe.

Enquanto avançavam, o som chegava primeiro: música viva, alegre, incongruente com o mundo moribundo lá fora.

Seguido pela claridade: lamparinas, tochas, cristais mágicos formando um colar de luz ao redor do forte.

Quando chegaram a poucos metros, Ludus levantou as mãos, murmurou cantigas rápidas — e Dahaka se dissolveu no ar como uma vela apagada.

A luz do baile atravessou o espaço onde o tiefling estava.

Ele havia sumido.

Ludus exalou, assumindo seu papel com gravidade repentina.

“Agora é com a gente.”

Impetor engoliu seco sob o casaco de pele.

As carruagens chegavam em fila — um desfile luxuoso de cavalos ornamentados, rodas douradas e sedas finas tremulando na noite fria.

Mas o mais impressionante eram os símbolos.

Quase todas vinham adornadas com: Amuletos de Lathander, reluzentes contra a necrose do mundo; Sinetes de Tymora, presos como bênçãos improvisadas; Pequenas runas de proteção contra pestilência; Até máscaras de louros inoxidáveis usadas não por elegância… mas por medo.

Era claro que ninguém confiava na estrada. A praga necromântica deixara marcas demais, corpos demais, rumores demais. Casacas bordadas desciam das carruagens.Vestidos longos arrastavam poeira prateada.Perfumes caros tentavam — em vão — esconder o cheiro distante de lama morta.No ar, tensão mascarada de festa. 

E foi nesse teatro social que Ludus afundou sem hesitar. O Personagem Ganha Vida Ele endireitou a coluna. Elevou o queixo. Afinou os gestos, suavizando-os. Seu passo mudou: mais leve, mais intelectual, mais… “erudito jovem em busca de prestígio”. Respirou fundo — e deixou Percival Stagfollower assumir.

Impetor, ao lado dele…

Bom.

Impetor era um desastre preso em um casaco de pele.

As escamas rosadas brilhavam como se fossem o acessório mais ofensivo da noite. Seu andar era truncado, pesado demais para um “prestigiado professor da Academia”. Ele parecia um ogro tentando se passar por menino.

“Você tá forçando o passo.” murmurou Ludus pelo canto da boca.

“Eu tô andando.” rosnou Impetor.

“Então tenta andar menos.”

“Como é que eu vou andar menos, Ludus?!”

“Silêncio. Professores não berram na entrada de bailes nobres.”

Impetor travou a mandíbula.

Tentou andar como já vira Dahaka andar.

O resultado foi… pior.

Parecia um cavalo recém-nascido tentando desfilar.

Ludus disfarçou uma expressão de pânico.

Os nobres à frente deram uma olhada breve — o tipo de olhar que mede, julga e categoriza em um segundo — e seguiram.

O grande portão de Greenwall se abria enquanto eles se aproximavam.

Luz quente, música alta, um mundo de riqueza… E dois impostores entrando pela porta da frente.

Os guardas na entrada eram dois. Dois apenas. Mas dois o suficiente para arruinar absolutamente tudo. E claro — tinham bigodes ridiculamente encerados, cotas de malha polidas demais e aquela postura de quem leva o trabalho a sério demais só porque finalmente recebeu um turno importante.

Assim que Ludus e Impetor se aproximaram, ambos bateram as manoplas no peito e fizeram uma mesura cumprida demais, quase exagerada.

"Boa noite, senhores. Documentos, por favor." disse o da esquerda, com um sotaque que tentava parecer nobre, mas soava como alguém engasgando com um caroço de uva.

Impetor congelou na hora.

Ludus viu os ombros do draconato travarem — o que significava que, em exatamente três segundos, ele abriria a boca e falaria alguma atrocidade. Então Ludus entrou na frente quase dançando.

"Documentos? Documentos?" ele ergueu a voz como se tivesse ouvido a coisa mais absurda daquela noite. "Meu caro… meu bom homem…"

O guarda piscou.

Ludus deslizou um passo à frente, colocando uma mão no peito de Impetor, empurrando-o suavemente para trás — como se estivesse apresentando uma figura grandiosa.

"… você sabe com quem está falando, não sabe?"

A frase foi dita com tanta pompa, tanta indignação ensaiada, que até Impetor olhou de lado, como quem pensa caralho, é comigo isso?

O guarda da direita pigarreou.

O da esquerda tentou se justificar:

"Sim, senhor, claro, mas… é protocolo do castelo pedir identi—"

"Pro-to-co-lo??" repetiu Ludus, escandalizado, como se a palavra fosse veneno. "Meu bom soldado, este homem aqui…"

Ele abriu os braços, teatral.

"… é o Professor Doligmar Albrecht von Hobenfurt, da Academia Real de Estudos Arcanobiológicos Avançados!"

Impetor só conseguiu fazer um aceno rígido. Parecia um tatuzinho tentando parecer majestoso.

"Hobenfurt." repetiu Ludus, com um sussurro grave, íntimo. "Eu não sei se você percebe a… delicadeza… da situação."

Os guardas piscavam rápido. Não sabiam quem diabos era Doligmar Albrecht von sei-lá-o-quê, mas parecia importante. E — pior — as pessoas começaram a olhar para a cena.

Mulheres com leques pararam de abaná-los.
Um nobre com bigode fino arqueou uma sobrancelha, curioso.
Duas jovens pararam de rir no canto.

Os guardas sentiram o peso do olhar alheio descendo sobre eles.

O da direita tossiu, nervoso.

"B-bem… se é assim… não queremos causar constrangimento a ninguém de… tão… renomada… posição…"

"Excelente." Ludus sorriu com a cortesia de quem oferece um tapa embalado em veludo. "Fico feliz em ver soldados tão… sensíveis à etiqueta."

Ele inclinou levemente a cabeça — o tipo de reverência que não reverencia ninguém.

Os guardas abriram caminho rápido, quase tropeçando um no outro, desesperados para encerrar o mico coletivo.

"Podem entrar! Aproveitem o baile." disse o da esquerda, suando como um porco assado.

Impetor passou primeiro.
Ludus atrás.
E atrás deles — invisível, silencioso, como um fantasma carregado pela vontade tensa de Ludus — Dahaka deslizou para dentro.

Ludus sentiu a magia como uma corda extremamente fina — frágil, esticada, tremendo com cada passo. Segurar aquela concentração enquanto atuava era como caminhar sobre gelo fino segurando fogo nas mãos.

Mas funcionou.

Eles entraram.

Greenwall por dentro era magnífico. O baile estourou diante deles como uma pintura viva.

Tecidos violetas pendiam das colunas.
Lanternas cristalinas derramavam luz azulada sobre o salão.
Uma orquestra elevada no mezanino tocava valsas rápidas com um toque militar, ritmado.

A decoração lembrava Suzail imediatamente.
Não por acaso.

Estendia-se pelos arcos e banners o mesmo tom de roxo profundo que marcava a realeza do Reino Púrpura.

E então eles viram.

Dragões Púrpuras.

Patrulhando discretamente entre os convidados.
Elmos com penachos lilases.
Espadas embainhadas, mas prontas.
Olhares treinados observando tudo.

Ludus sentiu o estômago afundar quando identificou dois deles conversando no corredor lateral — uniformes impecáveis, postura dura, disciplina militar impecável.

Benthor poderia estar ali ou poderia não estar. Mas uma coisa era certa: Ele queria que sua presença fosse sentida.

Até Impetor franziu o cenho diante da exibição de poder. O baile era uma festa mas parecia mais um aviso. E os três — Impetor, Ludus e um Dahaka invisível — tinham acabado de entrar direto no coração do território do rei.

“Muito bem, Impetor… Dahaka vai ficar responsável por explorar o local atrás de Benthor… A gente fica com o trabalho difícil de descobrir quem é o representante da Aliança dos Lordes que está fazendo negócios com o mais novo rei careca de Suzail. Permaneça perto de mim e não—”

Ludus parou.

Ele estava falando com o vento.

O pânico veio instantâneo.

Ele girou o pescoço, procurando o ser rosa que estava com ele, como quem procura uma criança perdida numa feira, até que o viu: Impetor, a uns bons quinze metros dali, já meio afundado numa mesa, devorando canapés como se fosse um eremita em jejum e enchendo taças de champanhe como baldes d’água.

E, claro, o desastre social tomou forma imediatamente.

Dois nobres escorregaram até ele com a precisão de abutres farejando carniça: um halfling de roupas finíssimas, com um colete verde tão vivo que parecia cuspido por um pavão; e uma mulher pescoçuda, altíssima, com uma peruca branca tão exagerada que a tornava praticamente uma torre ambulante.

O halfling abriu um sorriso fino.

“Mil perdões, nobre cavalheiro…”

Impetor demorou uns longos segundos para perceber que aquilo era direcionado a ele. Isso enquanto mastigava seis canapés de uma vez só.

O halfling continuou:

“… mas nós acabamos por ouvir o escarcéu que seu criado fez na porta.”

Impetor virou-se lento, pesado, as bochechas estufadas de comida. Um fiozinho de molho escorreu.

A mulher esguia inclinou o pescoço absurdamente longo e sibilou:

“Se meus ouvidos não me enganaram… ele mencionou algo sobre a Academia Real de Essstudos Arcanobiológicos Avançados?”

“Sim?” disse Impetor, com a entonação de alguém que não fazia ideia do que estava concordando.

Ludus viu a cena se formando como um pesadelo. Tentou correr até eles, mas uma pequena multidão de curiosos se formava ao redor do draconato rosado, soprando leques, virando pescoços, inclinando monoculos.

O halfling, animado, deu um passo à frente:

“Doligmar Albrecht von Hobenfurt, correto? E o senhor já publicou algum livro? Talvez eu tenha lido algum! Sou um leitor eclético, apaixonado por conhecimento!”

“Sim. Professor. Livros. Pubiano.” murmurou Impetor, cada palavra mais baixa que a anterior, como se estivesse rezando para si mesmo.

O halfling piscou, confuso… mas não mostraria isso. Jamais.

A mulher esguia, porém, atacou:

“E sobre o que eles tratam exatamente?”

“Hããã… letras.” respondeu Impetor, com uma confiança suicida.

Ludus chegou a tempo apenas para assistir a palavra “letras” cair no chão como uma bigorna.

Silêncio.

Os nobres o encararam.

O halfling, então, soltou um estalo de dedos, iluminado pela própria arrogância:

“Claro! Claro! A palavra é a base de qualquer estudo arcanista! A palavra molda o mundo, e as letras moldam a palavra!” Ele se inflou como um sapo satisfeito. “Quanta profundidade! Fascinante!”

Ludus finalmente respirou.

É claro. Como ele pôde esquecer?

A maior arma contra os nobres… era a própria prepotência deles. Nunca que aquele pequeno pavão halfling admitiria que não entendeu nada. Nunca. E isso acalmou Ludus. Impetor podia falar qualquer besteira que quisesse. Ninguém suspeitaria.

Lá fora, Mor’Rein pousava a vassoura sobre o telhado lateral do castelo, sentindo o vento frio cortar o ar.

Em silêncio absoluto, ele subiu até uma das grandes janelas altas — cerca de dezoito metros acima da entrada principal — e parou sobre a vassoura, imóvel como uma estátua negra suspensa no ar.

De lá, sua visão era perfeita.

Ele via Ludus se afastar de Impetor.
Via o draconato rosado cercado por nobres curiosos.
E assumiu — com razão — que Dahaka já estivesse infiltrado, invisível.

O bruxo então voltou o olhar para o lado de fora, onde Asher continuava sua ronda montado em Mista, atento, vigilante, seguindo o perímetro do baile como um predador de armadura.

Mor’Rein fechou os olhos.

A magia correu como gelo e tinta pelos seus pensamentos.

Sua voz, quando chegou até a mente de Asher, veio como sussurros subterrâneos, ecos de um lugar onde as palavras eram mais antigas que o mundo:

“Entraram.”

Lá Dentro.

“Tudo bem…” pensou Ludus, deslizando o olhar pela corte como um caçador procurando pegadas. “Vamos ver por onde eu começo… quem aqui tem mais cara de ser um lambe-botas do Benthor?”

A sala estava cheia de candidatos:
Homens com bigodes encerados demais.
Mulheres com sorrisos afi adíssimos.
Jovens com postura ensaiada de quem nasceu para agradar.
Velhos com dentes demais para quem fala macio demais.

Ludus começou a filtrar um por um, como quem escolhe o alvo de um truque.

Mas antes que pudesse concluir o pensamento, o mundo acertou seu peito com um soco.Um forte.Um inesperado. Um que veio sem aviso e sem piedade, como um golpe divino que atravessou sua alma e o arrancou para fora de si.

O destino. Não uma simples lembrança. Não um fantasma emocional.Um impacto vivo, nítido, devastador.

Ludus congelou.

O ar saiu dos pulmões como se alguém tivesse roubado. O coração tropeçou dentro do peito. As mãos ficaram frias e quentes ao mesmo tempo. As pernas… moles.

Ele nem piscou.

Giulline Fireheart
Pois ali, banhada por luz dourada e suavemente destacada do resto do mundo, estava ela.Giulline Fireheart.

A chama mais alta. A chama mais antiga. A chama que nunca apagou.

E como um cruel truque cósmico, Ludus sentiu aquela sensação conhecida — o tempo escorrer para longe, a música virar um zumbido distante, a multidão virar borrões — até sobrar apenas ela, caminhando em câmera lenta num mundo parado.

Os cabelos loiros deslizando como fios de ouro batidos à mão.
Aquela mesma cor que um dia ele guardou em um pequeno medalhão: uma mecha que havia ganho dela.
Os olhos azuis, claros, intensos, capazes de cortar a alma e curar ao mesmo tempo.
A graça impecável de quem nasceu com elegância no sangue.
O sorriso gentil, aquele que transformava cinzas em primavera.
E o vestido — de seda azul acinzentada, cheio de camadas translúcidas — abraçando o corpo dela como se tivesse sido costurado por um pintor apaixonado.

Ela estava mais linda do que nunca.

Ludus sentiu o coração bater na garganta.
A mágica que segurava Dahaka invisível… vacilou.
Por três segundos — os três segundos mais perigosos do mundo — ele simplesmente deixou de existir como bardo e virou só… Ludus.

A invisibilidade se rompeu como um fio estalando.

Dahaka materializou-se no meio do salão. E no exato instante em que ficou visível… ele estava prestes a enfiar a mão na algibeira de uma dama da corte. O tiefling congelou como estátua. A dama não percebeu nada — estava distraída, rindo alto demais para notar um ladrão surgindo atrás dela.

Mas um nobre ao lado viu tudo.

Dahaka piscou. O nobre arregalou os olhos. E antes que algo pudesse ser dito…O tiefling desapareceu de novo. O nobre olhou para a própria taça. Para o vinho. Para o salão. E sem tirar os olhos do copo, murmurou um “eu já bebi demais”, virou o vinho no chão e saiu cambaleando, jurando nunca mais beber champanhe barato de Waterdeep.

Enquanto isso, Ludus…
Ainda olhava Giulline.

Com os pensamentos em frangalhos.

E a respiração presa.

O destino, às vezes, tinha humor cruel. 

Dahaka se espreme entre nobres, invisível, tentando entender o que diabos aconteceu com a magia. "Por que eu fiquei visível? O que esse idiota fez?" pensa, irritado. Ele finalmente identifica Ludus — parado, estático, com a boca quase aberta, encarando uma garota como se fosse um farol divino surgido em meio ao nevoeiro.

Dahaka para. Pisca. Franze o cenho.

"É claro..."

Mas logo sua expressão muda. Não é só paixonite besta. É… outra coisa. Um troço mais profundo. Ludus está com um olhar hipnotizado, completamente entregue, com a exata cara de bobo que Dahaka imaginava que alguém apaixonado teria. Ele revira os olhos.

"Patético."

Ludus desliza pelo salão com leveza ensaiada, um movimento natural de um artista que vive para o palco. Ele se aproxima de Giulline como se temesse que o chão pudesse desaparecer se desse um passo em falso.

Ela o nota chegando.

“Boa noite, minha senhora,” diz Ludus, com um sorriso treinado mas carregado de verdade. “Percival Stagfollower, é uma honra. Será que… me concederia esta dança?”

Giulline sorri com gentileza, cortesia nobre, sem sequer imaginar quem está diante dela.

“Mas é claro. Seria um prazer.”

As mãos se tocam. E no instante em que os dedos se encontram, Ludus sente um sopro quente de nostalgia lhe subir pelos braços, como se cada nervo reconhecesse o toque antes mesmo da mente. Ele inspira devagar, tentando manter a postura, mas por dentro está em frangalhos.

O mundo diminui até caber no espaço entre os dois. A música flui macia, arrastada, perfeita para esconder conversas sussurradas. Ludus a guia com firmeza, mas sem pressa — como se cada passo fosse uma oportunidade para degustar um segundo a mais ao lado dela.

Giulline, porém, não é ingênua — nem disponível. Seu primeiro impulso é recusar a aproximação excessiva.

“Senhor… Stagfollower, não é?” pergunta ela, delicada, mantendo o queixo erguido. “Espero que não esteja confundindo gentileza com intimidade.”

“Jamais,” responde Ludus, sorrindo daquele jeito torto que ela sempre conheceu — mas agora mascarado por outro nome. “Só queria conhecer melhor a dama mais radiante deste salão.”

Ela revira os olhos. Um gesto pequeno. Sutil. Mas ele reconheceria em qualquer vida.

“Se usa isso com todas, deveria se esforçar mais. Não funciona comigo.”

Ludus ri, baixo.

“Não? Que pena… Era minha frase favorita.”

Giulline suspira — um meio sorriso escapando, sem que ela perceba.

Enquanto dançam, Ludus começa seu jogo. Pequenas perguntas, jogadas como anzóis:

“De onde vem esse perfume? Tenho certeza de que já senti algo parecido em…”

“Cuidado, senhor. Não gosto de elogios atrevidos.”

“Perdão… então permita-me ser cauteloso. Você é daqui de Profundáguas?”

“Exatamente. E o senhor?”

“Ah, eu  sou de todo lugar...”
Ele deixa no ar, medindo a reação.

Ela estreita os olhos.

“Que curioso… mas imagino que não tenha fugido de lugar nenhum, certo?”

Ludus segura uma risada que quase escapa.

“Fugir? Eu? De quem?”
Ele se inclina um pouco, fingindo confidência. 

“Ora... Da praga, vilareijos e cidades inteiras dizimados.” Giulline desvia o olhar por um segundo — uma hesitação. Uma pequena sombra de memória. "Mil perdões, é tempo de celebração, não devia estar relemebrando tais tragédias.Então está no baile procurando alguém?”  Ela rapidamente muda de assunto.

“Talvez.”
A música gira em torno deles, e Ludus a gira junto, suave, preciso.
“Ou talvez esteja apenas tentando reencontrar algo que perdeu.”

Ela respira fundo.
Algo nela tenta montar o quebra-cabeça — mas não é tão simples. Seu cérebro não combina o nome Percival com aquela voz familiar demais.

Giulline o testa, com falsa casualidade:

“E… já encontrou?”

Ludus sorri, confiante, irônico, brilhando de malícia e saudade ao mesmo tempo.

“Estou dançando com ela.”

Giulline empalidece por um segundo — não pelo impacto romântico, mas pela ousadia. Ela tenta disfarçar, tenta manter a pose nobre.

“Senhor Stagfollower… isso já é impróprio.”

“Perdoe-me,” responde Ludus, genuíno agora. “É só que… às vezes, quando a vida separa duas pessoas… o reencontro merece ser celebrado.”

Ela franze a testa. Algo nela TRAVA.

É como se memórias antigas, adormecidas, tremessem sob a superfície.

Ludus percebe.

E se diverte.

Ele começa a jogar mais pistas, propositalmente:

“Já amou alguém que arrancasse risadas de você como quem arranca pétalas de uma flor?”

“… O quê?”

“Já deixou alguém escapar… por medo… por orgulho… ou por punição injusta?”

“Senhor Stagfollower…”

Ele ri, devagar.

“Ou, quem sabe… já conheceu um bufão tão irritante… tão cheio de si… que mesmo quando o expulsaram da sua vida… ele continuou morando em suas memórias?”

Giulline para.

Olha para ele.

Agora, os olhos dela realmente o observam. Procuram por trás do disfarce, por trás do disfarce e do cabelo penteado diferente, da postura mais madura.

“Ludus…?”

A voz dela treme.

O coração dele dispara. Mas antes que qualquer coisa seja dita, Ludus sente algo. Uma mão. Não. Uma pata. Uma manopla de gordura comprimida em forma de mão humana, pesada como um tijolo molhado, pousando em seu ombro.

Ele vira devagar.

O gordo braço vem junto.

Lorde Barthavious Fireheart.
E então, a montanha de banha aristocrática: Lorde Barthavious Fireheart. Pai de Giulline. O mesmo homem que mandou executá-lo.

“Acho que já dançou demais, Senhor…?” diz Barthavious, estreitando os olhos, exigindo um nome.

Ludus trava por meio segundo. O cérebro roda. Roda mais. E então ele lembra: Meu nome falso.

“Percival,” ele responde, recuperando o charme numa velocidade milagrosa. “Percival Stagfollower… E o senhor, é claro, é o grande Lorde Barthavious Fireheart. Sua fama o precede, meu senhor!”

Barthavious ergue uma sobrancelha. Curioso. Desconfiado. Mas — inevitavelmente — lisonjeado.

Dahaka circulava pelo salão como uma sombra bem-vestida. A invisibilidade ia e voltava em pulsos sutis sempre que Ludus se desconcentrava, mas ninguém era atento o bastante para notar. Ele se aproximava de grupos, ouvia risos abafados, comentários venenosos, rumores de quem subira, quem caíra, quem traíra quem. E um nome surgia com insistência quase irritante:

“Benthor isso…”
“Benthor aquilo…”
“Um verdadeiro gênio.”
“Um estrategista sem igual.”
“O orgulho de Cormyr.”

Dahaka franzia o cenho cada vez mais. Tudo elogio demais, entusiasmo demais, mas… presença nenhuma. Benthor não estava no baile. O tiefling concluiu isso com a frieza de alguém acostumado a farejar perigo. O velho devia estar em Cormyr, ocupado demais com algo grande.

Grande demais.

Mas outra coisa o intrigava ainda mais: nem uma única menção aos Mozorov. Nada. Nenhuma piada. Nenhuma especulação. Nenhum apelido sussurrado. Como se simplesmente… não existissem.

Isso deixava Dahaka inquieto.

Mercenários tão eficientes que apagavam até os rumores sobre si… eram o tipo de gente que ele detestava encontrar de surpresa.

Enquanto ele seguia observando, seus olhos encontraram Ludus — e o sangue lhe subiu à cabeça. O bufão estava sorrindo feito um idiota ao lado de Giulline. Mas não era só idiotice, Dahaka reconhecia. Era aquela maldita expressão de gente apaixonada. Inútil. Cega.

Foi então que Barthavious Fireheart chegou, a mão pesada caindo no ombro de Ludus como um porco caindo sobre um tambor.

A partir dali, toda a situação se tornou uma encenação perfeita.

Ludus, com séculos de prática acumulada em manipular nobre idiota, se fez pequeno, tolo, inofensivo — o tipo de fidalgo macio que Barthavious adorava subestimar.

“É uma honra, senhor.” dizia ele, com aquele sorriso bovino que escondia um cálculo preciso. “Vim acompanhar meu mestre, o respeitável Professor Doligmar.”

E apontou para Impetor.

Que, por sua vez, estava ocupado respondendo a perguntas que não sabia a reposta. Barthavious parecia simultaneamente curioso e encantado com o jovem.

“É raro ver gente educada nesse baile,” comentou ele, ajeitando os anéis gordos nos dedos, os olhos quase brilhando. “E mais raro ainda ver alguém com… presença.”

Giulline fez uma careta discreta, horrorizada com a possibilidade de seu pai estar dando em cima de um acompanhante seu. Ludus, porém, estava em seu habitat natural: caos, disfarces e oportunidades.

“Vossa senhoria é muito bondoso,” ele respondeu, pisando em terreno perigoso, mas com delicadeza. “Eu só estou fazendo jûs a um ambiente tão formoso. O Baile está lindo. Imagino que apenas um homem de grande autoridade teria ajudado Sua Majestade a organizar uma festa tão… memorável.”

Barthavious abriu um sorriso torto, inflado de orgulho.

“Ah… então não sabe?”
Ele se inclinou um pouco mais.
“Fui eu quem convenceu Benthor a usar Greenwall. Este castelo é de um amigo da minha família há gerações, sabia? O rei confiou em mim para preparar tudo.”

Giulline revirou os olhos de novo.

Barthavious continuou, agora claramente flertando, aproximando-se demais, baixando a voz:

“Tenho um quarto enorme no andar de cima. Uma cama grande… confortável… e privada. Exclusiva.”
Um suspiro pesado.
“E sempre há espaço para alguém que eu deseje convidar.”

Ludus manteve o sorriso. Por dentro, uma parte dele queria gargalhar. Outra parte queria morrer. E outra queria usar essa situação para arrancar informações.

“Eu adoraria poder conhecê-lo,” disse ele, baixando a voz com elegância estudada.

Giulline se engasgou com o próprio ar, horrorizada.
Ludus lançou a ela um olhar rápido, suave, uma promessa silenciosa — e então inclinou o rosto em despedida.

“Eu explico tudo em breve,” sussurrou, antes de seguir na direção do pai dela.

E o baile, tão distante do que parecia, começava a revelar seu lado mais perigoso.

Mor’Rein, ainda do lado de fora, observava as janelas superiores com seus olhos afiados de corvo faminto. Quando viu Ludus subindo as escadas acompanhado de Barthavious — e a mão gorda do Lorde estacionando sem vergonha na cintura do bufão disfarçado — o bruxo soltou um suspiro longo, cansado, quase paternal.

“Misericórdia, bufão… no que você se meteu agora?”

Ele impulsionou a vassoura, subindo até a janela do segundo andar, pairando rente à pedra antiga para acompanhar tudo sem ser visto.

Lá dentro, Barthavious conduzia Ludus pelo corredor como quem arrasta um prêmio recém-conquistado. Sua voz era pastosa, carregada de vinho e expectativas perigosamente vívidas.

“Desde que a mãe de Giulline faleceu,” murmurou ele, apertando ainda mais a cintura de Ludus, “minha vida tem sido tão… vazia. Fria. Mas ultimamente descobri… prazeres novos. Libertadores.”
Ele deu um risinho suado.

"Que tipo de prazeres?" Perguntou Ludus, com medo da resposta.

“Brincadeiras de domínio. Submissão. Ah, meu rapaz… você não faz ideia do tipo de fogo que corre nessa veia.”

Um arrepio gelado percorreu Ludus dos calcanhares à nuca. O pensamento fugaz — amarrado e sozinho no quarto com Barthavious Fireheart — quase o fez perder o equilíbrio.

Mas Ludus era Ludus. Quando a sobrevivência pendia de um fio, sua língua de prata brilhava.

Ele inclinou a cabeça, olhando Barthavious com uma mistura perfeita de interesse e doçura frívola.
“Domínio, meu senhor? Ora… mas quem disse que o senhor merece dominar hoje?”

Barthavious piscou, confuso.

Ludus acariciou de leve o antebraço dele, guiando o homem sem que ele percebesse.
“Homens de poder como o senhor… sempre acham que mandam em tudo. Às vezes… o verdadeiro prazer está em abrir mão disso. Em ser conduzido. Vendado. Preso.”

A respiração de Barthavious acelerou, o rosto ficando vermelho como uma chaleira fervendo.

“P-preso…?”
Ele mordeu o lábio.
“Vendado… por você?”

“Se for digno,” sussurrou Ludus.

O porco estava no gancho.

Barthavious abriu a porta da suíte quase tropeçando de empolgação.

A suíte era imensa para padrões de um castelo-forte: lareira acesa, um tapete felpudo que destoava da rusticidade das paredes de pedra, móveis exageradamente esculpidos em cerejeira, e — ao centro — uma cama tão grande que parecia um pequeno palco, com cortinas vermelhas e almofadas suficientes para enterrar um adulto.

Ludus manteve o sorriso, mesmo quando sua alma gritava.

Barthavious, sem perder tempo, despiu-se com a ansiedade de quem está pagando por minuto. Em segundos, estava nu e na cama, deitado de costas, braços e pernas abertas, pronto como um frango temperado esperando forno.

“Assim?” perguntou ele, ansioso, já oferecendo os pulsos.

“Exatamente assim,” disse Ludus, amarrando-o com lenços grossos de seda — resistentes, mas suaves o suficiente para não levantar suspeitas.

Quando a venda cobriu os olhos do lorde glutão, Ludus respirou fundo.
Agora começa o verdadeiro jogo.

"Então Benthor confiou em você?... Devem ser realmente muito amgios!" Disse Ludus.

“Quem? Ah! Sim, sim... Meu querido…” disse Barthavious, remexendo-se como um leitão marinado. “Já não conversamos demais? Não podemos começar a diversão…?”

“A antecipação é a melhor parte da brincadeira, meu amado.”

Enquanto a voz melodiosa saía de sua boca, Ludus circulava o quarto com olhos de rapina. Na escrivaninha encontrou um apanhado de cartas seladas com o brasão de Suzail. Ao lado delas, algumas folhas de papel em branco… e um pesado anel de sinete Fireheart.

O sorriso que brotou no rosto do palhaço era obsceno.

Ele pegou papel, pena e tinta — escreveu rápido, preciso, mortal. Uma carta inteira produzida no estilo adequado, selada com perfeição usando o anel do próprio lorde. Depois guardou-a no bolso junto das outras que furtou.

“Meu querido?” chamou Barthavious, impaciente. “Estou… preparado.”
A voz dele falhava de ansiedade.

“Eu sei, eu sei…” Ludus respondeu, acariciando o peito dele apenas para manter a ilusão. “Eu só lembrei de um óleo especial. Meu mestre Doligmar trouxe de terras distantes. Vai elevar nossa pequena… brincadeira… a outro nível.”

“Não demore…” arfou Barthavious, trêmulo.

Ludus caminhou até a porta com a maior dignidade possível para alguém que acabara de ver o pai de sua antiga paixão amarrado e pelado como um peru de festival. Fechou a porta devagar.

Assim que ela se trancou atrás dele, sua postura desabou.
A máscara sedutora se dissolveu.
A expressão virou pura náusea.

“Essa vai ser difícil de apagar da mente…” murmurou ele, respirando fundo.
Então puxou a carta que escrevera e olhou para ela com satisfação perversa.

“Por sorte,” disse com um sorrisso torto, “não serei o único a sofrer com isso.”

Asher observa ao lado de fora. O tempo acabou. A Invisibilidade de Dahaka estava prestes a ruir — sentia as fibras de paciência desfiando como linha velha na mão de uma costureira.
Ele fecha a mão com força no punho da espada, a palma suando.
Se algo desse errado com os companheiros, ele entraria sem pensar duas vezes.

Lá fora, Mor’Rein gira levemente a vassoura, sentindo o deslocamento do ar. O bruxo estreita os olhos quando vê Ludus sair pela porta do quarto, ajeitando o colarinho, o cabelo, e — de propósito — deixa a porta entreaberta, como quem diz “Venham ver.”
Mor’Rein suspira.
Inclina a vassoura e desce alguns metros, pousando na lateral do segundo andar, bem na altura das janelas, invisível para quem olha de dentro.

Ludus desce as escadas com calma ensaiada, entregando uma carta ao guarda com um sorriso que só poderia ser dele.

"Do Lorde Barthavious, senhor… pedido urgente." E entrega como se fosse a coisa mais banal do mundo.

O guarda endireita a postura, puxa o ar, e anuncia:

“Os membros da Corte do Lorde Barthavious, por favor! Reunião imediata nos aposentos dele!”

Vinte e três nobres se reúnem como ovelhas obedientes. Entre eles, Giulline — postura perfeita, olhar curioso.

Mas quando ela coloca o pé no primeiro degrau…

Uma mão surge e a puxa pela cintura.

Ela vira o rosto — é ele.

"Ludus?" sussurra, surpresa. "O que—?"

Ele fala rápido, atropelando sílabas:

"Eu tô em missão. Harpistas. Coisas grandes. Seu pai… pode estar metido com gente muito errada. Eu precisava tirar ele dali, descobrir mais coisas."

Ela não reage com choque. Não reage com medo.
Ela só ergue uma sobrancelha — típica dela.

"Quando eu vou te ver de novo?"

Ele engole seco.

Essa pergunta… essa ele não sabe responder.

Porque a vida dele virou um caminho torto, feito de atalhos sombrios e decisões que queimam.

Ele abre a boca, mas nenhuma palavra sai.

Giulline percebe. O olhar dela fraqueja por um instante.

Então Ludus faz o que sabe que é covardia… mas é a única verdade que consegue entregar:

Ele a puxa para perto, beija-a com força, demoradamente, interrompendo a pergunta no meio.
Os dedos dela sobem até o peito dele, como se tentassem segurá-lo ali por mais um segundo. Só mais um.

Eles se separam ofegantes.

Ludus não fala nada.
Apenas encara — o olhar cheio de ternura e culpa.

Depois vira o rosto e chama, baixinho:

"Impetor. Vamos!"

O Meio-Dragão estava prestes a entrar numa queda de braços , sabe-se lá como, com um dos convidados. Ele faz uma mesura atrapalhada. E sai.

Giulline fica no mesmo lugar, imóvel.
Uma única lágrima escorre, silenciosa, quando ela vê o homem que ama desaparecer pela porta mais uma vez.

Do lado de fora, Ludus também pisca rápido com seus olhos marejados, tentando conter o que sente.
Ele não olha para trás. Se olhar, volta.

Ele só caminha, apressado, puxando Impetor.

Mor’Rein finalmente alcança a janela e espreita.

Os nobres se acumulam em volta da porta entreaberta, entrando aos poucos.

E então vem a sinfonia:

“Meu Deus!”
“Pelo amor da Senhora da Lua, o que…?”
“Isso é indecoroso!”

Barthavious está desacordado, amarrado, com o roupão torcido, marca de mão no rosto, o quarto virado de cabeça para baixo — uma obra de arte típica de Ludus. Nada perigoso… mas absolutamente humilhante.

Mor’Rein leva a mão ao rosto, arrastando os dedos pela têmpora.

“Sempre uma traquinagem, não é, Ludus…”

Ele gira a vassoura para baixo, descendo para fora do evento enquanto os gritos continuam atrás dele.

O ar frio da noite abraçava a entrada do palacete, carregando consigo a música distante do baile que ainda ecoava lá dentro, completamente alheio ao caos que se desenrolava nos bastidores.

Ludus saiu primeiro. Caminhava rápido, a respiração pesada, o olhar ainda quente do que tinha acontecido minutos antes com Giulline. Ele não olhou para trás nenhuma vez. Impetor o seguia com passos curtos, quase trotando, a cauda rígida de tensão.

Asher o viu chegando de longe. A mão já estava na espada, mas ao ver o amigo emergir inteiro e correndo, o alívio passou pelo rosto dele como um sopro quente. Ele deu um passo à frente.

"Graças aos deuses…", murmurou, baixinho.

Dahaka reapareceu ao lado de Asher naquele instante, como uma miragem que se materializava. A invisibilidade ruiu sem cerimônia, como um pano molhado caindo no chão. O tiefling respirava fundo, exausto, mas atento.

"Conseguiu?", perguntou ele, a voz baixa, carregada de uma tensão que só Ludus conseguia causar.

Ludus simplesmente assentiu. Não tinha forças para dizer nada ainda.

Mor’Rein pousou logo depois, deslizando sobre a vassoura até tocar o chão com suavidade. Ele ajeitou o cabelo, respirou fundo e olhou para o grupo com aquele ar de quem tinha presenciado uma comédia inteira em poucos minutos.

"Ele amarrou um Lorde", comentou, seco, mas com a sobrancelha arqueada como quem ainda tentava acreditar. "E deixou a porta aberta. E uma plateia inteira subindo."

Asher fechou os olhos por um segundo. "Claro que deixou…"

Dahaka resmungou. "Eu avisei que seria uma péssima ideia soltar ele sozinho."

Mas ninguém conseguiu continuar reclamando, porque Ludus ergueu o rosto naquele instante — e algo nele estava diferente. Menos leve. Menos debochado. Como se tivesse deixado um pedaço do peito lá dentro, no segundo andar.

Asher foi o primeiro a falar, mais suave desta vez.

"Está tudo bem?"

Ludus demorou um segundo antes de responder.

"Eu tive que… cortar algo. Antes que alguém cortasse por mim."

Mor’Rein soltou uma risada contida, impaciente. Não levando a sério os sentimentos do amigo. 

"Não é engraçado", respondeu Ludus.

"Certeza?", perguntou Mor’Rein, sincero. "Pra mim parece o tipo de coisa que você faria piada."

Dahaka cruzou os braços. "Seja lá o que aconteceu, agora não importa. Precisamos ir. Agora mesmo. Já fizemos barulho demais."

Asher assentiu. "Certo. Para os portões da cidade então. Devemos desaparecer antes que alguém perceba que faltam rostos no salão."

O grupo começou a caminhar, passo a passo, em direção às sombras da rua iluminada apenas por lampiões mágicos. Ludus foi o último a mover-se, respirando fundo antes de seguir.

A música do baile continuava atrás deles, distante, irrelevante.
A noite, porém, parecia mais pesada. Como se anunciasse que, a partir daquele momento, nada mais seria simples.

Os cinco seguiram juntos, em silêncio — cada um carregando seu próprio peso, suas próprias feridas, seus próprios segredos.

E assim, sob a luz pálida das estrelas, os Heróis deixaram o Baile, sem olhar para trás.
Porque sabiam que, dali em diante, a estrada que os esperava não permitiria mais dança alguma.


EPISÓDIO 22 - SEGREDO ENTERRADO
Data:  19 de Nightal, 1372 CV - 23:40
Local: Portões principais de Profundáguas, Costa da Espada.

A noite estava pesada quando os heróis se aproximaram dos portões de Waterdeep. A névoa rasteira refletia a luz das tochas no alto das muralhas, e cada passo ecoava pelo caminho de pedra, revelando a imponência da Cidade dos Esplendores. As muralhas eram gigantescas, serpenteando para além do que os olhos alcançavam, reivindicando terras que se estendiam por quase cento e sessenta quilômetros além dos muros. Waterdeep não era apenas grande — era um mundo próprio. Construída onde antes existia o assentamento élfico de Aelinthaldaar, ela se espalhava pela encosta do Monte Waterdeep, cuja profundidade era repleta de velhos túneis anões dos Melairkyn e de criaturas ainda mais antigas que a própria cidade.

Enquanto caminhavam, os heróis trocavam palavras baixas sobre o baile, finalmente tendo uma chance de respirar após horas de tensão. Ludus retirou de dentro da jaqueta as cartas clandestinas que carregava, revelando-as ao grupo sob o brilho fraco de uma lanterna suspensa.

“As provas são claras,” ele disse, o rosto meio iluminado, meio escondido pela sombra. “Benthor e Barthavious estavam trabalhando juntos. Estão conectando Aguas Profundas e Suzail. E a Aliança dos Lordes influenciou diretamente a coroação dele… e o golpe contra a Regente de Aço.”

O silêncio que seguiu disse mais do que qualquer frase. Dahaka cerrou os olhos. Mor’Rein manteve-se firme, a vassoura ao lado. Asher passou a mão no cabo da espada, inquieto. Impetor inclinou a cabeça, pensativo e inquieto como sempre.

Quando se aproximaram dos portões, o protocolo de Waterdeep entrou em ação imediatamente. A Guarda da Cidade patrulhava as ameias com disciplina militar. Armaduras de malha bem cuidadas, tabardes negros com bordas douradas, lanças polidas refletindo a lua. A Guarda não era polícia — era o braço militar da cidade, treinado para defender muros, controlar fronteiras e impor a ordem com firmeza.

Três guardas desceram dos degraus internos quando perceberam o grupo. O líder ergueu a mão, bloqueando o caminho.

“Parados aí! Identifiquem-se — nome, origem e propósito de entrada em Waterdeep a esta hora da noite.”

Ludus deu um passo à frente, postura ereta, voz suave e segura.

“Percival Stagfollower. Aventureiro viemos de muito longe e —.”

Ashere deu um passo a frente seguro de si e apresentou seus pergaminhos de linhagem. Os guardas de trás se entre-olharam. O guarda da frente estudou-o por longos segundos. Ao fim, o soldado assentiu.

“Pode entrar. Mas amanhã peço para que seus amigos sigam o protocolo: apresentem-se ao magíster dos portões amanhã pela manhã. Quem permanece na cidade sem registro enfrenta multa… ou trabalho forçado. Não digam que não foram avisados.”

Asher tomou os pergaminhos de volta e murmurou para Ludus: "Nem tudo precissa ser uma mentira elaborada."

Os portões se abriram com um som grave, como se a própria pedra respirasse. Dentro, Waterdeep mostrava sua alma noturna. Lanternas de cristal iluminavam ruas largas, casas de pedra, bandeiras que dançavam com o vento frio vindo do mar. Ao longe, o contorno do Castelo Waterdeep refletia a luz lunar, sólido, majestoso, quase vivo. Nos telhados mais altos, sombras se moviam — talvez apenas guardas, talvez patrulhas da lendária Griffon Cavalry, sempre prontas para erguer voo a qualquer sinal de problema.

Os heróis caminharam juntos pelas primeiras ruas, absorvendo a grandeza da cidade enquanto a tensão política recém-descoberta pairava entre eles.

“Se Benthor e Barthavious estão trabalhando juntos,” murmurou Ludus, “então existe uma rede muito maior por trás disso. A Aliança dos Lordes pode estar puxando as cordas de lugares que nem imaginamos.”

“E se os Zentharin estão envolvidos,” Dahaka completou, “então não param em Suzail. Já devem ter raízes aqui também.”

Mor’Rein olhava para janelas altas, atento aos movimentos. Asher caminhava com passadas firmes, olhos focados, Mista o acompanhando, como se a qualquer momento algo pudesse saltar das sombras. Impetor bufou um pouco, mas havia um brilho excitado em seu olhar.

“Cidade grande demais,” ele resmungou. “Não gosto disso.”

Os cinco seguiram adiante, com o peso da descoberta nas mãos e a urgência de encontrar Horusk na Casa das Lanternas Brancas. A cidade ao redor parecia observá-los, como se soubesse que algo grande acabara de entrar por seus portões.

O frio de Nightal cortava o ar como lâminas de vidro, e cada respiração dos heróis virava uma pequena nuvem branca enquanto avançavam pelas ruas de Waterdeep. Asher tomou a dianteira. A postura dele mudava completamente desde que entrou na cidade — o passo ficava mais firme, o olhar mais atento, o semblante entre a preocupação e o dever.

“Sigam por aqui,” ele murmurou, virando para uma rua ladeada por casarões de pedra e postes de luz mágica. “O Distrito Harpista fica além do mercado noturno, perto da borda norte da Cidade Intermediária.”

Enquanto caminhavam, Waterdeep revelava seu contraste mais intrigante: a aparência de normalidade absoluta. O mercado noturno ainda tinha algumas barracas fechando; estalagens derramavam luz quente pelas janelas; casais apressados trocavam risadas abafadas enquanto fugiam do vento gelado.

Mas havia algo… estranho.

Nenhuma carroça de necromantes atravessava a rua, nenhum lobo narniceiro rondava os becos, nenhum zumbi vagava entre as sombras — e, ainda assim, todos sabiam o que se escondia por trás dos muros. A invasão necrofaga, contida à força nas áreas externas, parecia inexistir ali dentro. Como se a cidade inteira estivesse maquiada. Como se todos estivessem fingindo que o terror do lado de fora fosse apenas um sonho ruim.

Asher comentou isso em voz baixa:

“Waterdeep é uma cidade especialista em ignorar o impossível… até o impossível entrar pela porta da frente.”

Mor’Rein soltou apenas um resfolego irônico, escondendo o incômodo. Dahaka caminhava em silêncio, observando o comportamento das guardas noturnas, o jeito como algumas patrulhas pareciam mais cansadas do que deveriam — sinais claros de turnos extras, reforço de segurança, tensão velada.

Impetor apenas observava tudo com olhos curiosos, tentando entender como uma cidade tão grande podia estar tão calma com um exército morto-vivo batendo na porta.

O Distrito Harpista não aparecia em nenhum mapa oficial. Tecnicamente, ele nem existia. Era um aglomerado de ruas discretas, casas estreitas, pátios internos e passagens escondidas que se estendiam por uma porção do bairro das Guildas. Nada no local ostentava brasões, símbolos ou tropas. Os Harpistas eram sutilmente eficientes: onde a Guarda tinha lanças, eles tinham informações; onde nobres usavam títulos, eles usavam máscaras; onde inimigos usavam força, eles usavam silêncio.

Asher conduziu o grupo até uma viela quase imperceptível, onde as casas pareciam um pouco antigas demais, mas misteriosamente bem cuidadas. Pequenas janelas em formato de arco exibiam luzes fracas, azuladas — a típica assinatura das lanternas mágicas que só os Harpistas utilizavam.

“Estamos perto,” Asher disse.

No fim da rua estreita, havia uma casa simples, com madeira escura na estrutura e paredes brancas quase luminosas sob o luar. No beiral, balançando com o vento gelado, três lanternas brancas em forma de gotas pendiam, brilhando com luz constante e suave — nem óleo, nem vela. Magia pura.

A Casa das Lanternas Brancas.

O ponto de encontro dos Harpistas em Waterdeep.

O lar temporário daqueles que lutavam contra redes políticas, necromantes, ditadores, cultos e tudo mais que ameaçasse o equilíbrio dos povos livres.

Ludus respirou fundo, olhando para a fachada com o peso de quem, pela primeira vez naquela noite, sabia que estava seguro.

“É aqui,” ele murmurou.

Asher assentiu.

“Horusk nos espera.”

E juntos, atravessaram a soleira.

Asher estendeu a mão até a maçaneta de bronze esculpido, mas antes que pudesse girá-la sentiu uma descarga de energia — suave, porém firme — percorrendo seus dedos. A porta vibrou com um som baixo, quase como um sussurro de reconhecimento, seguido por uma onda de calor agradável que se espalhou alguns metros ao redor, dissipando parte do frio do inverno.

“Interessante…” Asher pensou, franzindo o cenho. “E se não fosse comigo?”

A pergunta não obteve resposta — mas o brilho que percorreu o batente deixou claro que a porta sabia exatamente quem ele era, e que tipo de intenção trazia.

Então ela se abriu sozinha.

Do outro lado, o interior da Casa das Lanternas Brancas se revelou com imponência silenciosa. O salão principal era muito maior do que a estrutura externa sugeria — claramente ampliado por magia. O teto alto sustentava lanternas de cristal branco flutuantes, emitindo luz suave. As paredes exalavam calor, como se houvesse fogueiras escondidas dentro delas.

Ali dentro, a noite deixava de existir.

Diversos membros dos Ases de Horusk estavam espalhados pelo salão, alguns sentados, outros recebendo curativos após o ataque devastador dos Mozorov em Cormyr. Conversas baixas ecoavam, misturadas com o barulho de talheres, risadas contidas e o estalar de madeira quente.

Ludus avistou, de canto de olho, Aeliryn. O elfo — agora estável e parcialmente recuperado — jogava cartas com outros harpistas. A cura mágica havia fechado seus ferimentos, mas as cicatrizes… aquelas ficariam. O olhar dele cruzou com o de Ludus apenas por um instante, carregado de algo entre cautela e ressentimento.

Ludus desviou primeiro. Pela primeira vez em um bom tempo, escolheu ouvir o próprio bom senso.

Dahaka, por outro lado, quase perdeu o foco assim que viu os cristais. Lustres, pedestais, pequenos totens… tudo cintilava com luz branca filtrada por diamante. Seus olhos brilharam com um impulso quase primitivo, e sua mão chegou a tremer. Ele prendeu a respiração e repetiu mentalmente, como um monge tentando resistir a uma tentação demoníaca:

“Não vou roubar de Harpistas… não vou roubar de Harpistas… não vou…”

Mista farejou o ar como uma loba curiosa num novo território. Ela relaxou imediatamente — os Harpistas sabiam exatamente como lidar com animais de grande porte, e o ambiente tinha cheiro de segurança, comida e lareira. Asher, vendo a loba desarmada, finalmente respirou fundo. O calor dali era um bálsamo depois de horas caminhando no gelo.

Impetor, por sua vez, nem prestava atenção nos detalhes mágicos. Ele só esfregava, com força, o pano úmido no rosto para remover o último traço da maquiagem rosada de “damiselinha nobre” que Ludus havia colocado nele. Assim que viu um balde de água quente, mergulhou o pano inteiro, determinado a acabar com aquilo para sempre.

Mor’Rein sentiu o cheiro antes mesmo de qualquer movimento consciente: especiarias élficas, pão fresco, ervas quentes de inverno. Seu estômago roncou alto o bastante para Impetor olhar de lado. O bruxo mantinha uma relação caótica com comida — quase sempre esquecia de comer — mas culinária élfica despertava nele memórias antigas, distantes… talvez de infância, talvez de vidas anteriores.

Seu familiar, a pequena esfera negra com tentáculos e olhos, reagiu também. Ela tremeu no ar, agitada, como se compartilhasse a fome do mestre.

E então algo curioso aconteceu: todos os cinco se aproximaram instintivamente uns dos outros. Não por ordem, não por estratégia. Por pura intuição social de quem entra num salão cheio de desconhecidos.

Agruparam-se como uma pequena ilha no oceano de Harpistas. Olhares vasculhavam o ambiente, cruzando semblantes, buscando um rosto específico.

Barba branca.
Sobrancelhas espessas.
Altura baixa.
Ar de quem já sabe mais do que deveria.

A pergunta pairava muda entre eles, compartilhada no mesmo instante:

“Cadê o maldito gnomo?”

Os olhos viajaram por sobre mesas, corredores e escadas internas…

Procurando Horusk, o mentor, o estrategista…

O Coruja Sábia que os trouxe até ali.

“Os Heróis de Suzail, eu presumo?”

A voz surgiu à esquerda, cortante e séria, carregando uma arrogância natural que já vinha embutida no timbre. Todos se viram ao mesmo tempo. O elfo que os encarava tinha longos cabelos escuros e lisos, perfeitamente penteados para trás; a pele era clara como porcelana e um florete pendia de sua cintura, alinhado com precisão milimétrica. Vestia camisa de linho impecável e um colete preto que combinava com o ar de prepotência que exalava.

Dalloran Pedra-Rasa

Ludus murmurou quase sem abrir a boca, mais para si do que para os outros:
“Esse é nosso título oficial?”

“Estão atrasados.” O elfo acrescentou, forçando um sorriso que não chegava aos olhos. “Horusk já estava pensando no que faria sem vocês.” Havia uma falsa preocupação derramada em cada sílaba — uma doçura torta que insultava mais do que ofendia.

Quase todos se irritaram instantaneamente.
Quase.

Mor’Rein apenas piscou uma vez. Aquilo… aquilo ele conhecia bem. O tom dos Altos Elfos, tão típico e tão distante das coisas que realmente importavam. Foi o que o afastou de seus iguais tanto tempo atrás, quando ainda buscava entender o sussurro do Grande Antigo que ecoava em sua mente. Não expressou nada disso, claro. Apenas absorveu o momento como quem acrescenta mais um fio à tecelagem de enigmas que compunha a criatura que ele era.

“E você é?” perguntou Asher, direto como sempre.

“Dalloran Pedra-Rasa”, respondeu o elfo, erguendo o pingente dos Harpistas para deixá-lo brilhar sob a luz branca do salão. “Vamos, vou levá-los até Horusk.” Ele já caminhava em direção à grande escadaria ao fundo, sem esperar concordância. Fez um gesto displicente para o lado. “A loba pode ficar com os grifos.”

Dois recrutas se aproximaram para levar Mista. Ela rosnou, recuando com as orelhas baixas, mas Asher tocou suavemente o pescoço dela.

“Mista… tudo bem. Vai.”

A loba cedeu com relutância.

“Um bom adestrador”, comentou Dalloran — e o veneno na frase era tão óbvio que até brilhava.

“Obrigado”, respondeu Asher, com aquele sorriso genuíno que deixava claro que ele não captou a provocação.

“Se ao menos pudesse empregar isso ao resto dos animais de sua equipe”, acrescentou o elfo, virando de costas antes que qualquer resposta fosse possível.

Ludus bufou. “Simpatia pura esse aí.”

“Um golpe e ele caía no chão…” rosnou Impetor, cruzando os braços, cúmplice do comentário.

Dahaka completou sem piedade:
“E pela finura, é capaz que nem faça barulho quando o corpo bater contra o assoalho.”

Os três engataram uma risada abafada — curta, mas muito verdadeira — até perceberem Mor’Rein olhando para eles por cima do ombro. Ele não disse nada; apenas ergueu um dedo, pedindo silêncio.

Eles se calaram de imediato, ainda segurando o riso.

E então seguiram atrás de Dalloran, rumo às escadas e ao encontro com Horusk.

Dalloran Pedra-Rasa subiu a escadaria sem olhar para trás nem por um instante — como se não estivesse guiando convidados, mas assumindo que, por simples ordem natural das coisas, todos o seguiriam. O ritmo de seus passos era estranhamente leve para alguém tão cheio de si. Não combinava com o tom vaidoso que carregava; ainda assim, cada passada ecoava alto demais, como se o som fosse a autoridade que ele não possuía de verdade.

A escadaria era larga e espiralada, imponente. Nada lembrava o interior de uma casa; aquilo pertencia a um palácio élfico, ou talvez ao saguão interior de uma grande torre arcana. Cristais presos em suportes de prata brilhavam com luz branca — firme, estável, sem tremeluzir como a chama comum. Era uma claridade calma, profunda, como a respiração constante de algo vivo.

E conforme avançavam, a sensação se tornava impossível de ignorar:

A Casa das Lanternas Brancas estava ouvindo.

Havia um murmúrio arcano nos degraus, nas paredes, no ar. Um som distante, como o eco de uma harpa enterrada em pedra antiga. Quase uma canção. Discreta, atenta, acolhedora e vigilante ao mesmo tempo.

Lá embaixo, as conversas dos Harpistas diminuíram enquanto o grupo subia. Mista era levada para os estábulos dos grifos, ainda lançando olhares por cima do ombro, dividida entre ciúme e desconfiança. Asher, porém, lhe ofereceu apenas um sorriso — tranquilo, seguro. “Logo volto”, dizia seu olhar. E a loba, apesar do desconforto, aceitou.

Mor’Rein sentiu seu pequeno familiar tremer no ombro, esticando tentáculos minúsculos, farejando o ambiente com seus incontáveis olhos. Não era medo. Era… curiosidade. Fascínio. A abundância de magia aqui mexia com ele — assim como mexia com o bruxo.

Por fim, chegaram a uma porta dupla de madeira escura, majestosa, com um entalhe profundo de um mago. Não qualquer mago: Elminster Aumar — o maior de todos. Seus olhos esculpidos pareciam seguir o grupo quando se aproximavam.

Dalloran colocou as duas mãos nas maçanetas e abriu ambas as portas de uma vez, com o exagero teatral de quem sabe que a entrada é parte da autoridade.

A sala revelada era circular, com uma mesa redonda que contornava um vão central — e no meio dele, uma pira gigante, ardendo em chama branca. A luz banhava o espaço inteiro em um brilho puro, quase sagrado.

E três figuras aguardavam.

Uma delas, familiar: Horusk, sentado com naturalidade, tomando uma sopa fumegante que, pelo cheiro, parecia excelente. O gnomo levantou os olhos, e a expressão dele era aquela mistura única de sabedoria cansada com irritação paternal.

As outras duas figuras, ambas de traços élficos, estudavam o grupo com atenção.

Cramenor Thollent.
A primeira era um rapaz da idade de Ludus — cabelos pretos encaracolados, armadura ajustada e expressão séria, mas não ameaçadora. De baixa estatura para um guerreiro, parecia mais observador do que combativo.

A segunda…

A segunda fez Dahaka corar. O que, considerando o vermelho oleoso de sua pele, era uma façanha.

O tiefling não era o tipo que se interessava por mulheres. Não mesmo. Seus prazeres eram outros, mais específicos, mais… terrenos. Mas Drows — mulheres Drow — tinham um magnetismo que driblava até seus gostos pessoais. Não era atração romântica. Era perigo puro. Uma lembrança visceral de noites semiconscientes nos becos onde certos trabalhos o levaram a cruzar o caminho de matriarcas de Lolth — sequestradoras, contrabandistas, predadoras sociais. Gente perigosa. Gente que não devia ser desejada.

E ainda assim, Dahaka sempre teve uma tendência preocupante a flertar com o perigo.

Essa Drow tinha pele cinza-arroxeada, um olhar que só poderia ser descrito como devasso, e uma armadura vermelha decorada com padrões de teia em detalhes sutis — perigosamente elegantes.

Salass Ssoara

Ela percebeu o olhar rápido dele — a avaliação involuntária, o deslize — e respondeu com um sorriso lento, lisonjeiro, como quem marca território só porque pode.

Dahaka quase engasgou com o próprio ar antes de desviar o olhar para o teto, para a parede, para um ponto imaginário, qualquer coisa que não fosse o sorriso dela.

Fingiu estar analisando a arquitetura.

Fingiu muito mal.

Horusk ergueu o rosto da tigela de sopa, enxugando a barba desgrenhada com as costas da mão. Seus olhos — cansados, mas quentes — iluminaram-se ao ver o grupo entrar.

"É bom ver vocês inteiros." Ele disse, com uma sinceridade que contrastava imediatamente com a postura arrogante dos três elfos na sala. "Espero que sejam portadores de boas notícias."

A reação foi… imediata.

Ludus e Impetor trocaram um olhar. Dahaka bufou. Mor’Rein apenas piscou devagar. E Asher deu um passo à frente — mas hesitou. Porque boas notícias… não era bem o que tinham.

Asher respirou fundo. "Goldenfields foi um desastre."
O silêncio caiu como um peso sobre a sala.
"Não conseguimos interceptar nada e nem colher informações. Eram muitos. Os Mozorov estavam preparados demais e... Estavamos desalinhados"

Horusk franziu o cenho, desapontado. Não irritado — mas frustrado, como um pai que esperava mais do próprio filho.

Ludus tentou aliviar: "É… não foi nosso melhor momento."

Dahaka resmungou em concordância.

Mas Asher ergueu a mão. "Mas não voltamos de mãos abanando."

Os olhos de Horusk se estreitaram, atentos.
Foi o suficiente para que Ludus, com um floreio teatral, puxasse as cartas marcadas que havia roubado do quarto de Barthavious no baile — e as jogasse sobre a mesa com a precisão de um croupier. Elas deslizaram pelo tampo, abertas como um leque.

"Benthor e Barthavious estavam trabalhando juntos." Disse Ludus"Suspeitamos que a Aliança dos Lordes influenciou a coroação do Benthor. E o golpe contra a Regente de Ferro."

Asher completou: "E a praga necromântica… talvez seja um chamariz político."

Dahaka cruzou os braços, mascando as palavras:
"Os Zentharim deve estar lucrando com isso. Tráfico, armas, terras… Goldenfields seria uma espécie mina de ouro."

O silêncio se quebrou por um som sutil:

Dalloran riu.
Baixo.
Desdenhoso.
Como quem achava a análise divertida.

A Drow apoiou um cotovelo na mesa e sorriu — aquele sorriso que já estava torturando Dahaka desde que entrara.
"Para Dalloran… é até fofo."

Asher arregalou os olhos em confusão, olhando para Horusk como se buscasse permissão para ficar irritado. As perguntas fervilhavam em sua mente:
Por que a risada? O que esses três sabem? Desde quando eles sabem mais do que nós? E quem eles pensam que são?

Horusk pousou a tigela. Suspirou. Aquele suspiro que antecedia problemas… ou aulas longas.

"Cavaleiros… permitam-me apresentar os Enredados."

Os heróis se entreolharam.

Horusk continuou:

"Este é meu grupo de contra-espionagem Harpista."

Ele apontou com a colher.

À Drow:
"Salass Ssoara… minha especialista em infiltração e subversão em comunidades drow e células subterrâneas. Sua… abordagem costuma ser eficaz."
Salass piscou com malícia. Especialmente na direção de Dahaka.

Ao jovem meio-elfo:
"Cramenor Thollent. Guerreiro e informante dentro das fileiras mercenárias que trabalham para os contrabandistas da costa norte."
Cramenor apenas assentiu, ainda encostado na parede como se fizesse parte dela.

E por fim, com um suspiro resignado:
"E vocês já conhecem Dalloran Pedra-Rasa — meu especialista em infiltração entre nobres, burocratas e gente com títulos que acham que mandam no mundo."

Ludus murmurou: "Tem que ser um para reconhecer o outro…"

Dalloran nem se dignou a reagir.

Asher cruzou os braços. "E o que exatamente vocês fazem?"

Salass gargalhou como se fosse a melhor pergunta da noite.

Horusk apoiou os cotovelos na mesa.
"Eles trabalham infiltrados nas operações Zentharim aqui na Costa da Espada. Estão escalando a hierarquia… devagar, mas constantemente. Se tudo continuar no ritmo atual, teremos acesso ao Pereghost em pessoa."

Dahaka ergueu uma sobrancelha.
"O Pereghost? Aquele Pereghost?"

Horusk abriu a boca para confirmar — mas Salass o interrompeu, girando o dedo no ar, provocativa como sempre:

"Quem sabe até alguém maior."

Dahaka piscou. Duas vezes.
"Maior que o Pereghost?"

Salass soltou um risinho carregado de veneno e diversão.
"Olha… eles estão perdidinhos mesmo."
A forma como ela olhava Dahaka era uma mistura perigosa de deboche e desejo.
Dahaka desviou o olhar de novo, encarando uma lamparina como se fosse a coisa mais fascinante do mundo.

Cramenor finalmente ergueu a voz, ainda apoiado na parede:
"Eles não sabem sobre Thay?"

Mor'Rein ergueu uma sobrancelha imediatamente.
Thay.
A palavra soou pesada, antiga — e rara.
Ele tinha lido sobre isso. Muito pouco.
Magos terríveis.
Uma oligarquia sombria.
Uma Magocracia inteira construída sobre medo, disciplina e poder além da imaginação de gente comum.

Ele inclinou o corpo ligeiramente para frente, atento como se alguém tivesse puxado um fio sensível dentro de sua mente.

Horusk respirou fundo.

Aquele suspiro que todo aprendiz conhece.

O suspiro que antecede uma longa aula de história — e que promete mudar tudo.

"Pois bem…" disse o gnomo, com a gravidade de quem carrega segredos demais.
"Vamos começar do começo."

Horusk fecha a porta da sala com um baque seco. As chamas azuladas das lamparinas internas tremeluzem, refletindo nos rostos tensos dos Heróis e nos olhares semicerrados dos Enredados.

O Mago inspira fundo — e todos percebem que ele estava segurando isso há muito tempo.

“Meus amigos… Está na hora de vocês enxergarem o tabuleiro inteiro.”

A sala fica silenciosa. Só o crepitar das lanternas brancas.

Ele começa:

“Thay é… complicada. Uma terra seca, fumaça arcana e paredes vermelhas. Uma nação construída por magos para magos. Treinada à beira do fanatismo, alimentada por poder, sutileza e uma fé cega de que apenas os mais fortes — ou mais astutos — merecem comandar. Lá, o povo comum existe para servir. E acima deles estão os Zulkirs e seus Magos Vermelhos. Cada um representando uma escola da magia. Todos velhos demais, poderosos demais… ambiciosos demais.”

Cramenor sorri de canto, cruzando os braços. “Ele está pegando leve com vocês, é bem pior que isso.”

Salass gira o dedo, fazendo a luz de uma lanterna dançar. “Thay é o tipo de lugar onde sua sombra te entrega para o governo se você pensar em fugir.”

Horusk continua:

“Por séculos, Thay brincou com o restante de Faerûn. Invasões veladas aqui… acordos sombrios ali. Uma ameaça que nunca dorme. E dentro desse ninho de víboras… existia uma víbora maior.”

A chama branca estala quando o nome é dito.

“Szass Tam.”

Dahaka engole seco. Mor’Rein foca de vez.

“Um Lich. Não um morto-vivo qualquer… mas o cérebro mais perigoso a leste da Costa da Espada. Ele superou rivais, jogou uns contra os outros, corrompeu, comprou, enfeitiçou. Um estrategista que leva séculos planejando cada movimento. E… o pior…” Horusk esfrega o rosto. “Ele aprendeu.”

Mor’Rein franze a testa. “Aprendeu… o quê?”

“Que a força bruta não funciona mais.” responde Horusk. “Em 1369, Tam soltou um exército inteiro de mortos-vivos contra a Muralha de Vigília. Uma maré de ossos. E sabe o que aconteceu? Faerûn reagiu. O mundo se uniu. E ele percebeu que isso não podia se repetir.”

Dalloran dá uma risada curta, um “tch” debochado.

“Então ele mudou de método.”

“Ele arquitetou algo… mais sutil.” diz Horusk. “Algo que não envolvesse marchas de esqueletos. Ele precisava construir os focos da praga aqui, longe de Thay. Em muitos pontos. Simultâneos. Invisíveis. Alimentados por mãos distantes.”

O silêncio pesa.

“E é aí… que entrou Lady Sofina.”

Horusk faz um gesto, como quem afasta um fantasma.

“Sofina foi enviada anos atrás. Seu objetivo? Investir. Influenciar. Abrir portas. Encorajar certos elementos… a se associarem com o plano. E entre as sementes que ela plantou… uma se destacou.”

Ele olha para os heróis com gravidade.

“Haroldo Benthor.”

Asher fecha o rosto. Ludus cruza os braços. Dahaka cerra o punho.

“Um jovem lorde cheio de promessas, discursos, sonhos… e vaidade. Sofina investiu nele. Muito. Recursos, contatos, até magia. E Benthor cresceu em Suzail. Conexões. Cargos. Terrenos. Ele apenas… não fazia ideia do que isso custaria.”

Cramenor comenta seco, ainda escorado na parede:

“Ninguém nunca sabe no começo.”

Horusk prossegue:

“No início eram favores pequenos. ‘Assine isso.’ ‘Ignore aquilo.’ ‘Deixe essa carga passar.’ Mas conforme subia… os pedidos mudaram. Terrenos estratégicos. Armazéns isolados. Acesso aos portos de Cormyr. Silêncio quanto a carregamentos vindos de Sembia…”

Salass sorri com uma sensualidade cruel. “É sempre assim… a cenoura antes do bastão.”

Dahaka olha para ela e desvia rápido, desconfortável. Ela apenas ri.

“Benthor recusou.” diz Horusk com firmeza. “Tentou cortar os laços. Tentou renegociar. Tentou escapar.”

Asher avança um passo, tenso. “E o que Tam fez com ele?”

Horusk trava. Os Enredados ficam em silêncio também.

Isso dura só dois segundos, mas parece um minuto.

“…Isso não importa.” responde o Mago, rígido. “O que importa é que Benthor não recusou mais nada depois disso.”

Dalloran dá um estalar de língua satisfeito. “E o bastão desceu bem no lombo.”

Horusk retoma o fio, firme:

“O plano de Tam exigia três tipos de agentes:
Criminosos com recursos — os Zentharim.”
Seu olhar passa sobre Dahaka.
“Cultistas e bruxos dispostos a qualquer pacto.”
Ele encara Mor’Rein.
“E lordes corruptos, capazes de abrir portas dentro das cortes.”
E então olha para Asher, pesaroso.

O Mago fecha os olhos.

Impetor ergue a mão: “Mas qual era o plano? Por que unir tudo isso? Por que a praga?”

Dalloran adianta-se, como um professor cruel:

“Porque é mais fácil fazer o inimigo morrer onde ele vive, do que marchar uma horda desde o leste até aqui.”
Ele gira uma adaga nos dedos.
“Tam ia criar nós. Centro de infecção. Fontes autônomas da praga. Cada um usando grupos diferentes. Cada um com apoio criminoso local.”
Um sorriso fino.
“E todos conectados.”

“Cormyr resistiu o máximo possível.” continua Horusk. “Benthor transformou Suzail numa fortaleza. Ele tinha informações, sabia o que estava por vir, sabia onde reforçar. Por isso a praga demorou a alcançar o reino púrpura.”

Mor’Rein, pensativo: “Isso… faz sentido. A escala. A sincronia. Os padrões.”

“Asher…” Horusk se aproxima, sério. “Benthor não é o cérebro disso. Ele é apenas… uma peça. Torta. Útil. E quebrada.”

A Drow se levanta, percorrendo o espaço antes de se sentar sobre a mesa redonda. "Pelo que minhas fontes informam, a primeira fase do Plano de Szass Tam foi concluída." 

"Primeira fase?" Questiona Ludus, nervoso só de pensar noque poderia vir a seguir.

"Sim, agora vem os Dragões." Cramenor termina, respondendo a Ludus mas olhando para Impetor.

Ludus revira os olhos com a exaustão típica de quem já não tem mais espaço para novas tragédias. “Dragões… claro. Por que já não estava difícil o suficiente.”

Cramenor ignora o sarcasmo. A expressão dele é séria demais, carregada demais.

“Um número grande de Dragões Metálicos tem sido abatidos pelos Zentharim… a contrato do Lich.”

Dahaka arregala os olhos, e por um momento sua postura muda. Há algo antigo nele, algo que reconhece histórias de assassinato antes mesmo que fossem escritas. Ele olha para Impetor devagar, como se cada peça estivesse caindo no lugar.

“Impetor… seu pai. Miro’San…”

O Meio-Dragão de Prata ergue o olhar na mesma hora — e fica imóvel. Dahaka continua:

“Miro’San foi arrastado para um abismo cósmico. Por tentáculos negros. Nós vimos. E isso… isso não foi um simples ataque.”

Mor 'Rein escuta ecos em sua mente. Seu familiar reverbera sons do desconhecido.

Ssalas fecha a expressão, mais séria do que o usual. A lâmpada branca atrás dela faz sua silhueta parecer uma sombra ondulante.

“Ele se sacrificou.” diz a Drow, com uma suavidade que contrasta com suas palavras. “Pelo nosso entendimento… Miro’San impediu que o Lich colocasse as garras nele.”

Os olhos de Impetor se arregalam um pouco. Ele engole seco.

“E pra que Tam precisava do meu pai? E os outros dragões…?”

Ele não termina.

No meio da frase, o mundo dele se apaga.

Não dura mais que um segundo. Mas para Impetor, é uma eternidade:

Cinco bocas rindo.
Cinco gargantas exalando chamas, gelo, veneno, ácido e raios violentos.
Cinco pescoços colossais contorcendo-se.
Tiamat, coroada em trevas, olhando diretamente para ele.

Impetor inspira como quem voltou de um mergulho forçado. As veias escuras sob sua pele brilham com uma intensidade doentia, ramificando-se mais pelo braço, pelo pescoço, pelo peito. Ele se apoia com força na cadeira, respirando rápido.

Os outros se inclinam para frente instintivamente, prontos para segurá-lo.

Mas Impetor ergue a mão, pedindo um momento.

Horusk observa tudo com uma dor silenciosa na expressão.

“Não sabemos ao certo…” diz o Mago, desapontado — e não tenta esconder. “Mas tem relação com o que os Mozorov estavam fazendo em Goldenfields. Com certeza.”

A palavra Mozorov cai como uma pedra na sala.

O fracasso de Goldenfields pesa. Pesa muito.

Os Heróis não se olham, mas cada um sente o mesmo. Um silêncio pesado, sufocante. A culpa paira como uma névoa que ninguém tem coragem de dissipar. Nem Ludus arrisca uma piada. Nem Dahaka cruza os braços para disfarçar. Nem Mor’Rein abre a boca para comentar.

Eles falharam.

Perderam informação que agora seria vital.

Horusk percebe — e tenta aliviar o impacto, ainda que não consiga.

“Vocês agiram bem, Heróis.” diz ele, levantando-se com esforço. “Descansem por hora. Dalloran e Cramenor tinham pistas quentes sobre os Mozorov nos muros externos da cidade… Amanhã prepararei os Grifos e buscarei mais informações.”

Asher se levanta na mesma hora, como se o simples gesto fosse uma recusa absoluta daquele peso todo.

“Iremos com vocês.”

Dalloran ri pelo nariz, cruzando os braços.

“Acho que vocês já fizeram o bastante.” A arrogância dele preenche a sala. “Fiquem aqui e remendem os buracos nas roupas e na pele. Vocês estão exaustos… e isso está começando a afetar o desempenho de vocês.”

Os quatro heróis olham imediatamente para Horusk. Buscam nele algo — um apoio, uma discordância, qualquer coisa.

Mas Horusk apenas… permanece em silêncio.

Um silêncio que fecha a porta como uma sentença.

E confirma a decisão de Dalloran.

Eles ficariam ali.
Por hora.
Por mais que ardesse.

O vapor dança como véus brancos, subindo das águas quentes e turvas. O teto alto da Casa das Lanternas Brancas se perde na fumaça azulada — luz suave refletida em mármore branco, pilares antigos, pequenas lanternas de chama pálida suspensas em arcos delicados. Por dentro, o lugar é enorme. Muito maior do que qualquer um deles imaginou quando viu apenas uma porta discreta na rua abafada de Winterdeep.

Os cinco estão nus na imensa piscina termal, espalhados como ilhas, deixando o calor aliviar o peso nas costas — peso esse que nem água quente dissolve.

Mas relaxam. Aos poucos.

Ludus emerge de um mergulho, sem maquiagem, cabelos escorridos na testa, parecendo dez anos mais novo. Sobe a superfície dizendo:

“Tá bom, tá bom… já sei uma.”

Ele olha ao redor com um sorriso maldoso, aquele que anuncia caos social.

“Trepar, Casar e Matar… Darsha, Hamura e aquele pitelzinho da Ssalas.”

O silêncio dura meio segundo — tempo suficiente para Dahaka empalidecer.

“Que papo é esse?! É minha mãe!”

Ludus levanta a mão como quem explica o óbvio:

“Em primeiro lugar, nesse nível ela é mais nossa inimiga do que tua mãe. Em segundo… pô, ela tem mó rabão.”

Dahaka avança na água com a fúria de um crocodilo. Ludus recua nadando rápido, escorregando atrás de Asher como se o Paladino fosse um escudo humano.

“Protege o artista, campeão!”

Asher ergue uma sobrancelha, mas… surpreendentemente, entra na brincadeira.

“Hm… tudo bem Dahaka, você pode transar com a Darsha se isso te deixa tão nervoso.”

“Vai se fuder!” Dahaka espirra água para os dois.

A risada ecoa pelos azulejos.

Mor’Rein, mais esquelético ainda sem seus robes, aparece meio apoiado na beira.

“Acho que todo mundo sabe que o Dahaka realmente quer a Ssalas.”

Dahaka trava.
E explode.

“QUE PORRA É ESSA?! TU ENTROU NA MINHA CABEÇA, ELFO?!”
Ele põe as mãos nos ouvidos, como se isso fosse bloquear telepatia.

“Ele só jogou verde, Dahaka.” responde Impetor, relaxado, braços sobre a borda da piscina.

Ludus se aproxima de novo, venenoso:

“Huuum… bem que eu senti o clima. Roxo e vermelho é uma ótima combinação. Mas sacia nossa curiosidade: já esteve lá? Tipo… tu ainda é vir—?”

Uma onda absurda de água acerta Ludus direto na boca. Dahaka praticamente lança um tsunami nele.

Ludus desaparece no vapor por um segundo, tossindo água quente.

A piscina vira um campo de batalha. Água voa, respingos, xingamentos, risos altos, Impetor recebendo um jato que ele jura que não mereceu. Asher tenta controlar a situação e, naturalmente, é o primeiro a tomar um banho involuntário. Mor’Rein nem tenta — ele só usa telecinese pra devolver um balde d’água inexistente.

O caos dura até que uma voz surge por trás do vapor:

“Se importam se eu me juntar? Estou morta.”

O riso morre instantaneamente.

Até o vapor parece parar no ar.

Do nevoeiro surge a silhueta feminina — alta, sinuosa, luz branca refletindo em um corpo perfeitamente delineado. A pele escura da drow contrasta com o brilho azulado das lanternas. O cabelo prateado cai sobre os ombros.

Ssalas caminha devagar, como se fosse dona do lugar.

Ludus quase escorrega para debaixo d’água. Sobe só a boca e os olhos, igual um sapo assustado. Olhando para Dahaka que parece congelar. Literalmente não se move. Só os chifres dele parecem ter vida própria, tremendo levemente. A cauda afunda devagar, como se estivesse tentando fugir do corpo.

Asher rndireita a postura como um soldado diante de um general. Tenta não olhar. Falha. Tenta de novo. Falha de novo.

Mor’Rein e Impetor se entreolham e ficam calados sem responder.

A drow sorri — aquele sorriso perigoso, felino, que ela distribui quando quer provocar.

E entra na água com a naturalidade de quem sabe que todos estão olhando.

Salass desliza para a água, que sobe até as coxas dela.
O vapor abraça sua pele escura como a noite profunda.
Ela olha para cada um deles — e por um instante parece escolher mentalmente a ordem em que os provaria.

“Vocês são tão comportados…” comenta, entrando até os ombros.
“É adorável. Lá em Menzoberranzan se eu entrassse numa piscina dessas assim não duraria dez minutos sem alguém gritar ‘minha vez!’

Ludus engasga com o próprio ar.

“D-dez minutos?”

Salass dá de ombros, mexendo distraidamente nos cabelos brancos como neve.
“Uma noite comum entre as minhas… irmãs envolve cinco ou seis machos. Às vezes mais, se for lua cheia. Ou aniversário da Matrona. Ou Keleday (Quarta-feira).”

Um silêncio cai.
Um silêncio que pesa como uma bigorna.

Até Mor’Rein, o cultista do além-mundo, parece chocado demais para qualquer análise.

Impetor dá um tapa leve no próprio rosto, como se estivesse se certificando de que não está sonhando.

Asher pigarreia, tentando parecer descolado — sem sucesso.
“Cinco ou seis… por… por noite?”

“Claro.”
Salass apoia os braços na borda da piscina, peito quase emergindo da água.
“O que mais vocês acham que a nobreza drow faz para se divertir? Política? Teatro? Não, queridos… nós sabemos viver.”

O clima fica tão carregado de constrangimento que parece que até o vapor fica corado.

Ludus, que já sobrevivou a orgias, cultos de fertilidade e dois noivados falidos, balbucia:

“Caralho… eu… eu não tenho repertório pra isso.”

Salass lança um olhar de canto — diretamente para Dahaka.

Ele tenta se esconder por trás do próprio ombro.
O tiefling dá um sorrisinho nervoso.
E afunda um pouco na água.
Como se ficar mais submerso fosse deixá-lo invisível.

Salass se aproxima nadando em silêncio.
Parando perto. Muito perto.
A ponto de Dahaka quase esquecer como se respira.

Ela toca de leve o queixo dele com um dedo frio.

“Você…” ela murmura.
“Tem olhos vermelhos, bem parecidos com os meus. Não acha?”

Ludus chuta discretamente o pé de Asher debaixo d’água, apontando com os olhos.
CLIMA.
OLHA O CLIMA.

Mor’Rein já está se levantando da piscina.
Impetor o segue imediatamente.
Asher dá dois tapinhas na borda.

“Éééé… vamos deixar vocês… conversarem.”

Ludus sai por último, quase tropeçando. Ele sorri para Dahaka enquanto faz gestos obscenos com as mãos pelas costas da Drow.

Agora, só os dois.

O vapor sobe.
A água se move devagar.
Salass contorna Dahaka com um olhar afiado, de predadora.

“Então, Tiefling…”
Ela chega tão perto que seus narizes quase se encostam.
“Me diga. Você prefere liderar… ou ser liderado?”

Dahaka abre a boca — mas nenhum som sai.

Salass sorri como quem já sabia a resposta.
E se aproxima um pouco mais.

Os heróis se vestem rápido no corredor silencioso.
Ninguém comenta.
Ninguém ousa comentar.

Há apenas um olhar cúmplice entre todos — o tipo que vira piada interna por anos.

“Bom,” diz Asher, ajeitando o cinto. “A casa é grande. Vamos ver se tem algo que podemos usar contra Szass Tam.”

“Ou se tem alguma garrafa de vinho aberta,” completa Ludus, dando tapinhas no ombro do paladino. “Pelamor, merecemos.”

E seguem para a esquerda.

Mor’Rein e Impetor tomam o corredor à direita. As lanternas brancas pendem do teto e balançam como se uma brisa invisível cruzasse o lugar. O silêncio aqui é mais real do que o lá fora — pesado, quase denso.

Impetor anda meio curvado, esfregando o pescoço com a mão grande e metálica. Mor’Rein nota as manchas escuras subindo pelo braço do guerreiro, se espalhando como raízes mortas sob a pele.

Ele decide falar.

De forma suave:

“Você… está piorando.”

Impetor aperta o passo.

Mor’Rein continua:
“As veias negras. Os enjôos. A febre. Você tem perguntado demais sobre cultos, invocações, pactos… desde que voltamos do Inferno.”

Impetor estanca no meio do corredor.

“Eu tô bem.”

“Não, não está.”
A voz de Mor’Rein continua baixa, mas firme — firme o bastante para doer.

Impetor gira, olhos azuis faiscando.

“Você é a última pessoa que devia cobrar qualquer informação da gente.”

Mor’Rein fecha a expressão, mas não recua.

Impetor avança um passo, a fúria batendo na garganta:

“No Coliseu… Eu sabia a história de cada um dos irmãos que lutavam comigo. Era importante. A gente precisava confiar um no outro. E aqui não é diferente.”

O dedo dele aponta para Mor’Rein como uma lança.

“O Asher é um nobre falido buscando limpar o nome da família.”
Outro passo pesado.
“O Dahaka é um criminoso tentando, pela primeira vez na vida, fazer a coisa certa.”
Mais um.
“O Ludus… bom, o Ludus já me contou coisa o suficiente pra escrever três livros de uma biografia não-autorizada.”

E então:
Para.

“Mas você…”
A voz quebra, só por um instante.
“Você… é um vazio, Mor’Rein. Até agora não sei porra nenhuma sobre você.”

O familiar — a criatura estranha, de sombras disformes — aparece ao lado do cultista, como se emergisse da parede.

Impetor aponta diretamente para ela.

“Eu não sou tão estúpido quanto as pessoas acham sabe? Os sussurros que você solta enquanto dorme. Isso aí do seu lado. As suas feitiçarias, esses tentáculos, essas sombras, essa magia errada…”
Sua voz falha de novo.
“…é o mesmo tipo de coisa que levou meu pai naquele portal.”

Mor’Rein congela.
Literalmente.
A respiração some.
Até o familiar se recolhe instintivamente.

Impetor dá mais um passo.

“Você tem algo a ver com isso, Mor’Rein…?”
Silêncio.
“Você sabe onde ele está?”

O elfo se vira.
Lentamente.

Ele encara um quadro pendurado na parede da Casa — uma pintura de uma noite estrelada em azul profundo. As estrelas são pinceladas de prata, quase vivas.

Mor’Rein inspira.
Uma, duas vezes.

E pela primeira vez desde que se juntou ao grupo…

…ele fala.

Não em frases curtas.
Não em enigmas.
Mas de verdade.

“Impetor…”

A voz dele carrega décadas de cansaço, talvez séculos.
Baixa.
Quase um murmúrio.
Mas firme.

“Você acha que eu guardo silêncio por arrogância. Ou por desprezo. Às vezes até imagina que seja por culpa.”
Ele olha para o quadro — não para Impetor.
Para o infinito nele.

“Mas existe uma razão para eu ser calado.
Há… coisas no mundo que crescem quando são nomeadas.
E há decisões que só conseguimos tomar quando não temos todas as respostas.”

Mor’Rein ergue uma das mãos, observando as sombras se moverem, como tinta viva.

“A dúvida… é dolorosa. Eu sei.”
Ele fecha a mão.
“Mas ela também impede que você pule em certezas cegas. E verdades… ah, verdades absolutas… são o que fazem homens queimarem cidades acreditando que estão salvando o mundo.”

Ele finalmente vira o rosto para Impetor.
Os olhos de Mor’Rein brilham em um branco opaco — pela primeira vez sem se esconder.

“Eu também estou atrás de respostas, Impetor.
Eu também tenho noites em que acordo sem saber onde termina a minha voz e onde começam… as outras.”

O familiar treme, como se entendesse.

“Eu não sirvo a ninguém.
Não venero essa coisa que fala na minha cabeça.
É um negócio.
Uma troca.
Um fio que eu sigo enquanto tento me encontrar.
E ele também me usa, como eu uso ele.”

Mor’Rein abaixa o olhar apenas por um segundo.

“Mas você quer a verdade, então aqui está.”

Ele inspira profundamente.
Sua voz não treme.

“Se a sua pergunta é se eu matei o seu pai…
ou se tive qualquer envolvimento naquele portal…”

Um longo silêncio.

“…a resposta é não.”

Impetor fecha os olhos.
Só um instante.

“Mas se você quer saber se ele ainda está vivo…”

Mor’Rein suspira.

“Então a resposta é…
Quem sabe?

O ar no corredor fica mais frio.
Mais pesado.
Impetor abre os olhos devagar.

“Eu não sei tudo, Impetor.
Eu não entendo completamente o que vive atrás dos meus olhos.
E isso me assusta mais do que eu jamais admiti.”

Ele dá um passo — o suficiente para ficar ao lado do gladiador.

“Mas eu juro uma coisa.”
As sombras no chão tremem.
A voz dele fica firme.
“Eu não vou deixar você enfrentar isso sozinho.”

Silêncio.

Impetor respira fundo, os dentes cerrados, o peso finalmente dividindo-se.

Ele solta um ronco de frustração — e depois de alívio.

“Tá bom…”
Ele limpa os olhos de forma nada discreta.
“Tá bom, Mor’Rein. Eu ouvi.”

Os dois caminham em direção à cozinha.
Lado a lado.
Menos estranhos do que antes.

“Eu espero que tenha comida,” Impetor resmunga, passando o braço enorme por cima do estômago.
“Depois dessa conversa filosófica eu tô com fome de dois ursos.”

Mor’Rein dá um sorriso discreto.
Quase imperceptível.

“Há dúvidas que exigem pão antes de respostas.”

Impetor ri.

E assim, juntos, desaparecem no corredor iluminado.

A porta desliza, e a dupla entra.

A sala é ampla, cheia de mesas empilhadas com mapas, caixas, listas de nomes, pergaminhos selados. Harpistas passam, murmurando entre si, carregando documentos e cristais de registro. Todos ocupados demais para notar a chegada dos dois aventureiros.

Ludus cruza a entrada… girando.

Uma pirueta.
Um plié.
Um giro exagerado com os braços para cima, quase derrubando um estandarte.

“Desculpa! Fiquem tranquilos, tornado Lefou passando!”, ele anuncia, quase trombando com dois agentes que carregam uma caixa cheia de anéis de selos Arcânicos.

Ao lado dele, Asher caminha devagar, mãos nas costas, olhar pesado e atento. Ele examina mesas, gavetas abertas, notas crípticas sobre espionagem e intrigas.

Cada passo é um propósito.

Cada olhar é uma pergunta.

Enquanto Ludus dança entre papéis, Asher se inclina sobre um tomo grande — registros codificados dos Zhentarim.

Ele folheia.

Páginas densas, selos de sangue, nomes falsos.

Até que encontra algo que faz suas sobrancelhas se arquearem.

“Isso aqui…” Asher murmura. “É um diagrama de relações internas. Hierarquia oculta. Dá pra rastrear pagamentos, favores, operações clandestinas… Quando o Dahaka terminar o ‘compromisso’ dele na piscina, ele vai reconhecer esses códigos. Com certeza ele—”

E então ele percebe.

Silêncio.

Silêncio absoluto.

Ludus?
Quieto?

Isso é fisicamente suspeito.

Asher ergue a cabeça devagar… e vê Ludus parado diante de um quadro de avisos. Não se mexe. Não respira. Não pisca.

Um pergaminho de procurados ocupa boa parte do mural.
E no centro, desenhado em bico de pena com perfeição cruel…

Uma elfa de cabelos encaracolados.
Maokada.

A sombra do quadro parece engolir o bufão.

Asher se aproxima devagar.

Fica ao lado dele.
Não diz nada por um momento.

Depois:

“Família, né…” Asher murmura, olhando para o desenho.
“Uma hora ou outra eles arrumam um jeito de nos atormentar. Vivos ou mortos.”

Ludus continua encarando, mas seus lábios apertam.

“Eu acho que sou amaldiçoado, sabia?” ele solta, sem olhar para Asher. “Nasci sem família. Fui entregue aos Lefou como se fosse um pacote extraviado. E quando finalmente pensei que tinha um lar… eu perdi eles. Depois veio a Corte. Depois veio… tudo isso.”

Sua voz falha.

“Lá no baile... Eu tive a Giulline nos meus braços, Asher. Eu podia ter ficado. Eu podia ter segurado ela. Eu… deixei ela ir, de novo.”

Asher fecha o livro devagar.

“Ludus…”
Ele respira fundo, como quem decide abrir uma porta que manteve fechada a vida inteira.
“Lembra que eu fui contratado pelo Barthavious pra te matar.”

Ludus vira o rosto, surpreso "Espero que você não esteja reconsiderando aceitar o serviço. Que foi a grana da ração da Mista é cara?"

“Não é isso... Eu estava no fundo do poço. Minha família tinha sido massacrada quando eu era criança. Eu não tinha nada. Nem nome, nem casa, nem propósito. Aceitei aquele contrato porque… porra, eu só queria seguir ordens. Qualquer ordem.”

A voz dele treme, imperceptível.

“Mas você disse uma coisa naquela noite… quando me encarou como se fosse impossível alguém te odiar de verdade…”

Asher o encara agora.

“Você disse: ‘A verdadeira honra não vem de obedecer, e sim de entender o valor das próprias escolhas.’

Ludus fecha os olhos um instante.

Asher continua:

“Aquilo mudou tudo. Mudou quem eu era. Mudou o que eu acreditava sobre o legado da minha família. E mudou… a forma como eu via você.”

O paladino respira fundo.

“Você fez escolhas que te afastaram de quem você chama de família, Ludus. De quem você queria ao seu lado. Mas isso não te faz menos homem do que é. Eu vivi tempo demais carregando culpa por coisas que estavam fora das minhas mãos.”

Ele toca o ombro de Ludus, firme.

“Eu aprendi a viver com as minhas escolhas.
E eu sei que você vai aprender a viver com as suas.”

Ludus finalmente desvia os olhos do retrato.

Abre um sorrisso e muda de assunto. "Então... Códigos Zentharim certo?" tirando os livors da mão de Asher.

Asher sorri também, já sabendo como funciona a mente do palhaço.

Dois dias se passaram.

Dois dias sem notícias de Horusk, Dalloran ou Cramenor.

Dois dias em que a Casa das Lanternas Brancas parecia maior, mais silenciosa e mais vazia do que antes.

Os Harpistas faziam o possível para manter o clima leve, mas até eles — mestres de disfarces e sorrisos calculados — deixavam escapar olhares preocupados sempre que alguém mencionava “Colina de Goldenfields”.

Os Heróis tentavam ocupar a mente.

Asher passava horas afiando a lâmina, polindo armaduras, repetindo movimentos como se pudesse cortar a ansiedade com aço. De tempos em tempos, parava e encarava a porta — como se esperasse ver Horusk entrando com algum comentário ácido ou um relatório novo.

Mor’Rein estudava pergaminhos e memórias. Às vezes fitava o familiar, às vezes era fitado por ele — como se ambos tentassem adivinhar pensamentos um do outro. O elfo até tentou meditar, mas a mente dele não ficava quieta. Nunca ficou.

Impetor,  passava o tempo esmagando toras de madeira, adaptando pesos improvisados, usando o que encontrava para transformar qualquer sala num recinto de treino. Seus golpes ecoavam pelos corredores, fortes, precisos, carregados de um peso emocional que ninguém ousava comentar.

Ludus alternava entre treinar acrobacias, brincar com adagas e fazer perguntas inconvenientes aos Harpistas (“posso tocar nesse artefato amaldiçoado?” / “isso é frágil?” / “o que acontece se eu puxar essa alavanca?”). No fim, sempre era arrastado para longe antes que algo grave acontecesse — mas ele garantia que estava “ajudando a manter a moral alta”.

E Dahaka

Dahaka estava diferente.

Silencioso, sim. Concentrado, sim.

Mas também... comprometido.

Ele tinha transformado uma sala inteira num escritório improvisado, espalhando tintas, selos, pergaminhos, modelos de brasões, amostras de caligrafias de nobres, e — para desespero de quem fosse limpar — três galões de tinta negra que ele jurava ser “essenciais”.

A mesa dele estava tomada por documentos falsos: Certidão de nascimento. Registro de comércio da “Câmara dos Mercadores do Mar Interior”Licença de passagem por portões de Waterdeep. Um brasão falsificado com precisão tão absurda que até Asher, um nobre legítimo, ficou confuso.

E, claro…
O “toque artístico” estava presente em tudo.

Mas a verdadeira mudança era outra:

Salass.

A drow aparecia hora sim hora não.
Encostava na porta, olhava Dahaka trabalhando e soltava:

“Errado. Tesouro, ninguém da Casa Phahlarin usa esse tipo de curvatura no ‘Ss’. Aqui… deixa que eu te mostro.”

Ou:

“Assinatura muito firme. Homens que mentem por carreira sempre deixam hesitação na última letra.”

Ou ainda — com um sorriso que deixava Dahaka engasgado:

“Você falsifica bem, mas faz isso como um homem honesto. Anticonceitual demais.”

Dahaka, por alguma razão divina ou infernal, ouvia cada palavra.

No fim de duas tardes inteiras:

Ele tinha documentos melhores do que os da própria Waterdeep.

E no fundo, enquanto carimbava o brasão final, pensou:  “Drow de primeira linha… sem dúvida.Mas eu preferia que ela tivesse me ensinado isso sem colocar a mão na minha coxa enquanto mostrava a caligrafia… não precisava.”

Só que, claro, quando Salass passou atrás dele e disse:

“Seu traço ainda está muito macho. Relaxe o pulso…”

Ele relaxou o pulso na hora

O terceiro dia mal havia começado quando a tranquilidade frágil daquele lugar foi despedaçada.
Asher estava de cócoras ao lado de Mista, acariciando o focinho da loba enquanto os grifos bicavam preguiçosamente seus baldes de água gelada. O ambiente tinha aquele cheiro de palha úmida, couro e inverno, até que gritos cortaram o ar.

"Ajudem-os! RÁPIDO!"
"Segurem ele! Não deixem ele cair!"

O barulho de passos apressados ecoou pelo estábulo interno.

Asher ergueu a cabeça, olhos se estreitando. O paladino nem pensou: saiu correndo, roçando no flanco de um grifo que abriu as asas assustado.

No corredor, ele bateu de ombro com Impetor.

"Ouviu isso?" o bárbaro perguntou, ajeitando a clava nas costas.
"Ouvi. Vamos."

Os dois seguiram quase trotando até o Salão de Entrada.

O impacto visual foi imediato.

Quatro harpistas lutavam para erguer o que restava de Dalloran.
O elfo agora parecia um trapo humano.

Sua camisa estraçalhada.
Sangue escorrendo da boca.
Um dos olhos quase fechado.
Os longos cabelos negros desgrenhados e grudados no rosto.

Cada passo que o carregavam arrancava dele um gemido abafado.

Mor’Rein surgiu no topo da escadaria, com um olhar que misturava curiosidade e alerta. Atrás dele, Ludus colocava a cabeça para fora, e Dahaka surgia como uma sombra silenciosa.

Mas se Dalloran impressionava pela destruição…

Cramenor era o horror em forma de gente.

Metade da armadura simplesmente não existia mais.
Seu peito estava cheio de hematomas roxos e cortes fundidos por força telecinética.
Seu rosto… irreconhecível.
O meio-elfo estava desacordado, respirando tão fraco que parecia que desistia da vida.

"Enfermaria! AGORA!" gritou uma harpista, enquanto dois outros puxavam a maca com desespero.

Foi então que Salass surgiu de uma porta lateral.
A drow perdeu totalmente a expressão quando viu o estado de Cramenor.

Ela se ajoelhou ao lado da maca, pousando uma mão fina sobre o peito do guerreiro.

"Seldarine…"
A voz dela saiu num sussurro raro de preocupação.
Feitiços luminescentes escorreram de seus dedos como fios de prata.

"O que houve?!" ela exigiu.

Dalloran tossiu sangue e tentou sorrir:

"Lyo… Lyo Mozorov… o psiônico. O garoto lavou o chão com a gente…"

Antes que alguém pudesse responder, a porta principal explodiu para dentro com uma rajada de vento.

E ali estava ele.

Horusk.

Montado em um grifo enorme, as penas do animal sujas de sangue que escorria… do próprio mago.

A barba branca de Horusk estava completamente empapada.
Uma cascata de sangue escorria de suas nas narinas.
Suas mãos tremiam.
Ele desceu da sela e quase não firmou os pés no chão.

Tocou o corrimão.

E vomitou sangue. Muito. O suficiente para assustar até um veterano de guerra.

Mor’Rein prendeu a respiração.
O elfo jamais vira um mago — qualquer mago — naquele estado.
Muito menos Horusk, que até então parecia indestrutível, inabalável, intocável.

O velho gnomo tentou recuperar o foco, respirando como quem volta de uma travessia no plano astral.

"Ele… Ele ainda estava na minha cabeça…"
Outra golfada de sangue.
"Aquele maldito… me chamando pra ‘brincar’…"

Asher deu um passo à frente, assustado.
Mas Horusk já varria a sala com os olhos, procurando alguém.

Quando encontrou Asher, estendeu um dedo longo, enrugado, trêmulo.

"Sala de conferência… em dez minutos… Você… e os outros… precisam saber o que— ARGH!"

Ele tentou caminhar.
Mal deu dois passos.

Caiu de joelhos.

Ludus praticamente voou escada abaixo.

"O senhor não vai pra lugar nenhum antes de ser tratado!" o bufão disse, a voz quebrada de emoção.
Era verdade: os heróis, por mais que odiassem admitir, haviam criado um laço com aquele velho rabugento.
Horusk tinha se tornado família — do jeito torto e inesperado que todas as famílias aparecem.

"Eu estou… bem…" Horusk tentou insistir. "Só… preciso…"

O corpo não obedeceu.
Ele tombou para a frente, e Salass correu junto com outros harpistas para segurá-lo.

"Dormir depois. Curar agora." rosnou a drow, carregando o gnomo com uma força que contrastava com sua silhueta fina.

Eles sumiram pelo corredor.

Impetor soltou um sorriso torto, tenso.

"O velho tem garra…"

Dahaka cruzou os braços.
Ele tentava esconder o impacto, mas não conseguia.

"Vai ficar bem…"
A voz do tiefling saiu baixa.
Quase uma oração.

Os heróis ficaram ali.
Naquele saguão branco, agora coberto de sangue — o sangue de seus aliados, amigos e mentores.

O silêncio se instalou.

Um silêncio pesado.
De medo.
De expectativa.
De fúria.

O que quer que tivessem descoberto…
Havia quase matado três dos maiores harpistas vivos.

E os heróis sabiam:

A conversa que viria em minutos
poderia mudar tudo.

A sala de conferência parecia respirar junto com eles.
As tochas brancas da pira central tremulavam como se estivessem inquietas — como se também lembrassem do que tinham visto através da mente de Horusk. A luz branca oscilava com nervosismo, projetando sombras longas, tensas, que dançavam pelas paredes de mármore.

Horusk estava sentado, ainda envolto em bandagens. A barba branca havia sido lavada, mas manchas rosadas ainda denunciavam o sangue seco. Seus dedos tremiam enquanto ele puxava o casaco grosso para mais perto do peito.

Salass, ao lado, mantinha uma das mãos pousada no ombro dele, canalizando feitiços de cura contínuos, como se tivesse medo de soltá-lo e ele simplesmente desmoronar de novo.

Os cinco heróis  ocupavam seus lugares ao redor da mesa de pedra. Ninguém ousou falar primeiro.

Foi o velho gnomo quem rompeu o silêncio.

“Goldenfields…” Ele respirou fundo, engolindo uma dor que não era só física. “Fomos até lá eu, Dalloran e Cramenor. Minhas fontes diziam que os Mozorov não estavam mais na região. E… a princípio, parecia correto. Fazendas vazias. Monastérios abandonados. Vento batendo em portas soltas.”

Impetor rosnou.
“Bom demais pra ser verdade.”

“Exato.”
Horusk bateu de leve os dedos na mesa, como se marcasse um ritmo para lembrar à mente que ela ainda funcionava.
“No velho vilarejo… na capela… encontramos algo que não devia estar lá. Documentos. Mapas incompletos. Referências a uma passagem subterrânea. Ali mesmo, nos fundos da capela.”

Ludus arregalou os olhos.
“Uma passagem escondida… por quanto tempo?”

“Eras.” O gnomo pigarreou e respirou com cuidado. “Levava até a antiga masmorra de Mayrk Phalmer.”

Mor’Rein inclinou o corpo para frente, olhos estreitando.
“Phalmer… o arquidruida das histórias dos círculos antigos?”

“O mesmo.”
Horusk assentiu devagar.
“Ele foi o arquiteto original da masmorra há incontáveis séculos. Mas aquilo nunca foi uma masmorra comum. Ele usou magia de transfiguração, fauna, fungos vivos… a estrutura mudava sozinha. Corredores se moviam. Câmaras surgiam e desapareciam. Nada era fixo.”

Dahaka arrependeu-se involuntariamente, lembrando dos túneis infernais que já vira em masmorras comuns.
“Então… um labirinto mutável.”

“Pior.”
Horusk inclinou o corpo para trás.
“O lugar ficou famoso entre monstros que queriam se esconder. Illithids reapropriaram a estrutura. Depois drows. Depois criminosos. Depois observadores. Era um ninho de feras, vestígios e horrores — tudo se reescrevendo constantemente.”

Asher pigarreou.
“E como era chamada essa masmorra?”

Horusk fechou os olhos por um instante, como se pronunciar o nome fosse acender memórias ruins.

Raiztorrente.

A palavra pareceu fazer a pira tremer mais forte, como se reconhecesse algo antigo e perverso.

“Toren… o quê?” perguntou Impetor, franzindo a testa.

“Raiztorrente.” completou o gnomo, “A raiz que flui. O labirinto vivo.”

A mesa ficou silenciosa.
A pira estalou.
Mor’Rein cruzou os braços.

“Mas… por que diabos os Mozorov estariam interessados numa passagem que leva pra esse lugar?” Asher finalmente questionou.

Horusk inspirou fundo.

“Eu tenho minhas suspeitas.”
Ele limpou o nariz com um lenço, e um novo filete de sangue escorreu.
“Chegarei lá.”

Ele continuou:

“Nós três ficamos em Goldenfields quase um dia. Procurando pela passagem. Observando qualquer movimento dos Mozorov. Nada. Nenhuma trilha. Nenhum rastro. Até encontrarmos — no monastério — o alçapão que levava ao subterrâneo.”

Dahaka franziu a testa, os dedos batendo de leve na mesa.

Horusk fechou os olhos, lembrando.
“O caminho subterrâneo… era o acampamento real dos Mozorov. A base verdadeira. Oculta. Profunda. A batalha começou quase imediatamente. Estávamos preparados para guerrear contra soldados, assassinos, mercenários…”
Ele tremeu.
“Mas não para o Psiônico, não para Lyo Mozorov.”

O nome causou uma reação visível.
Mor’Rein prendeu o ar.
Ludus engoliu seco.
Asher sentiu o estômago apertar.

“Ele nos esperava.”
Horusk apoiou a mão na têmpora.
“Eu tentei lutar contra ele. Todos tentamos. O garoto… o maldito… ele esmagou minhas defesas mentais como se fossem papel. Não conseguimos. Perdemos terreno. Fomos forçados a recuar para dentro dos túneis.”

Impetor bateu a mão na mesa, frustrado. "Eu devia ter ido para..."

“Não se empolga lagartão." Ludus acalmou o amigo, e depois se voltou para Horusk "E vocês fugiram por quanto tempo?”

“Horas.”
A voz de Horusk saiu falha.
“Eram túneis antigos. Umidade, cheiro de mofo, raízes crescendo de forma impossível. Escutávamos passos. Vozes. Risadas dele. O psiônico brincava conosco como um predador brinca com presas.”

Ludus desviou o olhar, desconfortável.

“Então…”
Horusk ergueu a cabeça.
“Sentimos o ar fresco. Eu reconheceria aquele cheiro em qualquer lugar.”

Os heróis se inclinaram sem perceber, pendendo para frente enquanto ele continuava.

“A Floresta Alta. Saímos do subterrâneo diretamente sob as copas das árvores antigas. E lá, diante de nós…”

Ele respirou mais rápido, olhos vidrados no vazio.

“A entrada para Raiztorrente.
Escondida… a plena vista.”

“Como era?” perguntou Mor’Rein, quase num sussurro.

Horusk abriu um pequeno sorriso triste.

“Imagine uma árvore… mas não uma árvore comum. Um gigante ancestral, retorcido como se tivesse sido moldado à força por mãos divinas. Suas raízes formavam um arco natural, cinco metros de altura, como mandíbulas entreabertas. A casca pulsava. Sim — pulsava. Lenta.
Viva.
E no interior do tronco oco, onde deveria haver escuridão, víamos… movimento.
Como carne respirando.”

Asher engoliu seco.
Impetor perdeu o sorriso por completo.
Dahaka teve um arrepio visível.

“Lyo estava perto.” disse Horusk. “Tão perto que senti a mente dele arranhando a minha. Marquei um glifo de localização escondido numa das raízes. Chamei um grifo com o último fôlego que tinha. E partimos dali.”

Ele se recostou.
A pira atrás dele explodiu numa oscilação branca, reagindo ao relato.

O gnomo olhou cada um dos heróis nos olhos, um a um.
A expressão dele, antes cansada e confusa, agora se tornava dura. Fria. Determinada.

“Os Mozorov estão de olhos em Raiztorrente.”
A sala ficou em silêncio absoluto. Ele apoiou as duas mãos na mesa.

“O que quer que eles estejam planejando… não é apenas perigoso.”

Os heróis sentiram o peso das palavras antes delas serem ditas.

“É nosso trunfo contra Szass Tam."

A pira branca estalou de novo — um estalo curto, quase como um suspiro indignado — quando Impetor coçou a cabeça e franziu o cenho.

A Masmorra vai derrotar Szass Tam?

Horusk fechou os olhos por um instante, respirou fundo como um mestre lidando com um aluno lento, e só então virou o rosto para o meio-dragão.

Não, Impetor.” Sua voz saiu baixa, calma. “Não Raiztorrente. Mas sim… o que ela guarda.

O silêncio que se abateu sobre a mesa não era apenas expectativo — era pesado, ansioso, como se todos, ao mesmo tempo, tivessem parado de respirar. Salass, até então silenciosa, interrompeu a magia por alguns segundos, só para cruzar os braços — inquieta.

Horusk percebeu.
E prosseguiu.

“Vocês estão familiarizados com a Lenda do primeiro Metamorfo Dragão, certo?”
Os heróis não responderam — mas não precisavam. As expressões perdidas diziam tudo.

“Pois bem… Vamos começar por aí então.”
Ele levou a mão ao peito, como quem remexe um livro antigo no coração.
“A nossa história começa com dois irmãos.”

Ludus murmurou:
“Ah, mais drama de família…”

Horusk o ignorou.

Um deles, vocês conhecem bem: Szass Tam, o tirano, o arquilich.
O outro, entretanto… era um elfo. Um elfo poderoso, antigo, dotado de um dom raríssimo: a capacidade de se metamorfosear em um grande Dragão Vermelho.”

Impetor engasgou no cuspe.
“Um elfo-dragão?”

“Sim.”
Horusk continuou.
“Os dois viveram juntos durante muitos anos. Eram companheiros de jornada. A ligação deles era real, profunda… mas, como todos os laços próximos demais, terminou quebrada.”

A pira tremulou, como se sentisse a melancolia da história.

“Szass Tam cresceu. Em poder, em ambição, em fome. E quando a profecia veio — a profecia que dizia que seu irmão seria o único capaz de frear seu reinado de horror — o medo tomou conta dele.”

Dahaka sussurrou:
“Ele temeu… o próprio sangue.”

“Exato.”
Horusk assentiu.
“E no medo… ele traiu.Szass Tam vendeu informações. Entregou a localização do irmão para inimigos antigos: um consórcio de assassinos drows.”

Salass, até ali apenas tensa, mordeu o lábio com tanta força que sangrou.

Horusk fez uma pausa curta antes de pronunciar o nome — como se pesasse as palavras.

“A Matriarca Zyn’Shalara Do’Vhalen.”

O nome ecoou como veneno no ar.

Salass cerrou os punhos.
As veias de sua têmpora saltaram.
Os olhos dela ficaram vermelhos de ódio, e seu sotaque drow escapou num sussurro:

V’rath ssinssrigg… maldita cadela…

Ela tentou conter a fúria.
Falhou.

Horusk apenas continuou, como se esperasse aquela reação.

“A matriarca tinha… contatos. Conhecia pessoas que tinham acesso a Raiztorrente. Pessoas que sabiam entrar e sair de lá quando ainda era possível navegar suas formas originais.”

Mor’Rein abriu um sorriso sem humor.
“E ela não quis matar o elfo-dragão?”

“Segundo algumas fontes, ela achou que seria desperdício.” disse Horusk.
“Segundo outras, talvez ela temesse mais Szass Tam doque ele — e preferiu aprisioná-lo.
Mas há uma terceira teoria… a que eu acredito.”

Ele fixou o olhar nos cinco heróis.

“A matriarca sabia que prendê-lo em Raiztorrente seria o mesmo que apagá-lo do mundo.”

A pira pareceu apagar por um instante — para depois reacender mais forte.

“Raiztorrente muda. Ela devora formas, consome caminhos. Corredores surgem e desaparecem. Salas se contorcem. Se você entrar… não há garantia alguma de que voltará pelo mesmo caminho.”

Dahaka murmurou, engolindo seco:
“Um labirinto vivo… que não quer ser desfeito.”

Horusk inclinou a cabeça.

“Exatamente.”

Ele apoiou as duas mãos na mesa, respirando fundo antes de completar:

“O elfo-dragão foi levado para lá. Foi esquecido. E conforme a masmorra mudava, o mundo deixou de saber onde fica sua cela. Talvez ele esteja vivo. Talvez não. Mas uma coisa é certa…”

A voz dele virou um sussurro grave:

Szass Tam teme esse dragão. Teme o suficiente para manter vigias e agentes monitorando as entradas de Raiztorrente agora que seu grande plano está em curso.”

Asher piscou, atônito.

“Então… ele não quer entrar na masmorra...”

Horusk encarou os cinco com uma expressão cansada, mas firme.

Exatamente. Ele não vigia Raiztorrente para tirar algo de lá de dentro.”
A pira estalou como um trovão.

Ele vigia para garantir que algo permaneça lá dentro.

O Norte então ficou claro.
Os cinco já sabiam o que precisava ser feito: partir para Raiztorrente, encontrar o dragão da lenda e enfim ter uma chance real contra Szass Tam. Era isso. Não havia alternativa. Não havia mais descanso.

Salass ficou para trás com Horusk — os dois exaustos, e com Cramenor e Dalloran praticamente nas últimas. Asher deixou Mista ali também, a loba deitada ao lado da drow e do gnomo como uma muralha viva, cuidando da Casa das Lanternas Brancas enquanto eles seguiam para o desconhecido. Era o único jeito.

Horusk, apoiado por Salass, apontou no mapa a localização exata da masmorra, no coração da High Forest. Ele sabia onde estava graças ao glifo gravado na raiz viva — um detalhe que talvez tivesse custado sua sanidade, mas salvou a missão.

E então os cinco partiram.
A calmaria tinha acabado.
Agora era mergulhar direto no furacão.

Os Ases de Horusk já os esperavam do lado de fora — guerreiros montados em enormes Grifos, focados, silenciosos, prontos para a manobra suicida de distração. Mor'Rein subiu na própria vassoura, que ronronava como um felino arcano inquieto. Os outros montaram nos Grifos, ajustando armas, capas, coragem.

O céu os engoliu em segundos.

O vento cortava suas faces enquanto a High Forest se tornava um oceano verde lá embaixo. Mor’Rein acompanhava a formação lá do alto, flutuando com a vassoura vibrando, deixando um rastro púrpura que se dissipava no ar. A altitude revelava tudo: rios prateados, clareiras enevoadas, sombras de criaturas correndo entre copas — e, finalmente…

Raiztorrente.

De cima, não parecia uma construção.
Parecia algo que cresceu.
Algo que decidiu existir.

Um aglomerado colossal de raízes trançadas formando arcos retorcidos, pulsando como se respirassem junto com a floresta. A abertura central parecia uma garganta, escura, profunda, viva. Até Mor'Rein desacelerou o voo, estranhamente muda.

Então Dahaka apontou: havia movimento se aproximando.
Um destacamento Mozorov avançava pela mata, marchando direto para a entrada. Lâminas brilhante vibravam, armaduras brilhavam com o brasão da família. Eles estavam perto demais. Foi ali que foram deixados pelos cavaleiros de Grifo.

Os Ases olharam para os heróis e fizeram o gesto combinado — um toque no elmo, curto, silencioso, decidido.
E então se lançaram contra os Mozorov.

Os Grifos mergulharam como cometas dourados, e no instante seguinte o barulho da luta começou: choque de metal, explosões, gritos abafados pela distância. Faíscas e poeira subiram como fogos pálidos.

Ludus prendeu a respiração.
Dahaka encarou a cena com o maxilar travado.
Impetor fechou a mão com força no cabo da arma.
Mor'Rein observava a luz da batalha refletindo em seus olhos afiados.

Asher olhou para trás — para a fumaça da batalha subindo entre as árvores — e então para a boca viva da masmorra logo adiante. A estrutura respirava. Era quase possível ouvir o leve huff… huff… das raízes se expandindo e contraindo, como pulmões de madeira e carne.

"Esse é o plano" disse Asher, mesmo sem virar para os outros. "Eles cuidam do inferno lá fora… e a gente do inferno lá dentro."

Ninguém contestou.
Ninguém tinha coragem de hesitar.

Impetor avançou primeiro.
Dahaka foi logo atrás.
Mor'Rein ajustou a vassoura e pairou alguns centímetros do chão.
Ludus engoliu seco e acompanhou.

Asher foi o último, respirando fundo.

E juntos, nervosos, tensos, mas resolvidos…

A entrada de Raiztorrente engoliu os cinco heróis como a boca úmida de uma criatura antiga.

O primeiro passo já era outro mundo — não havia chão firme, nem pedra, nem madeira. Tudo ali parecia uma fusão: raízes grossas se enroscavam umas nas outras, formando um corredor sinuoso que descia em espiral, como se a própria floresta tivesse decidido cavar um caminho para baixo e, depois, se arrependido no meio do processo.

A luz era verde e âmbar, filtrada por fissuras microscópicas entre as fibras vivas das paredes. O ar estava pesado, quente, com cheiro de terra úmida e algo mais… algo que lembrava respiração. Cada sombra parecia se mover um pouco, cada raiz vibrava como um músculo.

E logo o corredor se transformou numa escadaria.
Não uma escadaria construída — mas mantida. Sustentada por um antigo alçapão de pedra encravado na diagonal, sustentando centenas de raízes que o atravessavam como tendões. Era como descer a garganta de alguém que não queria ser cortado ao meio.

Impetor tomou a dianteira. Seus passos pesados faziam o chão vivo ranger, como se a masmorra reclamasse da presença dele.

Dahaka seguia logo atrás, olhos atentos ao menor movimento, a uma raiz que se contraiu rápido demais, a um fungo que pulsava de forma suspeita. Suas mãos tocavam as paredes, calculando a textura, ouvindo vibrações, procurando armadilhas.

Ludus vinha na retaguarda, quieto demais para o padrão dele — mesmo ele parecia intimidado. Asher ao lado, a mão na espada e o olhar alternando entre o caminho e os amigos, tentando manter a calma de um líder que não queria admitir o próprio medo.

Mor’Rein desceu da vassoura quando percebeu que o espaço começava a ficar estreito demais. A vassoura pairou sozinha alguns centímetros acima do solo, como um cão mágico esperando por ordem. O elfo olhou em volta com cuidado, absorvendo a sensação arcana que emanava das paredes vivas.

Ele foi a primeira a sentir.

Um arrepio.
Um calor repentino.
Uma energia antiga, morta, mas ainda inteligente.

Quando virou o rosto — tarde demais — quatro pares de olhos se abriram ao mesmo tempo nas paredes.

Eram esmeraldas incandescentes, gemas fundidas em órbitas vazias, que brilharam como brasas despertas.

Os crânios se desprenderam das paredes vivas com estalos secos — como ossos quebrando — revelando-se entre raízes que pareciam tentáculos. As caveiras eram velhas, queimadas, com runas corroídas esculpidas na superfície. Chamas verdes se acenderam dentro delas, iluminando o corredor com uma luz macabra.

Caveiras-Flamejantes.
Guardas mortuários criados a partir dos crânios de conjuradores mortos — condenados a servir eternamente, presos a uma mente que só conhecia ódio e ordens antigas.

Mor’Rein sempre pensou, que seria “um elogio” ter seu crânio usado para criar uma Caveira-Flamejante no futuro. Que isso significaria que seus inimigos o tinham com respeito, e era reconhecimento como conjurador. Mas agora, olhando um deles de perto… a ideia pareciacair por terra.

Aquilo não era homenagem.
Era zombaria.

Chamas substituíam carne.
Runas substituíam memória.
E a vida que eles tiveram era arrancada para sempre, transformada em combustível para dor e vigilância.

Os quatro crânios pairavam no ar, um a um girando com movimentos bruscos e antinaturais. Suas bocas se abriram num sorriso cortado por fissuras, deixando escapar fagulhas verdes. Rachaduras nas gemas dos olhos davam a impressão de que choravam luz.

Eles começaram a rir.
Um som seco, quebrado, ecoando como vidro arranhando vidro.

Mor’Rein levantou a mão, já canalizando um contra-ataque arcano.

Dahaka recuou um passo, preparando as lâminas.

"Merda!" Ludus praguejou.

"Possições!" Asher sussurrou um aviso.

Caveira Flamejante.
Impetor rosnou e ergueu a clava.

As chamas verdes explodiram.

O primeiro disparo estava vindo.

A luta contra os guardiões mortos-vivos de Szass Tam tinha começado.

A luz verde explodiu primeiro.

As quatro Caveiras-Flamejantes abriram as mandíbulas ao mesmo tempo e cuspiram torrentes de fogo esmeralda — jatos curvos, inteligentes, que ricocheteavam nas paredes vivas como serpentes feitas de calor.

Impetor rugiu, avançando contra o ataque.
Seu corpo cresceu num espasmo — músculos se tensionando, veias pulsando — enquanto a Fúria Dracônica tomava conta. As escamas prateadas começaram a surgir nos braços como placas metálicas. Ele ergueu a clava gigante e… bateu no próprio chão vivo.

O impacto gerou um tremor que fez as raízes estalarem. O fogo dos crânios se desviou levemente — o suficiente para ele passar correndo pelo meio, metade do corpo coberto por seu Sopro de Gelo prateado, que ele soltou com um rugido gutural.

O cone congelou uma das Caveiras-Flamejantes no ar, porém a crosta de gele acabou sendo rachada por chamas verdes, gelo não funcionaria contra esses guardiões.

Mor’Rein apontou a mão. O Familiar aparecendo como uma falha na realidade se possicionou no flacon de uma das caveiras, a distraindo por um momento.

O ar ao redor da palma se torceu como água sendo dobrada. A energia cósmica distorceu o espaço e Rajda Mística. Dois feixes — serpenteantes, verde-negro — acertaram a caveira congelada, quebrando metade dela e arremessando o resto contra a parede viva. Ela se desfez num clarão verde.

Três restavam.

Dahaka desapareceu.

Um piscar.
Literal.
O Tiefling se dissolveu na sombra projetada pelas raízes, como se fosse um truque de palco. Uma Caveira virou a cabeça, rastreando calor… tarde demais.

O ladino surgiu por trás, a lâmina fina jáa atravessou.
Um ataque furtivo no ponto exato — bem na fissura entre as gemas dos olhos.
A caveira deu um estalo horrível, como metal se rasgando, e começou a cair desorientada, chamas explodindo em direções erradas.

Ludus apareceu do lado dele — pirueta, salto, um giro de acrobata — e meteu o pé no crânio debilitado num chute seguido de uma zombaria:

“Calma caveirinha, não vá perder a cabeça…”

O chute empurrou o crânio direto para Impetor.

O bárbaro sorriu com dentes prateados.
A clava desceu.
Virou pó.

Sobaram dois.

Asher correu para a frente.
Ele não parecia humano.
Não totalmente.
A Licantropia aflorava na postura, nos olhos dourados, nos músculos alongando-se. Ele puxou a espada — a lâmina refletiu as chamas verdes — e fez sua prece curtíssima:

“Pelos que restaram.”

A aura dele explodiu num clarão branco-azulado.

Uma caveira disparou duas rajada ardentes, a primeira contra Mor’Rein — que desviou com num giro milagrosamente elegante. A outra tentou alvejar Dahaka.

Asher entrou no meio. Ele saltou e — num golpe descendente — rachou uma das Caveiras-Flamejantes ao meio. A energia divina entrou pelas runas e fez o crânio explodir como uma granada arcana. Fragmentos incandescentes ricochetearam no teto vivo.

Restava uma.

Ela começou a recuar pelo corredor, olhos brilhando freneticamente, buscando espaço para lançar uma poderosa Bola de Fogo, quase que de forma instintiva — o feitiço maior delas.

Mor’Rein percebeu primeiro.
O rosto dele caiu.
“Ela vai explodir o túnel!”

A caveira abriu a boca.
A runa dentro da garganta começou a girar.

Impetor não pensou — só avançou.
Dahaka o acompanhou pelas sombras.
Ludus deu uma cambalhota torta para trás.
Asher berrou: “AGACHEM!”

Mor’Rein ergueu as duas mãos, canalizando algo que nunca era bonito de ver.

A Caveira lançou a Fireball.

Mor’Rein… dobrou o espaço.

Um círculo de distorção negro se abriu no ar, emitindo um grunhido cósmico, e engoliu a bola de fogo inteira — que reapareceu atrás da caveira, explodindo como um sol verde. A onda de choque arremessou o próprio guardião para frente, chamuscando-o inteiro.

Ele cambaleou em direção ao grupo, desorientado.

E caiu direto na mão de Impetor.

O bárbaro pegou o crânio pelo topo.
Os dedos prateados cravaram.
Ele olhou para Asher.

Asher assentiu.
Uma só palavra:
“Lança.”

Impetor lançou o crânio flamejante para Asher que com um golpe liso e cirúrgico partiu o crânio em duas partes simétricas. Chamas verdes escaparam como vapor de metal aquecido… e se apagaram.

Silêncio.

As raízes tremeram como se estivessem aliviadas.

Mor’Rein respirou fundo.
Dahaka guardou a lâmina.
Ludus limpou a poeira da roupa.
Asher fechou a mão na espada e olhou adiante.

O corredor vivo continuava descendo.

Sem descanso.
Sem pausa.

E, depois de Goldenfields, nenhum deles hesitava mais.

Eles seguiram.
Mais unidos do que nunca.


EPISÓDIO 23 - A SOMBRA DE SI.
Data:  22 de Nightal, 1372 CV - 14:30
Local: A Masmorra de Raiz Torrente, Floresta Alta, Costa da Espada.

A descida pela Raiztorrente era abafada, silenciosa e viva. Asher caminhava em linha com os outros quando olhou para Dahaka, estreitando os olhos ao relembrar de algo. A pergunta veio sem cerimônia, dita baixo, mas firme o bastante para não passar batida: “Você cuidou da outra parte do plano?”

Dahaka apenas assentiu. Dois dedos levantados num gesto rápido, eficiente, como quem confirma um serviço sujo e bem feito. Quando seu gesto terminou, a memória pesou — e o mundo pareceu puxá-lo para trás. Algumas horas antes.

O cheiro de couro curtido e serragem tomou o ar quando Dahaka entrou na oficina Barthovi em Águas Profundas. O galpão era enorme, feito de madeira reforçada, e parecia pulsar com o ritmo dos martelos e serras o cercavam. Peles secavam presas no teto, mapas da Floresta Alta cobriam a parede e o lugar inteiro carregava a energia de quem trabalha nas bordas da honestidade, mas sem jamais cruzar a linha completamente.

Laelle Barthov.

Dahaka entrou ali guiado por alguém que não estava mais ao seu lado: um velho contato da época em que o tiefling vivia pelos becos do Porto de Arabel, um homem que lhe devia uma dívida antiga e que jurara que Laelle era a pessoa certa.

Laelle estava apoiado sobre uma mesa de marcenaria, conferindo mapas da Floresta Alta com uma lupa de bronze. Quando ouviu passos, ergueu o olhar. Era um anão careca, barba preta enfeitada por anéis dourados, que carregava um sorriso fácil de quem sabe conversar tanto com guardas quanto com contrabandistas, sem nunca ser oficialmente nenhum dos dois.

“Posso ajudar?” perguntou ele, medindo Dahaka de cima a baixo com um interesse genuíno e calculado.

Dahaka puxou o capuz para trás e respondeu na gíria dura das vielas de onde veio, aquela que soava meio cantada, meio ameaçadora: “Se não puder, vai poder. Teu nome veio de um amigo meu… pagamento atrasado. Disse que tu sabe andar pela Floresta Alta sem virar janta de urso.”

Laelle soltou uma risada breve. “Espero que esse teu amigo não tenha dito que eu faço caridade. Mas já que ele mandou alguém tem soturno como você, deve ser coisa séria.” Ele limpou as mãos num pano grosso. “E qual o seu nome viajante?”

“Dahaka.” Ele colocou no balcão uma sacola pesada, que fez a madeira gemer. “E preciso de três coisas: olhos em certo ponto floresta, aviso rápido caso gente grande se mexa… e um homem que saiba se esconder tão bem quanto andar.”

Laelle tocou a sacola com duas pontas de dedo, avaliando o peso pela vibração. Não abriu. Não precisava. “Os Mozorov?”, perguntou com naturalidade desconfortavelmente precisa.

“Como…?” Dahaka pareceu genuinamente surpreso. Ele jamais conseguira fazer alguém falar abertamente sobre aquela família criminosa — muito menos um desconhecido.

Laelle cruzou os braços e se encostou na mesa, como quem revela algo que vinha guardando. “Você não é o único com contatos, garoto. Ouvi falar de uns problemas envolvendo essa família… e de Harpistas fuçando pelas planícies de Goldenfields. Quando ouvi isso, imaginei que seria questão de tempo até alguém como você vir bater na minha porta.” Ele girou um anel da barba. “Volta e meia eu vejo os Mozorov pela minha floresta. Não me incomodam, eu não incomodo eles. E essa paz silenciosa já dura muitos anos.”

O anão inclinou o rosto, sério pela primeira vez. “Então eu espero que você tenha mais do que um saco de ouro pra me convencer a quebrar isso.”

“Não vai precisar ataca-los nem nada do dtipo. Só quero vigilia. Se eles se mexerem, quero saber antes da sombra deles esfriar o chão”, respondeu Dahaka.

O anão sorriu, mas não era um sorriso bobo. Era o sorriso de quem sabe que está entrando em uma teia e quer saber quantos fios existem. Ele girou um dos anéis da barba enquanto estudava o tiefling. “Vocês vão entrar naquela masmorra viva. A Raiztorrente.”

“Vamos”, disse Dahaka. Já entendendo que aquele Anão sabia mais coisas que aparentava.

“Querem sair vivos.”

“Querer nunca foi o problema.”

Laelle soltou um “hm” satisfeito, como se tudo se encaixasse. “Eu posso botar meus batedores na mata. Gente boa. Gente que não fala demais. Se alguém dos Mozorov pisar na folha errada, vocês vão saber. E um guia… também tenho. Um dos melhores.” Ele sacudiu a sacola. “Isto aqui diz que você não veio até mim brincando de aventura. Então a resposta é sim.”

Dahaka inclinou levemente a cabeça. Não era reverência — era reconhecimento. “Eu não volto onde não confio. Mas disseram que tu trabalha… do jeito certo.”

Laelle gargalhou alto, orgulhoso da reputação ambígua. “Dizeram bem. Agora sai daqui antes que eu decida cobrar mais. E boa sorte lá embaixo. Esses lugares vivos não gostam de deixar gente sair.”

Dahaka virou-se sem mais palavra alguma. O sorriso que escondeu com o capuz durou só o tempo de atravessar a porta — e desaparecer na neblina fria de Águas Profundas.

A Raiztorrente emergiu de volta ao redor deles — viva, pulsante, respirando de um jeito que nenhuma masmorra deveria respirar. Asher aguardava a resposta com um olhar que dizia mais do que a pergunta.

Dahaka ajeitou o punhal na cintura e falou com tranquilidade crua: “Ele vai estar aqui quando sairmos. Pode confiar. Eu paguei o suficiente pra ele entender que isso não era brincadeira.”

E de fato Laelle cumpriria sua promessa. No momento em que Dahaka e os outros desapareciam sob a terra, batedores do anão — homens e mulheres que fingiam ser apenas lenhadores e caçadores — já se espalhavam pela Floresta Alta. Espiões disfarçados, caminhando entre troncos ocos e fogueiras silenciosas, observavam de longe o cerco crescente dos Mozorov contra os Ases de Horusk. Cada um deles tinha instruções claras: corvos prontos, sinais combinados, pequenas piras montadas sob folhagens secas. Bastaria uma faísca para o aviso chegar aos Harpistas no distrito inteiro.

E mais adiante, onde a luz filtrada entre os galhos parecia sempre cinza, estava Laelle em pessoa. Quando dissera que tinha “um dos melhores guias”, não estava vendendo um título alheio — era ele próprio. Levou um tempo até encontrar o ponto exato onde a Raiztorrente se enterrava; a masmorra não tinha boca fixa, às vezes se movia como um nódulo subterrâneo tentando se esconder. Mas Laelle conhecia aquela floresta como quem conhece o próprio humor. Seguiu sinais sutis, pequenos afundamentos na terra, fungos enfileirados de forma antinatural, o cheiro de resina velha — e se colocou no lugar certo. Agora aguardava, camuflado entre mato alto e troncos retorcidos, alerta para qualquer mudança no vento que denunciasse perigo.

Lá dentro, Dahaka seguia na frente, atento ao menor detalhe. A Raiztorrente era uma criatura imóvel, mas viva — e onde havia vida, havia intenção. O ladino caminhava devagar, olhos percorrendo paredes e chão com o tipo de foco que só se aprende no limite entre a sobrevivência e o crime. Não havia armadilha que ele não reconhecesse: maçanetas tortas escondendo mecanismos, fios quase invisíveis estendidos entre raízes, pedras com textura diferente, depressões circulares que denunciavam placas de pressão.

Ele encontrou a primeira armadilha quando o grupo passou por um corredor onde o teto parecia mais baixo. Um fio fino, encaixado entre duas raízes, brilhava quase imperceptível sob a luz âmbar do ambiente. Dahaka levantou a mão e disse apenas “Pare”, apontando para o chão. No instante seguinte, cortou o fio com a ponta do punhal antes que Impetor esbarrasse nele, e o clique abafado de um mecanismo fracassado ecoou atrás da parede. Algo preso ali — talvez flechas, talvez ácido — nunca chegou a ser disparado.

A segunda foi um mosaico de pedras vivas, todas da mesma cor, exceto uma que parecia ligeiramente mais nova. “Não pisa aí”, murmurou Dahaka, e tocou a própria bota na pedra ao lado. A raiz sob o piso vibrou como um músculo irritado, mas não reagiu. Ele contornou a área, levantou uma lasca do azulejo suspeito e desativou o que quer que estivesse preso por baixo. Quando terminou, ergueu o olhar e encontrou Asher observando com uma aprovação silenciosa.

O grupo prosseguiu, cada passo firme, cada respiração contida, caminhando juntos como um único organismo — mais afiados, mais unidos, ainda marcados pela queda de Goldenfields, mas também moldados por ela.

A Raiztorrente parecia responder à presença deles. E o caminho à frente começava a mudar.

A passagem final da raiz se abriu para uma câmara vasta, tão larga que o olhar de Asher precisou de um insta nte para aceitar a escala. O teto parecia perder-se acima, engolido por sombras — até que os olhos se acostumaram e revelaram gigantescas estalactites longas, úmidas, pontiagudas como dentes suspensos. Cada uma brilhava com umidade própria, pingando em intervalos irregulares, como se marcassem um pulso lento da própria masmorra.

O chão era um mosaico de vinhas espessas e cipós torcidos, alguns imóveis, outros se movendo com uma preguiça quase respiratória. Entre as tramas verdes, quatro grandes poças de água quebravam o solo, cada uma mais escura e profunda do que parecia à primeira vista. A primeira estava logo à frente, larga e irregular, refletindo a luz das tochas em ondulações preguiçosas. Mais ao fundo, outras duas ocupavam os lados opostos da sala — uma à direita, outra à esquerda — formando gargantas líquidas que cortavam o caminho natural. E lá atrás, quase tocando a parede norte, a última poça brilhava sob a queda constante das goteiras vindas do teto, como se recebessem alimento direto das estalactites acima.

O som ali dentro era estranho. Ecoante, mas abafado. Como se as paredes fossem grossas demais, vivas demais, absorvendo parte do mundo.

Dahaka foi o primeiro a notar o objeto no centro da sala: uma jangada pequena, construída com galhos trançados, fibras naturais e tábuas cruas que pareciam arrancadas da própria árvore que formava aquela masmorra. Não havia pregos, nem cordas artificiais; tudo era tecido, enroscado, crescido junto. Fungos azulados subiam por suas laterais, emitindo um brilho mínimo e irregular, como brasas frias.

Asher inclinou a cabeça. Era óbvio que aquilo estava ali para ser usado — e igualmente óbvio que havia sido colocado por alguém que entendia o fluxo daquele lugar.

Mor’Rein ergueu o olhar e avistou, coladas às paredes laterais, três estruturas de madeira escura. Alavancas. Simples, mas robustas, cada uma quase consumida por uma camada de fungo pálido e nervuras vivas. Pareciam parte de um corpo. Como tendões expostos.

A primeira estava próxima à entrada, encostada à direita. A segunda, mais adentro, na parede oposta. A terceira, quase no extremo superior da câmara, acompanhando a última poça.

Ludus respirou fundo, sentindo o cheiro de musgo molhado, madeira apodrecida e alguma coisa mais antiga — algo que vinha debaixo da água, da terra, de um lugar que não deveria ser incomodado.

Impetor chutou uma raiz para testar o chão, e o impacto ecoou como se tivesse acertado um casco de criatura morta.

Dahaka apenas murmurou: “A sala quer que a gente entenda como ela pensa.”

A jangada esperava.
A água tremia.
E a Raiztorrente parecia observar.

Mor’Rein não perdeu tempo. Montou na vassoura com um movimento elegante, quase automático, e murmurou que verificaria as estalactites. A ascensão começou suave, mas em poucos segundos o Bruxo percebeu algo errado. O chão ficava distante… porém o teto não se aproximava. As estalactites pareciam fugir, recuando, subindo, esticando-se para longe dele como se o teto inteiro fosse um elástico infinito.

Ele subiu mais quinze, vinte metros. Nada. Só escuridão apertada, um vazio sem fadiga, e aquelas pontas úmidas pendendo sempre na mesma distância.

Mor’Rein sentiu um frio estranho na espinha e virou a vassoura imediatamente.

Quando ele desceu, Asher estreitou os olhos, desconfiado. Ludus percebeu que a imagem tinha sido bizarra. Impetor jurou que as estalactites tinham se afastado junto com Mor'Rein, como se estivessem presas a ele por fios invisíveis.

Mor’Rein pousou com cautela. Mesmo Dahaka parecia desconfortável; aquele lugar brincava com percepção, com espaço, com noções básicas da realidade.

A atenção do grupo se voltou então às poças. A água era tão escura que parecia tinta; nada refletia ali dentro, nenhum brilho revelava profundidade ou fundo. Impétor começou a tirar a armadura leve para entrar, mas Dahaka segurou seu braço antes que ele desse o primeiro passo. A voz dele saiu baixa, mas firme: “Pode ser ácido, veneno… ou coisa pior.”

Impetor bufou, mas não discutiu.

Mor’Rein respirou fundo "Talvez eu tenha uma solução." Ele enfiou o braço na bolsa, revirando bolsas e estojos até puxar o cajado Bullywug.

Ludus ergueu uma sobrancelha, rindo de leve. “Sabe… eu quase tinha esquecido que tu tinha isso.”

“Então agradeça a Calobri”, respondeu Mor’Rein. Ele encostou a base do cajado no emaranhado vivo de vinhas do chão, fechou os olhos e pronunciou a palavra de ativação: “Kooruru.”

O cajado começou a tremer.

As veias de madeira rangeram como se respirassem, a estrutura entortou, alargou-se, as fibras se distendendo até romperem e se reorganizarem. Em menos de três segundos o cajado inteiro estourou para fora como um broto gigante, inflando até assumir forma viva.

Onde antes havia um bastão torto e com cheiro de pântano, agora se contorcia um sapo de quase um metro e meio. Inchado, musculoso, coberto de mucosidade brilhante. Seus olhos enormes e amarelos abriram como lanternas esbugalhadas e a boca escancarou num berro grotesco, meio coaxo, meio trombeta, completamente deslocado do mundo natural.

O som ecoou pela sala, batendo nas paredes vivas como se estivesse convocando a própria Raiztorrente para rir da situação.

Mor’Rein apenas sorriu satisfeito, passando a mão pela cabeça viscosa da criatura. O sapo inclinou o rosto e soltou outro coaxo másculo, orgulhoso, como se tivesse sido chamado ao palco.

Dahaka coçou a sobrancelha, resignado. “Seja lá o que isso é… Como vai ajudar?”

A Raiztorrente pareceu respirar ao redor.
O sapo respingou.

Mor’Rein inclinou o cajado-sapo na direção da poça mais próxima e estalou a língua como quem dá um comando treinado. O coaxo que veio em resposta foi tão profundo que vibrou o chão. A criatura saltou, espalhando uma chuva de gosma ao mergulhar na água escura.

Por um instante, tudo pareceu silencioso.

Depois, formas começaram a se mover sob a superfície. Primeiro um contorno, depois uma sombra maior. O sapo afundava lento, as membranas tremendo na água viscosa. Então Dahaka estreitou os olhos. “Tem outra coisa lá.”

A silhueta emergiu do breu líquido como se estivesse deslizando por um sonho ruim. Um focinho comprido, estreito, cheio de dentes longos como espinhos. Escamas doentes, verde-amareladas, recobertas de placas de fungo que cresciam como pequenas flores parasitas. Olhos totalmente brancos, sem íris, sem alma — cegos, mas famintos.

Gavial morto-vivo.
Um gavial morto-vivo, movido por alguma simbiose fúngica.

Ele investiu contra o sapo.

O Bullywug reagiu antes do impacto. A criatura inflou o corpo inteiro numa respiração convulsa e disparou para cima como um projétil molhado, rompendo a superfície num salto desesperado. A água explodiu num jorro escuro bem atrás dele quando o focinho do crocodiliano tentou mordê-lo, errando por menos de um palmo.

O sapo caiu no chão ao lado do grupo, escorregando e tremendo, soltando coaxos ofegantes e histéricos. O gavial, por sua vez, ficou rondando a borda da poça, o focinho quebrado de fungos abrindo e fechando como um pulmão podre.

Ludus arregalou os olhos. “Bizarro..”

Impétor puxou a clava. “Eu entro lá e—”

“Não entra”, cortou Dahaka, antes mesmo que ele terminasse. Ele olhava para o gavial como quem calcula uma armadilha de serras escondidas no escuro. “Nem por cima, nem por baixo. Nos restam as alavancas.”

A Raiztorrente respondeu com um estalar distante, como se alguma parte viva da masmorra tivesse aprovado a conclusão.

O sapo coaxou, traumatizado.

E as alavancas aguardavam na penumbra.

Os olhos de Dahaka correram pelas estruturas de madeira viva. Três delas — crescidas das paredes como vértebras expostas — tinham formato de galhos secos. Fungos pálidos cobriam as curvas, e as nervuras internas pulsavam num ritmo lento, orgânico. Não eram mecanismos. Eram membros.

Impetor se aproximou da primeira, mas Dahaka levantou a mão, indicando para observar antes de mexer. Ele estudou a poça mais próxima com a atenção de um ladrão que lê um mapa invisível.

A superfície oscilou.

“Puxa isso só um pouco”, pediu ele, apontando com o queixo.

Impetor puxou.

A água naquela borda da sala respondeu imediatamente: o nível subiu. Em outra poça, mais distante, o nível desceu como se algo tivesse drenado o fundo.

“De novo”, pediu Dahaka. “Outra alavanca.”

Ludus moveu a segunda. A reação foi o oposto exato: a primeira poça desceu e a outra subiu.

Mor’Rein cruzou os braços. “Elas estão conectadas.”

“Como vasos sanguíneos compartilhando pressão”, disse Asher.

Dahaka absorveu cada detalhe. Ele circulou entre as bordas, observou o deslocamento milimétrico da água, comparou a rapidez das descidas, a lentidão das subidas, e finalmente tocou o chão ao lado da poça onde o predador espreitava.

“Tem coisa lá embaixo”, murmurou. “Um buraco. Uma passagem. Quando vocês baixaram o nível aqui, eu vi o contorno.”

Impetor aproximou o rosto da superfície escura. “E o que sugere? Mergulhar e lutar com isso aí?”

“Não. Isso seria burrice.” Dahaka ergueu um dedo. “Mas podemos secar.”

Eles tentaram — puxaram a mesma alavanca mais duas vezes. A água baixou… mas a outra poça começaram a inchar perigosamente. Cresciam, escorrendo quase até a borda.

“Se isto transbordar, vai encher a sala inteira”, disse Asher.

“E não sabemos se é essa água é confiável”, completou Mor’Rein.

"Bom... não temos muita escolha." Contastou Dahaka. "Pulamos rapido no fosso e entramos no buraco." 

A decisão veio rápida demais para parecer sensata: eles preferiam enfrentar o monstro sem água do que arriscar inundar a sala com algo desconhecido.

Puxaram o mecanismo novamente.

Mas aí aconteceu o impossível.

A poça não transbordou. A água simplesmente continuou subindo em coluna, como se segurada por paredes invisíveis. Rompendo tudo o que o mundo dizia que era peso, volume, física.

Era um cilindro líquido suspenso.

“Isso não é água comum”, disse Asher, sua voz um desagrado reverente.

A jangada, ao lado, foi a primeira coisa a chamar atenção. O fato de estar ali, agora, parecia muito menos aleatório.

“Talvez seja isso”, disse Mor’Rein. “Talvez a solução não esteja em descer.” Ele olhou para cima. As estalactites continuavam distantes, mas agora, vistas da jangada… a ideia parecia possível.

Eles resetaram tudo — Dahaka guiando os movimentos, ordenando que devolvessem cada nível ao que parecia ser o estado inicial. A água relaxou, baixou, respirou com o chão.

Empurraram a jangada para a segunda poça, onde o nível parecia mais estável.

“Precisamos subir isso aqui”, concluiu Mor’Rein.

Ele então virou-se para o sapo — aquela criatura grotesca, ainda tremendo depois de quase virar refeição — e estalou os dedos. O sapo ergueu o olhar brilhante, atento, esperando instrução.

“Puxe ali”, disse o bruxo, apontando para a alavanca mais distante.

O sapo esticou a língua. Primeiro toque. A água tremeu e subiu. Segundo toque. O nível reforçou. Terceiro toque — a língua chicoteou a madeira viva com força.

A poça onde eles estavam começou a subir lenta, mas firmemente. A jangada balançou.

E desta vez, ao contrário do que ocorreu com Mor’Rein minutos antes… as estalactites não recuaram. Elas vinham. Aproximavam-se. A realidade parecia se alinhar ao movimento.

A Raiztorrente respirava fundo.

E a ascensão começava.

A água seguia subindo, e, quando finalmente puxaram a última sequência de alavancas, um silêncio tenso caiu sobre a câmara — e então explodiu em gargalhadas, assovios e suspiros aliviados.

Eles comemoraram como quem derrota um inimigo invisível. “Finalmente”, murmurou Impetor, passando a mão na testa suada. “Se eu tivesse que puxar mais uma dessas coisas eu arrancava a parede junto.”

Dahaka, porém, apenas observava a superfície ainda ondulante. Ele inclinou a cabeça como quem escuta algo que mais ninguém escuta. A água continuava brotando, transbordando como se estivesse sendo gerada por uma fonte oculta. “Havia algo naquele buraco”, ele disse, sem tirar os olhos do fosso onde o gavial havia sumido. “Um túnel… talvez mais.” O olhar ficou distante, e ele suspirou. “Mas não da pra se atravessar todo o Labirinto.”

A jangada começou a ranger, e quando olharam perceberam o impossível acontecendo: o musgo e as raízes se desfaziam, dissolvendo-se na própria água, num processo químico bizarro que parecia multiplicar o volume do líquido. A jangada não estava boiando — estava derretendo, alimentando a enchente.

“Rápido!”, gritou Mor’Rein.

Subiram. Subiram mais. E mais. Muito além do nível esperado. Até que as formas acima deles ganharam contorno. O que antes pareciam estalactites revelaram-se enormes plataformas flutuantes, cujas bases estreitas enganavam o olhar. Vistas de baixo, eram pontas de rocha. Vistas de perto… eram terraços suspensos, como pedras arrancadas de um penhasco e mantidas no ar por pura teimosia da realidade.

A jangada agonizava sob seus pés, se desfazendo em fios. Num olhar sincronizado, os cinco se prepararam. “Agora!”, Asher gritou.

Saltaram ao mesmo tempo. Um único impulso. A jangada virou pó atrás deles.

As botas bateram na primeira plataforma com um baque seco. Ela os recebeu com estabilidade surpreendente. Dela partiam pequenas pedras suspensas em pleno ar, como degraus tortos, conectando a segunda e depois a terceira plataforma maior. Era um caminho improvisado pela própria caverna.

E a última — quase colada na parede rochosa — exibia um arco monumental de pedra escura fincada em seu centro. Era a única a carregar tal estrutura, como se guardasse a transição para outro espaço, outro fragmento do labirinto. Logo atrás do arco, esculpida na própria parede, havia uma passagem estreita que respirava escuridão.

“Aí está”, sussurrou Dahaka, os olhos apertados pela luz azulada que emanava da pedra. “A próxima porta.”

Os outros apenas assentiram, a respiração ainda acelerada pela subida impossível. A água borbulhava lá embaixo — mas ali em cima, suspensos sobre o vazio, os heróis enfim tinham um novo caminho.

Mor’Rein foi o primeiro a avançar. Levando o sapo agora retornando para sua forma de cajado. A vassoura deslizou no ar como um peixe atravessando um rio calmo; ele nem precisou olhar para os pés, apenas ajustou o ângulo de voo e passou pelas pedrinhas suspensas como quem atravessa um corredor iluminado. Nada o ameaçava ali — não no alto.

Ludus veio logo atrás, e parecia ter nascido para aquilo. Saltava de um degrau flutuante para o outro com leveza ridícula, totalmente desnecessária, dando piruetas, girando o corpo, aterrissando na ponta dos pés, braços abertos como se estivesse fazendo graça para um público invisível. Aquele sorriso — irritante para qualquer pessoa que precisasse de esforço de verdade — nunca saía do rosto.

Dahaka, em contraste, era pura lógica. Cada salto parecia calculado, medido pela exata distância, peso e ângulo. O ladino tocava cada pedra por menos de um segundo antes de impulsionar-se para a próxima, silencioso como sombra, eficiente como uma lâmina recém-afiada. Ele sequer respirava alto.

Asher foi quem teve que despender força real. O mapa suspenso exigia precisão, e ele era mais força bruta, não sutileza. Seus pés batiam com mais peso do que gostaria, o equilíbrio vacilava, mas ele compensava com determinação. “Vamos… vamos… isso”, murmurava para si mesmo, corrigindo cada escorregão com o corpo duro de treino e frustração. Tinha controle o bastante — mas não sobrava nada além disso.

E então vinha Impetor.

O meio-dragão tremia. Ele sabia que tremia. O ar rarefeito da altura parecia piorar seu fôlego, mas era só pânico. “Não olhe pra baixo”, repetia mentalmente, sentindo as garras se contraírem contra as bordas das pedras. “Não olhe pra baixo… não—”

Ele olhou.

A água girando no abismo lá embaixo parecia um olho gigantesco encarando-o. Seu estômago virou, o suor escorreu pela têmpora, e por um instante ele cambaleou. Ludus virou-se no meio de um salto e sussurrou, como se falasse com uma criança prestes a cair do palco: “Impetor, respira. E vem. Um passo por vez... Ou melhor, um salto por vez.”

O gladiador engoliu seco, ajustou o peso e forçou o corpo a seguir. E seguiu. Um degrau. Depois outro. Um terceiro. O mundo não caiu. Ele também não.

E então todos pisaram na segunda plataforma.

Foi ali que ouviram.

Um farfalhar primeiro. Leve. Quase como folhas roçando umas nas outras.

Depois um guincho. Agudo. Múltiplo. Multiplicando-se como eco dentro de eco.

E então — a escuridão se mexeu.

Não era sombra. Não era vento. Era um enxame emergindo da própria escuridão, uma massa pulsante de asas enormes, membranas rasgadas e corpos do tamanho de lobos. Morcegos descomunais, famintos, os olhos refletindo o brilho azul das pedras como centenas de pequenos faróis predatórios.

Eles vinham rápido.

Morcegos Gigantes.

“Asher arregalou os olhos. “Corram!”

O caminho para a terceira plataforma se estreitava diante deles — e agora, com o ar tremendo ao som de asas monstruosas, cada salto parecia um risco imediato de morte. A travessia que já era difícil tornara-se uma corrida desesperada sobre degraus suspensos no nada, com a noite viva rugindo atrás deles.

E o enxame chegava.

Impetor foi o primeiro a reagir quando o enxame despencou do teto como uma avalanche viva. O meio-dragão encarou as criaturas, puxou a clava com um sorriso que tentava parecer confiante… e quase conseguiu. Ele girou a arma no ar, preparando-se para esmagar o primeiro morcego gigante que chegasse perto.

Mas eles não paravam de vir.

Eram dezenas.

Depois centenas.

Uma nuvem viva, uma massa turva de asas e dentes.

O sorriso morreu.

“É… melhor em outra hora”, pensou ele, recuando dois passos, quase tropeçando na beirada da plataforma. Seu estômago embrulhou ao lembrar que havia apenas ar — e queda — entre ele e o fundo do abismo.

Lá na frente, Asher, Mor’Rein e Dahaka já estavam alcançando a terceira plataforma, gritando para que ele se apressasse. Impetor engoliu seco e começou a saltar, seu corpo pesado contrastando com a leveza desesperada dos movimentos.

Mas… e Ludus?

O bufão ainda estava ali, parado na segunda plataforma, completamente sozinho enquanto o enxame fechava o cerco. Em vez de correr, ele puxou o baralho que Irene lhe dera. O baralho reluziu com a familiar luz estranha quando ele embaralhou as cartas com os dedos ágeis de artista.

“Vamos lá… que venha algo bom…”

Ele puxou uma carta.

Ela escapou de sua mão, escorregou pelo ar e caiu lentamente no chão, virando-se com a face para cima.

A figura nela desenhada: um gigante de fogo, barba flamejante, segurando uma espada de duas mãos.

A imagem brilhou — e desapareceu da carta.

Só para surgir, imensa e em chamas ilusórias, bem ao lado de Ludus.

O bufão abriu um sorriso de orelha a orelha:

“UUUUH, BELEZA!”

“Mas que diabos?!” gritou Asher, do outro lado.

“É minha carta na manga… literalmente!”
E Ludus se lançou pela primeira pedra flutuante, enquanto a ilusão se projetava uma sombra imensa e flamejante.

Dahaka, já na terceira plataforma, permitiu-se um sorriso fino.

“Uma ilusão…" ele pensou "Mas morcegos são guiados mais pelo som do que pela imagem.”

Ele juntou as mãos, e seus olhos rubros escureceram até virarem completos poços negros. O ar ao redor vibrou. A aura dele tremeu.

Taumaturgia.

Um trovão rasgado por demônios ecoou da garganta do tiefling — não na direção dos heróis, mas emanando do gigante flamejante. Como se aquele monstro ilusório estivesse convocando o Inferno em pessoa.

O som reverberou pela caverna como um rugido de tempestade.

Os morcegos recuaram no ar, apavorados, mas também hipnotizados. Rodopiavam ao redor do gigante flamejante, procurando um flanco, sem coragem de atacá-lo. A ilusão movia-se com Ludus como um fantoche em sincronia perfeita: onde ele saltava, ela dava uma passada colossal; onde ele jogava o corpo para o lado, ela brandia a espada incandescente.

O enxame inteiro oscilava, indeciso entre fugir ou atacar.

“Temos pouco tempo”, afirmou Asher, tenso, já estendendo a mão para puxar qualquer um que chegasse perto da última borda.

Os heróis se aproximam do arco quando uma luz azulada começa a vibrar no ar, suave e translúcida, como se o próprio ar tivesse se tornando líquido. Mor’Rein observa o brilho se contorcendo e diz: “É um portal.”
Asher estreita os olhos, ainda tentando entender a profundidade daquela luz. “Mais para onde?”
“Qualquer lugar é melhor que aqui”, responde Ludus, apontando para o enxame de morcegos que já se espalha pelo teto como uma nuvem viva.

Ao lado das estalactites, eles percebem outro caminho: um buraco irregular na parede, um vão que revela uma escadaria imensa mergulhando num poço de escuridão absoluta. O salto até lá é fácil, quase natural, como os degraus suspensos que acabaram de atravessar. Impetor, ainda inquieto, acende uma tocha e joga-a escadaria abaixo. A chama cai por longos segundos, diminuindo até virar um ponto quase invisível, revelando o tamanho vasto daquele despenhadeiro.

"Outro lugar desconhecido." Contasta Mor'Rein.

O barulho das asas atrás deles cresce, um tapete vivo de chiados e ecos. A indecisão dura apenas um instante. Eles trocam um olhar rápido, uma compreensão silenciosa.
E então todos escolhem a única saída que não envolve serem devorados no escuro.

Entram no portal.

Os heróis se levantam lentamente, ainda sentindo o impacto do salto através do portal. O ar ao redor está silencioso demais, pesado demais, como se a própria sala estivesse prendendo a respiração. Atrás deles, o arco de pedra que servira de passagem perde o último resquício de brilho azulado. As vinhas que cobrem a parede começam a se mover, rastejando como serpentes sonolentas. Elas sobem pelo arco, apertam, envolvem, estrangulam. Em poucos segundos, o portal desaparece sob uma manta verde que o puxa para o chão de pedra, como se engolisse o próprio conceito de saída.

O grupo observa a sala no qual caiu: uma antessala ampla, úmida, com paredes de pedra cobertas por musgo grosso. O chão é frio, irregular, e pequenas gotas de água escorrem pelas fendas, criando filetes que desaparecem em rachaduras escuras. O silêncio amplifica tudo: a respiração de Impetor, a capa de Mor’Rein arrastando leve na pedra, o som que o palpite de coração de Ludus faria se pudesse ser ouvido.

Diante deles, na parede oposta, uma única porta. E não uma porta comum. Um grande vitral ocupa quase toda a estrutura: a imagem de um urso colossal, em pé, encarando-os com os olhos carregados de fúria. Seu corpo está coberto por feridas, como se tivesse saído de uma batalha da qual nenhum outro teria sobrevivido. Ao redor da porta, quatro maçanetas — uma em cada extremidade — cada uma feita de uma gema diferente: rubi, citrino, esmeralda e safira.

No centro do vitral, abaixo do urso, palavras gravadas em anão. Mor’Rein se aproxima, passa a mão pelos símbolos com cuidado, como quem reencontra uma memória distante. “Alimente meu urso, ele está roxo de fome.”
Ele respira fundo. “Isso é um provérbio anão. Uma coisa que dizem quando querem fazer as pazes. Uma forma… antiga de reconciliação.”

“É um enigma”, diz Asher, aproximando-se da porta. “Mas não há maçaneta roxa…”

Ludus dá um passo à frente com a postura de alguém que esperou por esse momento a vida inteira. Ele limpa a garganta de maneira exagerada. “Cof, cof. Claro que há. É só questão de perspectiva. Não espero que vocês entendam de moda e cores, claro…”

Dahaka vira o rosto devagar na direção dele, olhos apertados. “Como assim?”

“Com todo respeito, mas vocês são o desfile mais monocromático que Faerûn já viu.” Ludus abre os braços, enumerando com o dedo enquanto aponta para cada um. “Um gladiador prateado… um ladino e um bruxo vestidos de sombra… e um paladino que é literalmente cinza em tema, humor e alma. Vocês não têm uma única cor vibrante nessas vidas miseráveis aí.”

Ele então toca as duas maçanetas superiores, rubi e safira, com teatralidade. “Pode não haver roxo… mas se juntarmos o vermelho do rubi com o azul da safira… tcharam!”

Ludus gira ambas ao mesmo tempo.

Um clique ecoa pela sala, seguido de um ronco profundo, como se algo muito antigo tivesse despertado após séculos. O vitral do urso se abre lentamente, revelando o interior de uma câmara escondida.

Ao entrar, os heróis sentem o ar mudar completamente. A sala é um oásis secreto no coração da masmorra: água potável brota de uma pequena fonte na parede, escoando em um lago raso e cristalino; há bancos de pedra suavizados pelo tempo; tochas mágicas brilham com uma luz quente e estável. No centro, uma escada em espiral desce num poço que parece infinito, mergulhando para um subterrâneo ainda mais profundo.

Um lugar de descanso — e ao mesmo tempo, uma promessa de que o que vem depois será ainda mais desafiador.

Os heróis, exaustos, permitiram-se finalmente um momento de silêncio. O ar ali era mais fresco, carregado de umidade, e o chão de pedra coberto por musgo oferecia um conforto inesperado. Impetor se largou primeiro, respirando fundo. Dahaka se encostou a uma raiz grossa que serpenteava pela parede. Mor’Rein sentou-se com o cuidado de quem ainda sente o eco da magia pulsando nos dedos. Ludus simplesmente desabou, braços abertos, como se aquela fosse a cama mais luxuosa de toda Faêrun. Asher permaneceu um tempo de pé antes de se permitir aliviar o peso da armadura e relaxar os ombros.

Eles beberam. Comeram. O cansaço que antes parecia elétrico agora os envolvia como um cobertor pesado. E, por alguns instantes, ficaram ali apenas… ponderando. A descida em espiral à frente parecia prometer tanto quanto ameaçava. Nenhum deles ousava ainda quebrar o silêncio para decidir o próximo passo.

Foi então que a masmorra falou.

Não com palavras — mas com sinais. O chão vibrou. As raízes se contraíram como músculos. A fogueira recém-acesa estalou… e explodiu em chamas azuis, erguendo-se como um pilar espectral. O ar se torceu na luz, e, à frente deles, a figura tomou forma: um rosto de ancião, barba longa, pele azulada, cercado de vinhas vivas que se moviam como serpentes lentas.

“ Nada temam, heróis…” disse a aparição, como se cada palavra fosse um suspiro carregado de eras.

Asher levantou-se imediatamente, espada já em punho, interpondo-se entre o grupo e o espírito. “Quem é você?”

Mayrk Phalmer.
“O que fui importa menos do que o que restou de mim. Mas em vida…” A figura inclinou a cabeça, estudando cada um deles com olhos que brilhavam como glacial antigo. “Em vida, me chamavam de Mayrk Phalmer. Jardineiro-Chefe de Raiztorrente. Arquiteto desta morada. Sinto sua presença desde o momento em que cruzaram o limiar… e sinto que honraram este lugar, que passaram pelas provas sem profanar qualquer criatura que aqui vive.”

Ludus se inclinou para Impetor, sussurrando: “Tá feliz agora de não ter batido no gavial da poça?”

Impetor estreitou os olhos, sem responder — mas claramente anotando mentalmente o “eu te disse”.

“Bebam. Alimentem-se,” continuou o arquidruida, sua voz ecoando como vento através de folhas antigas. “Pois a jornada para sair é tão árdua quanto a que vos trouxe até aqui. Mas permitam-me perguntar… o que vos traz à minha antiga morada?”

O silêncio pairou por um momento. Asher respirou fundo e avançou meio passo. “Estamos atrás de alguém. Um ser que pode ajudar o nosso mundo, livrar Faêrun de um mal que corrói a terra e se espalha como praga. Um elfo… um elfo capaz de se transformar num dragão.”

Os olhos espectrais brilharam mais intensamente. “Tuk’Teril.”

Os heróis trocaram olhares imediatos. Era a primeira vez que ouviam esse nome — até Mor’Rein, que raramente se surpreendia, estreitou os olhos como quem tenta vasculhar memórias antigas.

“Talvez,” disse Asher. “Não sabemos seu nome verdadeiro. Só conhecemos a lenda. Dizem que ele era irmão do lich Szass Tam.”

“Essa é uma forma de ver a história…” murmurou Mayrk Phalmer, com uma entonação carregada de múltiplas verdades. “Mas não a única.”

Os heróis se aproximaram, atentos, o descanso momentâneo esquecido — porque algo no tom daquele espírito prometia que a verdade por trás dessa busca era muito maior do que qualquer lenda contada em tavernas.

O espectro respirou — ou pareceu respirar — como se tragasse eras antes de falar. As chamas azuis da fogueira se contorceram, assumindo formas vagas de figuras antigas, de campos etéreos, de batalhas que nenhum mortal vivo jamais testemunhou. A sala de descanso desapareceu à volta deles. Só restava o brilho azul, o eco distante… e a voz.

“Escutai-me, filhos do Agora… pois toco memórias tão velhas que se desfazem quando pronunciadas. E, ainda assim… precisam ser ditas.”

As vinhas sobre seu peito se moveram como serpentes despertas.
A luz azul se condensou na forma de um campo infinito.

“Nos dias primevos — quando o sangue de Corellon Larethian ainda corria como rios luminosos pelas planícies etéreas após seu duelo contra Gruumsh — nasceu a primeira estirpe dos Tel-quessir. Não elfos comuns, não… mas seres esculpidos diretamente do poder divino.”

O fogo tomou a forma de silhuetas élficas, translúcidas, flutuando como constelações vivas.

“Entre esses primeiros, alguns carregavam a centelha mutável do próprio Corellon… herdeiros de sua graça cambiante, de seu corpo feito magia. E foi dessa linhagem sagrada que nasceu… um semi-deus. Um filho de um dos primeiros filhos.”

A chama formou um jovem élfico, radiante, tocado pela luz.

“E dele, por sua vez, veio um rei. O rei. Belo. Orgulhoso. Tão poderoso que até as cortes de Arvandor murmuravam seu nome.”

A imagem do rei se ergueu altiva, em pose arrogante.

“E este rei… caiu aos encantos de uma Rainha cuja beleza é sinônimo de calamidade: Tiamat, Senhora dos Dragões Cromáticos.”

Atrás do rei, cinco sombras de cabeças dracônicas surgiram, rosnando.

Impetor recua por instinto. Automaticamente levando a mão até a clave negra.

“Da união proibida… nasceu ele.”

A luz azul explodiu em vermelho e safira ao mesmo tempo — e de dentro desse turbilhão, a figura de um jovem elfo de pele escura, olhos bondosos e uma ecamas dracônicas translúcidas emergiu.

Tuk'Teril.
Um híbrido sem igual.
O único herdeiro vivo da graça de Corellon… e do fogo de Tiamat.”

Asher prendeu a respiração. Mor’Rein se inclinou instintivamente, absorvendo cada sílaba.

“Seu pai o deixou para ser criado pelos Ilythiiri, os ancestrais do povo que vocês conhecem como drow, Tuk’Teril era diferente. Onde havia crueldade, ele tentava ter piedade. Onde havia ódio, ele buscava por amor. Uma bondade que custou para aprender.”

A imagem mostrou pequenos drow o empurrando, zombando, enquanto Tuk’Teril controlava sua raiva.

“Mas seu dom maior era também sua maldição. Tuk’Teril foi o primeiro descendente de Corellon capaz de tomar a forma de um dragão vermelho…”

A chama assumiu a forma de um colossal dragão rubro.

“…e junto da transformação… vinham os vícios dracônicos.
A ganância.
O orgulho.
A fome.
O poder.”

O dragão virou-se lentamente, como se encarasse os heróis, e rugiu — mas o rugido vinha de dentro da cabeça de cada um deles.

“Temendo perder-se, Tuk’Teril fugiu dos Ilythiiri. Subiu para a superfície. E, como um eremita, passou eras buscando arrancar a escuridão de dentro de si.”

As ilusões mostraram-no estudando, meditando, quebrando artefatos, vendo o tempo mudar, civilizações surgirem e ruírem.

“Mas a corrupção era intrínseca. Ele carregava o sangue de uma deusa-dragoa. Não havia poção, magia ou oração que queimasse tal veneno.”

As chamas vacilaram. O espectro respirou fundo.

“Então… numa noite em que o próprio véu dos planos parecia fino como vidro, Tuk’Teril foi visitado em sonho por um ser preso entre mundos.”

A imagem se retorceu, distorcida. Um vulto colossal, esquelético, com olhos ardendo como fótons mortos, apareceu.

“Ele se apresentou com muitos nomes:
O Mestre Arqui-Lich.
O Senhor da Mão e do Olho.
O Deus Acorrentado.
Vecna.

Até Asher se encolheu um pouco.

“Vecna ofereceu a Tuk’Teril um ritual proibido. Separar a alma.
Arrancar dele tudo o que era trevas, tudo o que era avidez, tudo o que era dracônico e destrutivo…”

A imagem mostrou Tuk’Teril ajoelhado, resignado. Depois… seu reflexo se desprendendo dele, como uma sombra viva.

“E Tuk’Teril, cansado, desesperado… aceitou.”

As chamas azuis se tornaram negras por um instante.

“A Sombra de Tuk’Teril nasceu naquele dia.
A primeira forma verdadeira de maldade pura entre os Tel-quessir.”

Vecna ergueu-a como quem observa uma criança recém-nascida.

“Vecna a aprisionou em um receptáculo etéreo. E por milênios… essa entidade — esse eco perverso — vagueou entre planos, sussurrando segredos para quem ousasse escutá-la.”

As vinhas da sala estremeceram.

“E então… no século XII após a fundação de Thay… Vecna encontrou o ventre perfeito para plantar sua obra.”

O fogo azul mostrou uma jovem humana grávida. Depois, um necromante de olhar ambicioso, organizando pilhas de cadáveres de trabalhadores.

“Shevas Tam… fundador da Longa Portagem. Patriarca da Casa Tam.”

A chama azul tomou forma de um bebê envolto em sombra.

“E no instante em que o herdeiro nasceu…
Vecna infundiu a Sombra de Tuk’Teril dentro do útero da mãe.
O bebê não chorou.
O bebê… observou.”

A temperatura da sala caiu.

“Szass Tam não aprendeu a ser cruel.
Ele sempre foi.
Porque aquilo que os homens chamam de Szass Tam…
é a Sombra arrancada de Tuk’Teril.”

A chama azul moldou os dois — o elfo dracônico e o mago lich — como reflexos invertidos um do outro.

“Um é a luz fraturada.
O outro, o fragmento arrancado.
E o mundo… o mundo tremerá se eles se tornarem inteiros novamente.”

O fogo apagou.

A escuridão caiu.

E a voz final veio como um vento antigo que sussurra nas raízes:

“Agora entendeis, heróis… porque vosso caminho trouxe-vos até aqui.”

O silêncio que seguiu a revelação parecia pesar sobre os heróis como poeira antiga. Asher piscou algumas vezes, tentando absorver tudo. Impetor apenas coçava a barba, desconfiado. Mor’Rein recuou meio passo, assombrado. Ludus… Ludus ergueu o dedo.

“Deixa eu ver se entendi…” Ele inspirou fundo, teatral. “Estamos lidando com algo que vem literalmente da junção cabulosa de Tiamat com um Rei Elfo, resultando em uma força maligna criada por um deus extra-planar e enclausurada no corpo de um Arqui-Lich que por acaso também é Zulkir da necromancia de Thay?”

Phalmer inclinou a cabeça, tranquilo. “Exato.”

Ludus estreitou os olhos. “Não quer colocar um Demônio Aberrante de duas cabeças no meio dessa história aí também não?”

O espectro não pareceu se ofender; árvores antigas não se incomodam com o farfalhar de esquilos.

Asher deu um passo à frente. “Eu… preciso entender. Foi você quem aprisionou Tuk’Teril? Você estava envolvido com os drow que o capturaram eras atrás? E… como fazemos para acordá-lo?”

A figura azulada curvou o tronco levemente, como se o próprio gesto fosse difícil para algo tão antigo.

“Não, jovem filho da Lua. Raiztorrente já foi usada por muitas mentes. Muitas delas… malévolas. Mas não sou eu quem mantém Tuk’Teril aqui.”
O espectro ergueu um braço feito de luz e vinhas.
“Ele permanece porque escolhe permanecer. Tuk’Teril sempre foi… um pacifista. Um ser que prefere dormir a ferir.”

Mor’Rein engoliu seco. “Mas ele está… vivo?”

“De certa forma.” A luz oscilou. “E, como toda raiz profunda, ele acorda quando decide acordar.”

Asher insistiu: “Mas por que continuar aqui?”

“Porque o mundo lá fora ficou complicado demais. E porque Raiztorrente… muda aqueles que a habitam.” O olhar azul percorreu cada um deles. “Poucos toleram viver em um lugar que respira, cresce, se contorce. A mente mortal não é feita para paredes vivas.”

Impetor olhou ao redor, incomodado. “É… eu reparei.”

“Muitos partem.” a voz prosseguiu. “Muitos enlouquecem. E muitos deixam para trás aquilo que trouxeram. Artefatos, tesouros, armas. Fragmentos de eras esquecidas.”
Phalmer ergueu a mão.

As vinhas na parede mais próxima estremeceram.
Um som úmido, como madeira viva se abrindo.
As pedras vibraram, rearranjando-se como músculos.
E a própria masmorra recuou, criando um vão onde antes havia apenas muralha sólida.

A escuridão do interior cintilou.

Uma sala inteira se revelou, iluminada pela mesma chama azul fantasmagórica:
Baus transbordando ouro e joias.
Livros empilhados, amarrados, selados.
Espadas e cajados encravados em suportes orgânicos feitos de raízes endurecidas.
Armaduras que pareciam respirar.

O tesouro de incontáveis eras… a herança dos que sucumbiram à Raiztorrente.

“Estas coisas não servem a mim.” disse Phalmer. “Mas servirão a vocês.”

Dahka já estava dando dois passos para dentro quando Asher segurou a gola do seu manto.
“Calma!”, sibilou ele.

O espectro recuou para o centro da sala, quase dissolvendo-se na luz azul.

“Boa sorte, meus nobres.” Sua voz se tornou leve como vento entre galhos. “Que nunca temam a morte… mas sempre aproveitem a vida.”

E a chama azul se apagou.
Só restava o silêncio.
E o tesouro.
E o caminho adiante.

O ar cheirava a resina antiga e poeira de relíquias. Quando o arco final se formou, a sala além dele revelou um brilho dourado e pálido, como sol filtrado por água verde.

Os heróis entraram em silêncio.

Montes de ouro, pilhas de livros, cofres estourados, estátuas rachadas. Era uma coleção de eras inteiras deixadas para trás por aventureiros que não conseguiram — ou não quiseram — permanecer dentro do organismo que era Raiztorrente.

Phalmer apenas murmurou:
"Tesouros não são objetos. São memórias abandonadas."

Asher foi o primeiro a sentir o chamado.

A couraça dourada estava sobre um pedestal de madeira fossilizada, como se sempre tivesse sido dele. A fênix gravada parecia tremer ao toque da luz azulada que pingava do teto vivo. Quando Asher estendeu a mão, a armadura ficou mais quente, pulsando como coração prestes a renascer.

"Fênix, renascer das cinzas…" ele sussurrou.

Phalmer inclinou o corpo.
"Pertenceu a uma paladina auriliana que tentou extinguir o frio com o próprio sacrifício. Quando morreu, renasceu em chamas — mas não como guerreira, e sim como espírito. Raiztorrente absorveu seus últimos resquícios quando seu corpo foi trazido para cá por mãos desconhecidas."

Asher engoliu seco.
Ele sentiu o peso simbólico.

A couraça brilhou. Aceitou-o.

Mor’Rein caminhou devagar. Seus dedos longos percorriam estantes orgânicas onde livros respiravam e frascos murmuravam. Mas as luvas… as luvas o encontraram antes que ele as encontrasse.

Elas estavam presas numa formação de mica viva, como se tentáculos de pedra as segurassem.

As pontas flexíveis estremeceram quando ele se aproximou.

"Luvas da Mente Brumosa", murmurou Phalmer atrás dele. "Forjadas de um devorador de mentes morto por seus próprios irmãos. Um deles usou essa masmorra como covil durante uns anos, tentando um ritual para convocar algo antigo papra cá, ele trouxe as luvas consigo…"

Mor’Rein tocou a superfície fria e úmida.

Phalmer continuou:
"…mas Raiztorrente o consumiu antes que pudesse completar um ritual. As luvas ficaram. Elas… preservam. Manipulam. Revelam ou apagam o que se deseja esquecer."

O bruxo respirou fundo.
"Eu nem se quer me lembro de algo para esquecer ." Pensou Mor'Rein

As luvas pulsaram uma última vez e se ajustaram a ele como se sempre tivessem sido suas.

Impetor avançou com a determinação tranquila de quem já carregou correntes e glórias. Os olhos prateados pararam diante de um pequeno brilho azul, quase tímido, escondido sob moedas, como se não quisesse incomodar.

Era um anel simples, mas frio como um inverno que lembrava seu sangue dracônico.

Quando Impetor pegou o objeto, a pedra gélida liberou uma nota cristalina no ar. Ele ergueu a mão, impressionado com a sensação.

Phalmer sorriu:
"Esse anel Pertenceu a um explorador do extremo norte, um gigante meio cego que acreditava que o frio podia falar. Ele desapareceu nos labirintos externos de Raiztorrente procurando uma saída. A Masmorra ficou com o anel."

Impetor franziu a testa.
"O gigante não tinha uma arma, um machado talvez?"

"Não sou eu quem escolhe oque a Masmorra quer."

O meio-dragão encarou o anel com frustração e o colocou no dedo.

Dahaka não procurou. Ele caçou.

Passou entre baús, sombras, correntes e espelhos, já enchendo o bolso com o tessouro que podia. Até que algo chamou — uma pulsação contida, um brilho prateado murcho, como predador segurando a respiração.

A espada estava encostada numa coluna viva, como se aguardasse exatamente aquele instante para acordar.

A lâmina de mitral parecia absorver a luz, não refletir.

Dahaka aproximou a mão… e as runas piscaram.

"Ela se chama: A Fúria do Assassino", disse Phalmer, com voz quase reverente. "Foi empunhada por Nall’veris, o Olho Azul — o maior assassino élfo lunar de sua época. Ele entrou em Raiztorrente para matar uma entidade na sala mais profunda. Ninguém sabe se conseguiu. Só a espada voltou. Em estado dormente."

Dahaka segurou a empunhadura.

"Ela parece me conhecer?", murmurou.

"Ela conhece o que você pode se tornar", respondeu Phalmer.

A safira estrelada brilhou. Azul-índigo.
A lâmina despertou.
E por um segundo, Dahaka pareceu desaparecer dentro dela.

Ludus já estava tocando coisas demais, comentando demais, fazendo piadas demais. Até que algo piscou como um arco-íris preso em vidro.

"Oooh. Brilhinhos."

Ele ergueu uma rapieira tão bela que parecia obra de um joalheiro bêbado apaixonado pelo sol.

A lâmina mudava de cor conforme ele respirava.

"Uma Rapieira Arco-Íris", comentou Phalmer. "Pertenceu a uma artista chamada Siríntia das Sete Cores. Ela acreditava que a cor era a verdadeira magia. Pintou metade de Raiztorrente antes de enlouquecer."

Ludus sorriu como quem encontra uma alma gêmea.
"Finalmente, uma arma com personalidade." Diz segurando a Adaga de ritual na outra mão.

"Essa arma tem a capacidade de mudar as coras", disse Phalmer.
"Que maravilha... Como se não fosse colorido o suficiente.", murmurou Mor’Rein.

"Respeita meu arco-íris, Mor'Rein", respondeu Ludus. apontando a rapieira para o Elfo.

A lâmina cintilou em resposta, como se aprovasse .

Phalmer ergueu ambas as mãos, e a sala inteira pareceu suspirar — como se Raiztorrente tivesse gostado da escolha que os itens fizeram.

As vinhas fecharam a parede atrás deles.

E cada um dos cinco sentiu, por um instante, que havia recebido algo mais que um artefato.

Receberam histórias.

Responsabilidades.

Heranças que agora corriam com seus próprios destinos.

O silêncio da sala do tesouro durou exatamente três segundos.

Porque Ludus não consegue respeitar nem o luto de aventureiros antigos.

Ele girou a rapieira nos dedos como quem testa um brinquedo novo e soltou uma risadinha nasal.

"Olha… eu achei que Raiztorrente ia nos dar tétano, maldição ou trauma geracional… mas ganhar presente? Mimo? Brinde? Isso aqui tá parecendo aniversário de criança."

Ele apontou primeiro para Dahaka.
"Você ganhou um facão? Irado!"

Depois virou para Mor’Rein.
"E você… luvas de cérebro. E eu achando que você não poderia ficar mais bizarro."

Mor’Rein nem se mexeu. Só respondeu:
"Obrigado."

Ludus desviou o olhar para Impetor, que examinava o próprio anel como se ele fosse uma cicatriz antiga tentando se explicar.

"E você…" Ele franziu o cenho. "É... Pera… um anel?"

Impetor ergueu os olhos devagar.
"Não achei nenhuma arma de macho. Só esse trequinho."

Houve um segundo de silêncio pesado.

Mor’Rein virou levemente o olhar.
"E por que pegou, então?"

Impetor deu de ombros, quase imperceptível.
"Combina com meus olhos."

Foi tão seco, tão contido, que Ludus engasgou de rir.

Ele então virou para Asher.

O paladino estava com os braços cruzados, olhando a própria couraça dourada como quem encara um problema pessoal.

Ludus o mediu de cima a baixo.

"Tá… isso aqui eu não posso deixar passar."
Ele começou a andar em círculos ao redor dele.
"Todo esse brilho. Esse glamour solar. Essa coisa…não tá batendo com sua aura de lobão solitário não, meu querido."

Asher arqueou um canto da boca.
"Acho que estétitca não é uma prioridade agora."

Ludus ignorou. Ele apenas levantou a rapieira e rodopiou ela no ar duas vezes.

O arco-íris pulsou.

A lâmina tocou levemente a armadura.

E o dourado começou a se dissolver em tons de cinza profundo e prata fosca, como metal lunar, sem perder o brilho, só trocando o caráter.

Ludus abriu um sorriso de orelha a orelha.
"Uiiii… agora sim! Combina mais com Asher Greymane: elegante, perigoso e levemente decadente."

Ele matou o beijo na lâmina.
"E eu AMEI essa minha nova rapieira."

A lâmina tremeluziu, satisfeita.

E naquele sorriso, naquela inclinação de cabeça, dava pra ver.

Mais uma ideia horrível, brilhante e catastrófica começando a nascer.

"Tive uma ideia."

Antes que alguém pudesse impedir, o bufão disparou saltitando em direção à porta vitral, aquela do enigma do urso roxo de fome e das quatro maçanetas coloridas.

Ele sacou a rapieira como quem vai violar uma lei natural.

A mão na primeira.

O rubi virou laranja.
O citrino virou branco.
A safira virou roxo.
E a esmeralda virou… rosa.

Ele deu dois passos pra trás, admirando o caos cromático.

"Agora sim."
"Quero ver alguém nos seguir."

Asher riu baixo, de braços cruzados.

"Você é idiota… mas é um idiota útil."

Ludus fez uma reverência exagerada.

Dahaka, porém, já tinha perdido o interesse nos objetos.

Seus olhos estavam fixos no fosso da sala de descanso.

A escadaria em espiral descia, engolida pela escuridão viva de Raiztorrente. Cada degrau era como uma língua petrificada levando a algum lugar que ninguém deveria conhecer.

Ele levantou uma sobrancelha.

"Prontos?"

Um a um, os heróis assentiram.

E então começaram a descer.

O ouro ficou para trás.

As relíquias ficaram em silêncio.

E a masmorra…
pareceu sorrir.

A escadaria os engole devagar.

Não é pedra comum. Cada degrau parece brotar das paredes, como dentes antigos de uma criatura adormecida. As laterais são costelas fossilizadas de raiz, nervuras grossas, retorcidas, cobertas por uma película úmida que pulsa bem de leve, como se o lugar ainda respirasse.

O ar muda conforme eles descem.

O cheiro não é de caverna.
É de mata fechada depois da chuva.

Terra viva.
Seiva amarga.
Musgo esmagado sob o pé.

Pequenos fungos bioluminescentes se espalham pelas paredes, em colônias irregulares, como constelações verdes e azuladas crescendo na carne do mundo. Cada passo que dão faz as cores reagirem, pulsando mais forte, como se reconhecessem a presença deles.

Mor’Rein passa a mão pela superfície de uma raiz.

Ela está morna.

Muito levemente… morna.

E então, depois do último degrau, o mundo se abre.

Uma câmara imensa.
Imensa de verdade.

Metros e metros de espaço onde o teto se perde na penumbra, sustentado por colunas naturais de pedra, raízes fossilizadas e estalactites cobertas de musgo. O chão é um tapete irregular de rocha, musgo espesso e pequenas poças de água cristalina que refletem a luz azul dos fungos.

Parece um jardim.

Mas não é vivo.

É algo entre o que sobreviveu e o que foi desistindo.

No centro, duas árvores.
Altas.
Solitárias.
De tronco branco.

Não é madeira comum. É osso vegetal. Liso, claro, quase perolado. As raízes delas se espalham como dedos sobre a rocha, abraçando o chão, e o musgo ao redor parece crescer em reverência.

Três cavernas se abrem nas laterais da câmara.

Três bocas negras.
Três caminhos.
Três promessas de coisa nenhuma.

O grupo para.

O silêncio pesa.

Só o som distante da água pingando.
E um eco profundo que ninguém tem certeza se é natural… ou respiração.

Impetor quebra o clima.

"Nos dividimos."

Ele observa os túneis como quem avalia trilhas na selva.

Mor’Rein vira lentamente o rosto.
Os olhos dele refletem a luz azul dos fungos.

"Dividir em uma masmorra que se molda sozinha… Não é uma boa ideia."

As palavras não são altas.
Mas carregam peso antigo.

Dentro da cabeça de Impetor, a ideia de se separar rasga como metal contra pedra. Parte dele quer avançar, impor ordem ali. Outra lembra das paredes respirando lá em cima.

Ludus, por outro lado, encara as três entradas com um sorriso contido.

Na cabeça dele todas parecem igualmente erradas.
E igualmente interessantes.

Dahaka já está agachado, tocando o chão ao redor das cavernas. Ele observa marcas. Relevos. Fraturas nas raízes. Padrões quase invisíveis no crescimento do musgo.

Mas há algo estranho.

As três entradas…
são iguais.

Mesma largura.
Mesma altura.
Mesmo cheiro saindo delas.
Mesmo padrão de fungos brilhando nos limites das rochas.

Nenhuma armadilha evidente.
Nenhuma runa.
Nenhuma inscrição.
Nenhum sopro diferente de ar.

Ludus franze a testa.

"Eu já to começaando a entender que essa masmorra gosta de pregar peças tanto quanto eu."

Dahaka passa a mão pela parede de uma das cavernas.

A textura é a mesma nas outras duas.

Nem mais quente.
Nem mais fria.
Nem mais úmida.
Nem mais seca.

Como se fossem espelhos cegos do mesmo caminho.

Mor’Rein observa tudo em silêncio. Não os túneis em si… mas o espaço entre eles. As árvores. O musgo. A forma como a luz se concentra em certos pontos do teto.

A decisão não vem de repente.

Ela vem como uma coisa que já estava lá, plantada em silêncio dentro de Asher desde antes do encontro com Mayrk Phalmer.

Ele permaneceu imóvel por tempo demais, olhando não para as cavernas, mas para o vazio entre elas. Desde a conversa com o Arqui-Druida, algo incomodava sua alma. Como uma farpa invisível atrás do pensamento.

Tuk’Teril…

Não apenas um elfo.
Não apenas um dragão.
Algo entre deus e ferida.

E então Asher entende.

Se ele é um semi-deus dracônico… A centelha divina não desapareceu.
Ela pode estar dormente.
Pode estar exausta.
Mas ainda é divina.

E ele sente que aquele… era o momento de testar.

Asher fecha os olhos.

A mão solta a empunhadura da espada.
O ar ao redor parece ficar mais denso.

Ele inspira fundo.

E então… ativa seu Sentido Divino.

O mundo muda.

Não visualmente…
Mas em significado.

O ar ganha peso.
Como se uma pressão invisível abaixasse o teto do mundo um pouco mais.

Então a sensação vem.

Um solavanco espiritual.

Não é suave.
É como ser atingido por uma onda que vem debaixo d’água.

Divino…
Mas exausto.
Antigo…
Mas vivo.

O gosto que invade sua boca é estranho.
Picante. Metálico. Quase como ferrugem misturada com incenso queimado.

Seus músculos se tensionam.
Seus cabelos se arrepiam.

Não de frio.

De proximidade.

Ele abre os olhos.

E aponta.

"É por ali."

O dedo firme indica a terceira caverna.

"Tem algo… celestial. Antigo. Mas cansado. Dormente. Está nos chamando… e não é agora."

Dahaka observa mais do que ouve.

Vê os leves arrepios subindo pelos braços de Asher.
Vê o modo como sua respiração mudou.
Vê o peso nos ombros dele.

"Captou algo." diz ele, mais constatando do que perguntando.

Asher apenas assente.

Todos voltam seus olhares para a terceira passagem.

Todos…

Exceto Ludus.

O palhaço não está olhando para onde os outros estão olhando.

Ele franze a testa.

Há um som.

Muito leve.
Muito sutil.

Como madeira rangendo.
Ou melhor…

Como algo tentando lembrar como se mexe.

Ele percorre a sala com os olhos.

Nada parece diferente.

Nada parece perigoso.

Exceto…

Ele para.

“Ora… Não tinham duas árvores ali?”

O pensamento mal se forma quando…

Algo se move.

E não é um movimento lento.

O tronco se dobra com violência.

As raízes se erguem rompendo o musgo.

E um braço colossal de madeira branca, lisa como osso polido, se forma do corpo dela — e vem direto na direção de Ludus.

Não há som.

Nenhum rugido.
Nenhum estalo alto.

Só o deslocamento brutal do ar.

No último segundo, Ludus reage.

Ele dá uma cambalhota para trás, quase teatral, mas movido pelo puro instinto. O punho passa onde sua cabeça estava um instante atrás e se enterra no chão, abrindo uma cratera de pedra, raiz e musgo.

"Merda!" grita ele, rolando de volta pros pés.

O grupo saca armas imediatamente.

Asher gira a espada.
Impetor já ruge.
Dahaka assume postura de combate.
Mor’Rein recua dois passos, analisando em silêncio.

E então…

A segunda árvore se move. Lentamente desta vez, muito mais vertical e muito mais ritualística.

Seu tronco se abre em linhas orgânicas,como placas ósseas deslizando. Raízes se soltam do chão…E começam a se erguer como pernas.

Dois colossos de madeira alva… Sem olhos.Sem bocas. Mas perfeitamente conscientes. E a Raiz-Torrente. Não parece mais observar. Parece ter escolhido um lado.

Treeant.

O avanço das Árvores da Raiztorrente não era apressado, mas também não havia hesitação. Elas se moviam como a própria masmorra se movia, incorporadas à pulsação do lugar — lentas, pesadas, irrefreáveis. A cada passo, o chão estremecia sob seus corpos de madeira branca, abrindo fendas nas rochas úmidas, rasgando musgos antigos e expondo raízes que pareciam arrancar não só a terra, mas fragmentos da história daquele lugar esquecido.

Elas cercaram os Heróis sem um único som. Nenhum ranger. Nenhum estalo. Apenas a proximidade aumentando. Como duas paredes que se fecham, comprimindo o mundo.

O primeiro ataque veio com a força de um veredito antigo. Um dos Treants ergueu o braço e o trouxe para baixo em um golpe vertical, pesado, devastador. A rocha se partiu sob o impacto, estilhaçando-se em uma explosão de pedra e poeira. Asher reagiu por instinto, puxando Dahaka de lado por um fio de segundo antes que fossem esmagados. A onda de choque se espalhou pela caverna, lançando Ludus para trás e espalhando o grupo, enquanto a poeira subia e a masmorra parecia começar a engolir a pouca luz que restava.

Foi então que a percepção gelou todos. Aquilo não era um combate contra duas criaturas imóveis em um campo aberto. Era como estar entre duas portas colossais se fechando.

Mor’Rein reagiu primeiro.
Sem qualquer grito.
Sem hesitação.

Seu corpo magro se firmou, as mãos se elevando enquanto faixas de energia verde-voltáicas rasgavam o ar e explodiam contra o tronco da árvore mais próxima. As rajadas deixavam marcas negras na madeira alva, cicatrizes fumegantes, mas a criatura sequer recuava. Apenas girava levemente o corpo, observando-o, como algo que aprende enquanto é atacado.

Asher sentiu o ar mudar. A presença que ele captara antes, vinda da terceira passagem, agora pulsava mais viva, mais próxima, mais pesada — como um coração adormecido batendo atrás da pedra. Mas não havia tempo para isso. Agora era o momento.

Ele cerrou os punhos, e a transformação veio como uma ruptura. A fé não explodiu, ela se partiu de dentro para fora. Os ossos se reorganizaram com estalos surdos, a carne cedeu, a estrutura do corpo se refazendo sob a vontade. Não era uma fúria cega, era um chamado antigo atendido. O Lobismem emergiu como um guardião rasgando a própria pele para se revelar.

Ele avançou.

Saltou contra o colosso.

Suas garras afundaram na casca pálida do Treant, arrancando lascas espessas de madeira, fibras grossas e nervuras resinosas. A seiva escorria, leitosa e densa, exalando um cheiro forte de resina misturada com decomposição antiga, como um bosque morto e ainda em pé.

Dahaka já não estava mais no chão. A nova espada em suas mãos parecia responder diferente ali naquele ambiente, mais pesada, mais exigente. Ele investiu. O primeiro golpe cortou raízes grossas como braços humanos. O segundo rasgou o tronco, abrindo uma fenda viva. Mas a árvore girou o corpo, e o mundo girou com ela. Uma raiz serpentou em velocidade antinatural, enroscando-se em sua perna e puxando-o com violência contra o solo. Dahaka caiu de joelhos, o ar sendo expulso de seus pulmões, os músculos contraídos enquanto a pressão o prendia.

Impetor entrou em seguida como um desastre inevitável. Não havia elegância, não havia técnica refinada — apenas brutalidade concentrada. Cada balanço de sua clava fazia o ar vibrar antes mesmo do impacto. Ele golpeou a árvore, rachando sua estrutura, mas então as raízes dela se ergueram como membros vivos, envolvendo seus braços, seu torso, se fechando com força crescente. A pressão se tornou absurda. O corpo dele foi erguido do chão, suas costas curvando sob a compressão. Os ossos resistiram… até que um estalo seco atravessou a caverna, não de madeira, mas dele. Seu corpo arqueou sob a força, como se estivesse sendo dobrado contra si mesmo.

"LARGA ELE, SUA CERCA MALDITA!" Ludus gritou, avançando.

Sua rapieira riscou o ar, espalhando um brilho multicolorido, um arco-íris deslocado dentro daquela caverna escura e mofada. Ele deslizava entre galhos e raízes por centímetros, desviando do impossível, até encontrar a abertura — a mesma rachadura criada pelos ataques de Mor’Rein. A lâmina penetrou ali com precisão absoluta. Um golpe cirúrgico.

A luz explodiu.

Por um instante, o corpo de Ludus desapareceu sob o próprio brilho do impacto, restando apenas o rastro colorido da lâmina cortando o ar. Quando a luz diminuiu, ele ainda estava ali — quase invisível, como se o golpe tivesse deixado parte dele fora do mundo por um segundo.

"…Isso é novo." murmurou, ofegante.

Mor’Rein não cessava. Ele se movia ao redor do campo como um predador sereno, seu manto agitado pelos deslocamentos de ar dos golpes que falhavam por centímetros de alcançá-lo. As rajadas continuavam, sempre nas mesmas fissuras, aprofundando fraquezas, cavando uma derrota lenta na estrutura viva da criatura.

A primeira árvore cambaleou. Mas não caiu.

Ela se contorceu.

E então o horror.

Aquela que Impetor havia ferido — que parecia já condenada — começou a se reerguer. Suas raízes se contraíram, sua casca estalou, a madeira se retorceu em ângulos impossíveis enquanto ela voltava à posição, mais deformada, mais grotesca, mais furiosa do que antes.

Asher sentiu a resposta divina atravessá-lo.
Não como conforto.
Como um incêndio.

Seu corpo vibrou inteiro, as veias queimando como trilhas de ouro sob a pele. Ele cravou as garras na terra, sentiu a resistência do mundo, e rugiu — não de ódio, mas de afirmação. Sacou sua espada e partiu para cima da criatura.

Sua Destruição Divina rompeu o espaço.

Uma onda de luz pura explodiu contra as duas criaturas. Não era fogo, não era raio. Era julgamento condensado em impacto. A madeira se rasgou, fibras voaram, as estruturas internas se romperam. Até a própria Raiztorrente pareceu estremecer em algum lugar além das paredes.

Impetor caiu, o corpo tremendo, o peito gravemente comprimido, o sangue escapando por sua boca. Mas ele respirava. Sempre respirava. Cuspiu vermelho na pedra, agarrou a clava com o que restava de força e se levantou novamente.

"Eu ainda… não… terminei."

E avançou de novo, como um animal ferido que se recusa a cair.

A última árvore deu um único passo para trás. Apenas um.

Mas foi o suficiente.

O chão ao seu redor se rompeu, pedaços de pedra se soltando e começando a flutuar, girando ao redor dela como pequenos satélites carregados de ódio. E então ela disparou. Um após o outro. Rochas rasgando o ar em velocidades brutais. Dahaka foi atingido no ombro, jogado de lado. Asher rolou por muito pouco. Ludus reapareceu sobre uma raiz, fincando sua rapieira onde o tronco ainda pulsava, mas a criatura continuava. Não cedia. Não quebrava. Não parava.

Então Mor’Rein cessou.

O campo pareceu suspenso por um segundo.

Ele fechou os olhos. Inspirou. O cheiro de seiva, de podridão, de floresta morrendo.

E ergueu a mão.

Sua voz saiu baixa, antiga, como algo que não deveria mais existir naquele mundo. Não era grito, era comando.

Uma Inundação de Energia Negativa expandiu-se.

O ar ficou pesado. As cores desbotaram, como se o mundo estivesse perdendo a vontade de ser visto. Faixas negras rasgaram o espaço e atingiram o tronco do Treant. Não queimaram. Apodreceram. A madeira clareou… depois escureceu. Rachaduras negras se espalharam como veias necrosadas. A seiva engrossou, virou lodo. Um cheiro de floresta morta preencheu tudo.

E então ela explodiu.

Não em fogo.
Mas em morte.

Fragmentos apodrecidos se lançaram pelo ar. Esporos negros se espalharam. O odor de um bosque inteiro morrendo em um único segundo esmagou a caverna.

A masmorra gemeu, um som baixo, longo, profundo, como se Raiztorrente tivesse perdido algo.

Ou alguém.

A poeira caiu devagar.

Os esporos se assentaram.

O chão, enfim, respirou.

Só se ouvia a respiração deles. Pesada, falha, rasgando o silêncio.

Cansados.
Feridos.
Ainda vivos.

E na escuridão da terceira passagem… Algo respirou cansado também.


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